Auditoria na Carris mostra resultados positivos e contesta discurso privatista de prefeito de Porto Alegre

César Griguque, diretor financeiro da Carris (Foto: Henrique Ferreira Bregão/CMPA)

Atual diretora-presidente mostrou que até 2020 companhia terá zerado o rombo financeiro. Em novembro de 2017 Nelson Marchezan chegou a decretar o fim da da mais antiga empresa de transporte coletivo do país em atividade

ALEXANDRE PELEGI

Os resultados de uma auditoria externa nas contas da Carris, tradicional e longeva empresa estatal de transporte público de Porto Alegre, apontam prejuízo entre 2015 e 2016 de R$ 74,7 milhões.

Os dados contestam valores apresentados pela administração anterior, que indicavam déficit torno de R$ 50 milhões, quase R$ 25 milhões a menos.

O relatório foi apresentado pela atual diretora-presidente da Carris, Helen Machado, nesta terça-feira, dia 26 de junho de 2016, em reunião da Comissão de Economia Finanças Orçamento e Mercosul (Cefor), da Câmara Municipal de Porto Alegre.

Se os números em 2016 eram gigantescos, a boa notícia é que eles foram reduzidos em 2017 em cerca de R$ 30 milhões, deixando o rombo financeiro da secular companhia de transporte público gaúcha em torno de R$ 44 milhões.

Helen Machado divulgou ainda que a previsão da atual gestão é reduzir o déficit em mais R$ 21 milhões em 2018, zerando o prejuízo ao final de 2019. Pela progressão das contas, em 2020 a Carris estaria com o caixa não mais no vermelho, mas com reais chances de alcançar resultados positivos.

Os dados contestam o que o prefeito de Porto Alegre vem repetindo desde o início de sua gestão, em janeiro de 2017. Nelso Narchezan repetiu inúmeras vezes que a companhia municipal seria inviável sob a gestão pública, chegando ao ponto de anunciar que a melhor saída seria a privatização.

César Griguque, diretor-financeiro da Carris, atribuiu os bons números a diversos fatores, como o fim da gratuidade da segunda passagem, a implantação de um programa de gestão da qualidade para os 1,8 mil funcionários ativos e a qualificação e desenvolvimento de lideranças.

O programa de melhoria da gestão da Carris alcançou, na primeira etapa, 5 mil horas de treinamento. Neste ano serão 17 mil horas, número que dobrará até o fim de 2018, início de 2019.

Outro aspecto positivo apontado foi a melhora na comunicação com os públicos internos e externos, além da modernização dos equipamentos, a instalação de GPS nos ônibus e o sistema de reconhecimento facial.

Quanto à frota, César Griguque citou que no início da gestão havia apenas 100 carros na oficina, para uma frota de 340. Ele garantiu que em breve todos os ônibus estarão circulando, além de adiantar que está sendo elaborada uma licitação para compra de novos veículos.

PREFEITURA ANUNCIOU CONTRATAÇÃO DE CONSULTORIA PARA BUSCAR SAÍDAS PARA A CARRIS

A prefeitura de Porto Alegre anunciou no dia 7 de junho o lançamento de edital para contratação de empresa especializada para produzir um diagnóstico e buscar soluções para a situação financeira da Carris.

A empresa pública, fundada em 1872, é responsável hoje por 23% do transporte público coletivo da capital gaúcha. O edital tem custo aproximado de R$ 2,3 milhões.

Relembre: https://diariodotransporte.com.br/2018/06/07/prefeitura-de-porto-alegre-anuncia-contratacao-de-consultoria-para-buscar-saidas-para-a-carris/

PREFEITO VÊ PRIVATIZAÇÃO COMO MELHOR SAÍDA

O prefeito Nelson Marchezan já se manifestou várias vezes sobre a privatização da Carris. Em novembro do ano passado ele afirmou que a prefeitura trabalhava com três alternativas para a crise financeira da empresa: a privatização; a extinção pura e simples da companhia, seguida da licitação das linhas e a venda do patrimônio da estatal; e a licitação das linhas em conjunto com os veículos.

Na época, ele chegou a afirmar que iria contratar duas empresas de consultoria para indicar as melhores soluções. (Relembre: Prefeitura de Porto Alegre decide contratar duas empresas de consultoria para avaliar Carris)

Hoje, durante o anúncio, Marchezan voltou a afirmar que não acredita na continuidade da Carris sob a tutela da gestão pública, mas não descartou de todo essa opção.

Em 2017 a prefeitura precisou repassar R$ 48,7 milhões à Carris e, em 2016, R$ 55 milhões, dinheiro necessário para fechar as contas da empresa, uma situação insuportável financeiramente, segundo o prefeito Marchezan.

Para a presidente da Carris, Helen Machado, o grande desafio da Carris é o prejuízo.

Leia matérias recentes publicadas pelo Diário do Transporte sobre a crise da Carris:

10/dezembro/2014: Em crise, Carris está com 18% da frota sem prestar serviços em Porto Alegre

13/abril/2017: Carris de Porto Alegre pode ser privatizada em 2018

20/junho/2017: Carris deve fechar o ano com prejuízos de R$ 20 milhões e está mais perto da privatização

10/julho/2017: Porto Alegre pode perder linhas de ônibus por causa de impasse entre empresas particulares e Carris

23/setembro/2017: Prefeito de Porto Alegre avalia saídas para a Carris: “privatização, venda ou fechamento”

2/outubro/2017: Funcionários da Carris reagem a declarações de prefeito de Porto Alegre

8/outubro/2017: Funcionários públicos da Carris decretam estado de greve

8/novembro/2017: Prefeito de Porto Alegre volta a decretar fim da Carris

13/novembro/2017: Prefeitura de Porto Alegre decide contratar duas empresas de consultoria para avaliar Carris

9/maio/2018: Segundo Ministério Público, dinheiro desviado da Companhia Carris Porto-Alegrense abasteceu campanhas do PMDB

7/Junho/2018: Prefeitura de Porto Alegre anuncia contratação de consultoria para buscar saídas para a Carris


CARRIS – QUASE 150 ANOS DE VIDA

Criada por um decreto assinado por Dom Pedro II em 19 de junho de 1872 (Decreto nº 4.985), a companhia Carris de Ferro Porto-Alegrense tem hoje quase 150 anos de vida.

19/06/1872 – Fundação da Cia. Carris de Ferro Porto-Alegrense.

05/01/1873 – Primeira viagem de um bonde da Carris em Porto Alegre, na linha Menino Deus.

1874 – Fim da Revolta dos Muckers – Carris doa 100 mulas para exército.

15/01/1893 – Fundação da Carris Urbanus (linhas Moinhos, Floresta e Partenon).

24/03/1906 – Da fusão da Cia. Carris de Ferro Porto-Alegrense e da Carris Urbanus nasce a Companhia Força e Luz Porto-Alegrense.

10/03/1908 – Primeiro bonde elétrico entra em circulação.

1914 – Circula o último bonde puxado a mula.

1926
 – Primeiro ônibus circula em Porto Alegre, de propriedade de Amador dos Santos Fernandes e Manoel Ramirez. A Cia Força e Luz Porto-Alegrense vende suas usinas para a CEERG, criada em 1923, de propriedade do grupo Electric Bond & Share e passa a se chamar Cia Carris Porto-Alegrense.

13/09/1928 – A Carris passa a ser administrada pela empresa norte-americana Electric Bond & Share, integrante do grupo liderado pela General Electric.

1929 – Primeiro Auto-ônibus da Carris entra em circulação, modelo Yellow Coach.

1939-1944 – Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil passou por vários períodos de racionamento de combustível. Os veículos que necessitavam de óleo e gasolina são obrigados a reduzir suas atividades. O transporte de bondes fica sobrecarregado e a Carris coloca 16 carros reserva em funcionamento, aumentando a frota de 85 para 101 veículos. É também durante o período da Segunda Guerra que grande parte das tripulações da companhia é requisitada pelo Exército. A Carris tenta então contratar mulheres para o serviço de condutor (cobrança de passagem) mas a medida é vetada pelo Ministério do Trabalho do governo Getúlio Vargas.

1952 – Sucessivas greves e o evidente desinteresse dos norte-americanos da Bond & Share em manter o transporte por bondes levam a Prefeitura a intervir na companhia. Assume como interventor José Antonio Aranha, irmão do ministro Oswaldo Aranha.

1953 – Durante uma greve no serviços de bondes da Carris, o músico Lupicínio Rodrigues – que havia trabalhado em 1930 na companhia como aprendiz de mecânico – inspira-se para compor o Hino do Grêmio, cujos versos iniciais se referem à falta do transporte para levar os torcedores até o estádio: “Até a pé nos iremos; para o que der e vier; Mas o certo é que nós estaremos; Com o Grêmio onde o Grêmio estiver”.

29/11/1953
 – Após o período de intervenção, a Prefeitura, na gestão de Ildo Meneghetti,  encampa a Carris, assumindo o controle acionário. Lei 1069, que determina a encampação, é aprovada por 17 votos a dois na Câmara de Vereadores.

1956 – Carris encerra o serviço de transporte por ônibus, transferindo seus veículos para o Departamento Autônomo de Transportes Coletivos (DATC).

1964 – Carris começa a operar sistema de troleibus (ônibus elétricos), inicialmente com cinco veículos e depois com mais quatro. No entanto, problemas de adaptação da voltagem na rede impedem o bom funcionamento do serviço

29/09/1966 –Companhia retoma o transporte por ônibus. Três bondes da Linha Duque são substituídos por ônibus a diesel, iniciando o processo que culminaria com o fim dos bondes elétricos.

19/05/1969 – Circula o último troleibus.

05/06/1969 – Bondes da Avenida Assis Brasil são substituídos por ônibus

26/10/1969 – Linhas Petrópolis e Gasômetro-Escola também trocam os bondes por ônibus

08/03/1970 – Circulam os últimos bondes elétricos nas linhas Partenon, Glória e Teresópolis. Houve solenidade de despedida, à qual compareceram o Prefeito e autoridades. Toda a população pôde viajar gratuitamente. Às 20h30, o último elétrico foi recolhido ao depósito de bondes.

1973 – Em fevereiro, a Carris transfere sua sede para a Rua Albion, na Zona Leste de Porto Alegre.

1974 – Empresa cria a Escola de Motoristas.

1976 – Início da operação das linhas transversais: T1, T2, T3 e T4.

1976-1979 – Implantação dos corredores de ônibus de Porto Alegre.

1977 – Implantação da linha Campus-Ipiranga, ligando o recém-inaugurado Campus do Vale da Ufrgs, com o Centro da cidade, passando também em frente da PUC.

13/10/1980 – Instituída a tarifa única em Porto Alegre. Linhas de ônibus são redistribuídas entre as operadoras do sistema.

1982 – Inicia o tráfego de duas linhas circulares no Centro.

1989 – Criada a linha T5 e  a sala da Memória Carris, na sede da Companhia.

1990 – Em operação a linha T6.

1995 – Implantada a  linha T1 Direta.

1997 – Começa a circular a linha T2A.

1998 – Inicia tráfego da T7.

1999 – Criada a linha T8.

2000 – Inauguradas as linhas T9, T9 IPA e T10.

2003 – Criação da Linha Turismo, com o roteiro Centro Histórico.

14/11/2006 – Carris começa a operar a linha T11 3ª Perimetral, que cruza toda a extensão da mais importante obra viária de Porto Alegre, do Aeroporto Salgado Filho, na Zona Norte, até o Bairro Teresópolis, na Zona Sul da cidade.

2007 – A frota da Carris passa a operar com o sistema de Bilhetagem Eletrônica.

09/08/2007 – Os ônibus da Carris começaram a circular abastecidos por Biodiesel, um combustível menos poluente.

21/06/2008 – Entrega oficial da sede de funcionários da Carris.

19/04/2009 – Instalação das primeiras televisões nos ônibus da Carris.

2010 – Criação de duas linhas sociais para atender grupos escolares e entidades sociais, adesivados com a linha do tempo da Carris.

2010 – Inauguração da linha social Territórios Negros. A linha realiza roteiro histórico sobre pontos da cidade representativos da cultura afro-brasileira.

2011 – Entrega do primeiro ônibus para a linha social Bicho Amigo. Através de parceria com a Secretaria Especial dos Direitos dos Animais. O veículo funciona como clínica itinerante para esterilizações.

2011 – Entrega de mais um veículo para a linha Bicho Amigo. O ônibus transporta animais de famílias em vulnerabilidade social.

11/04/2011 – Institucionalização da Unidade de Documentação e Memória da Carris (UDM).

16/12/2011 – Início da operação da Linha C4 balada segura.

03/09/2012 – Início da operação da Linha T11A.

11/01/2013 – A Carris entrega 13 novos ônibus articulados à comunidade.

26/09/2013 – Carris investe na qualidade de trabalho de seus funcionários e inaugura o terminal T3 e T4 Sul.

22/08/2014 – Carris reforça segurança nos ônibus com a instalação de 1.484 câmeras.

26/11/2014 – A Companhia Carris Porto-alegrense recebe a certificação de Empresa Cidadã, do Conselho Regional de Contabilidade do Estado do Rio de Janeiro.

09/03/2015 – Carris entrega 50 novos ônibus (35 convencionais e 15 articulados) à população de Porto Alegre.

22/02/2016 – Carris inicia operação das linhas transversais T12, T12.1, T12A e T13.

Fonte: prefeitura de Porto Alegre

Alexandre Pelegi, jornalistas especializado em transportes

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