Prefeito de Porto Alegre avalia saídas para a Carris: “privatização, venda ou fechamento”

Ônibus da Carris, década de 1970. Fonte: prefeitura de Porto Alegre

Para Nelson Marchezan é inviável manter empresa de ônibus municipal nos moldes atuais

ALEXANDRE PELEGI

A mais antiga empresa de transporte coletivo do país em atividade, a longeva Carris, pode estar com seus dias contados.

O prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan, em entrevista a uma emissora de rádio de seu estado nesta quinta-feira (21 de setembro), afirmou alto e bom: a Carris é inviável.  Diante da crise financeira em que está mergulhada a tradicional empresa de ônibus da capital gaúcha a solução, segundo disse Marchezan, poderá ser a privatização ou o fechamento.

Criada por um decreto assinado por Dom Pedro II em 19 de junho de 1872 (Decreto nº 4.985), a companhia Carris de Ferro Porto-Alegrense tem hoje quase 150 anos de vida.

Mas o prefeito está mais preocupado com o futuro imediato do que com a história, e na entrevista ao programa de rádio usou como argumento em seu favor uma análise financeira feita pela prefeitura. Segundo Marchezan a análise demonstra que a empresa de tornou inviável; para funcionar a Carris custa hoje entre R$ 50 e R$ 60 milhões por ano aos cofres do município.

Apesar de citar um leque de possibilidades que passam pela venda pura e simples, a concessão ao capital privado e até mesmo o fechamento, o prefeito de Porto Alegre reconheceu na entrevista à emissora de rádio que ainda não buscou as melhores alternativas, por se tratar de um processo com muitas opções, “cada uma delas com muitos reflexos”.

Para mostrar o peso financeiro da empresa de ônibus no orçamento do município, Marchezan afirmou que o volume colocado em segurança pública é dezenas de vezes menor do que o que é repassado para a Carris.

Na entrevista ele apontou alguma das razões para o que definiu como o “início do processo de quebra definitiva da Carris”. Uma delas teria sido, a partir de 2011, a publicação e vigência do decreto da gratuidade na segunda passagem. Marchezan reconhece que a Carris tem uma série de problemas de gestão, “mas a segunda passagem foi determinante para a falência absoluta”.

Em agosto deste ano bem que a prefeitura de Porto Alegre tentou acabar com o benefício, mas perdeu na sequência para uma decisão liminar da Justiça, que manteve a isenção.  Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2017/09/01/justica-de-porto-alegre-suspende-decreto-que-extinguiu-a-segunda-passagem-gratuita/

https://diariodotransporte.com.br/2017/09/06/prefeitura-de-porto-alegre-vai-a-justica-para-fazer-valer-cobranca-da-segunda-passagem/

Outra razão para a quebra da Carris, citada por Marchezan, está na gestão da empresa pública, obriga por lei a fazer licitações para todas as compras, exigência que dificulta a gestão dos custos, com reflexos até na composição da frota de ônibus, composta hoje por diversos modelos. “Não conseguimos padronizar a frota”, afirmou Marchezan.

Por fim, outra razão citada pelo prefeito é a manutenção dos ônibus, provocada pela falta de peças. “O índice de roubo de peças na Carris é muito grande. Temos muitos ônibus parados na garagem porque faltam peças para realizar os consertos”.

LINHA DO TEMPO

19/06/1872 – Fundação da Cia. Carris de Ferro Porto-Alegrense.

05/01/1873 – Primeira viagem de um bonde da Carris em Porto Alegre, na linha Menino Deus.

1874 – Fim da Revolta dos Muckers – Carris doa 100 mulas para exército.

15/01/1893 – Fundação da Carris Urbanus (linhas Moinhos, Floresta e Partenon).

24/03/1906 – Da fusão da Cia. Carris de Ferro Porto-Alegrense e da Carris Urbanus nasce a Companhia Força e Luz Porto-Alegrense.

10/03/1908 – Primeiro bonde elétrico entra em circulação.

1914 – Circula o último bonde puxado a mula.

1926
 – Primeiro ônibus circula em Porto Alegre, de propriedade de Amador dos Santos Fernandes e Manoel Ramirez. A Cia Força e Luz Porto-Alegrense vende suas usinas para a CEERG, criada em 1923, de propriedade do grupo Electric Bond & Share e passa a se chamar Cia Carris Porto-Alegrense.

13/09/1928 – A Carris passa a ser administrada pela empresa norte-americana Electric Bond & Share, integrante do grupo liderado pela General Electric.

1929 – Primeiro Auto-ônibus da Carris entra em circulação, modelo Yellow Coach.

1939-1944 – Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil passou por vários períodos de racionamento de combustível. Os veículos que necessitavam de óleo e gasolina são obrigados a reduzir suas atividades. O transporte de bondes fica sobrecarregado e a Carris coloca 16 carros reserva em funcionamento, aumentando a frota de 85 para 101 veículos. É também durante o período da Segunda Guerra que grande parte das tripulações da companhia é requisitada pelo Exército. A Carris tenta então contratar mulheres para o serviço de condutor (cobrança de passagem) mas a medida é vetada pelo Ministério do Trabalho do governo Getúlio Vargas.

1952 – Sucessivas greves e o evidente desinteresse dos norte-americanos da Bond & Share em manter o transporte por bondes levam a Prefeitura a intervir na companhia. Assume como interventor José Antonio Aranha, irmão do ministro Oswaldo Aranha.

1953 – Durante uma greve no serviços de bondes da Carris, o músico Lupicínio Rodrigues – que havia trabalhado em 1930 na companhia como aprendiz de mecânico – inspira-se para compor o Hino do Grêmio, cujos versos iniciais se referem à falta do transporte para levar os torcedores até o estádio: “Até a pé nos iremos; para o que der e vier; Mas o certo é que nós estaremos; Com o Grêmio onde o Grêmio estiver”.

29/11/1953
 – Após o período de intervenção, a Prefeitura, na gestão de Ildo Meneghetti,  encampa a Carris, assumindo o controle acionário. Lei 1069, que determina a encampação, é aprovada por 17 votos a dois na Câmara de Vereadores.

1956 – Carris encerra o serviço de transporte por ônibus, transferindo seus veículos para o Departamento Autônomo de Transportes Coletivos (DATC).

1964 – Carris começa a operar sistema de troleibus (ônibus elétricos), inicialmente com cinco veículos e depois com mais quatro. No entanto, problemas de adaptação da voltagem na rede impedem o bom funcionamento do serviço

29/09/1966 –Companhia retoma o transporte por ônibus. Três bondes da Linha Duque são substituídos por ônibus a diesel, iniciando o processo que culminaria com o fim dos bondes elétricos.

19/05/1969 – Circula o último troleibus.

05/06/1969 – Bondes da Avenida Assis Brasil são substituídos por ônibus

26/10/1969 – Linhas Petrópolis e Gasômetro-Escola também trocam os bondes por ônibus

08/03/1970 – Circulam os últimos bondes elétricos nas linhas Partenon, Glória e Teresópolis. Houve solenidade de despedida, à qual compareceram o Prefeito e autoridades. Toda a população pôde viajar gratuitamente. Às 20h30, o último elétrico foi recolhido ao depósito de bondes.

1973 – Em fevereiro, a Carris transfere sua sede para a Rua Albion, na Zona Leste de Porto Alegre.

1974 – Empresa cria a Escola de Motoristas.

1976 – Início da operação das linhas transversais: T1, T2, T3 e T4.

1976-1979 – Implantação dos corredores de ônibus de Porto Alegre.

1977 – Implantação da linha Campus-Ipiranga, ligando o recém-inaugurado Campus do Vale da Ufrgs, com o Centro da cidade, passando também em frente da PUC.

13/10/1980 – Instituída a tarifa única em Porto Alegre. Linhas de ônibus são redistribuídas entre as operadoras do sistema.

1982 – Inicia o tráfego de duas linhas circulares no Centro.

1989 – Criada a linha T5 e  a sala da Memória Carris, na sede da Companhia.

1990 – Em operação a linha T6.

1995 – Implantada a  linha T1 Direta.

1997 – Começa a circular a linha T2A.

1998 – Inicia tráfego da T7.

1999 – Criada a linha T8.

2000 – Inauguradas as linhas T9, T9 IPA e T10.

2003 – Criação da Linha Turismo, com o roteiro Centro Histórico.

14/11/2006 – Carris começa a operar a linha T11 3ª Perimetral, que cruza toda a extensão da mais importante obra viária de Porto Alegre, do Aeroporto Salgado Filho, na Zona Norte, até o Bairro Teresópolis, na Zona Sul da cidade.

2007 – A frota da Carris passa a operar com o sistema de Bilhetagem Eletrônica.

09/08/2007 – Os ônibus da Carris começaram a circular abastecidos por Biodiesel, um combustível menos poluente.

21/06/2008 – Entrega oficial da sede de funcionários da Carris.

19/04/2009 – Instalação das primeiras televisões nos ônibus da Carris.

2010 – Criação de duas linhas sociais para atender grupos escolares e entidades sociais, adesivados com a linha do tempo da Carris.

2010 – Inauguração da linha social Territórios Negros. A linha realiza roteiro histórico sobre pontos da cidade representativos da cultura afro-brasileira.

2011 – Entrega do primeiro ônibus para a linha social Bicho Amigo. Através de parceria com a Secretaria Especial dos Direitos dos Animais. O veículo funciona como clínica itinerante para esterilizações.

2011 – Entrega de mais um veículo para a linha Bicho Amigo. O ônibus transporta animais de famílias em vulnerabilidade social.

11/04/2011 – Institucionalização da Unidade de Documentação e Memória da Carris (UDM).

16/12/2011 – Início da operação da Linha C4 balada segura.

03/09/2012 – Início da operação da Linha T11A.

11/01/2013 – A Carris entrega 13 novos ônibus articulados à comunidade.

26/09/2013 – Carris investe na qualidade de trabalho de seus funcionários e inaugura o terminal T3 e T4 Sul.

22/08/2014 – Carris reforça segurança nos ônibus com a instalação de 1.484 câmeras.

26/11/2014 – A Companhia Carris Porto-alegrense recebe a certificação de Empresa Cidadã, do Conselho Regional de Contabilidade do Estado do Rio de Janeiro.

09/03/2015 – Carris entrega 50 novos ônibus (35 convencionais e 15 articulados) à população de Porto Alegre.

22/02/2016 – Carris inicia operação das linhas transversais T12, T12.1, T12A e T13.

Fonte: prefeitura de Porto Alegre

Alexandre Pelegi, jornalistas especializado em transportes

 

3 comentários em Prefeito de Porto Alegre avalia saídas para a Carris: “privatização, venda ou fechamento”

  1. Amigos, boa tarde.

    Algumas reflexões.

    Tudo na vida é passageiro, menos o motorista e o cobrador; porém hoje até o cobrador está se tornando passageiro.

    Depois do fim da CMTC de Sampa, não há mais nada a operar.

    A burrocracia MATA o Barsil.

    A lei de licitação, já era.

    Utilizem o site busca pé.

    Pronto!

    MUDA BARSIL.

    Att,

    Paulo Gil

  2. Estácio Narciso Neri // 22 de outubro de 2017 às 18:53 // Responder

    Aqui em Fortaleza tínhamos a CTC , no mandato do prefeito Juracy Magalhães um dos diretores era seu filho que esteve metido em desvios de recursos da empresa .

  3. Rodinei Campos da Silveira // 21 de novembro de 2017 às 21:42 // Responder

    Eu sempre via a Carris como a CMTC de Porto Alegre, como vejo a Trensurb como a CPTM (ou a Supervia) da Grande Porto Alegre.

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