Funcionários públicos da Carris decretam estado de greve
Publicado em: 8 de outubro de 2017
Trabalhadores protestam contra data de pagamento e temem privatização da empresa de ônibus
ADAMO BAZANI
Trabalhadores da Carris, a empresa pública de transportes de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, decretaram em assembleia neste sábado, 7 de outubro de 2017, estado de greve.
De acordo com a categoria, a empresa de ônibus não cumpriu uma determinação judicial de realizar pagamentos dos salários de setembro já nos primeiros dias do mês de outubro. Decreto do prefeito Nelson Marchezan determina os depósitos sejam feito no quinto dia útil do mês, tanto dos trabalhadores da Carris, como de outros órgãos e empresas públicas.
A empresa diz que pagou os salários para seis funcionários, os únicos que seriam contemplados pela decisão judicial, no entendimento da Carris.
A decretação do estado de greve não significa que a empresa vai parar de imediato. Nesta segunda-feira, o sindicato da categoria vai protocolar na companhia e no Ministério Público do Trabalho o resultado da assembleia. A entidade pretende negociar por 30 dias com a Carris.
No entanto, o principal temor da entidade sindical e dos trabalhadores é a possibilidade de privatização da empresa.
A empresa de ônibus acumula dívidas, veículos quebrados e precisa de injeções de recursos do Orçamento da prefeitura. Seguindo o mesmo caminho de outras companhias de ônibus públicas, como CMTC (São Paulo), CTC (Rio de Janeiro), EPTSA (Santo André), CSTC (Santos), entre outras, pode parar nas mãos da iniciativa privada.
As declarações recentes do prefeito Nelson Marchezan, de que “é alto o índice de roubos na empresa”, acirrou ainda mais os ânimos, porque, mesmo que não declaradamente, o chefe do executivo responsabilizou os funcionários pelo quadro.
Atualmente, a Carris tem um custo anual em torno de R$ 60 milhões e deve fechar 2017 com prejuízo de R$ 20 milhões. Em 19 de junho de 2017, a empresa que chegou a operar bondes a cavalo, completou 145 anos. A crise se agravou a partir de 2012. Desde então, a prefeitura tem de colocar dinheiro de impostos na empresa para que não feche as portas. Somente no ano passado, foram R$ 55 milhões.
Os repasses da prefeitura para a Carris só aumentam com o decorrer dos anos. Em 2012, saíram dos cofres públicos para a empresa, R$ 5,3 milhões. Em 2013, o valor foi para R$ 28 milhões. No ano de 2014, a prefeitura injetou R$ 49 milhões na Carris. Em 2015, o valor caiu um pouco, para R$ 48 milhões, mas em 2016 a prefeitura teve de colocar nos cofres da Carris R$ 55 milhões.
A Companhia de Carris de Ferro Porto-Alegrense foi fundada em 1872, e, no ano seguinte, iniciou suas atividades com a linha do Menino-Deus. O ponto de partida da linha era na estação central da companhia, conforme mostra a foto de 1875. A bitola era de 1 metro, e os veículos foram adquiridos junto ao fabricante americano John Stephenson & Co. Eram inicialmente 11 carros fechados, nove abertos e um trole de linha.
Conheça um pouco da história da Carris:
LINHA DO TEMPO
19/06/1872 – Fundação da Cia. Carris de Ferro Porto-Alegrense.
05/01/1873 – Primeira viagem de um bonde da Carris em Porto Alegre, na linha Menino Deus.
1874 – Fim da Revolta dos Muckers – Carris doa 100 mulas para exército.
15/01/1893 – Fundação da Carris Urbanus (linhas Moinhos, Floresta e Partenon).
24/03/1906 – Da fusão da Cia. Carris de Ferro Porto-Alegrense e da Carris Urbanus nasce a Companhia Força e Luz Porto-Alegrense.
10/03/1908 – Primeiro bonde elétrico entra em circulação.
1914 – Circula o último bonde puxado a mula.
1926 – Primeiro ônibus circula em Porto Alegre, de propriedade de Amador dos Santos Fernandes e Manoel Ramirez. A Cia Força e Luz Porto-Alegrense vende suas usinas para a CEERG, criada em 1923, de propriedade do grupo Electric Bond & Share e passa a se chamar Cia Carris Porto-Alegrense.
13/09/1928 – A Carris passa a ser administrada pela empresa norte-americana Electric Bond & Share, integrante do grupo liderado pela General Electric.
1929 – Primeiro Auto-ônibus da Carris entra em circulação, modelo Yellow Coach.
1939-1944 – Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil passou por vários períodos de racionamento de combustível. Os veículos que necessitavam de óleo e gasolina são obrigados a reduzir suas atividades. O transporte de bondes fica sobrecarregado e a Carris coloca 16 carros reserva em funcionamento, aumentando a frota de 85 para 101 veículos. É também durante o período da Segunda Guerra que grande parte das tripulações da companhia é requisitada pelo Exército. A Carris tenta então contratar mulheres para o serviço de condutor (cobrança de passagem) mas a medida é vetada pelo Ministério do Trabalho do governo Getúlio Vargas.
1952 – Sucessivas greves e o evidente desinteresse dos norte-americanos da Bond & Share em manter o transporte por bondes levam a Prefeitura a intervir na companhia. Assume como interventor José Antonio Aranha, irmão do ministro Oswaldo Aranha.
1953 – Durante uma greve no serviços de bondes da Carris, o músico Lupicínio Rodrigues – que havia trabalhado em 1930 na companhia como aprendiz de mecânico – inspira-se para compor o Hino do Grêmio, cujos versos iniciais se referem à falta do transporte para levar os torcedores até o estádio: “Até a pé nos iremos; para o que der e vier; Mas o certo é que nós estaremos; Com o Grêmio onde o Grêmio estiver”.
29/11/1953 – Após o período de intervenção, a Prefeitura, na gestão de Ildo Meneghetti, encampa a Carris, assumindo o controle acionário. Lei 1069, que determina a encampação, é aprovada por 17 votos a dois na Câmara de Vereadores.
1956 – Carris encerra o serviço de transporte por ônibus, transferindo seus veículos para o Departamento Autônomo de Transportes Coletivos (DATC).
1964 – Carris começa a operar sistema de troleibus (ônibus elétricos), inicialmente com cinco veículos e depois com mais quatro. No entanto, problemas de adaptação da voltagem na rede impedem o bom funcionamento do serviço
29/09/1966 –Companhia retoma o transporte por ônibus. Três bondes da Linha Duque são substituídos por ônibus a diesel, iniciando o processo que culminaria com o fim dos bondes elétricos.
19/05/1969 – Circula o último troleibus.
05/06/1969 – Bondes da Avenida Assis Brasil são substituídos por ônibus
26/10/1969 – Linhas Petrópolis e Gasômetro-Escola também trocam os bondes por ônibus
08/03/1970 – Circulam os últimos bondes elétricos nas linhas Partenon, Glória e Teresópolis. Houve solenidade de despedida, à qual compareceram o Prefeito e autoridades. Toda a população pôde viajar gratuitamente. Às 20h30, o último elétrico foi recolhido ao depósito de bondes.
1973 – Em fevereiro, a Carris transfere sua sede para a Rua Albion, na Zona Leste de Porto Alegre.
1974 – Empresa cria a Escola de Motoristas.
1976 – Início da operação das linhas transversais: T1, T2, T3 e T4.
1976-1979 – Implantação dos corredores de ônibus de Porto Alegre.
1977 – Implantação da linha Campus-Ipiranga, ligando o recém-inaugurado Campus do Vale da Ufrgs, com o Centro da cidade, passando também em frente da PUC.
13/10/1980 – Instituída a tarifa única em Porto Alegre. Linhas de ônibus são redistribuídas entre as operadoras do sistema.
1982 – Inicia o tráfego de duas linhas circulares no Centro.
1989 – Criada a linha T5 e a sala da Memória Carris, na sede da Companhia.
1990 – Em operação a linha T6.
1995 – Implantada a linha T1 Direta.
1997 – Começa a circular a linha T2A.
1998 – Inicia tráfego da T7.
1999 – Criada a linha T8.
2000 – Inauguradas as linhas T9, T9 IPA e T10.
2003 – Criação da Linha Turismo, com o roteiro Centro Histórico.
14/11/2006 – Carris começa a operar a linha T11 3ª Perimetral, que cruza toda a extensão da mais importante obra viária de Porto Alegre, do Aeroporto Salgado Filho, na Zona Norte, até o Bairro Teresópolis, na Zona Sul da cidade.
2007 – A frota da Carris passa a operar com o sistema de Bilhetagem Eletrônica.
09/08/2007 – Os ônibus da Carris começaram a circular abastecidos por Biodiesel, um combustível menos poluente.
21/06/2008 – Entrega oficial da sede de funcionários da Carris.
19/04/2009 – Instalação das primeiras televisões nos ônibus da Carris.
2010 – Criação de duas linhas sociais para atender grupos escolares e entidades sociais, adesivados com a linha do tempo da Carris.
2010 – Inauguração da linha social Territórios Negros. A linha realiza roteiro histórico sobre pontos da cidade representativos da cultura afro-brasileira.
2011 – Entrega do primeiro ônibus para a linha social Bicho Amigo. Através de parceria com a Secretaria Especial dos Direitos dos Animais. O veículo funciona como clínica itinerante para esterilizações.
2011 – Entrega de mais um veículo para a linha Bicho Amigo. O ônibus transporta animais de famílias em vulnerabilidade social.
11/04/2011 – Institucionalização da Unidade de Documentação e Memória da Carris (UDM).
16/12/2011 – Início da operação da Linha C4 balada segura.
03/09/2012 – Início da operação da Linha T11A.
11/01/2013 – A Carris entrega 13 novos ônibus articulados à comunidade.
26/09/2013 – Carris investe na qualidade de trabalho de seus funcionários e inaugura o terminal T3 e T4 Sul.
22/08/2014 – Carris reforça segurança nos ônibus com a instalação de 1.484 câmeras.
26/11/2014 – A Companhia Carris Porto-alegrense recebe a certificação de Empresa Cidadã, do Conselho Regional de Contabilidade do Estado do Rio de Janeiro.
09/03/2015 – Carris entrega 50 novos ônibus (35 convencionais e 15 articulados) à população de Porto Alegre.
22/02/2016 – Carris inicia operação das linhas transversais T12, T12.1, T12A e T13.
Fonte: prefeitura de Porto Alegre
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

