Cade aprova sem restrições compra do Consórcio Guaicurus pelo Grupo HP em Campo Grande (MS); negócio foi revelado em primeira mão pelo Diário do Transporte

Decisão publicada em 8 de outubro de 2026 libera aquisição das quatro empresas de ônibus pelo grupo de Goiânia; transferência do controle depende também da Prefeitura, que cobra novos veículos, ar-condicionado e melhorias nos terminais

ADAMO BAZANI

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou, sem restrições, a aquisição das quatro empresas de ônibus que integram o Consórcio Guaicurus, responsável pelo transporte coletivo de Campo Grande (MS), pelo Grupo HP Mobilidade, de Goiânia (GO). A decisão foi tomada em 7 de outubro de 2026 e publicada no Diário Oficial da União de quinta-feira (8). O negócio, revelado em primeira mão pelo Diário do Transporte em julho, envolve as empresas Viação Cidade Morena, Jaguar Transportes Urbanos, Viação Campo Grande e Viação São Francisco.

Com a aprovação do Cade, o Grupo HP supera uma das etapas necessárias para concluir a aquisição. A transferência do controle das operadoras também depende da autorização da Prefeitura de Campo Grande, comandada por Adriane Lopes, que estabeleceu como condições a renovação da frota, a incorporação de ônibus com ar-condicionado e melhorias nos terminais. Para os passageiros, essas exigências estão relacionadas aos problemas de conservação dos veículos, cumprimento das viagens e qualidade do transporte que motivaram uma intervenção municipal e cobranças do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS).

O documento identifica a Maas Administração e Participações Ltda. como parte da operação, juntamente com as quatro empresas de ônibus.

A Maas foi constituída no âmbito do Grupo HP para concentrar as participações societárias nas operadoras adquiridas. Segundo as informações apresentadas pela empresa em julho, a sociedade é integralmente controlada pela HP Investimentos.

A decisão foi assinada pelo superintendente-geral interino do Cade, Felipe Leitão Valadares Roquete.

O despacho estabelece expressamente a aprovação da operação sem restrições.

A manifestação do órgão federal diz respeito à análise concorrencial da compra, que verifica seus efeitos sobre a estrutura do mercado.

Diário do Transporte anunciou a negociação em primeira mão em julho

Em 21 de julho de 2026, o Diário do Transporte informou em primeira mão que a prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes, havia confirmado a venda do Consórcio Guaicurus para o Grupo HP Mobilidade.

Na ocasião, a administração municipal informou que a conclusão da transferência dependeria do cumprimento de condições relacionadas ao transporte público.

Entre elas estavam a compra de novos ônibus, a instalação de ar-condicionado e a reforma dos terminais.

A negociação foi anunciada em meio à intervenção municipal no sistema, iniciada após uma série de problemas relacionados à execução dos serviços e à situação econômico-financeira da concessionária.

O Grupo HP é comandado pelo empresário Edmundo Pinheiro, também presidente da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU).

Em março de 2026, o criador e editor-chefe do Diário do Transporte, Adamo Bazani, esteve na sede do grupo, em Goiânia, a convite da Scania e da Marcopolo, para acompanhar a apresentação de ônibus articulados movidos a biometano.

Na ocasião, a direção da HP apresentou a meta empresarial de se tornar, até 2035, o maior conglomerado de transporte urbano do Brasil, por meio da ampliação das operações existentes e de novas aquisições.

A negociação envolvendo o Consórcio Guaicurus está inserida nessa estratégia de expansão.

Relembre:

HP Mobilidade, de Goiânia, compra Consórcio Guaicurus, anuncia prefeita de Campo Grande (MS) — 21 de julho de 2026

Aprovação ocorre oito dias após publicação da operação no Cade

Em 30 de setembro de 2026, o Diário do Transporte informou que o Cade havia publicado oficialmente o processo de aquisição das empresas do Consórcio Guaicurus.

Naquela etapa, a publicação correspondia ao recebimento e à divulgação do negócio submetido à análise concorrencial.

O ato de concentração foi registrado sob o nº 08700.009319/2026-62, com a Maas Administração e Participações Ltda. identificada como compradora.

O contrato de compra e venda havia sido celebrado em 18 de julho de 2026.

A nova publicação, de 8 de outubro, representa uma mudança na situação da operação, uma vez que a Superintendência-Geral do Cade decidiu aprová-la sem restrições.

Assim, a análise concorrencial passou da etapa de divulgação do negócio para uma decisão favorável à aquisição.

Relembre:

Campo Grande (MS): Cade publica aquisição do Consórcio Guaicurus pelo Grupo HP, anunciada em primeira mão pelo Diário do Transporte — 30 de setembro de 2026

Prefeitura exige investimentos para autorizar entrada do Grupo HP na operação

A aprovação concorrencial constitui uma das etapas do negócio. A transferência do controle de empresas responsáveis por uma concessão municipal também está sujeita às regras contratuais e à autorização do poder concedente.

No caso de Campo Grande, a Prefeitura havia condicionado a entrada do Grupo HP à apresentação de compromissos para melhorar a prestação do transporte coletivo.

Entre as exigências anunciadas estão a renovação da frota, a implantação de ônibus com ar-condicionado e melhorias na infraestrutura dos terminais.

A administração municipal também cobra a apresentação de um cronograma para realizar essas mudanças.

A definição das responsabilidades contratuais é relevante porque a aquisição ocorre durante um período de questionamentos sobre a qualidade do serviço, a idade dos ônibus e o equilíbrio econômico-financeiro da concessão.

Para os passageiros, os efeitos práticos da mudança empresarial estarão relacionados ao cumprimento dos compromissos de investimento, à oferta de viagens, às condições dos veículos e ao atendimento nos terminais.

Tribunal de Contas cobrou prazos, investimentos e fiscalização da nova operação

A negociação também motivou providências do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul.

Em 24 de julho de 2026, o conselheiro Waldir Neves Barbosa determinou que a Prefeitura de Campo Grande apresentasse esclarecimentos sobre as condições estabelecidas para a transferência do controle das empresas.

O TCE-MS retomou o acompanhamento do Termo de Ajustamento de Gestão (TAG) firmado em 2020 entre o município, os órgãos municipais responsáveis pelo transporte e o Consórcio Guaicurus.

Entre os pontos cobrados estavam os compromissos exigidos do comprador, os prazos para resolver problemas identificados na prestação do serviço e os mecanismos de fiscalização.

A Corte também solicitou informações sobre a renovação da frota e as providências para manter a idade dos ônibus dentro das condições previstas no contrato.

O acompanhamento envolve ainda a atuação da Agência Municipal de Regulação dos Serviços Públicos (Agereg), o controle econômico-financeiro da concessão e as responsabilidades da Prefeitura.

A mudança de controle empresarial mantém a importância dessas obrigações, uma vez que a concessão é de responsabilidade do município.

Relembre:

TCE quer saber detalhes da venda do Consórcio Guaicurus para a HP de Goiânia e cobra da Prefeitura de Campo Grande plano de fiscalização — 25 de julho de 2026

Relatório da intervenção apontou descumprimento de viagens e envelhecimento da frota

A aquisição ocorre em um período de dificuldades na operação dos ônibus de Campo Grande.

Como mostrou o Diário do Transporte em 25 de setembro, um relatório preliminar dos primeiros 90 dias da intervenção municipal apresentou indicadores sobre a situação do sistema.

De acordo com os dados da intervenção, em 2025 foram realizadas 74,5% das viagens programadas. O índice representa aproximadamente uma em cada quatro viagens previstas que deixaram de ser cumpridas.

O relatório também registrou idade média da frota de 10,4 anos e mais de 21 mil autuações relacionadas à operação.

As empresas contestaram aspectos do procedimento e atribuíram parte das dificuldades ao desequilíbrio econômico-financeiro do contrato, questão que também envolve disputas judiciais.

Os indicadores ajudam a dimensionar os desafios que deverão ser enfrentados na eventual transferência do controle das operadoras para o Grupo HP.

A regularidade das viagens, a disponibilidade de veículos, a renovação da frota e a capacidade de investimento estão entre os aspectos que afetam diretamente a população atendida.

Relembre:

Intervenção aponta que uma em cada quatro viagens de ônibus não foi cumprida em Campo Grande (MS); empresas contestam procedimento — 25 de setembro de 2026

O que muda para os passageiros com a decisão do Cade

A decisão do Cade representa a aprovação concorrencial da aquisição das quatro empresas pelo Grupo HP.

Para que a mudança empresarial se traduza em melhorias no transporte, permanecem relevantes as condições estabelecidas pela Prefeitura de Campo Grande e as obrigações contratuais acompanhadas pelos órgãos de fiscalização.

Entre os principais aspectos estão a renovação dos ônibus, a implantação de ar-condicionado, a recuperação dos terminais e o cumprimento da quantidade de viagens estabelecida para cada linha.

Também fazem parte do acompanhamento as condições de manutenção, a disponibilidade dos veículos e a capacidade de investimento das empresas responsáveis pela operação.

A decisão federal acrescenta uma etapa formal ao processo iniciado com o contrato de compra e venda, firmado em julho de 2026.

Com a aprovação do Cade, as atenções se voltam às providências municipais e ao cumprimento das condições necessárias para a conclusão da transferência do controle.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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