Base para consulta pública sobre projeto do Parque do Minhocão, Relatório da Prefeitura de SP não avança em soluções para o transporte do entorno

Desafio é atingir o sucesso do High Line Park, em Nova York, um dos modelos usados pela prefeitura para elaborar a proposta inicial. Fonte: Field Operations.

Por 30 dias, site Gestão Urbana receberá contribuições dos paulistanos, que poderão opinar sobre vários temas, como segurança e paisagismo

ALEXANDRE PELEGI

Uma obra polêmica, construída e inaugurada na virada dos anos 1970 para atender ao tráfego de automóveis, vai se transformar num parque para quem anda a pé. Saem os pneus, e com eles o ruído e a poluição, e em seu lugar entram o lazer de famílias e moradores do entorno e da região.

Esta pelo menos a versão mais radical do projeto, caso a prefeitura opte por desativar o tráfego de veículos de forma total. Caso contrário, pode fazer algo parcial, como permite o Artigo 4° da Lei 16.833/2018:

II – as seguintes hipóteses de destinação da área previstas no parágrafo único do art. 375 do Plano Diretor Estratégico do Município:

  1. a) a transformação parcial em parque;
  2. b) a transformação integral em parque;

Nascido como Costa e Silva, em homenagem ao presidente do regime militar, hoje o Elevado se chama João Goulart, apesar de todo mundo preferir tratá-lo mesmo pelo carinhoso apelido de Minhocão. Conectando a Av. Radial Leste-Oeste (no centro da cidade) à Av. Francisco Matarazzo (na zona oeste), passando por República, Consolação, Santa Cecília e Barra Funda, tornou-se uma cicatriz na paisagem urbana de São Paulo.

Construído às pressas, mirando apenas nos proprietários de automóveis, ele reflete bem uma visão distorcida de transporte que durante décadas, e até hoje, persiste nas cidades brasileiras.

Erigido para pneus, vai ser transformado todo (ou parte dele) para o lazer de pedestres, ciclistas, crianças e suas famílias.

A ideia ainda está no início, e mesmo assim, a depender da letargia da administração municipal, tudo pode ser revertido caso o próximo prefeito decida brecar a transformação. Como o paulistano já sabe, muitas ideias boas não passam… de boas ideias.

De concreto, apenas a publicação de um caderno de 158 páginas realizado pelo Grupo de Trabalho Intersecretarial (GTI, que traz um diagnóstico dos problemas da área e algumas sugestões para tratá-los. Além disso, a proposta apresenta um cronograma de entregar o parque em 25 de novembro de 2020. As obras viárias começariam em 1º de novembro, com previsão de término em 9 de fevereiro de 2020.

O custo estimado dessa proposta inicial foi orçado em R$ 36,3 milhões. A consulta pública para ouvir a população está aberta, e as sugestões começam a ser colhidas a partir desta sexta-feira, 17 de maio de 2019, por 30 dias, no site Gestão Urbana (gestaourbana.prefeitura.sp.gov.br).

No caso do transporte público, eis a questão… Enquanto muitos usuários de automóveis já começam a reclamar que irão perder uma “importante ligação”, o Relatório lembra que a discussão da retirada dos carros de passeio começou há alguns anos:

O destino do Elevado João Goulart vem sendo objeto de discussão desde pelo menos 1976, quando foram iniciadas as rotinas de sua interdição ao tráfego veicular no período noturno.

A consideração do impacto que o resultado dessa discussão teria sobre o cotidiano de grande número de munícipes fez com que o PDE (Plano Diretor Estratégico) aprovado em 2014 tratasse desse tema em uma de suas disposições. O parágrafo único do Artigo 375 do PDE estabeleceu:

“Lei especifica deverá ser elaborada determinando a gradual restrição ao transporte individual motorizado no Elevado Costa e Silva, definindo prazos até sua completa desativação como via de tráfego, sua demolição ou transformação, parcial ou integral, em parque.”

Essa determinação foi atendida com a aprovação da Lei Municipal nº 16.833, de 7 de fevereiro de 2018, que estabeleceu a progressividade da desativação do elevado como via de circulação veicular; o estímulo à realização de atividades culturais e esportivas nos períodos de interdição ao tráfego e a obrigatoriedade de se propor a transformação parcial ou total do Elevado em parque através de um Projeto de Intervenção Urbana – PIU, a ser aprovado por Lei ou Decreto. Essa lei também autoriza o Executivo a realizar projetos pilotos para avaliação dos impactos, no curso do processo de desativação da estrutura.

A proposta de implantação da primeira fase do Parque Minhocão se dá no trecho entre a Praça Franklin Roosevelt e o Largo do Arouche, onde se concentra o maior número de viagens de automóveis, conforme simulações e contagens realizadas no diagnóstico.

MINHOCAO_TRAFEGO

Para os automóveis, os impactos serão pesados, mas para a cidade como um todo praticamente nada mudará.

Na Rua Amaral Gurgel, a previsão é de que a velocidade média dos carros no pico da manhã caia de 42,8 km/h para 27,3 km/h; para a cidade, a mudança não afetará nada, segundo o estudo.

O diagnóstico feito pelo Grupo de Trabalho sugere o que a engenharia de tráfego já conhece: reprogramação do tempo dos semáforos, além de sincronizá-los, e medidas como a desativação da ligação do elevado com a Rua da Consolação e o alargamento da Avenida General Olímpio da Silveira.

E como ficam os ônibus? Com o aumento do congestionamento, não aumentará a poluição? Ainda mais que, segundo o diagnóstico do grupo de trabalho, o corredor de ônibus localizado sob o elevado responde pela maior parte da poluição.

Os principais volumes de circulação de coletivos são encontrados no Corredor da Av. São João e no corredor da R. da Consolação. “Cada um concentra até 180 ônibus/hora/sentido no trecho mais carregado. As demais vias que apresentam elevados volumes de coletivos são a Al. Nothmann (mais de 60 ônibus/hora), a R. das Palmeiras e a R. Sebastião Pereira (quase 60 ônibus/hora) e a Av. Angélica e a Av. Mario de Andrade (quase 40 ônibus/hora/sentido)”, relata o relatório do GTI.

A solução por ônibus elétricos (ou híbridos) parece ser o mais indicado para a região, algo que a prefeitura deveria colocar como prioridade não só ali, mas em locais altamente adensados como aquele.

Como noticiou o Diário do Transporte, a proibição de tráfego de veículos, por outro lado, vai permitir uma sensível diminuição no barulho no entorno. Relembre: Proibição de tráfego de veículos no Minhocão reduz sensação de volume sonoro pela metade

Referente ainda ao transporte público, o Relatório lembra um projeto que teve Manifestação de Interesse Privado (MIP) protocolada pela Alstom Brasil Energia e Transporte Ltda. e Telar Engenharia e Comércio S/A junto a Secretaria Municipal de Mobilidade e Transporte. Trata-se, segundo o documento da prefeitura, da implantação, operação e manutenção de Veículo Leve sobre Trilhos (“VLT”), visando à revitalização da área central do Município de São Paulo no formato Concessão Patrocinada (Pagamento de tarifas pelos usuários + contraprestação do Poder Concedente).

As principais características desse projeto, segundo o diagnóstico do GTI, são:

– 26 km de via (ida e volta) com traçado circular, definido no Projeto de Engenharia;

– paradas a cada 700 metros;

– criação de bulevares na Rua José Paulino, Rua Mauá e Rua da Cantareira;

– demanda esperada de 80 mil passageiros por dia útil;

– intervalo de 4,5 minutos entre veículos no horário de pico;

– velocidade média esperada de 12 km/h;

– prazo de 3 anos para início da operação do circuito completo.

Essa história, ou algo semelhante a ela, rola desde 2017, conforme noticiou o Diário do Transporte.

Em 10 de abril de 2017, o então prefeito João Doria, durante o programa Roda Viva, da TV Cultura, afirmou que o urbanista e ex-governador do Paraná Jaime Lerner iria desenvolver um projeto de requalificação do centro da cidade de São Paulo. Relembre: Secovi financia contratação de Jaime Lerner para “Cidade Linda” de Doria

No dia 3 de junho, o Secovi-SP – sindicato das empresas do mercado imobiliário e condomínios no Estado de São Paulo, encomendou e pagou ao escritório do incensado arquiteto Jaime Lerner um projeto de construção de uma linha circular por transporte público que interliga os principais pontos do centro da capital. Relembre: Secovi oferece à prefeitura projeto de linha circular de bonde para o centro de São Paulo

No dia 26 de setembro de 2017, novamente o prefeito Doria, mais de cinco meses após sua primeira declaração, prometeu publicamente que iria executar o projeto que propunha revitalizar o centro com bulevares e duas linhas turísticas de Veículo Leve Sobre Pneus (VLP), uma espécie de bondes modernos movidos a eletricidade. Nos mesmos moldes do VLT do Rio de Janeiro, o projetado por Lerner não circularia sobre trilhos, afirmava o então prefeito.

O prazo inicial era de 12 anos, mas Doria prometeu entregar os bondes modernos sobre pneus até 2020, sem cobradores e com cobrança de tarifa por celular. Ainda segundo Doria, o projeto incluiria a construção do que ele chamou de “edifícios icônicos”, construções com potencial para serem marcos na paisagem da cidade. Relembre: Doria promete bonde elétrico no centro de SP para 2020

Como se vê, nada foi feito, nada caminhou, e manifestações dessa natureza só fazem aumentar as dúvidas sobre o futuro e sustentabilidade de um projeto como o do Parque Minhocão.

O Relatório cita alguns exemplos internacionais que vingaram:

– Parque High Line, Nova York/EUA

– Coullée Verte René-Dumont, Paris/França

– Renaturalização do Riacho Cheong Gye Cheon, Seul/Coréia do Sul

– The Bentway, Toronto/Canadá

– The 606, Chicago/EUA

– Seoullo 7017, Seul/Coréia do Sul

Resta saber se São Paulo terá o mesmo sucesso. De qualquer forma, o processo está aberto para colher sugestões dos paulistanos.

O Relatório Completo pode ser lido no link:

relatorio_gt_minhocao_v8

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

3 comentários em Base para consulta pública sobre projeto do Parque do Minhocão, Relatório da Prefeitura de SP não avança em soluções para o transporte do entorno

  1. Vou reelaborar o meu projeto e enviar…..TAPETÃO VERDE.

  2. Amigos, boa noite.

    Questão polêmica demais.

    O dinheiro já foi gasto; então melhor não gastar mais nada, afinal o Barsil e Sampa estão em crise.

    Seria muito mais aproveitado se esse dinheiro for gasto na manutenção do Largo do Arouche, Parque da Luz, Praça da República, Praça Buenos Aires, Parque da Aclimação e outros.

    São lugares lindos, talvez nem conhecidos por todos; o Parque da Luz é uma obra de arte.

    Só querem torrar o dinheiro do contribuinte mais nada.

    Nojento.

    A PMSP tem é de trabalhar, afinal já pagamos muitos impostos e ainda querem nossas ideias?

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

    Só pagando.

    Att,

    Paulo Gil

  3. Jackson Teixeira Eugênio // 19 de maio de 2019 às 12:52 // Responder

    Jackson Teixeira Eugênio, Engenheiro da CPTM, CPF 117329466-04 tel. 9 7404 0310aaaa

    Elaborei um trabalho uns 25 anos atrás, num determinado curso e meu tema escolhido foi a demolição do minhocão, assim temos certas condicionantes que devem ser obedecidas para que se faça a coisa certa. Vái ficar caro mas não teremos manutenção do Boulevard pretendido, e nem o grande custo dos congestionamentos no trânsito que serão eternos. Concluindo que será mais barato.
    Assim: primeiro ter uma opção para o trânsito do minhocão;
    Como: temos 2 maciços disponíveis que podem ser utilizados, ou seja, subleito das linhas 7e 8 da CPTM, onde seria executado um túnel rodoviário com aproximadamente a mesma extensão do minhocão, 2,6 km. Deverá ser executado em Shield por ser um método mais seguro que não trará recalques significativos à Via Permanente, indicado certamente para o tipo de solo da regiao e construção rápida.
    Após, desviar o trânsito e iniciar os trabalhos de demolição do minhocao com 100% de reaproveitamento das vigas.
    A área central que seria preservada pode ser reubarnizada proporcionando a revitalização da região.

    Jackson

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