Proibição de tráfego de veículos no Minhocão reduz sensação de volume sonoro pela metade

Em 1968, sem o Minhocão, Rua Amaral Gurgel era assim. Foto: Acervo do Município – Clique para ampliar

Essa é uma das conclusões do Mapa de Ruído Urbano do Centro de SP, realizado pela Associação ProAcústica em parceria com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano

ALEXANDRE PELEGI

Veículos poluem o ar, mas não apenas emitindo poluentes, que causam graves doenças respiratórias, além de prejudicar a qualidade do ar e reduzir a saúde do planeta. Veículos fazem barulho, o que nos chama atenção para outro tipo de poluição, aquela produzida por ruídos.

A poluição sonora, apesar de barulhenta, não causa tanta preocupação como deveria. E viver em cidades onde o ruído se incorporou à rotina, faz dela apenas um detalhe, quando deveria na verdade ser forte motivo para preocupação. Sim, pois ruído intenso provoca doenças.

Uma boa medida para o tamanho do problema está presente no Mapa de Ruído Urbano da Operação Urbana Centro, lançado no dia 24 de abril de 2019, Dia Internacional de Conscientização sobre o Ruído (INAD 2019). O estudo abrange o Centro Velho e Novo, além de regiões históricas da cidade de São Paulo, como Glicério, Brás, Bexiga e Vila Buarque, uma área de aproximadamente 6,6 Km².

Feito pela ProAcústica – Associação Brasileira para a Qualidade Acústica, o Mapa é um poderoso instrumento para a sociedade identificar as zonas críticas e induzir políticas públicas para estabelecer planos de ações de mitigação dos problemas, como afirma Juan Frías, que coordena o Comitê Acústica Ambiental da ProAcústica.

Um dos locais de edição de ruído foi o Elevado Presidente João Goulart, conhecido como Minhocão, na região central de São Paulo. A polêmica construção, feita a toque de caixa pelo então prefeito nomeado Paulo Maluf (na época as eleições estavam proibidas pelo regime militar).

Desde então ele vem gerando desconforto e reclamações por parte população. Em média, 70 mil veículos circulam por dia pelo elevado, provocando poluição do ar e falta de privacidade, além do intendo e contínuo ruído.

Numa parceria com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, foi feito um estudo comparativo específico para os cenários acústicos entre as residências do elevado Minhocão, na ausência do tráfego de veículos que circulam pelo local.

O estudo abrange o trecho do Minhocão entre a Praça Roosevelt e o Largo do Arouche. Até 2020, a prefeitura vai ter de apresentar um projeto de intervenção urbana no local, reorganizando o tráfego. O minhocão terá de ser transformado em um parque suspenso que funcione em tempo integral.

O resultado é alentador. Numa estimativa do potencial de redução de ruído do elevado, caso o Minhocão estivesse inativo, o estudo chegou a uma diminuição de até 10 decibéis (dB) em algumas fachadas, “o que, em termos de sensação, seria equivalente a reduzir pela metade a sensação de volume sonoro”, descreve a PróAcústica.

Esses 10 dB de redução equivalem, em termos de sensação para o ser humano, a reduzir pela metade a percepção do volume sonoro.

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O estudo, realizado a partir de medições e simulações, apresentou níveis sonoros entre 69 e 76 dB com o viaduto em operação, enquanto que, interditado ao tráfego, apenas com o fluxo existente na rua Amaral Gurgel, o nível sonoro pode cair até valores entre 59 e 70 dB, sendo que os resultados finais dependerão das estratégias de redução do ruído adotadas”, afirma a PróAcústica.

A gerente técnica da ProAcústica, Priscila Wunderlich, afirmou à Agência Brasil que a OMS (Organização Mundial da Saúde) tem um nível recomendável de ruído. “O ruído de trânsito global pode chegar até 55 dB. Para a saúde, o que mais conta é a constância, é o incômodo permanente que vai dia a dia prejudicando e você só percebe ao longo do tempo o quanto isso pode te prejudicar, causando insônia, stress, incômodo. Pode até causa doenças, como potencializar infartos, e isso já é comprovado pela OMS, há vários estudos internacionais que comprovam isso”, disse Priscila.

O Mapa de Ruído Urbano permite constatar os pontos mais ruidosos do centro paulistano. Com esse diagnóstico, a prefeitura da capital pode elaborar políticas de redução de ruídos.

Dentre os pontos mais ruidosos identificados no mapa estão, além do Minhocão, a avenida 23 de Maio e a avenida 9 de Julho.

MINHOCÃO: UMA CICATRIZ URBANA

O Minhocão, oficialmente chamado de elevado Presidente João Goulart, é uma cicatriz na paisagem urbana de São Paulo. Construído às pressas, mirando apenas nos proprietários de automóveis, ele reflete bem uma visão distorcida de transporte que durante décadas, e até hoje, persiste nas cidades brasileiras.

Prefeito à época, Paulo Maluf tratou o projeto como um dos grandes destaques de seu “jeito de governar”, à base de grandes obras viárias. Nomeado prefeito pelo regime militar, Maluf desdenhou das opiniões contrárias ao projeto. O minhocão, quando foi anunciado pelo prefeito no finalzinho dos anos 1960 (vídeo acima), já estava ultrapassado como solução viária nas principais cidades do mundo.

Se de um lado o elevado agradou aos proprietários de automóveis, de outro destruiu não só a paisagem urbana, como ignorou seus danosos efeitos sobre a qualidade de vida de milhares de paulistanos que moravam no entorno. O elevado, construído sobre as avenidas São João e General Olímpio da Silveira (além da Amaral Gurgel), ficou pronto em 14 meses, no início de janeiro de 1971.

Maluf o chamaria então de “a maior obra de concreto armado da América Latina”.

A Prefeitura de São Paulo, para a inauguração do gigante de cimento, fez publicar convite nos principais jornais paulistanos. Para homenagear seus padrinhos de poder, Maluf escolheu chamar sua obra faraônica de elevado Costa e Silva, “uma das grandes figuras da Revolução de 1964”.

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O inferno urbano provocado pela intervenção tresloucada de um prefeito biônico passou a funcionar todos os dias da semana, 24 horas por dia. Somente em 1976, após inúmeras reclamações dos moradores da região, o Minhocão passou a ser fechado na madrugada, entre meia noite e cinco horas da manhã. Em 1989 a prefeitura puxou o horário de fechamento para as 21:30, impedindo a circulação de automóveis aos domingos.

Em setembro de 2017, a Câmara Municipal de SP aprovou, em primeiro turno, o projeto de lei que prevê a desativação gradual do Minhocão, principal ligação por carros entre as regiões leste e oeste da cidade. O Projeto foi finalmente aprovado em 13 de dezembro de 2017 em segunda votação, e prevê a desativação gradual do Minhocão, principal ligação por carros entre as regiões leste e oeste da cidade.

Alexandre Pelegi, jornalistas especializado em transportes

1 comentário em Proibição de tráfego de veículos no Minhocão reduz sensação de volume sonoro pela metade

  1. Se antes a rua Amaral Gurgel já era pelada de verde, desta vez poderá fazer parte da onda verde. O Tapetão verde da cidade, que no exterior é chamada de GREEN LINE. É a melhor das soluções haja visto que sua demolição causaria maiores transtornos à todos, tanto do trânsito, quanto aos moradores, com opo barulho. E onde iri jogar milhares de entulhos??
    Quanto à privacidade, que alguns reclamam, se vc tiver pudor, use a cortina, agora se vc for despudorado, desavergonhado, apareça, mostre-se. Um direito seu, mas que não exagere na exposição, pois pode dar cadeia.

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