ESPECIAL: Em “extinção” na cidade de São Paulo, biarticulados somam 97 unidades na frota da capital

Publicado em: 23 de agosto de 2020

Biarticulado, ainda com pintura de teste, para a Viação Campo Belo, em São Paulo, no final nos anos de 1990

De acordo com a SPTrans, frota poderá operar até 2022. “Superarticulados” somam 1.425 veículos cadastrados

ADAMO BAZANI

Quando eles surgiram na capital paulista na segunda metade dos anos 1990, chamaram a atenção: os biarticulados, gigantes de 25 metros a 28 metros de comprimento, marcaram uma nova fase nos transportes do maior sistema de ônibus da América Latina.

Podendo transportar até 250 pessoas (o número pode variar de acordo com a configuração de cada veículo), os biarticulados foram uma resposta à necessidade de transportar uma grande quantidade de passageiros numa cidade onde os sistemas de trilhos não avançam como as necessidades de deslocamentos.

Mas os gigantes com “duas sanfonas” (nome popular para a articulação) estão aos poucos dando adeus no sistema da capital paulista.

De acordo com a SPTans – São Paulo Transporte, gerenciadora do sistema da cidade, em resposta ao Diário do Transporte na última semana, há neste momento para operação na capital paulista, 97 ônibus biarticulados. Os veículos poderão prestar serviços somente até 2022, mas, se quiserem, as companhias de ônibus poderão retirá-los antes:

Atualmente, 97 veículos biarticulados operam na frota da cidade, distribuídos da seguinte forma:  47 veículos ano modelo 2010 que podem operar até 30/04/2022, conforme Portaria SMT nº 81 de 24 de março de 2020; e  50 veículos ano modelo 2012 que podem operar até 31/12/2022, conforme Portaria SMT nº 81 de 24 de março de 2020.

Biarticulados de São Paulo sendo desmontados.

Por causa da pandemia da Covid-19, a portaria ampliou o tempo para substituição de frota.

Se os biarticulados estão cada vez mais “raros de se ver”, um modelo “rival” virou figura comum nas ruas da cidade: o superarticulado.

O modelo é menor. Enquanto o biarticulado tem, atualmente 27 m ou 28 m (os de 25 m eram os mais antigos), o superaticulado possuiu 23 metros. A capacidade é para de 190 a 210 passageiros, também com o número variando de acordo com a configuração.

 

Ônibus biarticulado no Terminal Praça da Bandeira

Superarticulado também no Terminal da Praça da Bandeira

Aliás, superarticulado é o nome comercial da marca para o articulado de 23 metros.

Diferentemente do biarticulado, o superartiulado tem apenas uma “sanfona”  articulação), mas ele é maior que o articulado, que tem também uma articulação, porém mede de 17 m a 20,55 m.

No segundo carro ou vagão, designações para a parte do ônibus correspondente a depois da articulação, o modelo superarticulado possui dois eixos, sendo que o último é direcional, ou seja, ele “esterça” para as curvas e manobras. Os articulados possuem apenas um eixo no “vagão”.

Ainda de acordo com a SPTrans, em resposta ao Diário do Transporte, até o fechamento desta reportagem, em 20 de agosto de 2020, o sistema tinha em seu cadastro 1.425 veículos.

A gerenciadora ainda informou que desde 2012 não entram biarticulados novos nas linhas da cidade e não houve homologação de novos modelos deste tipo na capital paulista.

“Não houve homologação de novos modelos de biarticulados e os últimos que entraram em operação foi em 2012. No entanto, começaram a ser incluídos no sistema os articulados de 23 metros, conhecidos como superarticulados que iniciaram a operação em 2013 e atualmente são 1.425 veículos cadastrados na frota.”

A SPTrans ressaltou ainda que desde 2017, contando todos os tipos de ônibus, dos micros aos “superarticulados”, a renovação da frota representou 40% do total da cidade.

“Desde o início de 2017, 5.718 ônibus novos (representando 40,79% da frota paulistana) foram substituídos por veículos mais sustentáveis e menos poluentes.”

Os biarticulados possuem chassis da Volvo e são comercializados para diversos sistemas, inclusive fora do Brasil. No país, um dos destaques no uso atual deste veículo, com unidades novas adquiridas em 2019, é Curitiba, cuja uma das características são os corredores. A Volvo é a pioneira no Brasil em fabricação de biarticulado, com o lançamento em 1991, justamente para Curitiba.

A Scania também produz biarticulados e comercializa para o Brasil e exterior, mas o modelo que nunca rodou na capital paulista, possui motor na frente, enquanto que o da Volvo tem o motor “no meio” do primeiro carro. Há veículos da Scania operando em Curitiba também.

Os superarticulados são de chassis Mercedes-Benz, sendo comercializados também em diversos sistemas. Apesar de serem muito conhecidos por causa da cidade de São Paulo, onde operam desde 2013, os primeiros superarticulados do Brasil foram vendidos em 2012 para a Metra, empresa que opera o Corredor Metropolitano ABD, a ligação entre as zonas Leste e Sul da cidade de São Paulo, passando por municípios do ABC Paulista. Há também um superarticulado no Corredor ABD do tipo Dual Bus, único no Brasil. Trata-se de um modelo  que reúne em um só veículo as tecnologias trólebus, ônibus à bateria e ônibus híbrido (com um motor a diesel e motores elétricos).

HISTÓRIA:

Em 1995, era testado o primeiro biarticulado da cidade de São Paulo. O modelo foi um Marcopolo Torino LS com chassi Volvo, de 25 metros. Mas, de acordo com a SPTrans, comercialmente, o  primeiro ônibus biarticulado da cidade de São Paulo operou a partir de agosto de 1998.

Ainda segundo a SPTrans, em resposta ao Diário do Transporte, a maior frota em operação ao mesmo tempo de biarticulados foi com 122 veículos que permaneceram cadastrados até o período de julho de 2008 à novembro de 2008.

O modelo ganhou tanto destaque que, numa reportagem da Revista Isto É – Dinheiro, de 01º de dezembro de 2009, intitulada “O papa das catracas”, em alusão ao empresário José Ruas Vaz, que já teve a maior frota em circulação na capital paulista, foi ressaltada a compra de  100 unidades do biarticulado.

 Responsável por metade da frota de ônibus paulistana, Ruas diz que continuará investindo em novos veículos, buscando cada vez expandir seus negócios. “Enquanto eles insistem com os ‘cacarecos’, eu compro tudo novinho”, diz. Mantendo a tradição, Ruas acaba de pagar cerca de R$ 120 milhões por 100 unidades do modelo biarticulado da Volvo – todos os veículos serão encarroçados pela própria empresa de Ruas, a Caio Induscar. dizia trecho da reportagem à época.

CURIOSIDADES SOBRE OS BIARTICULADOS:

Um dos primeiros modelos de biarticulado na cidade de São Paulo: Torino LS

  • O primeiro biarticulado do Brasil foi para Curitiba, lançado em 1991. Era um Volvo B58E, com carroceria Ciferal, de 25 metros de comprimento.
  • Em 1995, era testado o primeiro biarticulado da cidade de São Paulo. O modelo foi um Torino LS. – Relembre história: https://diariodotransporte.com.br/2016/08/21/historia-torino-nome-forte-que-vence-as-decadas/
  • Segundo a SPTrans, em resposta ao Diário do Transporte, a maior frota em operação ao mesmo tempo de biarticulados foi com 122 veículos que permaneceram cadastrados até o período de julho de 2008 à novembro de 2008.
  • No ano de 2000, um trólebus especialmente encarroçado pela Marcopolo, com design totalmente diferente dos demais, chegou a circular sobre o Rio Tamanduateí na Avenida do Estado, por um período de quatro meses. O modelo, que começou a ser desenvolvido em 1997, era para o “Fura-Fila” um sistema de trólebus com guias laterais que circularia em elevados. Hoje, incompleto em relação ao projeto original, o sistema não é de trólebus e nem tem guias laterais, sendo um corredor de ônibus BRT denominado Expresso Tiradentes. A continuação da linha deve ser de monotrilho, mas o projeto de trens leves com pneus sofre atrasos de mais de cinco anos, está 83% mais caro e só tem duas estações em operação num trecho de apenas 2,3 km . Relembre a história: https://diariodotransporte.com.br/2017/03/12/historia-10-anos-de-expresso-tiradentes/
  • Em 2009, foi realizada uma das maiores compras únicas de biarticulados do mundo. O empresário José Ruas Vaz, da cidade de São Paulo, adquiriu 100 unidades do modelo biarticulado da Volvo por R$ 120 milhões (valor da época).
  • A ideia de ônibus biarticulado surgiu em Gunnar Marden (Suécia), no ano de 1947, quando a Scania-Vabis testou um protótipo de ônibus para puxar três trailers.
  • Em 1981, a Mercedes-Benz lançou o O305GG, um trólebus bidirecional (como no metrô, há cabine de condutor nos dois extremos), com guias laterais. Relembre neste link: https://diariodotransporte.com.br/2017/06/18/historia-um-onibus-de-duas-caras/
  • Em 1982, o primeiro ônibus biarticulado com características convencionais era lançado pela MAN. O modelo MAN Sgg280H tinha 24 metros. Eram 73 assentos e o motor ficava na parte traseira e era horizontal.
  • Em 1983, a fabricante Jieke Ka Lu Sha lançou o primeiro biarticulado com motor dianteiro do mundo, que se tem conhecimento. O modelo de 22,5 metros operou por dois anos na cidade de Shenyang, mas não deu certo porque era de difícil manobra.
  • O primeiro ônibus de motor vertical (parecido com o brasileiro B9SALF ou B360S) que se tem registro foi lançado em 1986. Era o modelo GX237, depois batizado de Megabus. O veículo foi feito numa parceria entre a chinesa Heuliez e a francesa Renault. O motor Mack de 6 cilindros, 11 litros e 280 cv vertical era na traseira. Depois de três anos de testes, o modelo começou a operar comercialmente na cidade de Bordeaux, na França. Em 1989, foram encomendadas dez unidades para linhas regulares. A cidade passou a deter, na época, a maior frota de biarticulados do mundo e a Renault era a maior fabricante.
  • No ano de 1988, a húngara Ikarus lança um biarticulado que ditaria as regras do mercado, apesar de, curiosamente ter sido um fracasso. Com 22,5 metros de comprimento, o ônibus tinha uma mecânica extremamente simples, o que serviu de base para as outras fabricantes adotarem soluções semelhantes e baratearem a aquisição e a manutenção dos seus modelos. O veículo foi um dos primeiros a ditar tendência também de motores de biarticulados, na posição horizontal entre os primeiro e segundo eixo. O fracasso se deu porque o motor usado era subdimensionado para o porte do veículo. Com motor fraco demais, o modelo Ikarus 293 foi vendido usado em 1992 para Teerã, no Irã. Mas em terras iranianas, o fraco motor Ràba/MAN foi trocado por um MAN turbo cooler mais potente. Em 1990, o Ikarus 293 chegou a ser produzido também em Cuba, com o nome Giron 293.
  • A belga Van Hool lançou em 1995, o modelo Agg300 de 25 metros, considerado o primeiro biarticulado com piso baixo total, igual aos usados em São Paulo. O motor era DAF turbo de 290cv, que ficava na posição vertical entre o primeiro e segundo eixos. Inicialmente, o modelo não fez sucesso e foi vendido para Luanda, na Angola.
  • Em agosto 2012, em Dresden, na Alemanha, é apresentado um ônibus biarticulado de 30 metros elétrico híbrido, o AutoTram Extra Grand. O projeto foi uma parceria da Goeppel Bus GmbH com o Instituto Fraunhofer. A tração vem por dois motores elétricos Wittur de 160kW (214cv) em conjunto com um motor Iveco 5 diesel Euro5 de 9 litros (295 cv) e com energia secundária de um pacote gerador de 235kW (315cv) , desenvolvido com motor diesel Mercedes-Benz de 4 litros. Com peso bruto de 44,7 toneladas, o biarticulado híbrido conta com baterias de íon e supercondensadores de descarga rápida.
  • Em junho de 2015, foi apresentado nas Filipinas um “quadriarticulado” . É um ônibus de 40 metros de comprimento, capacidade para mais de 300 passageiros, com quatro articulações e cinco “carros”. Chamado de Hybrid Road Train, espécie de trem da estrada, o projeto foi desenvolvido pelo DOST – Departament of Science e Technology’s das Filipinas. Relembre e veja vídeo acessando este link: https://diariodotransporte.com.br/2016/01/22/onibus-de-40-metros-de-comprimento-pode-ser-alternativa-para-sistemas-de-maior-capacidade/
  • Em 01º de novembro de 2016, a Volvo anuncia no Brasil o lançamento de um biarticulado de 30 metros de comprimento e capacidade para 300 passageiros. Com o nome comercial de Gran Artic 300, foi pensado inicialmente para os BRTs do Rio de Janeiro e tem a mesma mecânica do ônibus de 28 metros, mas a capacidade técnica aumentou de 40,5 toneladas para 45,3 toneladas. O Diário do Transporte foi o primeiro órgão feito por jornalistas a divulgar a novidade. Relembre: https://diariodotransporte.com.br/2016/11/01/volvo-divulga-imagem-de-biarticulado-com-30-metros-e-confirma-lancamento/
  • Quebrando mitos, as configurações trólebus e biarticulado se uniram e demonstraram ser o transporte do futuro, mais uma vez. Na 24ª edição da Busworld Europe, a maior e mais importante exposição e conferência mundial da indústria do ônibus, em outubro de 2017, na cidade de Kortrijk, na Bélgica, a Van Hool apresentou seu novo trólebus biarticulado de 24 metros para o sistema de Linz, na Áustria. Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2017/10/30/corredor-trolebus-piso-baixo-e-conectividade-sao-tendencias-para-melhorar-transportes-nas-cidades-dizem-especialistas-internacionais/

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

  1. Bruno Quintiliano disse:

    Fizeram história aqui em São Paulo. Mas acho que a pior incompatibilidade é entre o tipo de motor e o piso baixo. Perde muito espaço interno e o corredor fica apertado. Talvez um sistema que permitisse embarque em todas as portas, nos corredores, deixasse os biarticulados mais viáveis

  2. alextms disse:

    Uma coisa não ficou clara: Afinal, por que as empresas abandonaram os biarticulados? Houve restrição da SPTrans?

  3. Élio J. B. Camargo disse:

    A SPTrans ressaltou ainda que desde 2017, contando todos os tipos de ônibus, dos micros aos “superarticulados”, a renovação da frota representou 40% do total da cidade. “Desde o início de 2017, 5.718 ônibus novos (representando 40,79% da frota paulistana) foram substituídos por veículos mais sustentáveis e menos poluentes.”, mas ignora e se nega a exigir que todos os veículos das frotas omologadas ofereçam qualidade aos usuários (principalmente os de periferia), com piso baixo para acesso das pessoas (não é possível tolerar os 45 cm do piso alto) e câmbio automático, evitando solavancos, quedas (segurança!) e cansaço para os motoristas. As irregularidades das vias podem ser eliminadas, não podendo serem usadas como desculpas para não melhorar.

  4. Paulo Gil disse:

    Amigos, bom dia.

    Previsível, depois que desenvolveram os “articuladinha trucadinhos” eu mesmo já havia comentado no DT buque o bi articulado já era.

    Simplesmente uma questão de tempo; principalmente em Sampa.

    Talvez num corredor de grande porte pode ser que o bi articulado ainda tenha espaço, mas mesmo assim eu entendo que não.

    O “articuladinho trucadinho” é um show de buzão comparado ao bi articulado, ele é bem mais prático.

    $orte de quem desenvolveu o”articuladinho trucadinho”.

    Mas é isso, tudo evolui e para melhor.

    SAÚDE A TODOS!

    Att,

    Paulo Gil

  5. Entendo que a uma forte situação de extinção dos ônibus biarticulados na cidade de São Paulo devido a operação total da Linha 5 lilás do metrô onde opera na mesma área de atuação dos ônibus biarticulados inviabilizando sua operação , outro fator que deve se levar em consideração e o sucesso dos ônibus super articulados , na área operacional 7 denominada pela SPTrans os ônibus perderam muito passageiros para a linha 5 do metrô colocando o biarticulado numa situação onde não compensa pela demanda é claro que cada linha tem seus picos de demanda onde justifica veículo maior mas que os biarticulados ficaram bem distante da realidade ficaram

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