Corredor, trólebus, piso baixo e conectividade são tendências para melhorar transportes nas cidades, dizem especialistas internacionais.

Trólebus biarticulado Van Hool que entrará em operação no sistema de Linz, na Áustria.

No maior evento mundial sobre transportes, soluções de implantação barata, rápida e fácil são apontadas como as mais indicadas para deslocamentos urbanos

ADAMO BAZANI

A melhoria dos deslocamentos nas médias e grandes cidades em todo mundo não passa necessariamente por soluções caras e de difícil implantação.

Pelo contrário, as necessidades são urgentes e os recursos públicos são escassos (mesmo nas regiões mais abastadas do Planeta). Assim, quanto mais simples, rápido e eficiente, melhor é.

A conclusão é de especialistas em transportes de diversas partes do mundo que estiveram reunidos na  24ª edição da Busworld Europe, a maior e mais importante exposição e conferência mundial da indústria do ônibus. O evento ocorreu na semana passada, em e Kortrijk, na Bélgica, e reuniu quase 400 expositores de 36 países.

Além de produtos e serviços de transportes que têm ganhado destaque por causa do ineditismo, como os veículos autônomos, e aplicativos de informação ao passageiro e de gestão cada vez mais modernos, soluções já conhecidas, mas atualizadas, chamam a atenção de fabricantes, estudiosos, gestores públicos e especialistas

Diário do Transporte, por e-mail, conversou com o consultor e jornalista da área de transportes, José Carlos Secco, que esteve cobrindo no evento.

De acordo com Secco, muitas das soluções debatidas no encontro, já existem no Brasil, mas não recebem a valorização necessária para se aperfeiçoarem.

Confira na íntegra: da entrevista

Diário do Transporte: Quais são as impressões que você teve sobre o que as principais correntes de pensamento de gestão pública e privada entendem como solução para os deslocamentos das cidades?

José Carlos Secco: A primeira e mais importante é que o ônibus é sim um modal fundamental para a mobilidade e para o bem-estar da sociedade e é visto e tratado desta maneira. Não há retórica. Os cidadãos, querendo ou não, vão precisar utilizar o ônibus. É fato. Então, o dever da gestão pública, dos operadores e da indústria é prover o usuário com o melhor. E o melhor é o que torna a vida dele mais fácil, mais confortável, mais segura, mais programável e confiável.

A população continuará a crescer e precisará se deslocar. Se não houver condições para isso, todos perdem. Do usuário que não chega ao seu destino até o gestor, passando pelo operador que perde sua eficiência e rentabilidade, e a própria indústria.

O pensamento deveria ser que, para cada veículo de transporte individual circulando a mobilidade, o bem-estar e a preservação ambiental perdem um ponto. Precisamos mostrar e convencer este cidadão dessa realidade.

 

Diário do Transporte: Uma das tendências da mobilidade é o transporte menos poluente sobre pneus. No momento em que se discute modelos de ônibus sustentáveis, como elétricos com bateria, e a hidrogênio, como ficam soluções mais tradicionais, como os trólebus? Há cidades que vão investir ainda neste sistema. Existem fabricantes que estão lançando modelos de trólebus novos?

José Carlos Secco: Outra coisa que me surpreendeu foi a presença dos trólebus nos lançamentos de produtos. Vários fabricantes mostraram seus modelos, todos modernos, visualmente atraentes e eficientes. Linz, na Áustria é um exemplo, com veículos articulados. Mas há locais para os de tamanho convencional e muitos fabricantes também apostam no Trams (espécie de bonde que anda sobre trilhos). O fato é que cada metrópole ajusta e adequa a tecnologia disponível à sua realidade para otimizar a infraestrutura já existente e assim reduzir investimentos e custo. Alguns desses “bondinhos” são para lá de modernos e atraentes.

 

Diário do Transporte:Como devem ser os corredores de ônibus na visão dos especialistas que participaram do evento? Somente as grandes estruturas são encaradas como eficientes?

José Carlos SeccoNão. Eficiente é o que proporcionar o melhor transporte com os investimentos mais adequados e pertinentes. A pluralidade de soluções e de tecnologias aplicadas é a matriz escolhida. Se em uma cidade, por falta de infraestrutura para rede, a melhor opção for o gás, ótimo. E assim para cada tecnologia. Se não existem condições de se adotar o elétrico puro, opta-se pelo híbrido. Não existe verdade, sistema ou tecnologia absoluta. O futuro é uma composição das várias soluções existentes. Caberá a cada gestor definir o que é mais viável e aplicável à sua região para prover o transporte de qualidade. Neste caso não há relatividade.

 

Diário do Transporte: E como devem ser os veículos de transporte coletivo no entendimento da maior parte dos especialistas?

José Carlos Secco: O foco é atrair mais e mais usuários para o transporte coletivo, no caso o ônibus. Campanhas para que o consumidor troque o carro pelo ônibus (parece até brincadeira, pois culturalmente sabemos que os europeus usam muito mais o transporte coletivo do que nós). Então o que o transporte coletivo precisa oferecer é rapidez, fluidez, conforto, segurança, bem-estar e ser sustentável, favorecendo a preservação ambiental. Simples assim como velocidade de circulação, vias ou corredores exclusivos, sistema de ar-condicionado, wi-fi para conectividade, piso baixo para acessibilidade total e ganho de tempo nas paradas, tomadas USB para carregamento de equipamentos.

Aí me assustei porque temos isto no Brasil – em poucos locais e não divulgados e valorizados pela sociedade. A Metra, no Corredor ABD é um exemplo. A operadora oferece tudo isso, tem elevado índice de satisfação dos clientes (o mais alto de São Paulo) e investe no transporte coletivo de qualidade e eficiência.

Existem alguns outros, mas não conheço tanto quanto os serviços do Corredor ABD. Creio que o BRT do Rio de Janeiro e o transporte coletivo de Florianópolis, em Santa Catarina, e de Londrina, Paraná, são outros exemplos bons.

E aí entra a questão da divulgação dos bons modelos. Que há transporte coletivo vergonhoso no Brasil há e é preciso mostrar. Mas também devemos mostrar o que temos de bom. Infelizmente, o sonho de muitos brasileiros (e errado) é ter um automóvel. Deveria ser o bem-estar, a qualidade de vida e a sustentabilidade da nossa sociedade, para que estivéssemos sempre prosperando, em todos os sentidos, não só economicamente.

Veículos não poluentes com piso baixo trafegando em trechos segregados. O que é apontado como tendência mundial de mobilidade, no Brasil Corredor ABD agrega desde o final dos anos 1990. Corredor foi inaugurado em 1988, já com trólebus, mas ainda os veículos não tinham piso baixo, o que foi adotado pela concessionária Metra

Diário do Transporte: Além de um ônibus rápido e confortável, o que mais os passageiros esperam de um sistema de transportes sobre pneus?

José Carlos Secco: Segurança, conectividade, facilidade para pagar remotamente, respeito ao usuário, valorização do modal como transporte digno e confiável. No Brasil, só anda de ônibus quem não tem outra opção, pois quando tem, muda. Está errado. Precisamos quebrar este “círculo vicioso”. O gestor vai precisar investir e apostar primeiro no modal como solução. Priorizar realmente, dar “status” de transporte eficiente, correto, de qualidade.

Não adianta ficarmos esperando a população optar pelo ônibus sem garantias do serviço de extrema qualidade. Foi-se este tempo e foi-se esta chance.

O usuário precisará ser cativado e conquistado. Um a um. Será uma batalha longa e de convencimento, mas não há outro jeito.

 

Diário do Transporte: O Brasil está muito longe das tendências mundiais de mobilidade? Há exemplos, por aqui, que mostram que os sistemas brasileiros podem corresponder às exigências dos usuários, como você mencionou, então, qual o principal problema para que estes exemplos não sejam seguidos?

José Carlos Secco: Sim. Existem alguns exemplos, como mencionei. O problema é que são em muito menor número que os maus exemplos. E acabamos nivelando por baixo. Falou em ônibus, já pensamos no “inferno” da lotação, da demora, do desconforto, da insegurança, da condução agressiva e hostil e da perda total de tempo.

 

Diário do Transporte: Em relação a produtos e modelos, quais que mais se destacaram no evento?

José Carlos SeccoTodos os principais fabricantes apresentaram seus modelos 100% elétricos. Mas o que mais me chamou a atenção é que o ônibus passou a ser mais sofisticado que os automóveis de luxo. O acabamento, os itens de segurança ativa e passiva, a preservação ambiental das novas motorizações. Junto com toda essa inovação e sofisticação, também ganha status de a escolha correta, sustentável, ecológica e social.

 

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

1 comentário em Corredor, trólebus, piso baixo e conectividade são tendências para melhorar transportes nas cidades, dizem especialistas internacionais.

  1. Esse ônibus da Van Hool é muito top.

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