Empresários de ônibus de Salvador, pressionados por campanha salarial de rodoviários, reclamam de alta taxa de evasão e gratuidade

Foto: Ilustração Emanuel Edson / Ônibus Brasil

Quase metade dos usuários de ônibus não paga tarifa; alegando prejuízo, empresas não querem ceder em negociação salarial. Semob aposta em BRT

ALEXANDRE PELEGI

Uma auditoria feita pela Grant Thornton, e apresentada pelas empresas de ônibus do sistema de transporte coletivo de Salvador, apontou que pelo menos 50% dos usuários andam de graça nos coletivos de Salvador. Isso se deve tanto à evasão (não passam pela catraca), quanto aos benefícios de gratuidade, o que redundou em prejuízos de R$ 280 milhões no ano de 2017. Ainda segundo a auditoria, desde 2016 existe “incerteza relevante relacionada com a continuidade operacional do sistema de transporte“.

No dia 2 de fevereiro deste ano as empresas entraram na Justiça requisitando o fim do contrato com a prefeitura. No processo protocolado junto à 4ª Vara da Fazenda Pública, em que formalizam o desejo de devolver o serviço à administração municipal, as concessionárias alegaram “irregularidades na licitação e o não cumprimento de obrigações referentes ao equilíbrio econômico-financeiro dos contratos de concessão”.

O fato foi lembrado hoje, dia 17 de maio, em artigo do Blog ‘Bahia Notícias’, que aponta o outro lado da pressão feita pela categoria dos rodoviários, que cobram há quatro meses um reajuste salarial de 6%, e aumento de 10% no ticket alimentação.

A tensão entre empresários e trabalhadores culminou, na manhã de ontem (16), na paralisação parcial de 900 ônibus do Consórcio OT Trans.

A negociação entre concessionárias e sindicato dos rodoviários tem data limite para encerrar: 30 de maio, menos de duas semanas.

A Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (Semob) procura uma saída intermediária para o impasse.

Fábio Mota, secretário da Semob, revelou em entrevista que a intenção é encontrar uma proposta que seja o meio termo entre as partes. “A expectativa é que a gente consiga resolver o impasse e a cidade não sofra com uma paralisação geral dos transportes”. E confirma a perda de receita das empresas do sistema Integra, que reúne as empresas que prestam serviços de ônibus na capital. Segundo ele, Salvador tem a maior evasão de ônibus no Brasil: “é por aqui onde mais as pessoas deixam de passar pela catraca dos transportes públicos. Pelos cálculos da Semob, cerca de 20% dos usuários burlam a catraca e pelo menos outros 30% são beneficiados pela gratuidade”.

Ainda segundo o Mota, a crise econômica diminuiu a demanda por ônibus: “Se a demanda era estimulada em 28 milhões de passageiros, o número caiu para 22 milhões por ano. Mas não caiu só em Salvador e a crise não é só no transporte. Aumentou, no país, o desemprego e diminuíram as obras de construção civil. Consequentemente, também caiu a necessidade das pessoas de andar de ônibus”.

Dados da Semob indicam que, pelo menos, 30% da população de Salvador passou a andar a pé nos últimos anos.

Para complicar a situação do transporte por ônibus na capital da Bahia, a chegada do metrô tirou passageiros do setor, que ainda é pressionado pelo transporte metropolitano. Sobre isso, Fábio Mota disse ao Blog ‘Bahia Notícias’ que os ônibus metropolitanos tiram mais de 2 milhões de passageiros dos da capital. “Na orla de Salvador você tem mais ônibus metropolitano do que urbano. A cada unidade urbana, passam três metropolitanas”.

Como solução a médio prazo, Mota aposta no BRT, modal que deverá transportar pelo menos 31 mil pessoas por hora, e será operado pelas mesmas empresas que cuidam dos ônibus. No novo sistema, o Semob lembra que pelo menos a evasão não será mais problema.

BRT DE SALVADOR: SOLUÇÃO PARA O FUTURO, POLÊMICA NO PRESENTE

O projeto de BRT de Salvador tem gerado polêmica.

Primeiramente foram os auditores do TCU – Tribunal de Contas da União, que anunciaram estar em análise pelo órgão a liberação de R$ 300 milhões feita pelo Governo Federal para a segunda fase das obras do sistema de BRT da capital baiana. Segundo o Tribunal, a liberação teria desrespeitado a Lei de Responsabilidade Fiscal, pois foi assinada em meio a vários cortes na pasta e sem a conclusão de outros projetos em andamento.

Ao mesmo tempo, grupos de manifestantes têm organizado protestos no local das obras, se posicionando contra a derrubada de árvores para a instalação do corredor do BRT. Até o dia 5 de maio de 2018 já tinham ocorrido 3 protestos.

As obras do primeiro trecho do BRT de Salvador tiveram início no dia 29 de março de 2018. Com 2,9 km de extensão, o trecho ligará a região do Parque da Cidade à estação de integração do metrô na área da rodoviária e Shopping da Bahia. O segundo trecho do BRT, com 5,5 km de extensão, ligará o Parque da Cidade e a Lapa.

Dentre as críticas, além das questões ambientais, estão as obras físicas. A posição de arquitetos e engenheiros de transporte é de que as linhas de ônibus expressas podem correr em faixa exclusiva, mas sem a necessidade de obras de grande porte, como viadutos.

A reação do prefeito ACM Neto (DEM) tem sido irredutível: o projeto do BRT não será modificado “de jeito nenhum”.

Dentre os que têm se posicionado contra o corredor, figura o marido da popular cantora baiana Ivete Sangalo, o nutricionista Daniel Cady. Em sua página do Instagram ele se manifestou contra o BRT: “Existem opções mais baratas, com menos impactos ambientais e urbanísticos para melhorar o transporte coletivo. Salvador não quer este projeto!”

Depois foi a vez de Caetano Veloso, um dos mais populares artistas baianos, se colocar contra o projeto.

Em um vídeo publicado nas redes sociais da plataforma de preservação ambiental 342 Amazônia, Caetano explicita sua posição crítica ao BRT: “Salvador precisa é que se plantem árvores nela, não que se lhe cortem árvores. Para a modernização do transporte público na cidade é preciso uma conversa boa, produtiva, responsável e corajosa da prefeitura da cidade com os ambientalistas, com os urbanistas, com as pessoas que discutem a questão da sociedade na Bahia”.

De quebra, o baiano critica a falta de debate com a sociedade: “O BRT que está sendo anunciado está sendo justamente discutido por pessoas que têm preocupações com essas questões. E eu acho que sem o avanço dessas discussões não se pode aceitar que se cortem árvores centenárias e que se danifique a paisagem urbana de Salvador por uma opção de ‘progresso’”. O músico avalia o modal como uma “opção de progresso duvidoso”.

Veja o vídeo:

Agora, o movimento contra o BRT prepara para o próximo sábado, dia 12 de maio, mais uma manifestação em frente ao Hospital Aliança, na Avenida ACM. A mobilização está sendo puxada por grupos no WhatsApp, dentre eles um cujo nome é ‘Não ao BRT’.

RESPOSTA DA PREFEITURA

O Secretário municipal de Mobilidade de Salvador, Fábio Mota, reagiu em nome da prefeitura. Ele afirmou através de matéria publicada do site da administração municipal que as críticas ao BRT feitas por artistas, muitos dos quais nem moram em Salvador, são fruto de desconhecimento do projeto.

“Tem gente entrando numa onda de boatos e notícias falsas sobre o BRT sem nem procurar se informar sobre o projeto, inclusive pessoas conhecidas que nem em Salvador mora. Esse é um projeto que vai resolver em definitivo problemas de mobilidade e de infraestrutura em uma das áreas mais movimentadas da cidade. É um projeto voltado para os mais pobres, beneficiando diretamente 340 mil pessoas”, declarou.

Continua o texto publicado no site oficial da Prefeitura de Salvador:

Fábio Mota afirmou que, entre as mentiras espalhadas, está a de que o projeto vai custar R$1 bilhão. “A Prefeitura conseguiu um orçamento de R$820 milhões para a obra inteira. Mas isso é o teto. Toda a obra deverá custar algo em torno de R$500 milhões, após a licitação do segundo trecho. Para o primeiro trecho, o orçamento era de R$377 milhões, mas, após a licitação, ficou em R$212 milhões. E é uma obra completa, que vai resolver em definitivo problemas de alagamentos em vias como a ACM e Juracy Magalhães, uma demanda antiga da cidade, e também melhorar a mobilidade para quem anda de carro ou bicicleta. Os engarrafamentos irão diminuir, melhorando a qualidade de vida das pessoas. A Prefeitura está assumindo as suas responsabilidades com esse projeto”, declarou. 

O secretário disse que as críticas ao projeto são elitistas. “Mais de 340 mil pessoas que hoje andam de ônibus por onde o BRT vai passar serão beneficiadas. Por isso, os moradores de localidades como a Polêmica, Nordeste de Amaralina, Santa Cruz, Vale das Pedrinhas ou Vale das Muriçocas são a favor do projeto, porque essas pessoas necessitam de um transporte mais rápido, mais confortável, mais seguro, com maior capacidade de passageiros, com ar-condicionado, que trafegue em vias exclusivas. Quem critica o BRT desconhece a realidade diária desses cidadãos”, frisou.

No final da publicação, a prefeitura repete uma lista de dez razões que explicam por que o BRT é importante para Salvador:

1 – O BRT será um ônibus maior (23 metros), com ar-condicionado e que vai fazer a ligação entre a Lapa e a região da rodoviária passando por avenidas como Vasco da Gama, Juracy Magalhães e ACM, em trajeto diferente do realizado pelo metrô;

2 – Por circular em vias exclusivas e segregadas de tráfego, o BRT não vai pegar semáforo ou cruzamento. Por isso, ele vai fazer a ligação entre a Lapa e a região da rodoviária em apenas 16 minutos;

3 – Cerca de 340 mil pessoas circulam diariamente de ônibus comum na região por onde o BRT vai passar, com a utilização de 68 linhas. Além disso, 7 em cada 10 passageiros que utilizam ônibus em Salvador tem como ponto de partida ou destino a região por onde o BRT vai circular;

4 – O BRT só vai parar em estações próprias, confortáveis e modernas, de forma programada. Em situações normais, nunca haverá atraso;

5 – O BRT polui menos do que o ônibus comum e, por ser um transporte melhor, vai permitir que mais pessoas deixem os carros em casa para trabalhar. Além disso, ele poderá ser elétrico ou híbrido;

6 – Por utilizar pneus, o BRT, que foi inventado no Brasil e utiliza tecnologia 100% nacional, pode ter linhas extensivas, deixando as vias exclusivas quando necessário. Além disso, ele poderá ser expandido mais rapidamente para o Subúrbio e o Centro da cidade, como prevê a Prefeitura em seu Plano de Mobilidade;

7 – O projeto do BRT envolve, além da construção das vias exclusivas, a implantação de viadutos que irão solucionar o problema da mobilidade em áreas sensíveis da cidade. Mesmo quem utiliza automóvel será beneficiado com a eliminação de semáforos, cruzamentos e retornos;

8 – O projeto do BRT prevê ainda investimentos que irão solucionar problemas de alagamento em vias importantes de Salvador;

9 – Junto com os corredores exclusivos do BRT, a cidade vai ganhar uma ciclovia segregada ligando a Lapa à região da rodoviária;

10 – O BRT será 100% integrado ao metrô e ao ônibus comum, com tarifas que estarão de acordo com as cobradas por esses modais. 

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

 

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