Após fim de contrato com terceirizada, linhas da CPTM sofrem problemas de manutenção. Empresa nega

Publicado em: 26 de fevereiro de 2018

Trem de carga que descarrilhou na noite de 17 de agosto e prejudicou as operações da linha 7 Rubi da CPTM no dia 18. Foto: TV Globo/Reprodução – Clique na Foto para Ampliar

Funcionários confirmam denúncias recebidas pelo Diário do Transporte, de que descarrilamentos ocorreram por falta de manutenção e que trilhos que deveriam ser trocados, estão sendo apenas remendados. Companhia de trens contesta e diz que licitação para nova empresa está em andamento

ADAMO BAZANI

Funcionários da CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos confirmaram ao Diário do Transporte denúncias recebidas pela redação que uma série de descarrilamentos que ocorreram no ano passado teve como causa a falta de manutenção adequada dos trilhos.

A empresa nega e diz que as linhas são seguras, com a atuação de 2 mil funcionários da área de manutenção, dos quais 800 atuando nas instalações fixas, como as vias.

Ainda de acordo com as denúncias, que foram posteriormente checadas pela reportagem junto a funcionários em campo, os problemas de manutenção foram agravados depois de agosto de 2017, quando terminou o contrato com a empresa Ferreira Guedes, responsável pela manutenção das vias da linha 7 – Rubi (Luz – Francisco Morato – Jundiaí) e 10 Turquesa (Brás – Santo André – Rio Grande da Serra).

A CPTM confirmou à reportagem o fim do contrato e diz que está em andamento um processo de licitação para a contratação de outra empresa para os serviços de manutenção. A operadora estatal, no entanto, não informou quando será concluído este processo de licitação.

A reportagem pesquisou, com ajuda de fontes, e encontrou um edital de manutenção das vias com entrega de proposta prevista para o para o dia 09 de março.

As propostas deveriam ter sido entregues em janeiro, depois fevereiro e a nova previsão é março. Houve mais de uma centena de questionamentos de empresas possivelmente interessadas na concorrência.

Questionamentos-licitação-CPTM

A empresa de trens do Governo do Estado de São Paulo, no entanto, garante que a equipe atual própria é suficiente para garantir as vias em condições adequadas.

“O quadro próprio da manutenção auxilia constantemente nos serviços das terceirizadas e atua na transição de contratos entre uma empresa e outra, como o que está ocorrendo no momento nas Linhas 7-Rubi e 10-Turquesa. O contrato de manutenção dessas linhas foi encerrado em 31 de agosto do ano passado e a contratação de nova empresa está em processo de licitação.  Assim, a manutenção está sendo realizada pela equipe própria, sem qualquer prejuízo aos serviços de conservação das vias.”

Com a condição de anonimato, temendo represálias, um funcionário que atua na linha 10 Turquesa discorda.

“Mas é claro que onde tinha 80 funcionários e agora tem só uns 15 ou 20 vai comprometer a manutenção e a segurança. A verdade é que somos heróis aqui. Nos desdobramos” – disse o funcionário.

Segundo denúncias confirmadas por funcionários em campo, bitola (distância entre os trilhos) abriu. CPTM nega. Foto: Ricardo Guimarães/Futura Press

De acordo com a denúncia recebida pelo Diário do Transporte, as linhas 7 e 10, antes do fim do contrato tinham juntas 300 funcionários na manutenção, agora, são em torno de 30.

“Desde então [fim do contrato] as manutenções dos mais de 100 km de vias (linha 7 + linha 10) estão sendo executados por 15 funcionários da CPTM na linha 10 (base em São Caetano) e 15 funcionários da CPTM na Linha 7 (bases em Francisco Morato e Lapa). Não são 90 funcionários conforme falou o presidente da CPTM.”

“A empresa contratada trabalhava na linha 7 com 180 homens e na linha 10 com 120 homens, trabalhando dia e noite e nos finais de semana.” – continuou.

A denúncia recebida pela reportagem e confirmada por funcionários da CPTM revela que casos de descarrilamentos de trens ocorreram por causa da falta de manutenção das vias, como ao final do contrato, em 17 de outubro do ano passado, quando uma composição de carga descarrilou entre as estações Baltazar Fidélis e Francisco Morato, da linha 7-Rubi (Luz-Jundiaí), interrompendo a circulação na CPTM.

“A causa do acidente foi bitola em decorrência de falta de manutenção. Não foi vagão com excesso de peso conforme falou o presidente da CPTM. Bitola é a distância entre os trilhos. A distância correta é 1,60 m. Como neste local a bitola estava maior, as locomotivas descarrilaram.” – diz o denunciante que ao entrar em contato com o Diário do Transporte pediu para não ser identificado.

Em nota, a CPTM negou que a causa tenha sido a situação dos trilhos.

“Quanto ao descarrilamento de trens de carga na Linha 7, ocorrido em 17 de agosto, não procede a afirmação de que foi por falta de manutenção. Como informado, o contrato com terceiros teve vigência até o dia 31 de agosto e a partir daí a equipe própria assumiu os serviços naquela linha.”

A denúncia cita datas anteriores ao fim do contrato e outras linhas em casos de descarrilamento que teriam sido causados por problemas de manutenção das vias.

“A primeira foi em 23/02/2017, quando um trem descarrilou na linha 12-Safira (Brás-Calmon Viana), na zona leste da cidade. O acidente aconteceu de madrugada e atingiu a rede de energia, interrompendo a circulação de trens. Em 13/03/2017, um trem de carga, que compartilha as linhas da CPTM, descarrilou na Estação Itapevi da linha 8-Diamante (Itapevi-Júlio Prestes). Em 12/07/2017, outro descarrilamento afetou o funcionamento da linha 8, entre as estações Engenheiro Cardoso e Itapevi. No dia 27/09/2017, foi a vez da linha 11-Coral (Luz-Estudantes) ser afetada por um acidente deste tipo. O acidente aconteceu na área de manobras da Estação da Luz.”

A reportagem enviou à CPTM a íntegra da denúncia, inclusive exatamente este texto acima, mas a empresa não comentou estes casos.

Na linha 10, segundo a denúncia, só são feitos apenas remendos emergenciais nos trilhos.

“Aqui na linha 10 tem um problema constante de quebra de trilhos devido os mesmos serem velhos. Quase todos os dias ocorrem falhas por trilhos partidos. Tem dias que quebram até 3 trilhos. Quem atendia estas falhas era a empresa contratada. Os funcionários da CPTM não estão dando conta de executar estas falhas (substituição do trilho velho) e acabam deixando os trilhos com emendas de emergência para que no futuro sejam substituídos. Somente executam rondas para detectar problemas e relacioná-los para quando a empresa terceirizada entrar os serviços serem executados. Eles não estão executando nenhum tipo de serviço para manter as vias. Atendem somente emergências que são muitas. Isso é verdadeiramente brincar com a vida de milhões de pessoas que utilizam a CPTM. Este é somente um dos graves problemas que estão ocorrendo após a saída da empresa contratada.”

Além de faltarem trabalhadores, a denúncia diz que não há máquinas suficientes para a manutenção porque os equipamentos pertenciam à empresa que deixou de prestar serviços.

“Todas as máquinas usadas na manutenção pertencem a empresa contratada. Exemplos: máquinas de grande porte como socadora, alinhadora e niveladora de via, reguladora de lastro, caminhão de linha, pá carregadeira, retroescavadeira, rolocompactador, trator de esteiras, etc. E máquinas de pequeno porte como tiferonadeiras, furadeiras de dormentes e trilhos, roçadeiras, equipamentos para solda de trilhos entre outros. A CPTM possui somente alguns destes equipamentos, mas em péssimo estado de conservação e com defeito. Somente a locomotiva que é disponibilizada pela CPTM, pois está no contrato, mas a mesma vive na oficina em conserto, cancelando assim várias programações de serviço no campo devido à ausência da mesma.”

A CPTM não comentou sobre os equipamentos apesar do questionamento da reportagem.

A denúncia ainda diz que os contratos de manutenção de outras linhas da CPTM já estão em aditivos e vão até maio, mas sem ainda sinalização de nova licitação ou renovação das contratações.

Em nota, a CPTM diz que malha das linhas “é totalmente segura”.

CONFIRA NA ÍNTEGRA:

DENÚNCIA:

No dia 17/08/2017 cinco locomotivas de carga descarrilaram entre as estações Baltazar Fidelis e Francisco Morato, da linha 7-Rubi (Luz-Jundiaí), interrompendo a circulação na CPTM. A causa do acidente foi bitola em decorrência de falta de manutenção. Não foi vagão com excesso de peso, conforme falou o presidente da CPTM. Bitola é a distância entre os trilhos. A distância correta é 1,60 m. Como neste local a bitola estava maior, as locomotivas descarrilaram. Essa tragédia foi uma das muitas que ocorreram na CPTM em 2017. A primeira foi em 23/02/2017, quando um trem descarrilou na linha 12-Safira (Brás-Calmon Viana), na zona leste da cidade. O acidente aconteceu de madrugada e atingiu a rede de energia, interrompendo a circulação de trens. Em 13/03/2017, um trem de carga, que compartilha as linhas da CPTM, descarrilou na Estação Itapevi da linha 8-Diamante (Itapevi-Júlio Prestes). Em 12/07/2017, outro descarrilamento afetou o funcionamento da linha 8, entre as estações Engenheiro Cardoso e Itapevi. No dia 27/09/2017, foi a vez da linha 11-Coral (Luz-Estudantes) ser afetada por um acidente deste tipo. O acidente aconteceu na área de manobras da Estação da Luz.

O fato é que desde o dia 15/08/17, a CPTM encerrou o contrato da empresa contratada que executa a manutenção nas linhas 7 Rubi e 10 Turquesa. O contrato de manutenção foi de 4 anos iniciando em Agosto de 2013 até Agosto de 2017 no valor de R$ 122 milhões e executado pela Construtora Ferreira Guedes. A empresa contratada trabalhava na linha 7 com 180 homens e na linha 10 com 120 homens, trabalhando dia e noite e nos finais de semana. E ainda assim este efetivo precisaria ser maior. A mesma não aceitou o convite da CPTM para continuar por mais 6 meses através de um aditivo. A empresa solicitou que a CPTM liberasse serviços para um faturamento de R$ 5 milhões por mês e a CPTM não aceitou alegando que somente podia liberar serviços para um faturamento de, no máximo, R$ 2,5 milhões por mês. Há uma grande necessidade de serviços a serem executados nestas vias e esta liberação no faturamento favoreceria a manutenção, pois mais serviços seriam executados com mais dinheiro liberado. Com o não da CPTM, a empresa aguardou o fim do contrato (Agosto 2017) e retirou-se. Desde então, as manutenções dos mais de 100 km de vias (linha 7 + linha 10) estão sendo executados por 15 funcionários da CPTM na linha 10 (base em São Caetano) e 15 funcionários da CPTM na Linha 7 (bases em Francisco Morato e Lapa). Não são 90 funcionários conforme falou o presidente da CPTM. Problemas como quebra de trilhos, deslocamento e desnivelamento de via, dormentes podres, etc, não estão sendo solucionados por falta de efetivo suficiente da CPTM para a execução da correção. Aqui na linha 10, tem um problema constante de quebra de trilhos devido aos mesmos serem velhos. Quase todos os dias ocorrem falhas por trilhos partidos. Tem dias que quebram até 3 trilhos. Quem atendia estas falhas era a empresa contratada. Os funcionários da CPTM não estão dando conta de executar estas falhas (substituição do trilho velho) e acabam deixando os trilhos com emendas de emergência para que no futuro seja substituído. Somente executam rondas para detectar problemas e relacioná-los para quando a empresa terceirizada entrar os serviços serem executados. Eles não estão executando nenhum tipo de serviço para manter as vias. Atendem somente emergências que são muitas. Isso é verdadeiramente brincar com a vida de milhões de pessoas que utilizam a CPTM. Este é somente um dos graves problemas que estão ocorrendo após a saída da empresa contratada.

Conforme mencionei no início a causa do descarrilamento das 5 locomotivas foi abertura de bitola. Abertura de bitola é significado de falta de manutenção. Falta de manutenção devido a poucos funcionários da CPTM. Poucos funcionários devido à saída da empresa contratada.

A empresa contratada é muito importante para a manutenção das vias na CPTM. A empresa contratada entra com mão de obra e equipamentos no contrato. A CPTM somente programa os serviços no trecho e fiscaliza. Todo o restante é com a empresa contratada. Todas as máquinas usadas na manutenção pertencem a empresa contratada. Exemplos: máquinas de grande porte como Socadora, alinhadora e niveladora de via, Reguladora de lastro, caminhão de linha, Pá Carregadeira, Retroescavadeira, Rolocompactador, trator de esteiras, etc. E maquinas de pequeno porte como Tiferonadeiras, Furadeiras de Dormentes e Trilhos, Roçadeiras, equipamentos para solda de trilhos entre outros. A CPTM possui somente alguns destes equipamentos, mas em péssimo estado de conservação e com defeito. Somente a locomotiva que é disponibilizada pela CPTM, pois está no contrato, mas a mesma vive na oficina em conserto cancelando assim várias programações de serviço no campo devido à ausência da mesma.

Ainda não há nenhuma previsão para entrar uma nova empresa terceirizada nas linhas 7 e 10. O contrato da empresa terceirizada (Consorcio TS) que executa a manutenção nas linhas 8, 9, 11 e 12 vai até Maio e já está cumprindo o aditivo. Analisando tudo que vem acontecendo, acredito que em breve todas as linhas da CPTM estarão sem nenhuma empresa para cuidar da manutenção das suas vias. A nova licitação para a manutenção de todas as 6 linhas da CPTM foi publicada no final de Outubro e o resultado seria divulgado no início de Dezembro. Mas por motivo desconhecido de todos, o resultado foi adiado para Janeiro, depois para fevereiro e agora passou para 9 de março mas não há nenhuma garantia que vai ocorrer pois pode ser adiada pela 4ª vez. A CPTM não explicou o motivo destes adiamentos. Enquanto isso as linhas 7 e 10 continuam abandonadas e a população correndo grande risco.

 

RESPOSTA CPTM:

A CPTM garante que a ferrovia é totalmente segura. Por dia útil, são realizadas cerca de 2.700 viagens, transportando, em média, 2,8 milhões de passageiros. A Companhia possui 2000 empregados na área de manutenção, sendo 800 deles atuando nas instalações fixas, entre elas as vias.

O quadro próprio da manutenção auxilia constantemente nos serviços das terceirizadas e atua na transição de contratos entre uma empresa e outra, como o que está ocorrendo no momento nas Linhas 7-Rubi e 10-Turquesa. O contrato de manutenção dessas linhas foi encerrado em 31 de agosto do ano passado e a contratação de nova empresa está em processo de licitação.  Assim, a manutenção está sendo realizada pela equipe própria, sem qualquer prejuízo aos serviços de conservação das vias.

Quanto ao descarrilamento de trens de carga na Linha 7, ocorrido em 17 de agosto, não procede a afirmação de que foi por falta de manutenção. Como informado, o contrato com terceiros teve vigência até o dia 31 de agosto e a partir daí a equipe própria assumiu os serviços naquela linha.

 

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

  1. Campos disse:

    Não está bom, mas também não é esta zona e bagunça que foi relatada

  2. Pingback: Licit Mais Brasil
  3. klebersantoscruz01@gmail.com disse:

    Trabalho nesta área e confirmo que o consórcio ts manutenção presta um excelente serviço com aparelhos de última geração

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