Ministério Público vai pedir ao Metrô de SP e à concessionária esclarecimentos sobre pedaço de viga de monotrilho que caiu em ciclovia
Publicado em: 26 de setembro de 2022
Conselheiro do CREA diz que este tipo de incidente não é comum e defende manutenção criteriosa
ADAMO BAZANI
O promotor Silvio Antônio Marques, da Promotoria de Justiça do Patrimônio Público da Capital, do Ministério Público de São Paulo, informou nesta segunda-feira, 26 de setembro de 2022, que vai pedir ao Metrô e à concessionária responsável pela implantação do sistema, CMEL (Consórcio Monotrilho Expresso Leste) esclarecimentos sobre a queda de um pedaço de concreto de uma viga da linha 15-Prata do monotrilho da zona Leste da capital paulista.
Segundo o promotor, o fato vai ser apurado no inquérito que investiga o estouro da roda de um dos trens que trafegam nos elevados, ocorrido no início de 2020, causando a interrupção dos serviços por 100 dias. A investigação verifica indícios de que falhas nas vigas contribuíram para o acidente. Uma peça de grande porte da roda chegou a cair na Avenida Professor Luís Inácio de Anhaia Mello.
Relembre:
Como mostrou o Diário do Transporte em primeira mão na sexta-feira (23), na noite de quinta-feira (22), ocorreu a queda de um pedaço da estrutura do pilar 45, sobre a ciclovia que passa embaixo do monotrilho também na Avenida Professor Luís Inácio de Anhaia Mello.
O pilar 45 fica entre as estações Oratório e São Lucas.
Relembre a matéria em primeira mão:
O Metrô de São Paulo disse que não houve abalo na estrutura e que foi realizada, durante um trabalho de manutenção, a retirada do “excesso de cimento” do canto da viga.
A versão do Metrô de São Paulo foi colocada em dúvidas por especialistas que disseram ao Diário do Transporte que “é nítido” que caiu pedaço e não era excesso de cimento, além de não descartarem riscos aos passageiros e, principalmente, a pedestres, ciclistas, motoristas e até passageiros e motoristas de ônibus.
“Pode haver uma redução brusca de velocidade do monotrilho e os passageiros caírem justamente pelas rodas do monotrilho passaram por perfis diferentes na viga. Para quem está embaixo, é pior ainda. Imagine um pedaço desse concreto atingindo o para-brisa de um veículo. A altura de onde se solta o pedaço de concreto é outro fator. Ao cair, pela força empreendida sobre o pedaço, peso pode ser tornar dez vezes maior. Dependendo do tamanho deste pedaço, ele pode chegar embaixo com um tal peso capaz de perfurar facilmente o teto de um ônibus, mesmo sendo este um veículo com uma estrutura mais forte que outro carro menor” – explicou um dos especialistas ouvidos pelo Diário do Transporte, o técnico em edificações formado pela Escola Técnica Getúlio Vargas e arquiteto e urbanista pela FIAM FAAM (FMU), Raphael Toscano
Relembre:
O Diário do Transporte também conversou, por e-mail, com o Engenheiro Civil Roberto Racanicchi, conselheiro e coordenador adjunto da Câmara Especializada de Engenharia Civil (CEEC) do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP).
Racanicchi diz que este tipo de incidente não deve ser encarado como comum e defendeu manutenção criteriosa.
Veja a entrevista abaixo:
A queda destes pedaços da viga-guia do monotrilho coloca em risco a operação deste modal?
O que aconteceu não significa que se deve tirar o trem de operação. Como as vigas principais são peças independentes e pré-moldadas, elas precisam de uma ligação entre si e essa ligação é feita por concreto adicionado in loco, que é inclusive, a parte que se soltou. Essa ligação em que se preenche com concreto “novo”, após içamento e posicionamento das estruturas principais deve estar sempre em manutenção. Isso porque é preciso que haja uma continuidade da superfície de apoio do trem.
Não aconteceu nada com a viga principal em si, é o concreto de ligação que pode se desprender.
É comum em estruturas deste tipo, partes do material composto acabarem se desprendendo e vindo a se soltar?
Não podemos dizer que é comum. Estamos falando de uma estrutura submetidas a ações dinâmicas, diferente de casas, prédios, supermercados, por exemplo, que têm, em maioria, ações estáticas. No caso do monotrilho, você tem um trem passando, em movimento e esse movimento faz com que as estruturas se desgastem um pouco mais e de forma mais rápida. Quando se tem esse carregamento dinâmico, a probabilidade de uma estrutura durar menos é maior. Quer dizer, o segredo é a manutenção. Tem sempre que se fazer a inspeção do monotrilho e a manutenção com reparos, quando necessário, para que se tenha uma continuidade da via.
Caso sim, é possível determinar os motivos causadores?
Tecnicamente, ocorreram deformações por elementos com módulos de elasticidade distintos. O concreto adicionado pode ter uma resistência à compressão diferente da viga principal, por exemplo, e essa diferença pode fazer com que as dilatações e retrações sejam distintas entre as peças. Então, associam-se módulos de elasticidades distinto, em geral por variação de temperatura, com a utilização das estruturas submetidas a efeitos dinâmicos e, assim podemos ter problemas como no caso, em curtos períodos. Na hora em que adicionamos um concreto de ligação, a ideia é que se tenha as mesmas propriedades mecânicas da viga principal, como, por exemplo, a resistência do concreto, pois, caso contrário, podemos ter deformações distintas e desprendimentos de parte do concreto adicionado. Provavelmente é o que aconteceu neste caso.
Isso quer dizer que o projeto deve levar a continuidade em consideração, com uso de material que tenha a mesma elasticidade, para que não tenhamos grandes deformações. Assim as peças ficam por mais tempo lineares e sem desprender pedaços.
Quais procedimentos devem ser adotados pelo Metrô no caso, para conservar as vigas para evitar o desgaste?
O procedimento é de padrão de qualidade. Como são feitos vários preenchimentos e ligações e o concreto é resultado de um composto preparado em várias partes, horários e momentos, tende-se a ter variações de resistência. Se existe um controle de qualidade que faz com que todas as adições feitas sejam bem parecidas e controladas e a empresa, com certeza, faz isso, a durabilidade, então, é bem maior.
Com as imagens que enviamos a vocês, é possível definir como um incidente previsível, comum ou de certa gravidade?
É previsível, pois a probabilidade de acontecer existe. Não se trata de um caso de ruptura. A ruptura de uma estrutura de grande porte como essa é praticamente zero.
A queda pode ser fruto da trepidação resultante da contínua passagem de trens pelo trecho?
A queda desse pedaço de concreto tem probabilidade no desgaste mais rápido por conta dos efeitos dinâmicos de utilização, que é quase constante.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

