Relatório do MP aponta que estouro de pneu monotrilho da linha 15-Prata foi motivado por problemas nas obras e na fabricação de trens

Run Flat, parte interna da roda que se soltou com estouro de pneu e caiu sobre avenida

Promotoria requisitou informações ao Metrô e às empresas sobre as medidas adotadas a partir da constatação dos problemas (notadamente no tocante à segurança dos usuários) e sobre o prejuízo aos cofres públicos

ADAMO BAZANI

Colaboraram Jessica Marques Willian Moreira

O CAEx – Centro de Apoio Operacional à Execução, por meio do Núcleo de Engenharia – NENG, do Ministério Público do Estado de São Paulo, concluiu que o estouro de pneus da composição M20, do monotrilho da linha 15-Prata, na estação Jardim Planalto, às 6h40, no dia 27 de fevereiro de 2020, foi fruto de uma conjunção de fatores relacionados a problemas no projeto e execução das obras civis, além de irregularidades na montagem e fabricação dos trens.

O trabalho foi feiro com base em análises de campo e apurações do fato, que paralisou a linha por três meses, por parte da Companhia do Metropolitano e das empresas relacionadas ao projeto.

O relatório, datado de 30 de agosto de 2021, pedido pelo promotor Silvio Antônio Marques, responsabiliza o CEML – Consórcio Expresso Monotrilho Leste, constituído pelas empresas: Construtora Queiroz Galvão S/A (líder do Consórcio), Construtora OAS Ltda., Bombardier Transit Corporation e Bombardier Transportation Brasil Ltda.

Diante do exposto, conclui-se que a Linha 15 – Prata possuía problemas de projeto e execução nas obras civis que levaram a irregularidades na via-guia, bem como, problemas de projeto e fabricação e montagem dos trens e seus componentes, resultando em interferência entre o run flat e superfície interna da banda de rodagem dos pneus, sendo a combinação destes dois fatores a causa do estouro do pneu da composição M20. Como o fornecimento do material rodante e da infraestrutura civil estava contratualmente a cargo do CEML – Consórcio Expresso Monotrilho Leste, constituído pelas empresas: Construtora Queiroz Galvão S/A (líder do  Consórcio), Construtora OAS Ltda., Bombardier Transit Corporation e Bombardier Transportation Brasil Ltda., entende-se serem estas as responsáveis pelas irregularidades encontradas no Sistema Monotrilho.

Com base na análise, o promotor requisitou informações ao Metrô e às empresas sobre as medidas adotadas a partir da constatação dos problemas (notadamente no tocante à segurança dos usuários) e sobre o prejuízo aos cofres públicos

O órgão citou ainda outros problemas como a colisão entre dois trens, um no pátio e outro que deixava a Estação Oratório na manhã do dia 28 de fevereiro de 2020, e um trem que deixou a plataforma com todas as portas abertas.

O MP destacou, sobre o estouro dos pneus, que o Relatório da Comissão Permanente de Segurança em Sistemas Operacionais – COPESE RT-15.86.5M.30/719-001 preconiza que todas as ações de correção determinadas para a via-guia, conjunto do pneu de carga e  monitoramento do trem são de responsabilidade do Consórcio, cabendo a este as adequações necessárias ao correto e seguro funcionamento do sistema Monotrilho.

O relatório apontou que, por ser um sistema novo no Brasil, o monotrilho precisou passar por correções de falhas e deficiências.

Tendo em vista que o monotrilho Linha 15 – Prata se trata de um sistema de transporte pioneiro com a utilização de veículo específico pelo Metrô, ao longo da sua implantação foram verificadas várias deficiências e falhas que tiveram que ser corrigidas e adequadas às especificações de segurança, à medida que foram detectadas, inclusive, com revisão de alguns documentos técnicos para atender integralmente às diretrizes pertinentes

Ainda obre o estouro do pneu, o próprio consórcio fornecedor do sistema e a fabricante de pneu Michelin detectou um problema de torque no conjunto que forma as rodas.

Conforme análise técnica apresentada pelo próprio Consórcio e após análise da fabricante Michelin, foi identificado que o problema da ruptura do pneu ocorreu devido ao toque entre o dispositivo run flat e a face interna do pneu de carga. Destacando que a peça encontrada na tela de proteção, após o estouro de pneu ocorrido em 27/02/2020, trata-se de pedaço do dispositivo denominado run flat.

Além deste problema, após testes e análises durante a paralisação do monotrilho na ocasião, foram constatados defeitos relacionados à fabricação dos trens:

Diâmetro interno do conjunto do run flat maior do que o especificado no próprio desenho as-built fornecido pelo Consórcio CEML;

Pinos de montagem dos segmentos de run flat com comprimento maior que o padrão, em conjunto de pneu de carga-roda originalmente montado pela própria Hutchinson, subfornecedor da consorciada Bombardier;

Moeda de dólar “a quarter” encontrada dentro de um conjunto de pneu de carga-roda originalmente montado pela própria Hutchinson;

– Presença de graxa no run flat de conjunto de roda que nunca rodou (oriundo de truque novo) onde “não deveria haver segundo a própria análise dos técnicos estrangeiros da Hutchinson”;

– Presença de duas graxas diferentes (branca e vermelha) num conjunto de roda montado pela própria Hutchinson;

– Travas de talão (beadlocks) com valores de circunferências, larguras e ângulos diferentes;

– Segmento de run flat com paredes de furos de alojamento de pinos de espessuras menores;

– Fundição aparente incompleta de material em região próxima de furo de alojamento de segmentos de run flat.

Entre as correções feitas pelo Metrô e empresas envolvidas no projeto do monotrilho, segundo o relatório estão:

Assim sendo, as correções de curto e longo prazo apresentadas pelo Consórcio em 30/03/2020 foram: ajustes ou correções em 192 pontos da via, alteração do diâmetro externo e interno do run flat no curto prazo e novo projeto de run flat no longo prazo, assegurando que não ocorra contato entre o run flat e o pneu para todos os casos de carregamento normais em serviço, novos limites de controle, esses mais rígidos, para a pressão de trabalho dos pneus de carga a fim de garantir a distância mínimo de segurança entre a superfície do run flat e a banda  interna do pneu e assegurar que o processo de montagem do pneu esteja de acordo com as instruções dos manuais de manutenção e a utilização dos materiais adequados para minimizar os riscos de novos acidentes.

Na ocasião, o Diário do Transporte publicou com exclusividade imagens de peças do monotrilho que caíram na avenida logo abaixo.

Relembre: https://diariodotransporte.com.br/2020/03/02/exclusivo-parte-do-pneu-de-monotrilho-que-estourou-caiu-em-avenida-na-zona-leste-e-quase-atingiu-loja/

O Consórcio Expresso Monotrilho Leste – CEML, constituído pelas empresas: Construtora Queiroz Galvão S/A (líder do Consórcio), Construtora OAS Ltda., Bombardier Transit Corporation e Bombardier Transportation Brasil Ltda,. disse que prestas todas as informações necessárias às autoridades.

A STM (Secretaria dos Transportes Metropolitanos) não quis se pronunciar.

O Metrô, por meio de nota, informou que a conclusão do MP é a mesma da companhia, que multou o consórcio.
A conclusão do Ministério Público de que o Consórcio CEML é o responsável pelas inconformidades que levaram aos danos nos pneus de um dos trens da Linha 15, e posterior substituição das peças de outras composições, vai ao encontro do que foi constatado pelo Metrô à época, que inclusive multou essa empresa pelas falhas encontradas.

 

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Colaboraram Jessica Marques Willian Moreira

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Comentários

Comentários

  1. carlos souza disse:

    E crise eterna,generalizada,histórica e apocalíptica de legalidade,ou seja,só tem criminoso,mentiroso e cara-de-pau.É tudo desse sistema criminoso e ilegal.

  2. Bruno disse:

    Essa tranqueira foi um erro crasso desde o começo. Fizessem com os ônibus, conforme a ideia original ou que tivessem trazido um metrô real, não esse arremedo que male mal presta para passeios turísticos, mas a sanha por roubar dinheiro público é tamanha que inventaram essa porcaria…

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