Moradores de Santo André apontam problemas em transporte coletivo e empresários pedem revisão de gratuidades

População se manifestou contra aumento da tarifa durante audiência pública. Foto: Jessica Marques

Representantes das empresas de ônibus usam fator como argumento para tarifa alta

JESSICA MARQUES

No fim da noite desta segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019, o assunto foi transporte público na Câmara de Vereadores de Santo André, no ABC Paulista. Vereadores, representantes das empresas de ônibus e a população debateram o tema no plenário.

Em audiência pública, que teve início às 19h e foi realizada até aproximadamente 23h, os moradores da cidade citaram inúmeros problemas no transporte público municipal de Santo André. Por outro lado, representantes das empresas de ônibus pediram redução de gratuidades no município e apontaram as isenções como argumento para tarifa alta.

O ex-vereador Luiz Carlos Pinheiro, conhecido como Pinheirinho, ressaltou a tarifa alta em detrimento à baixa qualidade do serviço prestado no transporte coletivo do município.

“O transporte aqui é péssimo, em vista do transporte coletivo de São Paulo, que até tem integração com trem. Aqui o ônibus é uma sucata. A única integração que tem é só para dentro do município e com cartão. Eu que pago em dinheiro não tenho direito a integração”, disse.

A moradora do bairro Cidade São Jorge, em Santo André, que se identificou apenas como Silvana, contou que utiliza o transporte público municipal todos os dias para ir trabalhar e sempre viaja em pé.

“É um desrespeito com as pessoas que entram num ônibus sem ar-condicionado e ficam em pé. Constantemente vemos idosos caindo por conta da política adotada por esse governo, fazendo os idosos passarem pela catraca, vemos acidentes porque o motorista tem que dirigir, cobrar e ver se não tem ninguém na porta. É um empurra-empurra que a gente vive caindo”, afirmou a passageira.

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Audiência pública reuniu passageiros, representantes de empresas de ônibus e políticos da região. Foto: Jessica Marques

A audiência pública foi convocada pelo vereador Willians Bezerra. O objetivo do parlamentar é de que houvesse diálogo entre os presentes, para que ao final fosse elaborado um documento ao Executivo com sugestões de melhoria.

Ao conversar com a população, o vereador identificou diversos problemas que deveriam ser trazidos aos empresários em audiência pública.

“A idade média dos ônibus, a pontualidade, a dificuldade que o usuário enfrenta no dia a dia com ônibus lotados, não é somente tarifa. A gente esteve no terminal às 4h para fazer o início da panfletagem e a gente escuta os questionamentos dos trabalhadores, como a falta do cobrador, que faz o motorista ter que dirigir e cobrar, mas tem ônibus em más condições de conservação também”, afirmou o vereador.

Bezerra também informou que enviou à Prefeitura uma indicação de alteração no decreto que regulamenta o sistema de transporte na cidade. O envio foi feito ao prefeito Paulo Serra em 2017.

Na época, a proposta foi para uma nova redação ao Art. 7º do Decreto Municipal Nº 13.937, exigindo que os veículos de transporte coletivo tenham obrigatoriamente um cobrador e proibindo motoristas de dirigir e cobrar.

Até o momento, não houve resposta do poder Executivo com relação à indicação feita pelo vereador.

REVISÃO DE GRATUIDADES

O gerente geral da Aesa (Associação das Empresas de Transporte de Santo André), Luiz Marcondes de Freitas Júnior, esteve presente na audiência pública, pediu revisão na legislação para reduzir as gratuidades e citou o fator como um dos problemas do sistema.

Durante a audiência pública, foi divulgado em uma apresentação preparada pela Aesa que 37% dos passageiros que embarcam nos ônibus municipais não pagam a passagem, por terem direito a algum tipo de gratuidade.

“Esse é um dos pontos que mais está afetando a população. Para se colocar o ônibus na rua tem um custo e se alguém não paga, quem paga está tendo esse valor empurrado para si. O número de 37% é muito alto para a gratuidade na cidade”, disse.

O pesquisador em Mobilidade do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), Rafael Calabria, esteve presente na audiência pública e explicou que as gratuidades não pode ser utilizada como justificativa para tarifas altas ou sucateamento de frota no transporte coletivo.

“A gratuidade não é o problema. A Lei Federal já fala sobre isso. A política de mobilidade urbana fala que a Prefeitura precisa buscar formas de baratear a tarifa por diversas razões: o transporte é mais eficiente que o carro, é menos poluente, é universal e é um direito como educação e saúde”, avaliou.

SISTEMA PERDE PASSAGEIROS

Conforme informado pela Aesa durante a audiência pública, o número de passageiros caiu anualmente desde 2014. A quilometragem percorrida também diminuiu.

Confira o número de passageiros ao longo dos últimos anos em Santo André, segundo informações da Aesa:

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No plenário, alguns dos munícipes que utilizam o sistema afirmam que buscam outras alternativas de transporte pela falta de qualidade nos ônibus municipais. Falta de pontualidade e itinerários mal planejados foram mencionados entre os problemas enfrentados pelos passageiros.

“Quem mora no Parque Novo Oratório sabe que a linha S36 é um absurdo, cruza a cidade em mais de uma hora. Quem utiliza é por mera necessidade”, disse o servidor municipal e arquiteto Ailton.

“CAIXA PRETA” DO TRANSPORTE

Na ocasião, Rodrigo Verroni, graduado em engenharia civil, direito e consultor da área de transportes da Aesa, apresentou dados hipotéticos com o objetivo de explicar a composição de uma tarifa de ônibus.

Contudo, na apresentação não foram utilizados dados reais das empresas de ônibus de Santo André. Desta forma, a população continua sem saber quanto os empresários lucram sobre a prestação de serviço no município.

Por conta disso, os presentes na audiência pública solicitaram os dados reais e pediram para que fosse aberta a chamada “caixa preta” do transporte, mostrando o valor que vai para o bolso dos empresários. Ninguém comentou sobre os dados.

A única informação apresentada pelo representante da Aesa é que em 2001 foram arrecadados R$ 71.727.517, que corrigidos seriam equivalentes a R$ 201.833.828. Em 2018, a receita teria sido de R$ 194.645.133. Entretanto, a tabela de custos não foi apresentada.

Além disso, Verroni argumentou que o sistema precisa de melhorias para que possa se sustentar. Desta forma, o poder público também foi citado como responsável por ações que contribuam para um transporte de qualidade.

“É preciso trazer gente para o sistema, implantando corredor, melhorando a velocidade do ônibus, porque é óbvio que as pessoas querem chegar logo em casa ou no trabalho. Muitas vezes se fica muitas horas no sistema de ônibus porque ele está no tráfego normal”, afirmou o especialista.

Por sua vez, quando questionado sobre o valor da tarifa, que está em R$ 4,75, enquanto na capital paulista chega a R$ 4,30, Marcondes justificou que em Santo André não há qualquer tipo de subsídio e em São Paulo seriam mais de R$ 3 milhões em subsídio.

“As pessoas estão ocupando espaço sim”, afirmou o empresário, ao mencionar que não há controle rígido para as gratuidades nos ônibus municipais e que os pagantes arcam com o valor da passagem de quem possui benefícios tarifários.

HISTÓRICO DO TRANSPORTE PÚBLICO DE SANTO ANDRÉ

São diversos os desafios no transporte público municipal de Santo André. A retirada dos cobradores, a recente alteração no layout dos ônibus, a idade média da frota, o aplicativo que prevê o horário dos ônibus com imprecisão, entre outros casos já registrados pelo Diário do Transporte.

A média de idade dos veículos do União Santo André está acima do máximo permitido, que são cinco anos. Por meio da Lei de Acesso à Informação, o Diário do Transporte apurou em setembro deste ano que a frota consórcio tem 5,92 anos, em média.

Relembre: Média de idade dos ônibus do Consórcio União Santo André continua acima do permitido e gestão Paulo Serra não comenta o assunto

A Prefeitura de Santo André foi procurada pela reportagem em 11 de setembro e, até a publicação, não se manifestou. O prefeito Paulo Serra havia prometido um plano de renovação de frota até este mês, mas a promessa não foi cumprida até o momento.

Relembre: Santo André terá plano de renovação da frota até setembro e licitação de Vila Luzita vai ser concluída até o final do ano, promete Paulo Serra

Considerando também os veículos da Suzantur, empresa que opera em contrato emergencial na região da Vila Luzita, todos os ônibus municipais de Santo André possuem 5,58 anos.

Em fevereiro, o Diário do Transporte mostrou em primeira mão que a frota das empresas do Consórcio União Santo André, liderado pela Viação Guaianazes, de Ronan Maria Pinto, operava com média de idade de 6,22 anos.

As empresas do Consórcio União Santo André deveriam apresentar um plano de renovação até junho deste ano, mas o prazo não foi cumprido.

Relembre: União Santo André nunca teve frota de ônibus tão velha e sistema perde 5 milhões de passageiros

APLICATIVO

Outro grande desafio para os moradores de Santo André que utilizam o transporte público é o aplicativo Santo André Mob, utilizado para ver o horário de chegada dos ônibus.

A ferramenta foi esperada por três meses, período em que nenhuma ferramenta estava disponível para prever a chegada dos coletivos nos pontos, por meio de geolocalização. Contudo, quando foi lançada, não funcionou.

Relembre: Após mais de um mês de lançamento, aplicativo de ônibus de Santo André não funciona

A Prefeitura informou que a ferramenta teve os recursos otimizados e os passageiros puderam observar mudanças. Ainda assim, são encontrados problemas de funcionamento, como indisponibilidade de previsões e horários imprecisos.

Relembre: Após problemas, aplicativo que mostra horário dos ônibus em Santo André é atualizado

CARTÃO PRIORIDADE

Os idosos também enfrentaram dificuldades no transporte público municipal. A Prefeitura lançou o Cartão Prioridade em 2 de março de 2018 para possibilitar o embarque de pessoas com mais de 65 anos pela porta da frente, de forma gratuita.

Entretanto, o embarque pela porta traseira foi proibido e todos os passageiros agora têm que passar pela catraca. A medida seria eficiente se a liberação fosse imediata com o uso do cartão, com bloqueio posterior em caso de fraude, mas o que ocorre na realidade é uma fila de idosos tentando validar a passagem por meio de identificação biométrica. Muitos demoram para conseguir, o que atrasa as viagens.

Relembre: Idosos de Santo André têm dificuldades para entrar nos ônibus após Cartão Prioridade

Sobre o problema, o prefeito Paulo Serra informou, em entrevista, que foram colocadas pessoas nos ônibus para orientar os passageiros e que o número de reclamações dos idosos diminuiu.

ÔNIBUS PERDEM ASSENTOS PREFERENCIAIS ANTES DA CATRACA

As empresas de ônibus da cidade retiraram os assentos preferenciais que ficavam antes da catraca dos coletivos.

A Prefeitura informou ao Diário do Transporte, por meio da SATrans, que a mudança ocorreu para adequação do transporte coletivo da cidade à portaria que restringe o embarque de passageiros apenas à porta dianteira.

“Os layouts internos das linhas de ônibus do sistema de transporte coletivo de Santo André passaram por adequações para atender a portaria nº 06.06.18 de 26 de junho de 2018 e permitir o embarque dos usuários somente pelas portas dianteiras. Os assentos preferenciais continuam à disposição dos passageiros, após a passagem da catraca”, informou a Prefeitura, em nota.

Relembre: Santo André retira assentos preferenciais que antecedem catraca dos ônibus

Jessica Marques para o Diário do Transporte

7 comentários em Moradores de Santo André apontam problemas em transporte coletivo e empresários pedem revisão de gratuidades

  1. O desrespeito com a população foi um dos pontos a ser destacado, pois estava marcado para 19 hrs e só iniciou as 19:45, com desperdício de tempo dos trabalhadores e munícipes presentes com apresentaçoes de políticos e representantes de empresas. Na verdade não se discutiu o valor da tarifa e sim as gratuidades, dando a impressao que é a causa dos valores abusivos q as empresas trabalham. Infelizmente não pude ficar até o final, pois tenho minhas obrigações e de manhã tenho q usar o transporte de má qualidade q nos e dado, não há mais cobradores para q as empresas diminuissem seus gastos e investiissem em.melhorias, mas oq vemos são ônibus lotados, atrasados, sem botoeiras ou cordinhas para sinalizar q alguém irá descer, sistema de ventilação lacrados e que tbm servem como saidas de emergência, (q nunca precisemos deste aparato de segurança), carros velhos e cheios de goteiras, além de todo desrespeito com os idosos q são obrigados a passar pelas catracas e que é subsidiado pela prefeitura, a falta de sistemas de integração no terminal da estação, tanto com trem, qto com outras linhas da cidade e até troleibus O enorme problema não são as gratuidades e sim a má gerência de empresas que somente visam lucros e falta de vontade do poder público em resolver questões de interesse de trabalhadores e munícipes usuários do sistema de transporte público de má qualidade, o mais caro do país juntamente com a vizinha SBC.
    Exigimos q o ministério público, vereadores, e empresas tomem uma providência imediatamente, pois não há mais como locomover-se nas condições que hj nos é dado e que pagamos mto caro por tão pouco!

  2. nada vai mudar com esse empresarios que estao ai o prefeito um verdadeiro banana nao tem coragem de desafiar os empresarios no maximo vao mudar as gratuidades onibus com ar condicionado nem pensar

  3. Estive na audiência pública e achei interessante a palestra ministrada pelo Rodrigo e muito relevantes as criticas e sugestões da populações e entidades que participaram.
    Só acho que o evento perdeu um pouco o sentido quando o se abriu o microfone aos espectadores, pois virou mais uma critica generalizada ao sistema ( critica que é valida pois o sistema precisa de uma reformulação em todos os aspectos), do que uma discussão aberta para encontrar caminhos as melhorias que tanto precisamos. A audiência terminou por volta das 23:00 sem nenhum caminho traçado ou com uma planilha de recomendações, quanto ao valor da tarifa, quanto as gratuidades, quanto a importância de se “catracar” todos os munícipes..etc.
    Creio que o povo tem sim de exigir um transporte digno, assim como a saúde a educação, segurança…. mas é importante também planejamento, e entender que isso gera custo e tempo.
    Claro que o sistema gera lucro aos empresários, mas também existe a defasagem que qualquer empreendimento sofre, e so investir com rendimentos caindo não é também a solução.
    o bom mesmo é achar uma solução onde todos os lados sejam atendidos.

  4. Santo André está retrocedendo na qualidade do transporte público! Sou usuária dos ônibus da cidade que nos últimos anos estão deploráveis, simplesmente não dá para depender deles se vc tem um horário marcado, porque não há previsão nem pontualidade, estão barulhentos e sem a menor condição de conforto, não tem refrigeração adequada para esse calor, vivem lotados e não valem nem metade do valor cobrado pela passagem.

  5. Já fui morador de Santo André e, agora, moro em Indaiatuba (próximo a Campinas) e posso dizer que os ônibus aqui tem ar condicionado e wi-fi funcionando perfeitamente. E olha que a cidade já teve a empresa do Ronan e, depois que a empresa saiu, a coisa melhorou e muito!!!

  6. 1- Conforme a sra Silvana disse, linha T27, a T23. T29 e T21 são as melhores com CAIOs Apache VIP. O grande problema é entre 9;30 e 14:30hs, a maioria tem pausas absurdas, de até 30 minutos de espera, ou seja isso significa que há um plano de redução de veiculos, ja que nesta faixa pouco passageiro circula (sem falar tbm da troca de turno). Um ponto bom pra se ter essa pesquisa é o primeiro ponto da Av. Santos Dumont, 2- antes mesmo de ser prefeito enumerei 10 argumentos para falar da falta de cobrador nos coletivos, entregeui na mão da esposa do Paulo Serra, inclusive convocando os empresários para conversar, e manter o que está no contrato de concessão ainda em vigor. 3- nem todos coletivos da cidade estão em más condições (como dito, citado aqui). Parte da Suzantur é chassi Volvo com Wi-fi…de primeira. 4- B13 V. Alice-B19 Campestre -Aclimação é de doer,,5- Já a linha T15, onde moro, observo que os veiculos não estão tão ruins assim, a não ser os Marcopolos Torino..um pouco mais velhos, sua maioria são CAIOs Vip Apache. 6- Fiscais, mesmo com comandas de horários, soltam carros colados(T-15) , como B11, canso de ver. 7- há uma tabela de horários de linhas e intervalos na AESA-Av. Industrial, mas duvido que são cumpridos. MOTORISTAS FAZEM 3 OFICIOS: CONDUTOR>COBRADOR> ACENSORISTAS Motorista também é humano….que fique bem claro, por um único salário, como empresários querem. Rezo pra que a lei de Ferraz venha cair aqui,,,e traga cobrador de volta. afinal um ônibus não é carro de passeio.(não venha com essa desculpa de bilhetagem eletronica).

  7. Sou morador de santo André . Adoro minha cidade .mas fica devendo em trasporte público ninguém faz nada entra prefeito sair prefeito e continua a mesma .falta muita coisa inclusive corredor de ônibus na Av Giovane Pirelle .

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