Empresas de ônibus dizem que já perderam 5% dos passageiros para aplicativos

Publicado em: 29 de novembro de 2018

NTU afirma que Uber Juntos e Pool + são modalidades que prestam serviços coletivos. Foto: Adamo Bazani

NTU pede a prefeitos de todo o País que protejam transporte coletivo do que consideram ‘concorrência desigual’ em modalidades como o ‘Uber Juntos’

JESSICA MARQUES

Mais uma vez, as novas modalidades que permitem o transporte de mais de um passageiro por aplicativos como Uber e 99 mostraram interferir diretamente no transporte público.

A NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos), entidade que reúne mais de 500 viações, informou que as empresas de ônibus já perderam 5% dos passageiros para aplicativos como Uber e 99 em algumas cidades do Brasil.

A associação escreveu uma carta aberta aos prefeitos de todo o País solicitando que protejam o transporte coletivo da “concorrência desleal” criada por modalidades de transporte por aplicativo para mais de uma pessoa, como o Uber Juntos e o Pool +, da 99.

O assunto esteve presente na pauta da 74ª Reunião Geral da FNP (Frente Nacional de Prefeitos), que ocorreu em São Caetano do Sul, no ABC Paulista.

Segundo o presidente executivo da NTU, Otávio Cunha, o setor de transporte público é fortemente regulado e as novas modalidades de transporte por aplicativo são uma concorrência “predatória”.

Na visão do presidente, permitir as modalidades Uber Juntos e Pool + seria o mesmo que decretar o fim do setor de transporte coletivo, que já acumula perda de 25% dos passageiros de 2014 a 2017.

“O Uber Juntos e a outra modalidade lançada pela 99 em Belo Horizonte são serviços que se travestem de transporte público e não são mais transportes individuais de pessoas. Em uma mesma viagem, ele opera em determinado percurso e vai angariando passageiros ao longo do trajeto”, disse Cunha em entrevista ao Diário do Transporte.

Por meio da carta, a NTU solicita que os prefeitos fiquei atentos no momento da regulamentação da lei 13.640/2018, que permitiu no Brasil o funcionamento do transporte privado de passageiros por aplicativos.

Segundo Cunha, não se pode deixar que esse tipo de transporte, por aplicativo, opere como um serviço coletivo, por estar sendo regido por normas de livre comércio.

“A carta é um alerta do que pode vir a acontecer. O transporte alternativo por vans e kombis quase acabou com o transporte coletivo nos anos 1990. O Uber Juntos vai agir predatoriamente contra o transporte público da mesma forma”, disse Cunha.

Segundo o presidente executivo da NTU, há o risco de o serviço público que está sendo ofertado ter a qualidade piorada e ainda ser reduzido por conta da concorrência com as novas modalidades de transporte por aplicativo.

“Isso vai afetar aquelas pessoas que moram longe e sempre estão cativas do transporte público”, disse. “O Uber Juntos não é um transporte individual de pessoas, é um transporte coletivo e não deve subsistir nessas condições em que está operando. Ele só opera quando tem demanda e vai retirar os passageiros do transporte público, desequilibrando a rede de transporte”, avaliou.

“Não somos contra o transporte por aplicativo individual. Ele ofertado como é o táxi, obedece a regras de mercado de livre iniciativa. Agora o transporte por aplicativo, chamado de compartilhado ou Juntos, pode atrapalhar o transporte público”, completou.

Cunha explicou que as linhas de ônibus mais longas, que chegam a bairros periféricos, dependem financeiramente dos itinerários mais curtos que operam na região central. O presidente afirmou ainda que, para haver equilíbrio, o sistema de transporte público precisa de linhas rentáveis mais curtas, com mais passageiros.

Desta forma, segundo Cunha, é possível manter os trajetos mais longos, que são deficitários de passageiros, mas são socialmente necessários que o transporte coletivo possa atender a todos.

Entretanto, o Uber Juntos e o Pool +, quando operam nos grandes centros em trajetos curtos, retiram do transporte coletivo os passageiros que são essenciais para financiar todo o sistema.

Confira a carta aberta aos prefeitos, feita pela NTU:

Carta Aberta aos Prefeitos_26_11 (2)-1

Carta Aberta aos Prefeitos_26_11 (2)-2

OUTRO LADO

A Uber negou, em nota, que as modalidades de compartilhamento das corridas configurem transporte coletivo. Confira, na íntegra, o comunicado emitido pela Uber:

O Uber Juntos é uma evolução da modalidade Uber Pool, que opera na cidade de São Paulo desde 2016, e representa mais uma opção de mobilidade compartilhada com uso da tecnologia. Dessa forma, o Uber Juntos não é uma modalidade de transporte coletivo, mas um sistema que combina viagens individuais com trajetos convergentes para compartilhar o mesmo veículo, aumentando a eficiência do modelo.

Criado para colocar mais pessoas em menos carros, o Uber Juntos contribui para reduzir o impacto dos congestionamentos, oferecendo preços mais acessíveis para os usuários ao mesmo tempo em que mantém os ganhos dos motoristas parceiros. A tecnologia da Uber conecta usuários que têm percursos individuais parecidos, driblando o trânsito ao pedir que os usuários caminhem alguns minutos para encontrar o motorista.

Ao tornar o uso do automóvel mais eficiente, a Uber acredita que o Uber Juntos complementa o transporte público, ampliando o acesso dos usuários à rede pública principalmente na região central – exatamente onde existe maior necessidade de diminuir o fluxo de carros.

Além disso, as modalidades de viagem compartilhada são incentivadas e expressamente autorizadas nas regulações municipais dos aplicativos, como as da cidade de São Paulo e do Rio de Janeiro, por exemplo.”

NTU PROPÕE SOLUÇÕES

Além de alertar os prefeitos sobre a regulamentação do transporte por aplicativo nos municípios, o presidente executivo da NTU também propôs soluções para aumentar a qualidade do transporte público oferecido atualmente.

“Desenvolvemos um trabalho com a ANTP, com o Fórum Nacional de Secretários de Transportes e a Frente Nacional de Prefeitos. A ideia é agir em três eixos principais: qualidade, transparência e preço acessível”, afirmou Cunha.

No quesito qualidade, a NTU fala sobre infraestrutura. Desta forma, Cunha ressalta a importância de investir em faixas seletivas com recuo na calçada para os pontos de ônibus, abrigos para os passageiros, corredores de ônibus e sistemas BRT.

“A infraestrutura deve fazer o ônibus rodar na cidade e deixar o automóvel parado no trânsito. Assim, as viagens vão ficar mais rápidas e as pessoas vão se sentir melhor atendidas, gastando menos tempo em seus deslocamentos”, avaliou o presidente executivo da NTU.

Em qualidade, também é citado o conforto para o passageiro, com ônibus com ar-condicionado, motor traseiro e suspensão a ar. Além de um melhor tratamento por parte de motoristas e cobradores.

No aspecto da transparência, Cunha cita a importância de informar sobre a receita do sistema, o custo, o número de passageiros transportados e de ônibus colocados em operação.

Para o terceiro ponto, do preço acessível, a proposta é a criação de um fundo que tenha como objetivo subsidiar o passageiro. Desta forma, a expectativa é tornar a passagem de ônibus 50% mais barata.

“No mundo todo, quem usa e quem não usa o transporte paga alguma coisa para o serviço ser de melhor qualidade. Nem todos usam ônibus ou trem na Europa, mas todos pagam uma tarifa para o serviço”, exemplificou Cunha.

A ideia é que o recurso venha da União, do Estado e do Município. Outra alternativa é o aporte do transporte individual, por meio da CIDE (Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico) dos combustíveis, que, segundo Cunha, podem ter os recursos destinados para o financiamento do transporte público.

“Se a gente fizer isso, em quatro anos será possível transformar a qualidade do transporte público oferecido à população”, finalizou Cunha.

MOTORISTAS RESISTEM A UBER JUNTOS EM CURITIBA

Não é apenas o setor de ônibus que está descontente com o que considera concorrência predatória da modalidade “Uber Juntos”. Os próprios motoristas do aplicativo estão reagindo contra a novidade, só que por outros motivos.

A modalidade “Uber Juntos”, pela qual passageiros que não se conhecem compartilham o carro, com pontos de embarque e desembarque definidos no momento da solicitação do serviço, poderia deixar ainda mais evidente os problemas de segurança de quem usa o aplicativo, alegam os motoristas de Curitiba.

O texto do abaixo-assinado afirma: “Nós motoristas do aplicativo Uber não queremos receber chamadas do Uber Juntos, pois nós nos sentimos mais vulneráveis com relação à nossa segurança e até mesmo aos demais passageiros. Estamos pedindo que esta modalidade seja desativada em Curitiba e Região Metropolitana [sic]”.

Leia mais em “Uber Juntos” enfrenta resistência de motoristas do aplicativo em Curitiba

EMPRESAS DE ÔNIBUS DE SÃO PAULO REAGEM AO UBER COMPARTILHADO

Conforme publicado pelo Diário do Transporte no dia 22 de novembro de 2018, as empresas de ônibus da cidade de São Paulo já demonstram sua insatisfação com a modalidade “Uber Juntos”. O SPUrbanuss, que é o sindicato que representa as companhias do subsistema estrutural (ônibus maiores com linhas que passam pelo centro da cidade), protocolou uma carta ao secretário municipal de Mobilidade e Transportes, João Octaviano Machado Neto, pedindo que a prefeitura proíba a modalidade e a classifique como “transporte ilegal”.

Relembre: Empresas de ônibus de São Paulo pedem à prefeitura que proíba as atividades do Uber compartilhado na cidade

O documento é assinado pelo presidente da entidade, Francisco Christovam, e ainda pede fiscalização com maior rigor sobre a Uber e a intervenção do Ministério Público do Estado de São Paulo.

O presidente da NTU – Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, Otávio Cunha, que representa cerca de 500 empresas de ônibus em todo o País, disse em entrevista ao Diário do Transporte, que acredita que o “Uber Juntos” não é uma modalidade legal e que pode prejudicar as pessoas de menor renda ao reduzir a demanda do transporte coletivo.

Procurada pela reportagem do Diário do Transporte na época da matéria, a empresa Uber, por meio da assessoria de imprensa, disse que não iria comentar o assunto.

Jessica Marques para o Diário do Transporte

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Comentários

  1. Rodrigo Zika! disse:

    Estou querendo achar o motivo de dizerem isso, eu por exemplo mal pego ônibus, uso diariamente lotação, por ser mais ágil, e ter intervalos menores, as empresas não dão nem se quer uma dica ou ajuda para a prefeitura criar novos corredores e métodos, pra fluir o trânsito na cidade de SP, para os ônibus, apenas insistem no lobby de monopólio, e nos veículos a diesel, que usam a desculpa que outros meio como elétricos e a baterias, são mais caros, mas se fosse assim outros países como o Chile não teria comprado 100 da BYD, ou ate mesmo o atuais trólebus de SP, e a prefeitura finge não ver, piada.

  2. vagligeirinho disse:

    Não por mal, mas se parar para pensar, quem gerou este “dilema Tostines” da situação do transporte público em partes também foi a própria NTU, pois ao invés de auxiliar também em uma fiscalização dos próprios serviços de transporte público e suas questões administrativas e financeiras, só ficou reclamando da falta de remuneração (não sem razão também) , mas não esquecendo também que há casos de empresas que contribuíram com propinas para políticos.

    Transporte público perdendo qualidade e eficiência, óbvio que em tempos de perda de poder, acaba sendo um alento não só para modalidades realmente ilegais (lotações piratas) quanto para a zona cinza (serviços de aplicativos e fretamentos).

    Penso que entidades que servem para proteger algo, também deveria ter como princípio criar formas de conscientização sobre o uso e a necessidade do que lhe é protegido, neste caso, os serviços de transporte público. Mas também não só de forma alarmista, mas sim de forma realista.

    Desde a chegada do Uber, muitos (eu incluso) criticaram sua atuação dado que era notório que era uma empresa de ganância. Isso dito por analistas de transporte e tecnologia também. Ao invés de criarem mecanismos simples, como lobby e formas de conscientização plena, ficaram ofendendo o sistema de aplicativos e seus usuários (não nego que eu também fiz isso). Não deu resultado e pelo contrário, incentivou ainda mais o uso.

    Necessita-se de uma mudança de paradigmas para a adoção plena de um transporte público eficiente e plural. Mas isso também tem que vir da parte que hoje sente o baque -as empresas de transporte e a própria NTU.

    1. Rodrigo Zika! disse:

      Não considero o Uber zona cinza, ate porque quem regula e a prefeitura de cada estado, se tem mais privilégios que taxistas por exemplo, a culpa não e deles, nem de quem utiliza, e não acho que ele substitua o transporte publico, a maioria das pessoas que conheço utiliza pra distâncias curtas, onde alguns locais nem se quer passa ônibus, e preferem usar no coletivo, dividindo o valor entre várias pessoas, que sai bem mais barato, como trabalho em SP próximo a estação, não preciso utilizar ônibus, somente trem, metro e lotação, pois e mais viável pelo caminho que faço, se fosse de ônibus, levaria ao menos 2 horas pra percorrer o caminho, seria muito demorado, Uber já usei em pequenos trajetos, porque se for usar de onde moro ate o centro pro exemplo, já fica quase o preço do táxi,não compensa, melhor ir de metro, agora estados onde o transporte e mais precário sobre pneus e trilhos, ai o transporte de aplicativos, se sobressai infelizmente.

      1. vagligeirinho disse:

        É zona cinza pois apesar da legislação, a operação não é plenamente regulada. Por mais que exista a “fiscalização digital”, existem muitas falhas (como os riscos de assalto e problemas dos motoristas – giro de contratações e problemas financeiros), além da falta do calculo do impacto do mesmo na ocupação das ruas (isso vem sendo feito aos poucos, mas não sinto enfase).

        Ao meu ver, o Uber é mais problema que solução (e não uso os serviços desta empresa, diga-se de passagem).

    2. Rodrigo Zika! disse:

      Ao mesmo tempo que causa algo do tipo, da emprego pra muitos que estavam desempregados por causa da crise do país, tudo tem o lado positivo e negativo, porém o transporte publico em SP especificamente e ruim por diversos erros da prefeitura quanto a expansão de corredores, e empresas que só pensam em dinheiro, e nos passageiros por ultimo.

  3. Marcos Venicios de Oliveira disse:

    No meu entender, as empresas de ônibus não perderam passageiros para aplicativos, e sim, devisd à omissão e descaso com que trataram a população no decorrer dos anos, querendo cada vez mais lucros sem investimentos. Foi um “tapa na cara” de tanto desrespeito por parte dos empresários. É bom observar que o uso desta modalidade de serviço em aplicativo mesmo assim sai mais caro que a passagem, mas vale a pena pela comodidade, rapidez e bons serviços que a UBER vem prestando.

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