Licitação do plano de saúde dos trabalhadores da antiga Transwolff fracassa; nova concessão das linhas segue pendente
Publicado em: 27 de outubro de 2026
SPTrans declarou sem sucesso a contratação para os lotes D10 e D11, na zona sul; operação permanece sob responsabilidade municipal após intervenção, rompimento dos contratos e desistência da Sancetur
ADAMO BAZANI
A SPTrans declarou fracassada a licitação para contratar o plano de saúde dos empregados que trabalham na operação dos lotes D10 e D11, anteriormente concedidos à Transwolff, na zona sul de São Paulo. A decisão foi publicada nesta terça-feira, 27 de outubro de 2026, enquanto a administração municipal continua responsável pelos serviços e a nova concessão das linhas permanece pendente.
O resultado acrescenta uma dificuldade à reorganização de uma operação que passou por intervenção em abril de 2024, decretação de caducidade dos contratos em dezembro de 2025 e tentativa frustrada de transferência para a Sancetur em janeiro de 2026. A assistência médica integra as necessidades dos trabalhadores de uma estrutura que precisa continuar funcionando diariamente para atender os passageiros.
A contratação previa assistência médica, hospitalar, cirúrgica e obstétrica por plano empresarial registrado na Agência Nacional de Saúde Suplementar, conforme o termo de referência.
O diretor de Administração e de Infraestrutura da SPTrans, Mauro Antônio Gumiero Voltarelli, assinou a declaração de licitação fracassada em 26 de outubro.
O resultado significa que aquele procedimento não produziu a contratação pretendida. O despacho resumido não especifica a causa do fracasso nem apresenta, nesse ato, uma nova data de disputa.
Plano de saúde já estava no centro dos esclarecimentos após a greve
A situação da assistência médica havia sido mencionada pela Prefeitura de São Paulo durante a paralisação de 19 de outubro.
Na ocasião, a administração informou que o plano estava em processo licitatório. Trabalhadores reivindicavam regularização de obrigações trabalhistas, enquanto a Prefeitura sustentava que salários e benefícios estavam em dia e que os recolhimentos de FGTS e INSS eram realizados em juízo.
O fracasso agora publicado altera o estágio daquela contratação: a disputa foi encerrada sem o resultado esperado. O ato não comprova, isoladamente, interrupção de atendimento médico ou mudança em eventual compensação aos empregados.
A greve atingiu o lote D10. Para auxiliar o atendimento, a SPTrans acionou ônibus de outras empresas pelo Plano de Apoio entre Empresas em Situação de Emergência, o Paese.
Depois de nova ameaça de paralisação, uma liminar de 23 de outubro proibiu três representantes do movimento de bloquear a circulação e o acesso às garagens, impondo afastamento mínimo de 500 metros e multa individual de R$ 10 mil por dia de descumprimento. A decisão trata da proteção das instalações e da circulação, sem resolver as reivindicações financeiras.
Intervenção começou com a Operação Fim da Linha
A Prefeitura de São Paulo interveio na Transwolff em 9 de abril de 2024, quando foi deflagrada a Operação Fim da Linha, conduzida pelo Ministério Público de São Paulo com apoio de outros órgãos.
A investigação apura suspeitas de utilização de empresas de ônibus para lavagem de recursos atribuídos ao PCC, o Primeiro Comando da Capital. A UPBus, da zona leste, também foi alvo.
A Transwolff nega ligação institucional com atividades criminosas. As suspeitas e acusações precisam ser distinguidas das decisões administrativas sobre a prestação do transporte e não equivalem a condenação definitiva.
Em dezembro de 2025, a Prefeitura decretou a caducidade das concessões D10 e D11, alegando descumprimentos contratuais. O rompimento foi contestado judicialmente, em uma disputa paralela às medidas criminais de afastamento de dirigentes.
A SPTrans permaneceu responsável pela estrutura necessária à circulação dos ônibus.
Investigações tiveram desdobramentos policiais em 2026
Em fevereiro de 2026, a Corregedoria da Polícia Militar realizou a Operação Kratos, relacionada à suspeita de prestação irregular de segurança privada a dirigentes da Transwolff. Em agosto, o Ministério Público apresentou denúncia contra quatro policiais militares por suposta participação nesse núcleo. As defesas negaram as acusações.
Em setembro, a Operação Vectura Corrupta ampliou as apurações sobre suspeitas de infiltração do crime organizado no transporte coletivo e possíveis relações com agentes públicos e políticos.
O ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite foi alvo de ordem de prisão e se apresentou à Polícia Civil em 18 de setembro. A investigação reproduziu relatos segundo os quais ele exerceria controle de fato sobre a Transwolff. Leite e a empresa negaram essa relação.
Essas apurações integram o histórico da crise, mas o fracasso da licitação do plano de saúde é um ato administrativo próprio. Não há, no despacho publicado, atribuição de vínculo entre o resultado do certame e os fatos criminais investigados.
Sancetur assinou contrato emergencial, mas desistiu antes de assumir
A tentativa de substituição da antiga operadora chegou à assinatura de contrato emergencial com a Sancetur, razão social Santa Cecília Turismo Ltda., em 26 de janeiro de 2026.
A entrada estava prevista para 1º de fevereiro. Em 28 de janeiro, porém, a empresa comunicou que não tinha condições de assumir plenamente os serviços, desistência revelada em primeira mão pelo Diário do Transporte.
A estrutura reunia administração empresarial, empregados e proprietários individuais de ônibus oriundos da Cooperpam. A coexistência desses vínculos foi uma das dificuldades da transição.
Por isso, a Sancetur não deve ser apresentada como empresa que efetivamente assumiu e depois deixou a operação: houve contratação e preparação para entrada, seguidas de desistência antes da data anunciada.
Nova licitação das linhas continua sendo a solução definitiva pendente
Em junho de 2026, o Diário do Transporte revelou o envio ao Tribunal de Contas do Município de uma proposta de edital para conceder novamente os lotes.
O prefeito Ricardo Nunes informou que pretendia reorganizar a malha antes da concorrência, transferindo parte dos itinerários para operadoras que já atuam na região. Segundo a administração, a redução da estrutura dos lotes a conceder não significaria corte equivalente na oferta aos passageiros.
O encaminhamento de uma minuta ao órgão de controle não corresponde à conclusão da licitação ou à escolha de novas concessionárias.
Enquanto essa definição permanece pendente, a SPTrans precisa providenciar manutenção, peças, segurança e serviços aos trabalhadores. A contratação de assistência médica que agora fracassou faz parte desse conjunto de responsabilidades.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


