Seinfra cria grupo técnico para integrar ônibus municipais, metropolitanos e metrô na Grande Belo Horizonte

Governo de Minas formaliza equipe para desenvolver integração da mobilidade na região metropolitana; iniciativa faz parte de pacto entre Estado e municípios e pode abrir caminho para integração de tarifas, bilhetagem, horários e planejamento dos transportes

ADAMO BAZANI

O Governo de Minas Gerais criou um grupo técnico para desenvolver a integração dos transportes públicos da Região Metropolitana de Belo Horizonte, que reúne 34 municípios e diferentes sistemas de ônibus e metrô. A medida foi oficializada pela Secretaria de Estado de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias (Seinfra) no Diário Oficial de sábado, 17 de outubro de 2026, como parte de um acordo de cooperação destinado a aproximar o planejamento e a operação dos sistemas municipais e metropolitanos. Entre os objetivos mais amplos da iniciativa estão melhorar as conexões entre os serviços, organizar horários, ampliar as possibilidades de integração tarifária e estudar soluções de bilhetagem que facilitem as viagens dos passageiros.

A resolução institui o Grupo Técnico de Integração da Mobilidade Metropolitana da Região Metropolitana de Belo Horizonte, vinculado ao Acordo de Cooperação Técnica 03/2026. A iniciativa integra o Pacto pela Mobilidade Metropolitana, desenvolvido pelo Estado em conjunto com municípios da Grande BH para enfrentar a fragmentação do transporte coletivo, atualmente dividido entre diferentes gestores, empresas, contratos e regras tarifárias. A criação do grupo estabelece uma estrutura técnica para dar continuidade aos estudos e à articulação entre os órgãos públicos, enquanto as mudanças efetivas nos serviços dependerão de projetos e decisões específicas.

O que significa integrar a mobilidade metropolitana de Belo Horizonte?

Na prática, a integração metropolitana busca fazer com que os diferentes meios de transporte funcionem como partes de uma mesma rede, e não como serviços isolados.

A Região Metropolitana de Belo Horizonte possui sistemas municipais de ônibus administrados pelas prefeituras, linhas metropolitanas reguladas pelo Governo de Minas Gerais e o metrô, operado pela concessionária Metrô BH.

Em uma viagem entre Contagem e Belo Horizonte, por exemplo, o passageiro pode precisar utilizar um ônibus municipal, depois uma linha metropolitana e, dependendo do destino, o metrô ou outro ônibus na capital.

Cada etapa pode envolver um sistema de cobrança, um cartão, uma tarifa e regras próprias de integração. Além do custo, o usuário enfrenta diferenças de horários, itinerários e locais de transferência.

A integração metropolitana procura enfrentar esse problema por meio do planejamento conjunto entre os responsáveis pelos serviços.

Isso envolve quatro áreas principais: integração física, integração operacional, integração tarifária e integração da bilhetagem e das informações.

A integração física corresponde à organização dos locais em que o passageiro muda de um sistema para outro, como estações, terminais e pontos de transferência.

A integração operacional diz respeito à compatibilização de horários, trajetos e frequências. Um ônibus alimentador, por exemplo, pode ter sua programação coordenada com a chegada ou saída de uma linha principal, diminuindo o tempo de espera.

Já a integração tarifária permite estabelecer regras de cobrança combinada entre sistemas, com descontos, complementações ou outras formas de pagamento integrado.

A integração da bilhetagem pode possibilitar o uso de tecnologias e regras compatíveis entre diferentes operadores, reduzindo dificuldades para quem utiliza mais de um sistema.

O objetivo de uma política desse tipo é permitir que a viagem seja planejada de acordo com a necessidade de deslocamento do passageiro, mesmo quando envolve municípios ou operadores diferentes.

Por que a Grande Belo Horizonte precisa de um pacto de mobilidade?

Uma das principais dificuldades enfrentadas pelas regiões metropolitanas brasileiras é a divisão de responsabilidades entre os governos municipais e estaduais.

Em Belo Horizonte, a Prefeitura administra o transporte coletivo municipal, enquanto o Estado é responsável pela regulação do sistema intermunicipal e metropolitano.

Municípios como Contagem, Betim e Nova Lima também possuem suas próprias estruturas de transporte.

O metrô, por sua vez, integra uma concessão estadual, com contratos e regras próprios.

O resultado é uma rede de deslocamentos que ultrapassa os limites municipais, mas cuja administração permanece distribuída entre diferentes autoridades.

Em resposta encaminhada à Assembleia Legislativa de Minas Gerais em 2026, a Seinfra reconheceu essa complexidade e explicou que a mobilidade metropolitana envolve múltiplos titulares dos serviços, diferentes contratos e diversos centros de decisão.

Nesse contexto, foi lançado o Pacto pela Mobilidade Metropolitana da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Segundo a secretaria, o pacto tem a finalidade de promover a cooperação entre os entes públicos e viabilizar a integração institucional, operacional, tarifária e informacional do transporte coletivo.

O Governo de Minas também apontou a possibilidade de adoção futura de um sistema de bilhetagem única como um dos temas que podem ser desenvolvidos por meio dessa cooperação.

A construção dessa integração envolve tanto os ônibus municipais e metropolitanos quanto o metrô e as estruturas necessárias para as transferências entre eles.

Integração entre Move, Move Metropolitano e metrô é um dos desafios

Um dos principais exemplos dessa necessidade de coordenação envolve o Move de Belo Horizonte e o Move Metropolitano.

Os dois sistemas utilizam corredores e estruturas de transporte de maior capacidade, mas atendem redes e contratos diferentes.

O Move municipal integra a estrutura de transporte coletivo da capital, enquanto o Move Metropolitano organiza parte das viagens entre municípios da região e Belo Horizonte.

O sistema metropolitano utiliza um modelo conhecido como tronco-alimentado. Nesse formato, linhas alimentadoras transportam passageiros de bairros e municípios até terminais, onde ocorre a transferência para serviços estruturais de maior capacidade.

A Seinfra informou à Assembleia Legislativa que a compatibilização dos horários entre essas linhas e a melhoria das conexões são diretrizes permanentes de gestão.

Um exemplo concreto é o Terminal São Gabriel, que reúne conexões entre ônibus e metrô.

Segundo o Governo de Minas, o terminal possui linhas metropolitanas com integração tarifária ao sistema metroferroviário, além de serviços cuja integração está restrita ao Move Metropolitano.

Isso demonstra que já existem modalidades de integração na Grande BH, mas com regras diferentes de acordo com a linha e o sistema utilizado.

A proposta de maior articulação metropolitana procura justamente ampliar a coordenação desse conjunto de serviços.

Outro aspecto envolve a possibilidade de reorganizar trajetos e distribuir melhor a demanda entre ônibus e metrô, levando em consideração a capacidade de cada modalidade e a necessidade de preservar o atendimento aos bairros.

Bilhete único metropolitano e integração tarifária estão entre os debates

Uma das questões mais importantes para os passageiros é o custo de utilizar dois ou mais transportes na mesma viagem.

Embora existam integrações tarifárias entre determinados serviços, as regras variam conforme as linhas, os sistemas e os convênios existentes.

Em junho de 2026, a Seinfra publicou uma resolução de reajuste das tarifas do metrô que também atualizou tabelas específicas de integração com os ônibus metropolitanos, os ônibus municipais de Belo Horizonte e os de Contagem.

A tarifa básica do metrô passou a R$ 6 em 1º de julho de 2026, e os valores das viagens integradas foram estabelecidos conforme cada combinação de sistemas.

A existência dessas tabelas representa uma integração parcial, na qual determinadas viagens podem ser feitas mediante tarifas combinadas.

O debate metropolitano mais amplo envolve a possibilidade de ampliar essas facilidades e organizar um modelo capaz de atender diferentes municípios.

Na Assembleia Legislativa, também foram apresentadas solicitações para que o Estado e a Agência de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte estabeleçam mecanismos de governança que permitam, no médio prazo, a adoção de um bilhete único regional.

Em resposta, a Seinfra afirmou que o Pacto pela Mobilidade Metropolitana é o principal instrumento em desenvolvimento para criar condições institucionais para esse tipo de integração.

Uma eventual bilhetagem única exigiria a definição de responsabilidades financeiras, compensações entre operadores, regras de utilização e mecanismos de repartição das receitas.

A implantação também dependeria de acordos entre os entes públicos responsáveis pelos sistemas e de avaliações sobre os contratos de concessão.

Novos terminais e melhor conexão entre linhas também fazem parte do planejamento

A integração metropolitana não depende apenas da forma de pagamento.

Uma rede integrada precisa oferecer condições adequadas para que os passageiros realizem transferências entre linhas alimentadoras, ônibus estruturais e metrô.

Nesse sentido, o Governo de Minas já informou à Assembleia Legislativa que desenvolve estudos para a modelagem de parcerias público-privadas destinadas à implantação de novos terminais metropolitanos.

Entre os municípios mencionados nas discussões estão Betim, Ribeirão das Neves, Contagem e Sabará.

Essas estruturas poderiam contribuir para a organização de linhas municipais e metropolitanas, facilitando a distribuição dos passageiros entre diferentes trajetos.

No caso de Contagem, a Seinfra também informou que acompanha o projeto do Sistema Integrado de Mobilidade do município e avalia possibilidades de integração física e tarifária, observadas as condições dos contratos existentes.

A construção de terminais e a reorganização de linhas precisam considerar ainda os trajetos efetivamente realizados pela população.

Uma integração bem planejada pode reduzir deslocamentos desnecessários e melhorar a distribuição de passageiros. Por outro lado, a introdução de transferências adicionais exige atenção aos tempos de espera, às condições dos terminais e aos custos para os usuários.

Por isso, o planejamento metropolitano envolve estudos de demanda, origem e destino das viagens, frequência dos serviços e capacidade da infraestrutura.

Prefeitura de Belo Horizonte, Estado e BNDES discutem o futuro dos transportes

A criação do grupo técnico ocorre em um momento importante para o planejamento dos transportes da Grande Belo Horizonte.

Em 28 de abril de 2026, a Prefeitura de Belo Horizonte anunciou um acordo de cooperação técnica com o Governo de Minas Gerais e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

A iniciativa foi apresentada durante um encontro sobre mobilidade metropolitana integrada, organizado com participação da Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos.

Segundo a Prefeitura, o acordo tem como uma de suas finalidades apoiar os estudos para o novo contrato do transporte coletivo municipal da capital, com foco na modernização dos serviços, na ampliação da integração metropolitana e na melhoria do atendimento aos passageiros.

Na mesma ocasião, foram debatidos os estudos do BNDES sobre mobilidade urbana na região, possibilidades de financiamento e experiências de integração adotadas em outras regiões metropolitanas brasileiras.

O prefeito Álvaro Damião participou do encontro, assim como representantes do Governo de Minas e de outros municípios da região.

Durante a programação, o secretário de Estado de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias, Pedro Bruno Barros de Souza, destacou a necessidade de cooperação entre governos para enfrentar os desafios da mobilidade.

Como encaminhamento, foi proposta a criação de um grupo técnico de trabalho para apoiar a articulação entre os municípios.

O novo planejamento também se relaciona ao futuro contrato municipal de ônibus de Belo Horizonte, cuja concessão vigente tem encerramento previsto para 2028.

A preparação da próxima licitação pode representar uma oportunidade para estabelecer condições de integração com outros sistemas, desde que os projetos contemplem os aspectos jurídicos, operacionais e financeiros envolvidos.

Quem integra o novo grupo técnico criado pela Seinfra?

A resolução publicada em 17 de outubro foi assinada eletronicamente em 5 de outubro pelo secretário Pedro Bruno Barros de Souza.

O texto institui formalmente o Grupo Técnico de Integração da Mobilidade Metropolitana da Região Metropolitana de Belo Horizonte, identificado como GT Integração Mobilidade RMBH.

A equipe designada pela Seinfra tem a seguinte composição:

  • Diego Pessoa Santos, membro titular.
  • Joana Campos Brasil Baxter, membro suplente.
  • Thais Ohana Ferreira de Araújo, membro suplente.

Os suplentes poderão substituir o titular em caso de impedimento.

A participação dos integrantes não será remunerada e ocorrerá sem prejuízo das demais atribuições de seus cargos.

A duração do grupo está vinculada à vigência do Acordo de Cooperação Técnica 03/2026, incluindo eventuais prorrogações.

O ato corresponde à Resolução Seinfra nº 53, datada de 29 de setembro de 2026, publicada na edição de sábado, 17 de outubro, do Diário Oficial de Minas Gerais.

A formalização da equipe dá continuidade ao trabalho de articulação metropolitana iniciado anteriormente.

Em informações prestadas à Assembleia Legislativa, a Seinfra explicou que o Grupo de Trabalho de Integração da Mobilidade Metropolitana, instituído em 2025, já havia realizado reuniões técnicas e executivas, reunido representantes dos governos e desenvolvido um diagnóstico consolidado e uma base de dados compartilhada.

O pacto e seu acordo de cooperação buscam transformar essa articulação em uma estrutura institucional permanente durante a vigência estabelecida.

O que poderá mudar para o passageiro?

O principal resultado esperado da integração metropolitana é a possibilidade de organizar melhor viagens que utilizam diferentes sistemas de transporte.

Entre os benefícios que poderão ser buscados estão a redução de esperas nas transferências, maior compatibilidade entre horários, conexões mais organizadas entre ônibus e metrô e ampliação das possibilidades de integração tarifária.

Outra frente envolve o planejamento conjunto de corredores, estações, terminais e linhas de alimentação.

A integração também pode contribuir para melhorar o aproveitamento da infraestrutura de maior capacidade, evitando sobreposições desnecessárias e procurando preservar o atendimento aos bairros e municípios.

Para alcançar esses resultados, os órgãos responsáveis terão de conciliar os interesses dos usuários, as características operacionais de cada sistema e as condições dos contratos existentes.

O financiamento das integrações é um dos principais pontos dessa discussão.

Em audiência pública realizada na Câmara Municipal de Belo Horizonte, em julho de 2026, representantes do setor apontaram as necessidades de financiamento e os limites contratuais como desafios para ampliar a integração entre ônibus e metrô.

A criação do grupo técnico da Seinfra insere-se nesse processo mais amplo de articulação, em que Estado e municípios procuram estabelecer condições para tratar a mobilidade da Grande Belo Horizonte como uma rede regional.

Para quem depende diariamente de ônibus e metrô, o resultado mais importante será a capacidade de transformar o planejamento conjunto em viagens com menos tempo de espera, conexões mais eficientes e custos compatíveis com a realidade dos passageiros.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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