Prefeitura estuda transformação de área de 110 mil m² da SPTrans em São Paulo; antiga garagem Santa Rita guarda ônibus históricos e abriga estrutura operacional
Publicado em: 14 de outubro de 2026
Projeto urbanístico no Pari envolve possível aproveitamento imobiliário, obras viárias e investimentos privados; local já foi fábrica e oficina da CMTC e reúne raridades dos transportes, como trólebus, ônibus diesel e um dos primeiros híbridos da cidade
ADAMO BAZANI
Uma área de aproximadamente 110 mil metros quadrados pertencente à SPTrans, no Pari, região central de São Paulo, está sendo considerada em estudos da Prefeitura para transformação urbana e aproveitamento imobiliário. Trata-se do complexo Santa Rita, antiga instalação da CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos), que reúne estruturas administrativas e operacionais do transporte paulistano e guarda veículos históricos, entre eles trólebus de diferentes gerações, ônibus a diesel e um dos primeiros modelos híbridos desenvolvidos para a capital.
A proposta consta de um registro de reunião publicado no Diário Oficial desta quarta-feira, 14 de outubro de 2026, e faz parte de um planejamento mais amplo para a região central, relacionado à expansão da Avenida Marquês de São Vicente em direção à Avenida Salim Farah Maluf. A Prefeitura pretende estudar a reorganização da ocupação da Santa Rita, o potencial de construção, os custos de infraestrutura e a participação de investimentos privados. Os trabalhos dependem de entendimento formal com a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte e a SPTrans, responsáveis por atividades vinculadas ao imóvel.
O tema foi apresentado por representantes da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL) e da São Paulo Urbanismo durante reunião do grupo de gestão da Área de Intervenção Urbana do Setor Central.
O planejamento envolve também outros terrenos considerados estratégicos para a transformação da região, incluindo a chamada Gleba Pompeia, de aproximadamente 240 mil metros quadrados.
A administração municipal relaciona essas áreas à valorização imobiliária que pode resultar das intervenções viárias e urbanísticas previstas.
O que a Prefeitura pretende fazer com a Garagem Santa Rita
De acordo com o registro publicado, a Prefeitura estuda uma reorganização das atividades e da ocupação do terreno da Santa Rita para permitir outros aproveitamentos da área.
A proposta foi apresentada por Vladir Bartalini, representante da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento.
Segundo a exposição, o trabalho deverá considerar as condições de implantação de infraestrutura, as possibilidades de ocupação, o aproveitamento construtivo e a viabilidade econômico-financeira das intervenções.
O estudo deverá estimar custos de implantação, valores de venda de futuras áreas construídas e possibilidades de utilização de instrumentos urbanísticos para viabilizar o empreendimento.
Entre os mecanismos que poderão ser examinados estão concessões públicas, parcerias público-privadas e consórcios imobiliários.
Também será analisada a relação entre os investimentos necessários e a valorização dos imóveis ao longo do processo de transformação.
A Prefeitura relaciona a proposta à expansão da Avenida Marquês de São Vicente em direção à Avenida Salim Farah Maluf, intervenção que poderá modificar a circulação viária e criar novas possibilidades de ocupação de áreas atualmente vazias ou subutilizadas.
Os estudos abrangem ainda a Gleba Pompeia e a Operação Urbana Água Espraiada, com análises específicas para cada projeto.
Para o caso da Santa Rita, a reorganização precisará ser articulada com as atividades atualmente vinculadas à SPTrans.
O registro informa o encaminhamento de consulta à Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte e à SPTrans para obter manifestação formal sobre o interesse e a destinação do imóvel.
O objetivo é estabelecer as condições institucionais para prosseguir com a estruturação do projeto.
Estudo poderá levar até 18 meses e primeiras obras são projetadas para um prazo de até três anos
Durante a apresentação, Vladir Bartalini indicou um cronograma preliminar para o desenvolvimento do projeto.
A conclusão dos estudos econômicos foi estimada em um período de 12 a 18 meses.
Depois dessa etapa, a Prefeitura calcula aproximadamente mais um ano para a regulamentação dos instrumentos urbanísticos necessários.
A projeção apresentada indica que o início efetivo da ocupação e das obras na Santa Rita poderá ocorrer em um horizonte de dois anos e meio a três anos.
O desenvolvimento posterior dependerá das condições do mercado imobiliário e da procura pelas áreas ao longo da década seguinte.
O planejamento também envolve questões habitacionais e o aproveitamento da valorização imobiliária para financiar melhorias urbanas.
Durante a reunião, representantes da sociedade civil defenderam mecanismos para proteger moradores de baixa renda diante do crescimento dos preços de imóveis e aluguéis em áreas submetidas a grandes intervenções.
A discussão inclui possibilidades de habitação de interesse social, espaços públicos e medidas para evitar que a transformação da região provoque deslocamento de moradores.
Santa Rita foi uma das principais instalações industriais da CMTC
A importância da Santa Rita vai além de seu tamanho e de sua localização.
O complexo faz parte da história do transporte público de São Paulo e esteve diretamente ligado à produção, à manutenção e ao desenvolvimento de ônibus e trólebus utilizados na cidade.
A CMTC, criada em 1946, foi durante décadas uma das principais responsáveis pelo transporte coletivo municipal, operando veículos e mantendo estruturas próprias de manutenção e engenharia.
A garagem Santa Rita, identificada internamente pela sigla GSR, desempenhou funções industriais que ultrapassavam as atividades convencionais de estacionamento e manutenção de ônibus.
O local recebia componentes mecânicos e elétricos de veículos de outras garagens da companhia para recuperação.
Motores, câmbios, diferenciais e eixos eram desmontados, analisados e reparados para retornar à operação.
Havia também estruturas destinadas à recuperação de carrocerias e ao trabalho com veículos monoblocos.
Parte das atividades incluía a fabricação e a reconstrução de carrocerias, especialmente de trólebus.
Em reportagem especial publicada em 20 de agosto de 2017, o Diário do Transporte mostrou essas atividades e ouviu profissionais que trabalharam na antiga garagem.
O então superintendente de Engenharia e Mobilidade Especial da SPTrans, Simão Saura Neto, explicou que a Santa Rita tinha condições técnicas de realizar intervenções complexas nos ônibus, incluindo a recuperação estrutural e a construção de carrocerias.
Esse histórico ajuda a compreender a dimensão do patrimônio industrial que permanece associado ao complexo.
Diário do Transporte esteve na Santa Rita e encontrou trólebus, híbridos e veículos raros
Em 19 de agosto de 2017, o Diário do Transporte esteve na Santa Rita durante um encontro promovido pela SPTrans com profissionais da comunicação e interessados em transportes.
A visita permitiu conhecer tanto a estrutura operacional da gerenciadora quanto parte dos veículos históricos guardados nos galpões.
Entre os exemplares encontrados estavam trólebus com carrocerias e componentes de fabricantes como Grassi, Villares, Mafersa e Marcopolo.
Havia ainda ônibus a diesel de diferentes gerações e veículos ligados a experiências tecnológicas da administração municipal.
Um dos exemplares era um ônibus híbrido, com propulsão elétrica e a combustão, desenvolvido para experiências que antecederam a implantação do atual Expresso Tiradentes.
O veículo possuía características especiais, incluindo sistemas de guiagem lateral relacionados ao projeto que ficou conhecido como Fura-Fila.
Outro destaque da visita foi a história dos ônibus de dois andares desenvolvidos pela CMTC durante a administração do então prefeito Jânio Quadros.
Conhecidos popularmente como Fofão, esses veículos exigiram soluções de engenharia e testes para verificar a compatibilidade com as ruas e a infraestrutura da cidade.
Em depoimento ao jornal, Wagner Chagas, profissional que trabalhou durante décadas na Santa Rita, relembrou que uma Kombi equipada com uma estrutura de altura equivalente à do ônibus foi utilizada para percorrer trajetos e identificar possíveis obstáculos antes dos testes com o veículo definitivo.
A solução permitiu avaliar pontos críticos sem expor diretamente o ônibus de dois andares a riscos durante as verificações iniciais.
Essas experiências mostram a capacidade técnica instalada na antiga companhia municipal.
Relembre a visita:
Garagem CMTC Santa Rita: um marco da história dos transportes que guarda preciosidades
Complexo também abriga estrutura de monitoramento do transporte público
Depois da reorganização da antiga CMTC e da criação da SPTrans, a Santa Rita passou a concentrar outras atividades relacionadas ao gerenciamento do transporte.
O endereço de referência do complexo é Rua Santa Rita, 500, no Pari, e a antiga garagem possui acesso pela Rua Joaquim Carlos.
Na visita de 2017, o Diário do Transporte conheceu a estrutura da central operacional da SPTrans, utilizada para acompanhar a circulação dos ônibus municipais e dos veículos do Atende.
Naquele período, aproximadamente 112 funcionários distribuídos em três turnos participavam do acompanhamento da operação, que funcionava 24 horas por dia.
O monitoramento era feito por meio de computadores e painéis que apresentavam informações sobre a circulação dos ônibus.
As equipes acompanhavam problemas operacionais, acidentes, manifestações, ataques a veículos, quebras e outras situações que exigiam providências.
O trabalho também mantinha articulação com órgãos de segurança e de engenharia de tráfego.
A implantação do centro representou uma transformação do uso da antiga instalação industrial, preservando sua relação com a organização do transporte da cidade.
A área também esteve associada ao funcionamento do Departamento de Transportes Públicos, responsável por atividades de regulamentação e fiscalização de serviços como o transporte individual de passageiros.
Preservação da memória dos ônibus já foi discutida pela SPTrans
Os veículos guardados na Santa Rita também estiveram no centro de debates sobre a preservação do patrimônio histórico dos transportes paulistanos.
Em 2018, o Diário do Transporte mostrou a preocupação de pesquisadores e integrantes do Movimento Respira São Paulo com a necessidade de ampliar os espaços destinados ao acervo histórico.
Na ocasião, o vice-presidente do movimento, Norberto Pollak, destacou a existência de exemplares raros que permaneciam guardados no complexo.
A preocupação estava relacionada ao tamanho do Museu dos Transportes Públicos Gaetano Ferolla, na Zona Norte, e à necessidade de restaurar veículos para exposição e preservação.
Em junho de 2019, a SPTrans anunciou planos para intensificar ações de preservação da memória do transporte coletivo, incluindo a recuperação de veículos históricos da Santa Rita e melhorias no museu.
O tema voltou a ganhar repercussão em agosto daquele ano, durante questionamentos de pesquisadores sobre a destinação de ônibus antigos em leilões.
Entre as peças históricas mencionadas estavam veículos Mafersa e trólebus de diferentes gerações.
A existência desses exemplares dá ao estudo sobre a Santa Rita uma dimensão que também envolve memória industrial e patrimônio cultural.
Relembre:
Grupo quer novo local para museu do transporte em São Paulo e homenagem aos 70 anos do trólebus
SPTrans vai intensificar ações para preservação da memória do transporte coletivo em São Paulo
Transformação do terreno envolve transporte, patrimônio histórico e desenvolvimento urbano
A proposta de transformação da Santa Rita reúne interesses relacionados à utilização de terrenos públicos, à reorganização de estruturas administrativas e operacionais e ao desenvolvimento imobiliário da região central.
Do ponto de vista do transporte, a área está vinculada a uma empresa que gerencia serviços essenciais da capital e possui instalações técnicas de grande importância para o funcionamento do sistema.
Do ponto de vista urbanístico, o terreno integra um conjunto de áreas com potencial de transformação associado a intervenções viárias e à valorização da região.
Também existe uma dimensão histórica, documentada pelas atividades industriais da CMTC e pela permanência de veículos que representam diferentes etapas da evolução tecnológica dos ônibus paulistanos.
Os próximos encaminhamentos previstos envolvem a manifestação formal da SPTrans e da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte, além da elaboração dos estudos econômicos e urbanísticos.
O planejamento poderá definir como conciliar as atividades de transporte, o aproveitamento da área e a preservação dos elementos históricos associados ao complexo.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes



O espaço da antiga garagem Santa Rita deveria abrigar um centro de engenharia e logística voltado ao desenvolvimento de tecnologias e aplicações nas diferentes áreas do sistema paulistano de transporte.
O mais preocupante é quando a Prefeitura cita o termo “potencial de desenvolvimento urbano”, que aqui em São Paulo significa interesse e pressão do setor imobiliário em abocanhar terrenos que deveriam ser de interesse público.
Eu conheço bem a utilização que querem dar, essas malditas construtoras vendendo unidades de 35m² sem garagem a 300 mil reais, ” o sonho da sua vida”. É de suma importância a preservação do espaço histórico para a população, ou se não for pra preservar tudo, que seja uma parte e a parte de pátio vire pátio de linha de metrô futura (sim, para o metrô poder funcionar precisa de pátios com acesso a caminhões para trazer os trens, guardá-los, lavá-los e dar manutenção). Instalar um museu do transporte maior que o Gaetano Ferrolla, com passeio interno de bonde e um acervo espetacular também seria de grande valia… Mas sabemos bem aonde a administração municipal está de olho…. Logo aparece propaganda de mais uma construtora vendendo o sonho de 30m² que você tem que sair de casa pra soltar um pum porque não cabe lá.
Vão transformar a área em cubículos residenciais caríssimos, com áreas públicas inacessíveis. Sabe o que eu acho? Acho pouco! Reelegeram o fulano no primeiro turno.
Deveriam transferir a MetrópolePaulista para a garagem Araguaia no Pari e transformar a antiga garagem dos trolebus no Bras na nova sede do museu dos transportes públicos atualmente fechado.
Mais um projeto canalha para valorizar o mercado imobiliário.
Bandido tem usa paletó e gravata, não sai do ar condicionado e usa caneta.