Grupo quer novo local para museu do transporte em São Paulo e homenagem aos 70 anos do trólebus

Trólebus brasileiro GRASSI/VILLARES (1961) na Av. Lineu de Paula Machado em 1963. Foto: Raymond DeGroote – Acervo: Movimento Respira São Paulo – Reportagem: Adamo Bazani (Clique para ampliar)

Propostas são do “Movimento Respira São Paulo”. Ônibus históricos são guardados em galpão da SPTrans e nunca foram apresentados em exposições

ADAMO BAZANI

Um grupo de especialistas e admiradores de transporte limpo pede à prefeitura da capital paulista um novo espaço para o Museu do Transporte Público.

Localizado na Avenida Cruzeiro do Sul, na zona Norte, o museu foi inaugurado em 1985, por iniciativa do ex-funcionário da CMTC – Companhia Municipal de Transporte Coletivo, Gaetano Ferolla, e tem expostos veículos que marcaram diferentes épocas da mobilidade de São Paulo, como bondes, os primeiros modelos de trólebus, um ônibus executivo monobloco da CMTC e um exemplar do Fofão, ônibus urbano de dois andares que circulou pela cidade entre os anos de 1987 e 1993. Uma ideia excêntrica do então prefeito Jânio Quadros, mas que não foi de toda perdida. Serviu para mostrar que a metrópole precisava de ônibus de maior capacidade.

No entanto, o vice-presidente do “Movimento Respira São Paulo”, Norberto Pollak, disse ao Diário do Transporte que existem muito mais preciosidades dos transportes guardadas sem que a população tenha oportunidade de conhecer porque o espaço do Museu na zona Norte é pequeno.

Segundo Norberto, na antiga garagem da “Santa Rita” da CMTC, há exemplares como gerações de trólebus, o primeiro modelo de ônibus elétricos híbridos e modelos de ônibus articulados.

Em agosto do ano passado, o Diário do Transporte esteve na garagem da Santa Rita, hoje o local abriga a estrutura do Departamento de Transportes Públicos da cidade de São Paulo.

Os veículos precisam de restauro, mas pelo tempo que estão guardados, não estão em más condições.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2017/08/20/garagem-cmtc-santa-rita-um-marco-da-historia-dos-transportes-que-guarda-preciosidades/

Noberto diz que há um local histórico, tombado, que tem área maiore e pode ser um novo espaço para o Museu dos Transportes.

“Nós temos a ideia de utilizar um espaço que já é preservado, não pode ser derrubado, que é a antiga garagem [da CMTC] Brás, na Avenida Celso Garcia, que já foi garagem de bonde, garagem de trólebus, e tem um amplo espaço. Nós gostaríamos de levar o museu Ferolla para lá, já que suas instalações estão muito pequenas e limitadas, não cabe tudo lá dentro, tem de ficar parte guardada em outro lugar, tudo amontoado, e ainda tem a reserva técnica que caberia na garagem Brás. Caso não seja possível este espaço, estamos procurando outros. Sabemos que o poder público não tem os recursos necessários, mas a sociedade pode participar” – disse.

Segundo Norberto, outras organizações têm atuado para um novo espaço para a memória dos transportes de São Paulo.

“Nós temos veículos guardados pela SPTrans, que separou uma reserva técnica para um museu e nós estamos brigando muito com isso, junto com outros grupos, como o pessoal que está organizando a BBF (Bus Brasil Fest – exposição de ônibus antigos e novos), como o Juverci de Melo e Fábio Kelin, para tentar salvar um pouco da nossa história, porque um país sem história não vê futuro, repete os erros do passado.”

70 ANOS DE TRÓLEBUS NO BRASIL:

Trólebus Norte Americano PULLMAN STANDARD na Aclimação em 1949. – Acervo: Movimento Respira São Paulo – Reportagem: Adamo Bazani

O Movimento Respira São Paulo e demais entusiastas de meio ambiente e mobilidade também querem promover no ano que vem uma comemoração especial pelos 70 anos do trólebus no Brasil.

A primeira linha do País começou a circular em São Paulo, em 22 de abril de 1949, com trólebus norte-americanos, entre a Aclimação / Praça João Mendes, num trajeto de 7,2 km.

A ideia que foi apresentada à SPTrans, é fazer um desfile a partir da Aclimação, em homenagem à primeira linha até o centro da cidade. Há rede aérea ainda disponível para o percurso.

O desfecho do desfile seria uma exposição de fotos, documentos e veículos.

Diversas cidades do País tiveram sistemas de trólebus, mas São Paulo é ainda o que reúne a maior frota, com 200 unidades.

Atualmente são três sistemas brasileiros apenas, o da capital (operado pela empresa Ambiental Transportes entre parte da zona Leste e a região central), o do Corredor ABD (operado pela empresa Metra, com aproximadamente 90 unidades entre as zonas Leste e Sul da cidade de São Paulo e o ABC Paulista) e Santos (com seis unidades na frota, em apenas uma linha, operada pela Viação Piracicabana, mas os veículos pertencem à prefeitura).

São Paulo deveria ter uma das maiores frotas do mundo ainda hoje. Em 1978, o projeto Sistran, organizado pelo engenheiro Adriano Branco, na gestão do prefeito Olavo Setubal, previa ampliação da rede e mais de 1200 veículos.

Se o projeto fosse colocado em prática e grande parte da rede não fosse desativada, a cidade de São Paulo estaria bem avançada na questão dos transportes limpos sobre pneus, que ainda é um tema que gera embate entre diferentes montadoras de veículos, organizações em prol do meio ambiente, donos de empresas de ônibus e poder público.

Na opinião de Noberto, grande parte da rede de trólebus foi desativada em São Paulo e diversas cidades aboliram o sistema por falta de visão e por questões políticas, muitas delas relacionadas à descontinuidade administrativa entre prefeitos de partidos diferentes.

Norberto conta que, em viagens internacionais, é possível ver trólebus modernos, juntamente com bondes.

Trólebus moderno em Vancouver, no Canadá. Foto: Norberto Pollak – Reportagem: Adamo Bazani

“Estive no começo do ano em Seattle, nos Estados Unidos, e em Vancouver, no Canadá, e o trólebus são todos eles de alimentação dupla, ou seja, de bateria lítio e carregam na rede. O motorista recebe por sinal de rádio quando deve abaixar e levantar a alavanca, o que acontece apenas com um toque no painel, não é mais preciso sair do trólebus e puxar lá na parte de trás. Quando você anda nas ruas de Seattle e também de Vancouver, você vê um balé de alavancas subindo e descendo. Isso dá flexibilidade ao trólebus, que evoluiu muito mais que a essência do ônibus ciclo diesel, que é basicamente o mesmo conceito há 40 anos. Várias cidades europeias estão voltando ao trólebus e ao bonde, não o VLT, o veículo leve sobre trilhos, mas ao bonde mesmo, com menos segregação no espaço urbano, mas modernizado.” – disse.

Trólebus moderno no Brasil, com ar-condicionado e sistema para wi-fi, no Corredor ABD. Foto e Reportagem: Adamo Bazani

Assim, segundo Norberto, homenagear e entender a história do trólebus, como propõe o evento pelos 70 anos do veículo no Brasil, é discutir o futuro do transporte limpo.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

8 comentários em Grupo quer novo local para museu do transporte em São Paulo e homenagem aos 70 anos do trólebus

  1. Só um adendo. A garagem do Brás citada na matéria hoje abriga os ônibus da viação Expandir, pertencente ao grupo Ruas.

  2. Tomara que essa modalidade de transporte público volte a ganhar espaço no Brasil!

  3. tenho receio do espaço hoje da av. cruzeiro do sul, não parece seguro contra incendios, se ocorrer um incendio, bau, bau todo acervo se vai embora.

  4. Ainda bem que existem prsspes dedicadas a conservar nossa história
    Parabéns

  5. Parabéns pela matéria de adamo Bazani e Norberto Pollak. Mostra que a preservação da história é tão importante quanto ao desenvolvimento tecnológico. Vamos difundir essa ideia. Jorge Françozo de Moraes. Movimento Respira São Paulo.

2 Trackbacks / Pingbacks

  1. Projeto de Lei pretende incluir Dia do Trólebus no calendário de eventos da capital paulista – Diário do Transporte
  2. EXCLUSIVO: Trólebus livraram São Paulo de 14,3 mil toneladas de gás carbônico somente entre janeiro e outubro – Diário do Transporte

Deixe uma resposta