Empresas de ônibus, em carta aberta, defendem custeio permanente da mobilidade e calculam Tarifa Zero nacional em até R$ 110 bilhões por ano
Publicado em: 13 de agosto de 2026
Denominado “Carta Brasil em Movimento”, documento ressalta proposta de mudança no Vale-Transporte e inclusão dos deslocamentos entre as necessidades das famílias atendidas pelo Bolsa Família.
ADAMO BAZANI
Uma eventual Tarifa Zero em todo o transporte coletivo brasileiro poderia custar até R$ 110 bilhões por ano, considerando ônibus, sistemas sobre trilhos e uma ampliação de 20% da oferta para atender ao crescimento esperado da demanda.
A estimativa é da NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos) e integra o debate apresentado pelas empresas de ônibus na “Carta Brasil em Movimento”, documento aberto à população divulgado durante o 39º Seminário Nacional NTU, realizado paralelamente à Lat.Bus 2026, no São Paulo Expo.
A carta defende uma política permanente de financiamento do transporte público coletivo e sustenta que o atual modelo, ainda fortemente dependente da tarifa paga pelo passageiro, dificulta tanto a redução do preço das passagens quanto a melhoria e a modernização dos serviços.
No documento, a entidade resume desta forma o que considera um ciclo de deterioração do transporte coletivo:
“Os custos sobem, a tarifa sobe, os passageiros caem, os recursos caem, a qualidade cai e o ciclo recomeça.”
A carta representa a posição das empresas de ônibus, mas traz para o debate números que mostram a dimensão da discussão sobre financiamento da mobilidade. O transporte coletivo perdeu cerca de 40% de sua demanda na última década.
Em 2025, a demanda dos ônibus urbanos ainda estava 22,5% abaixo dos níveis de 2019. O gasto com transporte representa, em média, 20,7% do orçamento das famílias e pode alcançar 30% em algumas capitais, enquanto aproximadamente 80% das receitas dos sistemas ainda dependem das tarifas.
A NTU também calcula que um aumento real de 10% no valor da passagem pode provocar uma queda de aproximadamente 4% na demanda.
São números que ajudam a explicar por que a discussão sobre Tarifa Zero, subsídios ou redução de passagem não pode ficar separada da discussão sobre como financiar permanentemente o transporte.
O Diário do Transporte mostrou nesta quarta-feira, 12 de agosto de 2026, em reportagem especial produzida durante a Lat.Bus e o Seminário Nacional NTU, que a dificuldade de financiamento também interfere na velocidade com que as inovações apresentadas pela indústria chegam efetivamente aos passageiros.
Enquanto a feira apresenta ônibus elétricos, modelos a biometano, biodiesel e etanol, híbridos, inteligência artificial, conectividade e novas tecnologias de segurança e eficiência, muitos sistemas ainda enfrentam limitações financeiras para renovar suas frotas.
CARTA DEFENDE NOVA DIVISÃO DA CONTA
A principal mensagem da “Carta Brasil em Movimento” é que o passageiro não deveria continuar sendo responsável, por meio da tarifa, pela maior parte do financiamento do transporte coletivo.
Para a NTU, uma política permanente deveria distribuir os custos entre diferentes beneficiários do transporte e diferentes políticas públicas.
A proposta apresentada pela entidade, denominada Transporte para Todos, está estruturada principalmente em três frentes: reformulação do Vale-Transporte, financiamento específico das gratuidades e criação de um benefício de mobilidade destinado à população de baixa renda.
Segundo os cálculos da NTU, estas fontes poderiam financiar aproximadamente 85% dos custos do transporte coletivo urbano.
A entidade argumenta que, a partir desta nova estrutura, municípios que desejassem implantar Tarifa Zero poderiam complementar os recursos restantes com seus próprios orçamentos.
Assim, a proposta da NTU não é simplesmente a criação de uma Tarifa Zero nacional de R$ 110 bilhões anuais, mas uma mudança na forma como o sistema é financiado para diminuir a parcela paga diretamente pelo passageiro.
VALE-TRANSPORTE PODERIA MOVIMENTAR R$ 60 BILHÕES
Um dos principais pontos da carta é a reformulação do Vale-Transporte.
A NTU propõe a criação do Vale-Transporte do Trabalhador, com ampliação do benefício para trabalhadores contratados pela CLT, empregados domésticos e servidores públicos.
Pela proposta apresentada no seminário, o desconto de até 6% atualmente suportado pelo empregado seria eliminado, e o custo passaria a ser integralmente assumido pelo empregador.
A associação calcula que o novo modelo poderia alcançar aproximadamente 55 milhões de trabalhadores e gerar perto de R$ 60 bilhões anuais para o financiamento dos deslocamentos.
Esta fonte representaria, segundo a NTU, cerca de 55% dos custos do transporte coletivo urbano.
A mudança dependeria de alterações legais e de discussão com empregadores e trabalhadores, uma vez que representa uma redistribuição do custo atualmente existente.
GRATUIDADES: NTU CALCULA R$ 25 BILHÕES
Outro ponto destacado pela carta é o financiamento das gratuidades.
A NTU sustenta que benefícios concedidos por políticas de educação, assistência social ou outras áreas não deveriam ser incorporados ao custo pago pelos demais passageiros.
Segundo o Anuário NTU 2025-2026, as gratuidades representam, em média, 22% do custo total dos sistemas e, em muitos municípios, acabam sendo financiadas pelos usuários que pagam passagem.
A proposta é que cada benefício tenha uma fonte específica de custeio no respectivo orçamento público.
A entidade estima em aproximadamente R$ 25 bilhões anuais o volume relacionado a estas gratuidades.
Na avaliação da NTU, esta separação permitiria reduzir a pressão atualmente exercida sobre a tarifa comum.
CARTA INCLUI MOBILIDADE NO DEBATE SOBRE O BOLSA FAMÍLIA
A terceira frente é voltada à população de baixa renda.
A NTU propõe a criação do Vale-Transporte Social, destinado a pessoas pertencentes a famílias atendidas pelo Bolsa Família que não estejam contempladas pelo Vale-Transporte tradicional ou por outras gratuidades.
A referência apresentada pela entidade é de 42 viagens mensais por beneficiário, calculadas com base na tarifa pública média nacional.
Para esta modalidade, a NTU estima necessidade de recursos federais entre R$ 5 bilhões e R$ 15 bilhões por ano.
A proposta coloca a mobilidade entre as necessidades das famílias atendidas pelas políticas de transferência de renda. O argumento é que o acesso ao emprego, à educação, à saúde e a outros serviços também depende da capacidade de deslocamento.
A forma de financiamento desta parcela, entretanto, ainda depende de discussão e detalhamento, inclusive para estabelecer se os recursos destinados à mobilidade seriam adicionais ou vinculados aos orçamentos já existentes das políticas sociais.
R$ 110 BILHÕES SERIAM NECESSÁRIOS PARA TARIFA ZERO EM ESCALA NACIONAL, DIZ NTU
A estimativa de até R$ 110 bilhões anuais aparece como referência para dimensionar quanto custaria retirar completamente a cobrança direta do passageiro em escala nacional.
Segundo a entidade, o cálculo considera não apenas os ônibus, mas também os sistemas sobre trilhos e uma ampliação de 20% da oferta.
A inclusão desta expansão é relevante porque experiências de gratuidade mostram que a retirada da tarifa tende a aumentar significativamente a quantidade de passageiros.
Com mais demanda, o poder público precisa prever também mais veículos, trabalhadores e viagens.
É neste ponto que experiências municipais recentes ajudam a contextualizar o debate apresentado pela carta.
SÃO CAETANO RESTRINGIU GRATUIDADE APÓS FORTE AUMENTO DA DEMANDA
São Caetano do Sul, no ABC Paulista, implantou Tarifa Zero universal em novembro de 2023.
A medida provocou forte crescimento no número de passageiros. A demanda mensal, que estava em aproximadamente 514 mil passageiros antes da gratuidade, chegou a cerca de 1,74 milhão.
Em 2026, entretanto, a prefeitura decidiu restringir o benefício aos moradores da cidade e a grupos específicos, retomando a cobrança para passageiros não residentes.
Segundo informações divulgadas pela administração municipal, o programa custava aproximadamente R$ 2,9 milhões mensais, ou cerca de R$ 35 milhões por ano.
Com a expansão da demanda e a necessidade de aumentar a frota, as projeções apresentadas indicavam que as despesas poderiam chegar a uma faixa entre R$ 50 milhões e R$ 70 milhões.
A prefeitura estimou uma economia anual de R$ 14,7 milhões com a mudança no programa.
O caso mostra como uma política de gratuidade pode gerar rapidamente crescimento da demanda e, consequentemente, necessidade de ampliar os recursos destinados ao transporte.
Não significa, isoladamente, que a Tarifa Zero seja inviável, mas evidencia a importância de definir previamente critérios, fontes permanentes de financiamento e capacidade de expansão da oferta.
LUZITINHA MOSTRA MODELO FOCADO EM COMUNIDADE DE MAIOR VULNERABILIDADE
Também no ABC Paulista, Santo André adotou uma experiência diferente.
O Circular Luzitinha oferece transporte gratuito no Jardim Santo André, região de vulnerabilidade social, conectando moradores a pontos importantes e à rede convencional de transporte.
Em vez de eliminar a tarifa de toda a rede municipal, a política foi direcionada a uma área específica na qual a dificuldade de deslocamento é uma das barreiras enfrentadas pela população.
Como mostrou o Diário do Transporte, a estimativa inicial apresentada pela prefeitura indicava custo inferior a R$ 2 por morador de Santo André ao mês para manter o serviço.
VÍDEO: Tarifa Zero de Santo André vai custar menos de R$ 2 por morador ao mês – Circular Luzitinha
São Caetano e Santo André possuem modelos e escalas diferentes e, portanto, os resultados não podem ser comparados diretamente.
Mas os exemplos mostram que políticas de gratuidade podem ser estruturadas de diversas maneiras.
Podem abranger toda uma rede ou começar de forma localizada, priorizando regiões e populações nas quais o custo do transporte representa uma barreira mais significativa ao acesso à cidade.
Medidas focalizadas e graduais também permitem que os governos acompanhem custos, demanda e resultados antes de ampliar os programas.
CARTA COBRA TRANSPORTE COLETIVO COMO POLÍTICA NACIONAL
A “Carta Brasil em Movimento” também amplia o debate para além da tarifa.
A NTU sustenta que o transporte coletivo precisa deixar de ser tratado predominantemente como responsabilidade municipal e passar a fazer parte de uma política nacional permanente.
Antes mesmo do seminário, a entidade já havia defendido que o financiamento do transporte público fosse incorporado aos programas dos candidatos à Presidência da República nas próximas eleições. Para a associação, a mobilidade urbana deve integrar a estratégia nacional de desenvolvimento.
A posição também está relacionada à queda de participação do transporte coletivo nos deslocamentos urbanos.
Segundo a NTU, a perda de aproximadamente 40% da demanda em uma década ocorreu ao mesmo tempo em que cresceram alternativas individuais de transporte.
A entidade sustenta que reverter esta tendência exige não apenas recursos, mas melhoria da qualidade, modernização da frota e políticas que tornem o transporte coletivo mais competitivo.
FINANCIAMENTO TAMBÉM PRECISA CHEGAR AO PASSAGEIRO
A discussão sobre novas fontes de recursos, entretanto, não elimina a necessidade de contrapartidas.
Como destacou o Diário do Transporte na reportagem especial desta quarta-feira, um modelo de financiamento mais estável precisa resultar em melhoria efetiva do serviço.
Isso inclui frequência, regularidade, velocidade comercial, renovação da frota, acessibilidade, segurança, informação ao passageiro e conforto.
A Lat.Bus 2026 evidencia justamente esta relação.
A indústria possui ônibus elétricos, veículos movidos por combustíveis de menor emissão, tecnologias de segurança, telemetria e sistemas capazes de reduzir consumo e manutenção.
A própria NTU reconhece que as inovações apresentadas pela indústria precisam de um modelo de financiamento que permita sua incorporação aos sistemas.
Assim, a “Carta Brasil em Movimento” coloca formalmente no debate uma proposta das empresas para mudar a origem dos recursos do transporte coletivo.
Os números apresentados pela entidade — até R$ 110 bilhões para uma Tarifa Zero nacional, cerca de R$ 60 bilhões provenientes da reformulação do Vale-Transporte, aproximadamente R$ 25 bilhões para gratuidades e entre R$ 5 bilhões e R$ 15 bilhões para o Vale-Transporte Social — dimensionam o tamanho da discussão.
São propostas que ainda precisam passar pelo debate entre governos, empresas, trabalhadores, empregadores e sociedade.
Mas a mensagem central da carta é objetiva: reduzir tarifas, ampliar gratuidades e modernizar o transporte coletivo, na avaliação da NTU, depende de substituir políticas pontuais por um modelo permanente de financiamento.
A experiência recente das cidades mostra que ampliar o acesso é possível, mas que o desenho da política faz diferença.
Em São Caetano do Sul, a gratuidade universal aumentou fortemente a demanda e posteriormente passou por restrições. Em Santo André, o Circular Luzitinha adotou uma política localizada, de menor impacto financeiro e voltada diretamente a uma comunidade de maior vulnerabilidade.
São caminhos diferentes dentro de uma mesma discussão que agora ganha dimensão nacional: como ampliar o acesso ao transporte coletivo de maneira socialmente efetiva e financeiramente sustentável.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes



De novo essa ilusão.
Meus caros Adamo e Presidentes (Atual e Anteriores) da NTU: os sempre mui ativos empresários de ônibus vêm dando sucessivos tiros no pé do seu sempre lucrativo setor. Eles agem com vista ao curto e médio prazo e nunca pensam no futugo (com exceção de alguns poucos, muito poucos …). A Tarifa Zero, conforme foi adotada (espuriamente) no Brasil, serviu somente para 3 coisas: a) livrar os prefeitos e os empresários das difíceis negociações de correção anual das tarifas; b) suprir o fantasioso “Caixa de Campanha” dos prefeitos com recursos providos pelo erário municipal para os bolsos pessoais (10%?); c) permitir o acesso de milhões de brasileiros às oportunidades que as cidades oferecem, já que eles não conseguiam se mover e acessar o território das cidades por não terem como pagar pelas tarifas. É impressionante como o consumo de viagens se triplica quando o Estado assume a obrigação de garantir o direito constitucional de ir e vir dos cidadãos! Nossos espertos empresários, porém, viram na Tarifa Zero, uma oportunidade de fugir à celeuma da recomposição dos custos de operação e investimento e de dar uma cala-a-boca para as dezenas de milhares de prefeitos e vereadores do torrão brasileiro… Mas o tamanho da boca do empresariado privado não tem tamanho neste Universo q é infinito! E todas as experiências de Tarifa Zero (exceto as adotadas em Campinas nos anos 1990) tendem a dar com os burros n’água… (exceto para as burras dos empresários e dos prefeitos e vereadores). Mas isso afeta O FUTURO do “Negócio” do transporte urbano brasileiro… e as consequências estão vindo e virão a cavalo proximamente. A ver. Os que sobreviverem, verão …