Transporte semiurbano da ANTT “agoniza” com frota velha, má avaliação, clandestinos, greves e gratuidades sem contrapartida, aponta especialista

De acordo com advogada Rita Januzzi, situação pior está no sistema do DF e Entorno; Diário do Transporte noticiou que agência vai lançar consulta pública para tentar melhorar

ADAMO BAZANI

A ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) gerencia dois sistemas que parecem viver em dois mundos e duas realidades completamente diferentes.

Enquanto o rodoviário interestadual tem um marco legal, que bem ou mal, é uma definição de regras e critérios, empresas investindo, competindo e serviços bem avaliados; o transporte semiurbano é diametralmente oposto a isso: sem regulamentação específica, a realidade é marcada, de uma maneira geral, por frota velha, má avaliação, clandestinos, greves e gratuidades sem contrapartida.

Na última semana, o Diário do Transporte, de forma exclusiva, noticiou que a agência decidiu que, finalmente, vai abrir uma audiência pública para discutir a metodologia de classificação dos mercados atendidos pelos serviços de transporte rodoviário coletivo interestadual semiurbano.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2026/07/17/antt-autoriza-audiencia-publica-para-definir-criterios-de-classificacao-de-mercados-do-transporte-semiurbano-interestadual/

O transporte semirubano gerenciado pela ANTT é aquele operado pelas empresas com ônibus do tipo urbano, com catracas, duas ou mais portas e paradas em pontos, que ligam diferentes estados.

Para a advogada que atua no segmento de regularização de transportes e que atende a diversas empresas deste segmento, Rita Januzzi, a situação mais crítica é a do DF (Distrito Federal) e Entorno.

“O transporte semiurbano do Distrito Federal voltou a expor, nas últimas semanas, um problema que vem se repetindo em diversas regiões administrativas: a inércia da ANTT no combate ao transporte clandestino, somada a um modelo de custeio que não fecha a conta para as empresas operadoras”. – disse.

Como tem mostrado o Diário do Transporte, o serviço semiurbano interestadual, em especial do Distrito Federal e do Entorno, ainda é alvo de uma avaliação negativa dos passageiros.

O IQT global passou de 4,54 para 5, mantendo o sistema na categoria “Regular”.

A falta de renovação de frota é o principal problema, classificada como crítica.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2026/05/15/antt-divulga-indice-de-qualidade-do-semiurbano-do-df-com-global-como-critica-catedral-como-regular-e-amazonia-e-utb-como-boas/

A especialista diz que o quadro não é de agora, tem raízes antigas, e já vem sendo alertado pelas empresas, trabalhadores, passageiros e até gestores públicos.

A greve na garagem que atende a linha entre Planaltina e Brasília é um dos exemplos, segundo Rita Januzzi

“Um grupo reduzido de motoristas — cerca de meia dúzia — deflagrou movimento grevista por atraso no pagamento de salários. A empresa montou toda uma estrutura de apoio aos grevistas: barracas, mesa, cadeiras, colchões, televisão, café da manhã e jantar, além de churrasco e cestas básicas, numa tentativa de pacificar a situação” – disse.

Rita Januzzi explicou que a situação tem até envolvimento de grupos políticos, incentivando, segundo ela, as paralisações.

“Para além do conflito trabalhista, a raiz traz um dado estrutural pouco discutido: mesmo sem contrato formal com o poder público, uma empresa do semiurbano tem exatamente as mesmas obrigações de uma concessionária contratada como FGTS, salários, tributos, combustível, pneus, peças, energia, aluguel de garagem, mas ao contrário das empresas de Brasília, não conta com subsídio público. Ainda assim, é o sistema de Brasília, subsidiado, que registra paralisações recorrentes”. – disse.

A advogada afirma que esta influência de grupos político incentiva até mesmo a atuação do transporte clandestino que, de acordo com a advogada, é alvo de muito pouca ou quase nenhuma fiscalização por parte da ANTT e atuação de autoridades policiais.

É nesse cenário de operação deficitária que o transporte clandestino se expande no semiurbano do DF, capturando parte da demanda pagante sem arcar com nenhum dos custos regulatórios, trabalhistas ou de gratuidade que pesam sobre as empresas autorizadas. A fiscalização, que seria atribuição da ANTT, não tem se mostrado efetiva — nem sobre os clandestinos, nem na cobrança ao Governo Federal por soluções estruturais, como a instituição de subsídio ou a desoneração de tributos e do licenciamento da frota, medidas que aliviariam o custo operacional das empresas.

Para Rita Januzzi, o maior prejudicado enquanto não há definições sobre uma regulação mais moderna e eficiente do transporte semirurbano é o passageiro.

Fica a pergunta que operadores do setor têm feito com insistência: falta vontade política da ANTT, falta articulação junto ao Governo Federal pelo subsídio, ou simplesmente não há interesse em resolver? Enquanto a resposta não vem, quem paga a conta é o usuário — o mesmo usuário que, paradoxalmente, deveria ser a prioridade de todo o sistema.

No anuário estatístico, recentemente divulgado pela ANTT, a agência traz um relatório específico sobre o transporte semiurbano:

Empresas operadoras

  • 30 empresas autorizadas em operação no transporte semiurbano interestadual.

Abrangência geográfica

O sistema atende regiões metropolitanas e cidades limítrofes de diferentes unidades da Federação, concentrando-se principalmente em:

  • Distrito Federal / Goiás
  • Minas Gerais / São Paulo
  • Paraná / Santa Catarina
  • Bahia / Pernambuco
  • Mato Grosso / Goiás
  • Mato Grosso do Sul / Paraná

Participação por mercado:

Mercado Empresas Participação
DF–GO 10 33,3%
MG–SP 7 17,9%
PR–SC 5 15,4%
BA–PE 2 5,1%
MT–GO 2 5,1%
DF–MG 1 2,6%
PE–PB 1 2,6%
PR–MS 1 2,6%
MS–PR 1 2,6%

Linhas em operação

  • 157 linhas semiurbanas interestaduais em operação.
  • Atendem aproximadamente 5.777 ligações origem-destino.
  • O sistema opera com forte concentração na região Distrito Federal–Goiás, seguida dos mercados Minas Gerais–São Paulo e Paraná–Santa Catarina.

Passageiros transportados

Em 2025, o semiurbano registrou:

  • 37,9 milhões de passageiros transportados.
  • Crescimento em relação a 2024.
  • O transporte diário é predominantemente de deslocamentos para trabalho, estudo e acesso a serviços públicos.

Perfil de gratuidades

  • Passe Livre: aproximadamente 801 mil utilizações em 2025.
  • Idosos: aproximadamente 4,6 milhões de gratuidades concedidas.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Juan disse:

    O ônibus da foto ainda é dos “bons”. Tem muitos que são mais velhos e verdadeiros bagaços rodantes

  2. Paulo Silva disse:

    O mesmo vale pras linhas suburbanas que sempre foram “gerenciadas” pela ARTESP: Os ônibus sempre velhos, repassados com pelo menos 10 anos de uso em outras cidades, sem conforto, a ARTESP nunca toma uma atitude, nunca exige una frota mais novo

  3. Francinaldo Caldeira de carvalho disse:

    ANTT tem mas taguatur e CTT expresso ,inter Amazona só carro velhos

  4. Rodrigo Zika! disse:

    Agência do governo é só corrupção e favorecimento para os amigos.

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