História

HISTÓRIA – Caio: A união da modernidade com a paixão de quem faz a história dos transportes

Em meio às entrevistas sobre eletromobilidade e reformulação de um dos principais sistemas de transportes do País, o bate papo rolou sobre modelos icônicos que foram veículos para se chegar a esta evolução

ADAMO BAZANI

Disruptura virou um dos termos “modinha” do mundo corporativo para quem quer vender a ideia de “inovação”, mudança e transformação. É o tal chamado “quebrar” paradigmas – outra frase que já deu o que tinha de dar.

Mas isso é balela de quem ganha dinheiro com estas frases que falam e não dizem nada.

Não existe disruputra (nem oficialmente, no dicionário), o que ocorre é evolução. Porque tudo tem uma base, não nasce do nada, no “abracadabra”.

Com o transporte de pessoas, esse sim, que transforma vidas por dar oportunidades de acesso, é o que acontece.

Um bate-papo informal, mesmo em meio a pautas de inovações, como a eletrificação inédita do sistema de ônibus de Montes Claros (MG) e a renovação de frota no contexto da reformulação dos transportes da cidade do Rio de Janeiro, trouxe as lembranças de executivos e trabalhadores da fabricante de carrocerias de ônibus Caio, com sede em Botucatu, no interior paulista.

A fabricante, fundada em 1945, pela família massa e que hoje é o Grupo Caio, de famílias tradicionais do transporte, como Ruas e Cunha, é uma das mais emblemáticas da história da mobilidade e, apesar de todas as modernizações de veículos, processos industriais e gestões, ainda mantém um clima familiar e de valorização do passado.

Afinal, passado não é “passado”, é semente que foi plantada. Passado não se renuncia, não se esquece, não se joga embaixo do tapete. Mas é necessário entendê-lo, valorizá-lo.

Na conversa, que começou ao lado de um moderníssimo ônibus 100% elétrico de Montes Claros (MG) modelo eMillennium da Caio, com tecnologia Eletra, eque terminou após uma caminhada até um pátio onde estava parte dos mais de 300 ônibus comprados pelo Grupo Comporte para o Rio de Janeiro (RJ), entre os quais, a versão de piso baixo e motor traseiro, estavam o editor-chefe e criador do Diário do Transporte, Adamo Bazani; o vice-presidente industrial do Grupo Caio; Maurício Lourenço da Cunha; o diretor de produção da Caio, Wilson Cavalari; o representante da Caio em Minas Gerais, Andrey Moreira Nascimento.

Todos com anos de estrada nos transportes, cada um em sua área: notícia, gestão, produção e vendas, mas que se complementam.

O primeiro assunto não poderia ser outro, o diretor de vendas José Vendramini, que, depois de mais de 60 anos de empresa (isso mesmo), já incorporou a fabricante em sua identidade, sendo conhecido somente como “seu Zezinho da Caio”.

Sem o seu Zezinho, a reportagem sobre Montes Claros, na última quinta-feira, 23 de julho de 2026, não seria possível. A ideia da pauta e da ida ao Diário do Transporte foi dele. Já a pauta dos ônibus do Rio de Janeiro, nasceu do olhar apaixonado, mas profissional do jornalista que viu aquela imensa frota. Porém, se não fosse a visita por Montes Claros, não sairia a pauta do Rio de Janeiro.

Seu Zezinho viu de perto nascer e ajudou a espalhar pelo país modelos de ônibus que ajudaram não só a Caio crescer, mas as regiões por onde prestaram serviços a se desenvolver. Assim, como contribuíram para o crescimento e até mesmo a escrita de milhões de histórias pessoais pelas linhas do tempo: Jaraguá, Bela Vista, Gabriela, Amélia, Corcovado, Vitória, Alpha, Apaches, Millennium, e-Millennium, e-Millennium BRT, estes últimos já na era da eletromobilidade.

Seu Zezinho é ícone, é apaixonado pela Caio. Seja até a implicar às vezes: “Olha, esqueceu de colocar o nome Caio no título da matéria, viu” – “uma das frases que eu mais ouço dele”.

Mas ele fala com um amor à marca, com um cuidado, com uma fineza, uma educação, que soa gentil.

Depois, a conversa foi pelos modelos e empresas.

Maurício Lourenço da Cunha confessou: “O meu preferido é o Amélia, e o Amélia I, aquele que tinha lanterninha em pé na frente e uma lanterna só de cada lado, não o par, como no Amélia II” – se referindo ao modelo lançado em 1980 para suceder o bem sucedido (sem redundâncias ou pobreza no vocabulário) Caio Gabriela (o preferido do repórter).

“O Amélia começou a ser feito na Penha (antiga sede da empresa, no bairro da zona Leste da cidade de São Paulo) e continuou aqui em Botucatu” – lembrou.

Depois, sem uma ordem cronológica, o assunto mudou para o “Apache S21”.

Icônico modelo de 1999/2000, lembrado por Wilson Cavalari.

“O S21 nasceu num momento difícil da empresa, que estava prestes à falência (o que ocorreu em dezembro de 2000). Lembro da fábrica vazia, só tinha um Apache S21 no meio, a gente em volta dele. Uma tristeza” – recordou.

Andrey Moreira Nascimento fez uma menção que dá justiça ao modelo.

“Era um ônibus ótimo, o mercado aceitou muito bem. ‘Quadradão’, mas bonito, boa visibilidade, qualidade. Trazia a cara do Vitória (um dos modelos com maior sucesso da história da empresa). Vendeu bem. Mas a Caio já estava ruim naquela época, não deu tempo” – disse.

O nome Apache, hoje com o sobrenome Vip, que está na quinta geração, é utilizado pela empresa e lidera o segmento de urbanos.

Mas o tempo (não da história, o imediato, o do relógio), avançava e não daria mais tempo de passear pelo tempo….

Transporte é assim….Vidas são assim … Pode haver paixão em tudo, até no que é mais técnico.

A Caio (Companhia Americana Industrial de Ônibus) foi fundada em 19 de dezembro de 1945, em São Paulo, pelos irmãos Gonçalves e pelo imigrante italiano José Massa. A produção começou em janeiro de 1946, em um galpão no bairro do Brás, com a fabricação da carroceria Jardineira. Ao longo das décadas, a empresa se consolidou como uma das principais encarroçadoras brasileiras, especialmente no segmento de ônibus urbanos. Em 1980, a produção foi transferida para Botucatu, no interior paulista, onde a nova fábrica foi oficialmente inaugurada em 1982.

Um dos símbolos dessa nova fase foi o Caio Amélia, lançado em 1982 para substituir o Gabriela. Produzido com estrutura de aço ou alumínio, o modelo marcou a paisagem das cidades brasileiras durante os anos 1980, com versões convencionais, padron e articuladas. O Amélia tornou-se um dos maiores sucessos da encarroçadora e permaneceu em fabricação até 1988, quando foi substituído pelo Vitória.

Já no fim dos anos 1990, em meio às dificuldades financeiras enfrentadas pela empresa, surgiu o Apache S21. Lançado em agosto de 1999 como sucessor do Alpha, o modelo inaugurou a família Apache. A sigla S21 fazia referência ao “Século 21”, numa tentativa de apresentar uma carroceria urbana de desenho mais moderno e preparada para a nova geração de ônibus. O Apache S21 foi produzido em diferentes configurações, incluindo versões convencionais, padron, articuladas e intermunicipais.

Apesar do lançamento, a antiga Caio teve a falência decretada em dezembro de 2000. Em 2001, a Induscar assumiu o parque industrial de Botucatu e o direito de fabricar e comercializar os produtos da marca. Em 2009, passou a controlar definitivamente a marca Caio, adotando o nome Caio Induscar. A família Apache continuou evoluindo e deu origem ao Apache Vip, que se tornaria um dos modelos urbanos mais presentes nas frotas brasileiras.

Relembre as reportagens:

ENTREVISTAS: Montes Claros (MG) adota eletrificação de ônibus como política de melhoria dos transportes e eficiência de gestão pública

Prefeito e presidente da MCTrans conhecem primeiro ônibus elétrico na fabricante Caio; Diário do Transporte acompanha em Botucatu (SP)

ADAMO BAZANI / VINÍCIUS DE OLIVEIRA

ENTREVISTAS: Montes Claros (MG) adota eletrificação de ônibus como política de melhoria dos transportes e eficiência de gestão pública

ENTREVISTAS: Grupo Comporte e prefeitura do Rio de Janeiro vistoriam primeiros ônibus de piso baixo da nova fase dos transportes municipais

Representantes das duas empresas do grupo e do poder público estiveram na fabricante Caio; Diário do Transporte acompanhou

ADAMO BAZANI / VINÍCIUS DE OLIVEIRA

ENTREVISTAS: Grupo Comporte e prefeitura do Rio de Janeiro vistoriam primeiros ônibus de piso baixo da nova fase dos transportes municipais

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Claudio Márcio Guimarães disse:

    Eu lembro quando era na Guaiuna na Penha fábrica não era grande diz que é o mesmo dono na época da Penha São Miguel hj é enorme em Botucatu diz que tem outra em São Bernardo do campo

  2. robeson silveira disse:

    PETROBRÁS à V Yara 122 e 138 cresci vendo os carros Gabriela até os atuais apches nas ruas

  3. Paulo Gil disse:

    Adamo, bom dia.

    Parabéns pela escolha do tema e pelo texto preciso e consiso.

    Porém, senti falta do Caio CAROLINA e de umas fotos, em especial das primeiras versões, um modelo muito especial para mim.

    Forte abraço!

    Paulo Gil
    “Buzao e Emoção é a Paixão”

  4. Reynaldo Godoy Filho disse:

    Olá Adamo, a instalação elétrica da primeira carroceria Caio na garagem do Ipiranga na rua Vemag ainda eram carroceria com motor externo na década de 1950..a empresa era a antiga Viação Tupi de SP capital e o eletricista responsável por esse trabalho foi meu pai, o Sr. Reynaldo Godoy.

  5. Rodrigo Zika! disse:

    A Caio no começo tinha qualidade, mas começou a fazer carrocerias de péssima qualidade, juntando a questão do Brasil ter abandonado o monobloco.

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