ENTREVISTA: Funcionários já alertavam sobre riscos de revisão vencida dos trens das linhas 8 e 9 antes mesmo de relatório, segundo Sindicato dos Ferroviários

Trem que bateu em Júlio Prestes também circualava com revisão vencida

De acordo com presidente da entidade, José Claudinei Messias, é necessária uma apuração séria sobre o que ocorreu para que os trens operassem nesta situação e tanto CPTM como ViaMobilidade têm parcelas de culpa

ADAMO BAZANI

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O documento revelado em primeira mão pelo Diário do Transporte que mostra que a ViaMobilidade iniciou as operações com 65% dos trens com revisão vencida há muitos quilômetros comprova em números e de forma mais organizada o que os funcionários que atuam nas linhas 8 e 9 da rede de São Paulo já alertavam e temiam consequências mais graves.

A informação é do presidente do Sindicato dos Ferroviários da Zona Sorocabana, José Claudinei Messias, em entrevista ao Diário do Transporte nesta sexta-feira, 06 de maio de 2022.

Estes trens foram recebidos da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), estatal que operava as linhas.

“Nós tivemos reclamações de funcionários da manutenção há alguns meses atrás e agora após revelado o documento, comprova efetivamente que a manutenção estava atrasada.” – disse Messias.

O relatório mostra uma relação de trens que rodaram entre 1,42 milhão de quilômetros e 2,03 milhões de quilômetros sem a revisão nos chamados rodeiros, que são os conjuntos de rodas.

Técnicos ferroviários que atuam na CPTM e na ViaMobilidade dizem que, nestes casos, os manuais dos fabricantes dos trens indicam que as revisões devem ser feitas a cada 1,2 milhão de quilômetros.

O contrato de concessão das linhas diz que a ViaMobilidade deveria assumir as revisões pendentes, mas, pela quantidade de milhares de quilômetros ultrapassados do limite de manutenção indicada pela fabricante dos trens, é possível verificar que a CPTM estava circulando já há algum tempo com os trens sem a revisão, que deveria ser feita antes da concessão.

Para Messias, houve erro das duas empresas, tanto a estatal como a concessionária.

“A responsabilidade neste caso é das duas empresas. Da CPTM que entregou os trens desta maneira e da ViaMobilidade por ter aceito e conduzido os trens dessa forma. Precisa ter uma apuração bem séria por parte do Governo do Estado de São Paulo” – afirma.

Entre os trens com a revisão vencida que aparecem nesta lista, está o de prefixo Q088, da série 7000, que bateu contra a contenção da plataforma da linha 8-Diamante da Estação Júlio Prestes no dia 10 de março de 2022, quase dois meses depois de a ViaMobilidade ter assumido a operação da linha. A composição acumulava 1,79 milhão de quilômetros sem este tipo de manutenção.

Ninguém se feriu, mas o maquinista foi demitido.

O presidente do sindicato confirma o que os técnicos tanto da CPTM como da ViaMobilidade relataram ao Diário do Transporte. Operar trens muito depois do prazo limite da revisão não só prejudica as operações como coloca vidas em risco.

“É um risco para a segurança tantos dos funcionários quanto dos usuários. A STM [Secretaria dos Transportes Metropolitanos], responsável pela concessão, tem de assumir sua responsabilidade e dar satisfação à sociedade. Isso pode ser, inclusive, o motivo de tantos problemas nas linhas” – disse.

Messias criticou como ocorreu a concessão das linhas, tanto quanto à forma como ao tempo como tudo foi realizado.

“Tudo o que alertamos em 2020 ou antes até de iniciar este processo de concessão está acontecendo hoje.”

O período para a ViaMobilidade se preparar foi de cerca de seis meses, considerado pouco.

O tempo de treinamento de cerca de quatro meses para os maquinistas, metade do que era na semana, também foi considerado pouco, mas segundo Messias, após reuniões com a ViaMobilidade foi acertada a realização de treinamentos de reciclagens.

Sobre as escalas de trabalho, de 12 horas, Messias disse que o período deve ser mantido, mas de forma mais organizada, com mais paradas para descanso e intervalos técnicos afim de viabilizar este modelo que os próprios maquinistas querem, em sua maioria, pelos dias consecutivos de folgas posteriores.

Ao saber pelo Diário do Transporte sobre o documento e a operação dos trens com revisão vencida, o Ministério Público vai incluir a informação nas apurações que já faz sobre a concessão.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2022/05/06/mp-vai-investigar-inicio-das-operacoes-pela-viamobilidade-com-65-da-frota-de-trens-sem-revisao-recebida-da-cptm/

Diário do Transporte procurou a STM (Secretaria dos Transportes Metropolitanos), responsável pelo acompanhamento da concessão; a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), que repassou os trens; e a concessionária VilaMobilidade.

A CPTM diz que seus trens passam por revisões regulares e que o processo de transferência para a ViaMobilidade foi “devidamente validado por Auditoria Independente”.

A estatal não rebate o documento.

Em nota, a ViaMobilidade também não nega o documento e diz que o Poder Concedente, no caso o Governo de São Paulo, “também recebeu o relatório sobre o estado dos trens, bem como os possíveis efeitos na prestação de serviço”.

As respostas na íntegra você também confere na reportagem de ontem. Acesse em:

https://diariodotransporte.com.br/2022/05/05/viamobilidade-iniciou-operacoes-das-linhas-8-e-9-com-65-da-frota-de-trens-com-revisao-vencida-apontam-documentos/

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. É o mesmo que vender onibus antigos de empresas para outras, sem um certificado de revisão..creio que algumas empresas, pelo país, querendo se livrar logo, repassa o veiculo com defeitos e o comprador se ferra…e a vida humana em segundo plano..

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