MP vai investigar início das operações pela ViaMobilidade com 65% da frota de trens com revisão vencida recebida da CPTM

Documento da própria concessionária diz que a frota estava com “pendências de manutenções vitais para o seu bom funcionamento”

ADAMO BAZANI

O Ministério Público (MP) de São Paulo vai investigar o fato de a ViaMobilidade ter recebido frota de trens da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) sem as revisões no prazo e na quilometragem especificadas pela fabricante das composições para operar as linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda.

O Diário do Transporte trouxe em primeira mão nesta quinta-feira, 05 de maio de 2022, documento da própria ViaMobilidade em resposta a questionamentos sobre os constantes problemas com os trens desde o início da concessão, que revela que 65% da frota entregue pela CPTM estava “com pendências de manutenções vitais para o seu bom funcionamento”.

Relembre:

EXCLUSIVO: ViaMobilidade iniciou operações das linhas 8 e 9 com 65% da frota de trens da CPTM com revisão vencida, aponta documento

Serão duas frentes pelo MP.

Uma pelo promotor Silvio Antonio Marques, dentro das atribuições da Promotoria do Patrimônio Público e Social, e outra pelo promotor Luiz Ambra Neto, da Promotoria de Justiça do Consumidor da Capital Paulista.

Devem ser questionadas a STM (Secretaria dos Transportes Metropolitanos), a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e a concessionária ViaMobilidade.

Tanto ViaMobilidade quanto CPTM dizem que o processo de transferência de frota ocorreu após uma auditoria independente.

O MP quer os detalhes desta auditoria.

O documento divulgado pelo Diário do Transporte mostra uma relação de trens que rodaram entre 1,42 milhão de quilômetros e 2,03 milhões de quilômetros sem a revisão nos chamados rodeiros, que são os conjuntos de rodas.

Técnicos ferroviários que atuam na CPTM e na ViaMobilidade dizem que, nestes casos, os manuais dos fabricantes dos trens indicam que as revisões devem ser feitas a cada 1,2 milhão de quilômetros.

No documento, a ViaMobilidade aponta que os trens estavam com “elevado grau de atraso à luz do manual do fornecedor”.

Entre os trens com a revisão vencida que aparecem nesta lista, está o de prefixo Q088, da série 7000, que bateu contra a contenção da plataforma da linha 8-Diamante da Estação Júlio Prestes no dia 10 de março de 2022, quase dois meses depois de a ViaMobilidade ter assumido a operação da linha. A composição acumulava 1,79 milhão de quilômetros sem este tipo de manutenção.

Ninguém se feriu, mas o maquinista foi demitido.

Não foi ainda estabelecida uma relação entre o acidente e a falta da revisão, mas técnicos das duas empresas, ViaMobilidade e CPTM, sustentam que a falta de revisão no tempo indicado pelas fabricantes pode explicar problemas de frenagem, tração e até mesmo início de incêndio nos rodeiros, todos que já foram registrados frequentemente nas composições de ambas as linhas.

Os trens que aparecem na relação são das séries 7000 e 7500 e ainda pertencem à CPTM. As composições terão de ser devolvidas à estatal gradativamente, na medida em que os 36 novos trens comprados pela ViaMobilidade, conforme prevê o contrato de concessão, forem incorporados à frota das linhas 8 e 9.

O primeiro deve chegar em janeiro de 2023 ao pátio Presidente Altino (espécie de sede operacional das linhas). O treinamento deve ir até 31 de março, com início das operações efetivas em abril de 2023.

A série 7000, feita pela empresa de capital espanhol CAF (Construcciones y Auxiliar de Ferrocarriles), foi fabricada entre 2009 e 2011.

Trens com 10, 11, 12 anos de uso não são considerados velhos e podem ser usados sem problemas desde que obedecidos os prazos de manutenção.

Os outros trens são da série 7500, adquiridos pela CPTM em 2011 e são considerados “evoluções” dos anteriores.

Com a CPTM, as linhas 8 e 9 eram operadas com trens mais novos, mas com a concessão, as composições das séries 7000 e 7500 foram repassadas para a ViaMobilidade e os trens que estavam nestas duas linhas foram para outras ligações.

A concessão para a ViaMobilidade está prestes a completar 100 dias, tendo iniciado de forma compartilhada com a CPTM em 27 de dezembro de 2021 e integralmente com a concessionária a partir de 27 de janeiro de 2022.

A concessão é de 30 anos, prevê investimentos de R$ 3,8 bilhões, entre os quais, a compra de 36 trens novos.

O primeiro deve chegar em janeiro de 2023 ao pátio Presidente Altino (espécie de sede operacional das linhas). O treinamento deve ir até 31 de março, com início das operações efetivas em abril de 2023.

O Diário do Transporte procurou a STM (Secretaria dos Transportes Metropolitanos), responsável pelo acompanhamento da concessão; a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), que repassou os trens; e a concessionária VilaMobilidade.

A CPTM diz que seus trens passam por revisões regulares e que o processo de transferência para a ViaMobilidade foi “devidamente validado por Auditoria Independente”.

A estatal não rebate o documento.

Em nota, a ViaMobilidade também não nega o documento e diz que o Poder Concedente, no caso o Governo de São Paulo, “também recebeu o relatório sobre o estado dos trens, bem como os possíveis efeitos na prestação de serviço”.

As respostas na íntegra você também confere na reportagem de ontem. Acesse em:

EXCLUSIVO: ViaMobilidade iniciou operações das linhas 8 e 9 com 65% da frota de trens da CPTM com revisão vencida, aponta documento

Entre os pontos que o MP deve esclarecer é por qual motivo a CPTM entregou trens com revisão vencida e porque a ViaMobilidade aceitou estes trens e passou a operá-los.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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