Petrobras anuncia conclusão de testes para produção de HVO, o “diesel verde”

Publicado em: 17 de julho de 2020

Foto: Agência Petrobras

Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária, Paraná, processou cerca de 40 milhões de litros a partir de óleo de soja

ALEXANDRE PELEGI

Um biocombustível de segunda geração, que pode ser a solução ideal e imediata para um grande problema.

Trata-se do HVO, uma alternativa eficiente e econômica para as empresas de transporte e para o meio ambiente.

A Petrobras anunciou nesta semana que concluiu com sucesso testes em escala industrial para a produção do diesel parafínico renovável, conhecido internacionalmente como diesel verde ou Renewable Diesel, Hydrotreated Vegetable Oil (HVO).

Os testes foram realizados na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária, Paraná, onde foram processados 2 milhões de litros de óleo de soja, que resultaram na produção de cerca de 40 milhões de litros de óleo diesel com conteúdo renovável.

O diesel renovável é produzido por meio do processamento de matéria prima renovável, como óleo vegetal ou gorduras animais, em conjunto com o diesel.

A vantagem do combustível é sua eficiência para solucionar o desafio da redução de emissões de gases poluentes sem, na outra ponta, exigir alterações nos motores que hoje equipam os ônibus brasileiros.

A Petrobras afirma que vai informar os resultados dos testes à Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para contribuir para a aprovação da regulação do produto, para que possa ser comercializado no Brasil.

Como mostrou o Diário do Transporte, apresentado como alternativa na busca por transportes menos poluentes, a Mercedes-Benz chegou a anunciar em outubro de 2019 que o HVO poderia estar abastecendo ônibus e caminhões no Brasil em três anos após a regularização.

A projeção foi feita na época pelo diretor geral de ônibus América Latina da Mercedes-Benz, Sérgio Magalhães. Relembre: HVO pode estar em tanques dos ônibus em três anos após regulamentação, diz diretor da Mercedes-Benz

O executivo ainda falou que existe uma campanha por diversos agentes da indústria e da mobilidade urbana para mais esta opção.

“A partir do momento em que a gente conseguir uma regulamentação e a gente conseguir aprovação, em torno de dois a três anos a gente conseguiria ver esse biocombustível nos postos e nas garagens, em todos os nossos ônibus e caminhões. (…) Existe uma campanha que, não a Mercedes em si, mas associações em conjunto realizam. Estamos trabalhando forte com todas as entidades no sentido de viabilizar essa regulamentação e o uso do HVO no Brasil, usando isso como uma forma de promover empregos, virar um hub de exportação desse produto e assim a gente consegue melhorar bastante a condição climática do país.”

O HVO tem sido uma aposta da Mercedes-Benz e de empresas de ônibus, como as da capital paulista, onde uma lei municipal exige reduções de emissões com zero carbono até 2037. Relembre: Relembre: Bosch estuda investimentos em tecnologia para HVO em ônibus e caminhões no Brasil

No evento Arena ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos, realizado em 24 de setembro de 2019, o então presidente do SPURBANUSS, o Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo, Francisco Christovam, chegou a afirmar que o HVO era uma oportunidade para a frota de ônibus da capital paulista. Relembre: HVO pode ser uma das grandes soluções para o transporte coletivo da capital

“São 14 mil ônibus, que consomem 1,5 milhão de litros de óleo diesel por dia. E temos o compromisso, com os novos contratos assinados, de reduzir a emissão de CO2 em 50% em dez anos”, afirmou Francisco

A vantagem do HVO, segundo os defensores, é que é possível tornar um ônibus ou caminhão ecologicamente amigável, com reduções de emissões, sem fazer qualquer alteração nos motores, inclusive nos modelos mais antigos, de tecnologia anterior ao padrão atual brasileiro com base nas normas internacionais Euro V.

Porém, entre as dúvidas sobre o HVO estão os custos de produção, de venda e para o consumidor final, além do tempo para que o combustível ganhe escala. Questões que para as quais, não há ainda respostas definitivas.

No mesmo evento, o representante da Petrobras, Consultor Sênior Ricardo Pinto, destacou que o HVO demonstrou ser “o produto mais adequado que existe no momento para reduzir as emissões de poluentes”.

Ele lembrou, no entanto, que para produzir em larga escala é preciso, além de investimentos, a especificação do HVO pelos organismos de controle do Governo Federal.

Em suma, um combustível ideal que agrada a todos, mas que, como em tudo que está vinculado ao transporte coletivo, depende de políticas públicas claras e investimentos consistentes e em larga escala.

Com a entrada da gigante Petrobras no circuito, com resultados importantes, espera-se agora que o problema da produção e do custo comece a ser finalmente equacionado.

TESTES BEM SUCEDIDOS

O diesel renovável depende de regulamentação pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para ser comercializado no Brasil. De acordo com a Petrobras, os resultados apontam que o teste foi bem sucedido, “com performance adequada dos catalisadores e das unidades de operação da refinaria e com um produto final de alta qualidade e atendendo a todas as especificações necessárias”.

Os resultados serão informados à ANP para contribuir para a aprovação da regulação do produto. O objetivo é atender, em conjunto com o biodiesel já existente, a parcela de biocombustível que deve ser misturada ao diesel comercializado nos postos. Atualmente, o biodiesel é misturado ao diesel mineral em uma proporção de, no mínimo, 12% pelas distribuidoras de combustível, e chegará a 15% até 2023.

Estudos apontam que o diesel renovável reduz cerca de 70 % das emissões de gases de efeito estufa em comparação ao diesel mineral (derivado do petróleo) e 15 % em relação ao biodiesel, para o mesmo óleo vegetal de origem.

Em comparação com o biodiesel, a utilização do diesel renovável também melhora o desempenho dos motores, evitando problemas como entupimentos de filtros, bombas e bicos injetores. O diesel renovável produzido pela Petrobras não contém glicerina nem contaminantes metálicos; e suas moléculas são iguais às do diesel mineral. Ou seja, é um combustível que pode ser misturado ao óleo diesel sem nenhuma restrição.

PRODUÇÃO DE DIESEL RENOVÁVEL

Segundo informações da Petrobras, o diesel renovável é produzido por meio  do processamento de matéria prima renovável, como óleo vegetal ou gorduras animais, em conjunto com o diesel mineral em unidades de processamento dentro de refinarias de petróleo.

O processo resulta em um produto quimicamente idêntico ao diesel mineral, com origem renovável, que é conhecido internacionalmente como Green Diesel (Diesel Verde), Renewable Diesel, Hydrotreated Vegetable Oil (HVO) ou Paraffinic Diesel (diesel parafínico renovável). A Petrobras possui uma tecnologia brasileira patenteada desde 2006 para o coprocessamento de óleos vegetais utilizando o processo denominado “HBIO”. Essa tecnologia resulta num combustível mais estável que o biodiesel. Apesar de ainda não ser utilizado na mistura do diesel no Brasil, o diesel renovável possui ampla utilização em outros países da Europa e nos Estados Unidos. O novo combustível é adequado às tecnologias de motores mais modernas que estão sendo introduzidas no Brasil.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

  1. claudio darwin alonso disse:

    Como 2 milhões de óleo de soja se transformam em 40 milhões de biodiesel? Sou químico ambiental da Cetesb há 45 anos, fiquei confuso. Outra questão, sem dúvida há redução na emissão de gases de efeito estufa, especificamente CO2, mas em relação a outros poluente? material particulado? óxidos de nitrogênio e compostos voláteis que sempre são emitidos pois a combustão nunca é completa.

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