Em momento de retração, empresários de fretamento debatem mudanças no setor

Além das palestras, evento também contou com apresentação de ônibus novos. Foto: Jessica Marques

Evento da Fresp reuniu palestrantes para falar sobre adaptação a novas tecnologias, regulamentação e mercado

JESSICA MARQUES

Em um momento de retração, os empresários de fretamento debateram as diversas mudanças que ocorrem no setor. Diversos palestrantes reuniram-se para falar sobre o assunto em um evento realizado em Foz do Iguaçu, no Paraná, de quinta-feira, 27 de setembro de 2018, a domingo, 30 de setembro.

O evento foi realizado pela Fresp (Federação das Empresas de Transportes de Passageiros por Fretamento do Estado de São Paulo) em parceria com a ANTTUR (Associação Nacional dos Transportadores de Turismo e Fretamento). Esta é a 19ª edição do Encontro das Empresas de Fretamento e Turismo e o BrasilFret 2018.

Na ocasião, o tema principal foi a adaptação dos empresários do setor de fretamento e turismo às novas tecnologias. Entretanto, a regulamentação excessiva, a situação econômica do Brasil e o mercado de transportes também foram temas abordados durante os dias de imersão no assunto.

Com o mote de que os empresários de fretamento estão passando pela mesma situação e precisam se unir, as palestras tiveram como principal objetivo motivar os participantes, com dicas e, principalmente, disseminação de conhecimento sobre a área.

Justamente pela troca de informações que o encontro possibilitou, o tema das discussões foi “Conhecimento: A Chave para Novas Oportunidades”.

Para o presidente da Fresp, Silvio Tamelini, o saldo do evento foi positivo e todos ficaram satisfeitos. “A expectativa é de fazer algo maior no ano que vem em São Paulo”, disse.

Segundo informações da Fresp, aproximadamente 250 pessoas compareceram no evento, que além das palestras também levou diversos estandes de empresas para um momento de negociação e troca de experiência.

Além disso, 23 modelos de ônibus também foram expostos durante os quatro dias no Wish Resort Golf Convention, em Foz do Iguaçu.

EMPRESAS PARAM DE COMPRAR E MONTADORAS NÃO PRODUZEM

Um dos principais desafios apontados por Tamelini durante o evento foi o fato de que os empresários não estão comprando mais ônibus e as montadoras, portanto, estão parando de produzir.

A tendência foi observada desde 1º de julho de 2018, quando entrou em vigor uma portaria do Inmetro, que obriga que todos os ônibus de padrão rodoviário saiam de fábrica com plataformas elevatórias para acessibilidade, o que já acontece com os ônibus urbanos desde 2008, quando os modelos não são de piso baixo.

“Nós decidimos aqui, de imediato, não é que queremos boicotar alguém, mas nós não temos interesse em fazer ônibus novos até essa situação ser definida”, disse Tamelini ao Diário do Transporte.

Segundo o presidente da Fresp, houve uma reunião com os empresários do setor e representantes das fabricantes e encarroçadoras durante os quatro dias de evento.

“Teria que ter uma flexibilidade quando se fala que todo ônibus tem que ter elevador. E nós queremos tirar essa palavra ‘todos’ e colocar ‘uma parte’ ou um percentual dos ônibus”, afirmou Tamelini.

“Nós tivemos uma conversa com as montadoras e com as encarroçadoras. Eles concordam com nossa insatisfação, porque eles querem vender. Nós estamos na contramão da situação atual do país, onde há desemprego. Imagine o segmento falar que vai ficar dois ou três anos sem comprar ônibus, as empresas terão que mandar funcionários embora”, finalizou.

A diretora executiva da Federação, Regina Rocha, também apontou a indefinição da questão da acessibilidade como um entrave para a compra de novos ônibus e, consequentemente, para um possível aquecimento do mercado. Contudo, outros desafios também surgiram.

“A gente vinha com uma expectativa de um ano bom, que íamos superar e terminar melhor ainda e, de repente, de julho para cá, deu um belo pé no freio com a questão da economia, do dólar, da política, as empresas estão meio retraídas. Temos que enfrentar, esse é mais um desafio”, disse Regina, ao Diário do Transporte.

Ainda assim, na visão da diretora executiva, os palestrantes mostraram que há uma luz no fim do túnel com relação aos desafios que foram surgindo nos últimos anos.

“Os empresários saíram daqui com um posicionamento enfrentar a mudança, modificar a empresa. Foi o recado geral dos palestrantes, que precisamos nos adaptar a essa mudança, ser protagonistas e não esperar acontecer”, avaliou.

Diário do Transporte acompanhou o evento a convite da Fresp.

REGULAMENTAÇÃO

Durante a abertura do 19º Encontro das Empresas de Fretamento e Turismo e do BrasilFret 2018, um representante da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) disse que a agência quer reduzir o fardo regulatório.

Na ocasião, o superintendente de Transporte de Passageiros da ANTT, João Paulo de Souza, apresentou caminhos para viabilizar essa redução. A reação dos empresários presentes foi instantaneamente positiva, manifestada por meio de aplausos.

Relembre: Em evento da Fresp, representante da ANTT diz que agência quer reduzir fardo regulatório

O presidente da Fresp avaliou que o apoio da ANTT é importante para uma questão que está causando tantos entraves para os empresários do setor de fretamento.

“O superintendente da ANTT nos deixou bastante otimistas, com uma solução que está todo mundo aguardando há algum tempo e que nos meios políticos a gente não tem conseguido nada”, disse Tamelini.

Outro tema abordado na abertura do encontro foi a regulamentação que determina que todo veículo tenha um dispositivo retrátil automatizado para transporte de pessoas com deficiência (Relembre).

Por conta do impacto econômico que a medida pode causar, a ANTT externou à Casa Civil há cerca de dois meses a posição de que o setor de fretamento deve ser avaliado de forma separada neste quesito, por conta da demanda diferenciada. A medida foi compartilhada durante o evento.

AUDIÊNCIAS PÚBLICAS

As duas audiências públicas que seriam realizadas pela ANTT em 22 de agosto foram canceladas. Ambas discutiriam questões relacionadas a fretamento e fiscalização (Relembre).

A primeira audiência, marcada para 9h, seria para discutir normas para apreensão de ônibus e vans de fretamento que operam sem autorização em rotas interestaduais e internacionais.

Na segunda, que ocorreria na mesma data, mas às 14h, seria discutida a criação de um marco regulatório para a apuração de infrações à legislação do transporte rodoviário de passageiros regular, ou seja, das linhas fixas realizadas pelas empresas.

Segundo o superintendente de Transporte de Passageiros da ANTT, João Paulo de Souza, a agência, por meio de portaria, criará grupos de trabalho para que, “conjuntamente com os setores envolvidos, transportadores e usuários, possa-se então produzir um substrato, uma base de referência, para que a agência possa buscar a construção de uma regulamentação que seja mais aderente à realidade”.

Até o momento, não foi sinalizada nenhuma nova data para que as audiências públicas pudessem ser realizadas novamente, dando prosseguimento às questões de regulamentação.

A diretora executiva da Fresp afirmou que aguada uma definição que não prejudique as empresas de fretamento e turismo.

“Não estou com expectativa de que aconteça uma audiência pública rápido, porque primeiro nós vamos discutir. O combate ao transporte clandestino é algo que interessa a todos nós. Queremos o combate, mas de uma forma mais equilibrada e justa, não de uma forma que vai mais prejudicar as empresas idôneas do que propriamente os picaretas”, disse Regina.

NEGÓCIOS

Durante o 19º Encontro das Empresas de Fretamento e Turismo e do BrasilFret 2018, foram apresentados 23 ônibus e diversos estandes dos patrocinadores. Desta forma, o momento de aprendizado e confraternização entre empresários do setor também foi uma oportunidade para a realização de negócios.

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Na ocasião, além dos empresários da área de fretamento e turismo, estiveram presentes representantes da Busscar, banco Caruana, Essor Seguros, Livonius, Marcopolo, Mascarello, Mercedes-Benz, Neobus, REI, Scania, Veltec, Volare, Volvo e MAN Caminhões e Ônibus.

ÔNIBUS

No evento, diversos lançamentos estavam presentes, como o New G7 da Marcopolo, o Fly 9 da Volare, o Spectrum 325 da Neobus, os chassis O 500 R e O 500 RS da Mercedes-Benz, com todas as tecnologias de segurança, o Gran Micro S4 e Roma R6 da Mascarello e duas grandes novidades da Busscar.

Estavam presentes o ElBuss 320 para chassis de motor dianteiro e o Vissta Buss 400, para chassis de motor traseiro, porém na configuração HD, na qual os passageiros ficam no nível superior à posição do motorista, que ainda não haviam sido apresentados.

Relembre: Busscar lança novos modelos de ônibus em evento da Fresp, em Foz do Iguaçu

O diretor industrial da Busscar, Maurício Lourenço da Cunha, informou ao Diário do Transporte que a primeira empresa a adquirir uma unidade do Vissta Buss 400 foi a Amanda Locadora, de Vitória, no Espírito Santo. Além disso, outras vendas foram realizadas durante o evento.

A Neobus lançou o Spectrum 325 com acessibilidade e chassi Volkswagen de forma exclusiva no evento. O ônibus já havia sido apresentado na Lat.Bus & Transpúblico 2018, com chassi Mercedes-Benz OF-1721. Desta vez, o modelo está em um chassi VW 17.230.

Relembre: Em evento da Fresp, Neobus lança Spectrum 325 com acessibilidade e chassi Volkswagen

Veja as fotos dos ônibus apresentados:

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PALESTRAS

Durante a abertura, Jurandir Fernandes, presidente da Divisão América Latina da UITP, ministrou a palestra “Mobilidade – Transporte Coletivo pelo Mundo”.

Em sua apresentação, Fernandes ressaltou a importância de o mercado seguir as tendências trazidas pela tecnologia e pelas mudanças na economia.

O palestrante citou áreas a serem acompanhadas pela mobilidade, como inteligência artificial, robótica e blockchain. Carros autônomos, elétricos e aplicativos para transporte também foram exemplos de inovações que seguiram tendências.

“Não dá para ficar alheio ao que está acontecendo. O importante é buscar conhecimento e ir em busca dessas oportunidades”, afirmou Fernandes.

O segundo dia de evento, dia 28, teve início com a palestra “SESMT Regional, Cota de Menor Aprendiz e Deficientes. Ameaças e Oportunidades”, com Edélcio Tirado Ludovice, que é engenheiro especializado em segurança do trabalho e consultor empresarial especialmente do setor de transporte.

Na ocasião, foi ressaltada a importância de possuir um SESMT – Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho. Também foi colocado um impasse de que há contradições entre a determinação de 5% a 15% de cota de jovens aprendizes para funções que exigem formação profissional.

O debate colocado foi que “o motorista habilitado trabalhando como menor aprendiz é uma forma de penalizar o jovem, porque se é profissional, não cabe mais ser aprendiz”, disse Ludovice.

Outro ponto colocado é que um jovem aprendiz deve estar entre 14 e 24 anos incompletos. Entretanto, para possuir a Carteira Nacional de Habilitação da categoria D e dirigir um ônibus, a idade seria de no mínimo 21 anos.

“Estão fiscalizando as empresas para colocarem jovem aprendiz, mas é um desafio e um impasse, porque não tem como chegar a esse percentual, sobretudo no setor de fretamento”, afirmou o engenheiro.

Outro tema foi abordado por Robson Rodrigues Pereira que falou sobre “Economia, Cenário e Tendências”. O palestrante é doutorando em Teoria Econômica na Universidade de São Paulo.

Durante a palestra, diversos indicadores econômicos foram apresentados. Com isso, foi possível concluir que, desde 2011, a confiança empresarial vem diminuindo na mesma medida em que o investimento também caiu, por conta da crise e de outros fatores.

Desde 2016 até os dias atuais, os empresários mostram-se pessimistas com relação ao mercado de transportes, mesmo em um período de recuperação.

Entretanto, o cenário passado foi positivo, com uma perspectiva de ligeira recuperação para os próximos anos e um crescimento no setor de serviços. Portanto, a tendência de o fretamento crescer nesse cenário é alta, pois, segundo o economista, o mercado está caminhando para a compra de soluções em vez de produtos.

Falando em soluções, Sidney Severini Jr. Falou sobre os diferentes usos das tecnologias na gestão do negócio. Sidney tem vivência na implantação de ferramentas de gestão e é conselheiro de Administração certificado pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBCG).

Na visão do palestrante, as premissas para a perpetuação das empresas são: “visão estratégica compartilhada com coesão entre os proprietários, conhecer os riscos aos quais a empresa está exposta, gerenciar o capital humano, obter resultados compatíveis com o investimento e adotar tecnologias de gestão”.

Após o almoço, foi a vez do palestrante Luís Rasquilha, CEO da Inova Consulting, subir ao palco. Com experiência de consultoria na Europa, África, EUA e América do Sul, tendo trabalhado como consultor de 10 das 50 empresas mais inovadoras do mundo, Rasquilha falou sobre as empresas estarem preparadas para as tendências do futuro.

Segundo o palestrante, vivemos uma 4ª Revolução Industrial, em que os protagonistas terão mais vantagens que os expectadores das mudanças. Portanto, Rasquilha listou diversas dicas para aproveitar as tendências do mercado.

Entre elas, estão pensar no coletivo; vender experiências e trabalhar com o emocional dos clientes; encontrar um diferencial; interagir com o cliente; aproximar pessoas da tecnologia; adotar uma “ideia nova em ação” – inovação.

Por fim, para encerrar o ciclo de conversas com os empresários do setor de fretamento, Marcelo de Elias ministrou a palestra “Protagonismo 360º – Seja autor da sua história”.

Com o mesmo mote, o palestrante também incentivou os espectadores a serem protagonistas da própria história. Uma dica recorrente durante o encerramento do evento foi “ficar de olho nas novidades do mercado”.

A grande frase de impacto deixou os empresários do setor reflexivos e atentos para as mudanças de tecnologia e tendências de consumo: “Foque no importante antes de virar urgente”.

Com isso, o ciclo de palestras foi encerrado e os empresários de fretamento tiveram mais dois dias para confraternização, troca de experiências e negociações. Com diversos estandes exibindo recursos tecnológicos, os donos das empresas puderam ver na prática como algumas ideias inovadoras podem dar certo e tiveram a oportunidade de repensar as estratégias para aplicar no setor.

Jessica Marques para o Diário do Transporte

 

 

 

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Comentários

Comentários

  1. Flávio Willer Candido disse:

    Parabéns a FRESP e ANTTUR
    Eu e mais dois colegas participamos
    O Evento foi Ótimo

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