Nova York aprova legislação que restringe expansão do Uber e define pagamento mínimo a motoristas

Foto: divulgação

Estudos comprovam que aplicativos de transporte concorrem com o transporte coletivo e provocam congestionamento nas cidades

ALEXANDRE PELEGI

Pode estar ruindo um dos grandes argumentos das empresas multinacionais de aplicativos de transporte individual, o de que seus serviços reduzem o número de veículos nas ruas das cidades, e contribuem para a redução do trânsito e dos congestionamentos.

Quem pode estar colaborando fortemente para isso é a cidade de Nova York, que escorada em estatísticas e pesquisas que rebatem tais argumentos definiu uma legislação que imporá limite máximo para os carros que atuam com serviços de carona paga na cidade, como Uber e Lyft.

Nesta quarta-feira, dia 8 de agosto de 2018, a Câmara Municipal da icônica metrópole americana decidiu suspender novas licenças para veículos de empresas como Uber durante um ano. Além disso, a legislação autoriza a prefeitura a definir um padrão mínimo de pagamento para os motoristas.

Os motivos que conduziram Nova York a comprar essa briga são os mesmos que têm levado as empresas de tecnologia a enfrentar dura oposição em muitas cidades importantes ao redor do mundo. Elas passaram a perceber que a realidade atual é bem diversa daquela apregoada desde o lançamento desse tipo de serviço: ao invés de melhorar, os aplicativos prejudicam o tráfego, e impactam negativamente no transporte coletivo.

O presidente da Câmara de Nova York, o democrata Corey Johnson, esclareceu que a ideia da legislação aprovada nesta quarta-feira é estabelecer um teto para os aplicativos começando por interromper a emissão de licenças de funcionamento. Isso só não vale para o caso de veículos adaptados para cadeirantes e outros usuários que possuem necessidades especiais.

O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, comemorou a aprovação da legislação, afirmando que a pausa na emissão de novas licenças é necessária para “uma indústria que foi autorizada a proliferar sem qualquer verificação ou regulamentação adequada”.

Estima-se que Nova York tenha hoje mais de 80 mil carros de carona paga circulando em suas ruas, com 2 mil sendo acrescidos a cada mês. Esse número, se continuar sem um limitante, pode tanto inviabilizar o próprio segmento, como ainda prejudicar fortemente o serviço de táxis, justamente pelo excesso de oferta.

Um estudo realizado pelo consultor de trânsito Bruce Schaller, que já atuou no planejamento de tráfego da cidade de Nova York, demonstrou exatamente isso. Segundo o levantamento, o número de pessoas que passaram a usar Uber e Lyft cresceu 37% entre 2016 e 2017, passando de 1,9 bilhão para 2,61 bilhões de viagens em cidades dos Estados Unidos.

O efeito provocado pelo aumento do uso de veículos foi mensurado pelo analista, que concluiu que os aplicativos adicionaram 5,7 bilhões de milhas (cerca de 9,2 bilhões de quilômetros) a mais de corridas às ruas dessas cidades, o que representa um aumento geral de 160% no tráfego local. Mais: 70% das viagens de Uber e Lyft estão em nove grandes áreas metropolitanas densamente povoadas: Boston, Chicago, Los Angeles, Miami, Nova York, Filadélfia, São Francisco, Seattle e Washington DC. Essas nove áreas representaram 1,2 bilhão de corridas.

Os motoristas de empresas de aplicativos gastam muito do seu tempo trafegando vazios, ou seja, perfazem uma quilometragem adicional quando o veículo está à espera de uma chamada ou quando dirigem para buscar um novo passageiro.

O estudo identificou ainda algo crítico, que também contesta o argumento das empresas de transporte individual: elas competem com o transporte público, e não com carros particulares. As pesquisas indicam que em 60% das vezes que as pessoas optaram por Uber ou Lyft, elas admitiram que poderiam ter escolhido usar o transporte público, caminhado ou ido de bicicleta caso não tivessem acesso ao serviço.

Outro argumento usado para reforçar a legislação aprovada em Nova York foi de que a grande quantidade de carros de aplicativos está gerando reduções de ganhos aos motoristas. É uma constatação óbvia: sem um limite para a oferta, diminuem os ganhos para todos. Além disso, diminui a incidência de tarifas dinâmicas, que são ativadas nos horários de maior circulação de passageiros.

Por fim, a concorrência sem limite tem levado a problemas sociais graves. Em Nova York o choque negativo no setor de táxis ocasionou o suicídio de seis taxistas em sete meses.

Como não poderia deixar de ser, o Uber reagiu agressivamente à legislação aprovada em Nova York.

Em notas públicas e anúncios pagos, a multinacional afirmou que o limite de veículos em circulação “deve afetar, de forma mais direta, a população pobre e que reside nas periferias, uma vez que os carros ficarão mais concentrados no centro”. Além disso, argumenta que os tempos de chamada devem aumentar, o atendimento passará a demorar mais e tudo isso trará desconforto a todos os passageiros.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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