Trem-bala japonês é decorado em homenagem a Hello Kitty

Foto: Divulgação

Composições começarão a circular no próximo sábado, dia 30 de junho, em várias linhas da rede Shinkansen, e fazem alusão aos 40 anos de lançamento da glamourosa personagem

ALEXANDRE PELEGI

O Japão lançou ontem, dia 26 de junho de 2018, um novo modelo de trem de alta velocidade.

O destaque, no entanto, não está em nenhuma inovação tecnológica, mas sim na decoração. O trem é todo adornado com motivos que remetem à glamourosa Hello Kitty, a famosa gatinha branca com laço vermelho, personagem mundialmente famosa que frequenta o universo infantil há pelo menos 40 anos.

As composições começarão a circular no próximo sábado, dia 30 de junho, em várias linhas da rede Shinkansen.

A primeira impressão que se têm é que a notícia é quase irrelevante, não fosse pela curiosidade. Ao mesmo tempo, outros podem enxergar uma inteligente jogada de marketing do fabricante do produto, ou de quem detém os direitos da marca.

No entanto, não há como perceber aí um efeito importante de divulgação do trem como transporte coletivo. Uma forma de atrair novos usuários e – por que não? – de divulgar sua qualidade e importância social.

A novidade, no entanto, terá vida curta – o trem circulará por três meses no trecho Osaka-Fukuoka, no oeste do Japão.

Para atrair mais ainda os usuários, os vagões com formas aerodinâmicas recepcionarão os passageiros com poltronas violetas e rosa e com encostos de cabeça brancos decorados com imagens da Hello Kitty.

Como em atrações similares, os viajantes/visitantes poderão guardar uma recordação da viagem. Para isso, os trens terão um espaço dedicado para a produção de fotos com uma grande reprodução da personagem.

Como não poderia faltar, há também o famigerado vagão-loja, recheado de produtos da famosa personagem, idealizada no início dos anos 1970 por uma criadora da empresa Sanrio.

Claro que a iniciativa partiu do detentor da marca Hello Kitty, que faz inúmeras ações em várias partes do mundo para comemorar os 40 anos da sempre jovem gatinha.

No Brasil a ideia de decorar o veículo do transporte público não é nova, apesar de não ser frequente. Geralmente está vinculada a efemérides tradicionais como o Natal, ou então como forma de divulgação de filmes e eventos, ou por iniciativas ligadas ao turismo.

Veja alguns casos que reportamos, como o da Linha 4-Amarela do metrô de SP numa campanha de divulgação do turismo de Pernambuco, ou dos ônibus natalinos em São Paulo, fato que se repetiu em inúmeras cidades brasileiras.

De qualquer forma, iniciativas que podem levar a um novo olhar para o modo de transporte, seja o trem, seja o ônibus, têm o condão de ao menos humanizar uma rotina que muitas vezes está recheada de elementos tóxicos tradicionais das grandes metrópoles, como o estresse da vida urbana, a pressa de chegar, a tensão permanente.

A dimensão social oferecida pelo transporte público é algo que precisa ser mais bem observado e explorado, seja pelas operadoras (que têm o dever de “cativar” seus clientes), seja pelas próprias empresas públicas que gerenciam o sistema de transporte.

Mais que prestar um serviço é preciso fazê-lo bem feito e, sempre que possível, de forma atraente e criativa.

Uma abordagem diferente para a comunicação do transporte público é um dos inúmeros caminhos que temos para preencher o abismo existente entre ele e os sedutores automóveis particulares.

Veja no vídeo abaixo a tentativa de um operador belga para mostrar como o veículo ônibus é algo bonito e agradável. Após divulgar como o veículo é bonito e avançado (como, aliás, nas propagandas feitas para automóveis), o vídeo fecha com a mensagem convidativa: “Ônibus é legal… acorde cedo e tome seu lugar”.

Há outros casos de iniciativas como a da RNV, uma das maiores empresas de transportes públicos da Alemanha, que fez um trabalho, no mínimo, curioso para celebrar o Natal. A companhia, em uma de suas garagens, colocou lado a lado dois ônibus e seis VLTs – Veículos Leves sobre Trilhos e, sob a regência de um maestro profissional, fez os veículos “cantarem” a tradicional música “Noite Feliz, Noite de Paz”. Veja o vídeo.

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De resto, encantar uma criança, o que os ônibus natalinos fazem, é um bom começo para mostrar aos futuros usuários que o veículo não tem culpa pelo mau serviço prestado, obra de um modelo de cidade que se preocupa prioritariamente com o automóvel. Para se ter ônibus com pontualidade, confortáveis e eficazes, é preciso antes ter uma cidade que pense coletivo. O que, infelizmente, ainda não é nosso caso.

Citando Richard Michael Robbins, um inglês estudioso dos temas do transporte público, “o transporte é a ferramenta ou instrumento cuja utilização pode decidir a forma de manter nossa vida e é também o meio pelo qual as comunidades podem modelar a forma e o futuro de suas cidades. É a força mais poderosa às ordens da comunidade”.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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