Prefeitura acusa sindicato de impedir circulação de micro-ônibus em Salvador

Publicado em: 20 de maio de 2018

Organização de trabalhadores nega e diz que iniciativa foi dos próprios motoristas

JESSICA SILVA PARA O DIÁRIO DO TRANSPORTE

A Semob (Secretaria Municipal de Mobilidade) da Prefeitura de Salvador acusou o Sindicato dos Rodoviários de impedir a circulação dos micro-ônibus na capital baiana. Os veículos do Sistema de Transporte Especial Complementar foram acionados para substituir os ônibus convencionais, que não circularam neste domingo, 20 de maio, por conta de uma paralisação.

O secretário municipal de Mobilidade Urbana, Fábio Mota, havia afirmado que uma frota com 300 micro-ônibus do Subsistema de Transporte Especial Complementar (Stec) operariam em Salvador, contudo, rodaram apenas 157.

Mota informou que o número não foi maior porque pessoas ligadas ao sindicato teriam fechado uma das garagens em que ficam os veículos.

O vice-presidente do sindicato, Fábio Primo, negou a acusação e disse ao portal A Tarde que foi uma iniciativa dos próprios trabalhadores, que decidiram não sair.

O secretário, por sua vez, afirma que os membros do sindicato interditaram a garagem da Avenida Barros Reis e que os veículos que fizeram o transporte de passageiros foram os que não estavam estacionados no local.

A Prefeitura autorizou, além dos micro-ônibus, a operação de cerca de 800 veículos do Transporte Escolar para operar como transporte coletivo. O valor da passagem foi recomendado em R$ 3,70, sem obrigatoriedade.

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PARALISAÇÃO

O consórcio Integra afirmou não ter sido comunicado oficialmente da paralisação pelo sindicato, portanto, promete descontar o dia não trabalhado.

O sindicato exige 6% de reajuste na remuneração e aumento de 10% no tíquete.

Os rodoviários afirmaram que, se não houver acordo com o consórcio, a greve será por tempo indeterminado. A previsão da categoria é deflagrar a greve a partir de terça-feira, dia 22 de maio.

Trabalhadores e empresários se reunirão nesta segunda-feira, dia 21 de maio, com a SRTE (Superintendência Regional do Trabalho e Emprego).

HISTÓRICO

Uma auditoria feita pela Grant Thornton, e apresentada pelas empresas de ônibus do sistema de transporte coletivo de Salvador, apontou que pelo menos 50% dos usuários andam de graça nos coletivos de Salvador. Isso se deve tanto à evasão (não passam pela catraca), quanto aos benefícios de gratuidade, o que redundou em prejuízos de R$ 280 milhões no ano de 2017. Ainda segundo a auditoria, desde 2016 existe “incerteza relevante relacionada com a continuidade operacional do sistema de transporte“.

No dia 2 de fevereiro deste ano as empresas entraram na Justiça requisitando o fim do contrato com a prefeitura. No processo protocolado junto à 4ª Vara da Fazenda Pública, em que formalizam o desejo de devolver o serviço à administração municipal, as concessionárias alegaram “irregularidades na licitação e o não cumprimento de obrigações referentes ao equilíbrio econômico-financeiro dos contratos de concessão”.

Na outra ponta, a categoria dos rodoviários cobra há meses um reajuste salarial de 6%, e aumento de 10% no ticket alimentação.

A tensão entre empresários e trabalhadores culminou, na manhã de quarta-feira, dia 16 de maio de 2018, na paralisação parcial de 900 ônibus do Consórcio OT Trans.

A negociação entre concessionárias e sindicato dos rodoviários tem data limite para encerrar: 30 de maio, menos de duas semanas.

A Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (Semob) procura uma saída intermediária para o impasse.

Fábio Mota, secretário da Semob, revelou em entrevista que a intenção é encontrar uma proposta que seja o meio termo entre as partes. “A expectativa é que a gente consiga resolver o impasse e a cidade não sofra com uma paralisação geral dos transportes”. E confirma a perda de receita das empresas do sistema Integra, que reúne as empresas que prestam serviços de ônibus na capital. Segundo ele, Salvador tem a maior evasão de ônibus no Brasil: “é por aqui onde mais as pessoas deixam de passar pela catraca dos transportes públicos. Pelos cálculos da Semob, cerca de 20% dos usuários burlam a catraca e pelo menos outros 30% são beneficiados pela gratuidade”.

Ainda segundo o Mota, a crise econômica diminuiu a demanda por ônibus: “Se a demanda era estimulada em 28 milhões de passageiros, o número caiu para 22 milhões por ano. Mas não caiu só em Salvador e a crise não é só no transporte. Aumentou, no país, o desemprego e diminuíram as obras de construção civil. Consequentemente, também caiu a necessidade das pessoas de andar de ônibus”.

Dados da Semob indicam que, pelo menos, 30% da população de Salvador passou a andar a pé nos últimos anos.

Para complicar a situação do transporte por ônibus na capital da Bahia, a chegada do metrô tirou passageiros do setor, que ainda é pressionado pelo transporte metropolitano. Sobre isso, Fábio Mota disse ao Blog ‘Bahia Notícias’ que os ônibus metropolitanos tiram mais de 2 milhões de passageiros dos da capital. “Na orla de Salvador você tem mais ônibus metropolitano do que urbano. A cada unidade urbana, passam três metropolitanas”.

Como solução a médio prazo, Mota aposta no BRT, modal que deverá transportar pelo menos 31 mil pessoas por hora, e será operado pelas mesmas empresas que cuidam dos ônibus. No novo sistema, o Semob lembra que pelo menos a evasão não será mais problema.

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