Especialista aponta problemas ambientais que podem ser causados por Centro Logístico, em Santo André

Empresa pretende construir o chamado Porto Seco em uma Macrozona de Proteção Ambiental da cidade, até 2024

JESSICA SILVA PARA O DIÁRIO DO TRANSPORTE

A construção do Centro Logístico em Santo André, no ABC Paulista, poderia causar diversos problemas à fauna e à flora da região. É o que afirma a bióloga especialista em recursos hídricos Marta Ângela Marcondes.

O projeto da empresa Fazenda Campo Grande Logística e Participações é fazer um porto seco em uma área particular, que é uma Macrozona de Proteção Ambiental. O local fica em um bairro andreense chamado Campo Grande, localizado entre o município de Rio Grande da Serra e a Vila de Paranapiacaba.

Relembre: Empresa pretende construir Centro Logístico em Santo André até 2024

A construção do Centro Logístico demandaria o desmatamento de uma área com cerca de 91 hectares de mata nativa, no local. Segundo a bióloga, quando há supressão de vegetação, a fauna e a flora são afetadas de diversas maneiras.

Marta listou as três principais implicações do empreendimento na vegetação do local. A especialista afirma que cada item mencionado teria um desdobramento diferente.

“A criação de efeito de borda, que é quando a vegetação é retirada e o que fica começa a ter domínio de plantas invasoras, ou mesmo oportunistas, que descaracterizam a flora local; domínio ou predominância de espécies que não dão abrigo para a fauna local; formação de ilhas de vegetação que impedem a diversidade tanto de fauna como de flora” – avaliou a especialista.

Segundo a bióloga, os animais que dependem exclusivamente da vegetação sofreriam com diversas implicações. “Por todos os pontos citados acima, teremos uma perda irreparável de fauna, pois esses animais perderiam seu abrigo, alimentação e locais de reprodução, além do risco de atropelamentos e captura por pessoas que estarão frequentando o local” – disse Marta.

Caminhões podem poluir nascentes que garantem água para o ABC Paulista

O foco do projeto da Fazenda Campo Grande Logística e Participações é atuar na malha ferroviária já existente na região. A ferrovia, não seria dividida com o transporte de passageiros na região, pois a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) não atende a vila desde novembro de 2001. Atualmente, apenas trens de carga da empresa de logística MRS circulam no local.

Contudo, nos primeiros anos de implantação da empresa, estima-se um total de 64 viagens de caminhões por dia, pela Rodovia Antônio Adib Chammas (SP-122), que dá acesso à Vila de Paranapiacaba, em Santo André, segundo Rawet.

Os caminhões teriam que dividir a pista com as duas linhas de ônibus intermunicipais que atendem a região atualmente, a 040 (Paranapiacaba / Prefeito Saladino) e a 424 (Paranapiacaba / Rio Grande da Serra).

A bióloga avalia que a circulação de tantos veículos de grande porte também traria problemas ambientais. Entre as implicações, Marta cita poluição atmosférica, poluição das águas e nascentes da região e risco de atropelamento de animais silvestres.

“A área possui inúmeras nascentes, como o próprio empreendimento mostra em seus mapas. Todas elas estarão em risco. Essas nascentes garantem a recarga de água da bacia da Billings, maior reservatório da Região Metropolitana de São Paulo” – disse Marta. “As nascentes daquela região garantem aproximadamente 50% do volume de água para a região do Grande ABC.”

Em outra ocasião, a região recebeu uma empresa que fazia o transporte e armazenamento de veículos. Os moradores tiveram como resultado diversos acidentes, envolvendo automóveis e até mesmo os ônibus intermunicipais da região com os veículos de carga.

“Já tivemos essa experiência, caminhões-cegonha passavam pela pista e aconteceram vários acidentes. O número de caminhões na rodovia era bem menor do que esses que estão propondo agora” – disse ao Diário do Transporte um morador e monitor ambiental, que preferiu não se identificar.

Em entrevista, Rawet informou que a SP-122, por onde passariam os caminhões, é subutilizada e não haveria nenhum dano à estrutura da via. “Só haveria necessidade de alguma coisa nova na infraestrutura a partir de 2034” – avaliou.

REFLORESTAMENTO

Em entrevista ao Diário do Transporte, o responsável pelo empreendimento, Jael Rawet, afirmou que a floresta será mantida e requalificada. “De cada cinco metros, haverá utilização de apenas um metro. Se em cada cinco, eu uso um, 80% da área vai ser mantida intacta. Além disso, o projeto prevê planos de manutenção e recuperação de toda a fauna e flora da região. Há uma necessidade de compensação da supressão de flora, somos obrigados a fazer uma complementação adquirindo ou investindo na recuperação de floresta em área praticamente igual a essa onde o projeto será implantado” – disse Jael Rawet.

A bióloga avalia que essa compensação, chamada de reflorestamento, não seria suficiente para reparar os danos causados. “Quando uma área é desflorestada, o que saiu junto com essa mata não é restituído em outra área” – avaliou. “As espécies animais e vegetais que estavam associadas a todas as árvores que serão retiradas não sobreviverão em outros espaços. Todo um ecossistema será destruído.”

AUDIÊNCIA PÚBLICA

Após requerimento de conselheiros da sociedade civil, o Consema (Conselho Estadual do Meio Ambiente) suspendeu a audiência pública que estava agendada para discutir a construção do Centro Logístico Campo Grande, em Santo André. A reunião estava marcada para 12 de abril de 2018 e a suspensão é válida por 60 dias.

Relembre: Consema suspende audiência pública para discutir Centro Logístico Campo Grande

Para dar andamento ao projeto, a empresa responsável, Fazenda Campo Grande Logística e Participações, precisa passar pela fase da audiência pública.

“O adiamento da audiência pública é importante para que todos os aspectos sejam analisados e colocados como as justificativas para a não criação do empreendimento” – disse Marta. Segundo a bióloga, a sociedade civil, técnicos e especialistas estão fazendo a análise do EIA RIMA (Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental).

A especialista, que ainda está avaliando os documentos, disse que não viu medidas para áreas do entorno, como Rio Grande da Serra. O município é a principal via de acesso para Paranapiacaba é será a única utilizada, caso o empreendimento seja instalado.

“O trâmite legal é esse. O empreendedor faz o estudo, dá entrada na solicitação das licenças para a construção nos órgãos competentes e esses órgãos marcam a audiência pública para deixar público o que será feito, além de ter o debate com as partes diretamente envolvidas, que são os órgãos governamentais locais e a sociedade civil. Então estamos nessa fase de fazer a análise desses estudos que foram feitos” – disse Marta.

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