Motiva transportou 195,6 milhões de passageiros em trens, metrôs e VLT no terceiro trimestre; veja os resultados de cada concessão e os desafios após as eleições
Publicado em: 2 de novembro de 2026
ADAMO BAZANI
A Motiva, antiga CCR, transportou 195,6 milhões de passageiros em suas concessões de trens, metrôs e VLT entre julho e setembro de 2026, aumento de 0,5% em comparação com os 194,7 milhões registrados no mesmo período de 2025. Os números foram divulgados no balanço financeiro do terceiro trimestre, apresentado na quarta-feira, 28 de outubro, e mostram diferenças importantes entre as operações da empresa em São Paulo, Salvador (BA) e no município do Rio de Janeiro (RJ). Enquanto o VLT Carioca apresentou o maior crescimento percentual de passageiros, a concessão das linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda registrou o maior volume de usuários.
Os resultados também chegam num momento de reorganização do mercado brasileiro de infraestrutura após as eleições de 2026. Com a definição dos próximos governos e a preparação dos orçamentos de 2027, entram novamente em discussão investimentos em expansão de metrôs e trens, novos contratos de concessão, mecanismos de remuneração das operadoras e a capacidade dos governos de financiar obras e serviços. Para a Motiva, que concluiu em setembro a venda de sua plataforma de aeroportos, os resultados representam um retrato tanto da situação das concessões atuais quanto de sua capacidade de participar de futuros projetos de mobilidade.
A empresa encerrou o trimestre com receita líquida ajustada consolidada de R$ 3,806 bilhões, crescimento de 13,6%, e EBITDA ajustado de R$ 2,521 bilhões, alta de 13,4%.
O lucro líquido ajustado chegou a R$ 750 milhões, aumento de 9,8%.
No segmento de trilhos, que concentra as operações de transporte coletivo urbano, o EBITDA ajustado passou de R$ 591 milhões para R$ 593 milhões, crescimento de apenas 0,3%.
A diferença entre os resultados gerais da empresa e o desempenho específico dos trilhos é importante.
O crescimento consolidado foi impulsionado principalmente pelas concessões rodoviárias, que tiveram aumento de receitas, novas operações e reajustes tarifários.
Já os negócios de mobilidade urbana apresentaram crescimento moderado da demanda, aumento dos custos operacionais e efeitos contábeis relacionados a contratos de concessão.
Veja quantos passageiros cada concessão transportou
Os números abaixo comparam o terceiro trimestre de 2026 com o mesmo período de 2025.
| Concessão | Passageiros no 3º trimestre de 2026 | Variação |
|---|---|---|
| ViaMobilidade — linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda | 62.406.580 | +0,9% |
| ViaQuatro — Linha 4-Amarela | 51.996.407 | -0,4% |
| ViaMobilidade — linhas 5-Lilás e 17-Ouro | 43.973.510 | +0,8% |
| Metrô Bahia — linhas 1 e 2 | 30.480.223 | +0,1% |
| VLT Carioca | 6.697.584 | +2,1% |
| Total | 195.554.304 | +0,5% |
A tabela mostra a demanda por contrato de concessão. Os dados das linhas 5 e 17 são apresentados conjuntamente pela Motiva, assim como os das linhas 8 e 9.
Linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda: maior demanda e investimentos em novos trens
A ViaMobilidade, responsável pelas linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda, transportou 62,4 milhões de passageiros no trimestre, crescimento de 0,9% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
No acumulado de janeiro a setembro, foram 183,7 milhões de passageiros, aumento de 3,2%.
A concessão foi a que apresentou o maior volume de usuários entre os contratos metroferroviários da Motiva.
A receita tarifária passou de R$ 237 milhões para R$ 241 milhões no trimestre, crescimento de 1,7%.
A receita bruta total da concessão alcançou R$ 250 milhões, contra R$ 245 milhões um ano antes.
Entre os fatores que contribuíram para o desempenho operacional está a entrada em funcionamento da estação Varginha, na Linha 9-Esmeralda.
A estação ampliou o alcance da ferrovia na zona Sul da capital paulista, permitindo o atendimento de uma região que historicamente depende de viagens de ônibus para chegar a outros pontos da rede de transporte.
Outro fator citado pela empresa é a integração com a estação Santo Amaro, que conecta a Linha 9-Esmeralda à Linha 5-Lilás.
A concessão também vem recebendo investimentos em novos trens, sistemas e melhorias operacionais.
O balanço destaca que a incorporação do material rodante e dos sistemas instalados em 2025 aumentou o valor dos ativos contabilizados pela operadora.
Entretanto, os resultados financeiros precisam ser analisados em conjunto com os indicadores de qualidade.
As linhas 8 e 9 passaram por problemas operacionais, interrupções e questionamentos sobre a qualidade dos serviços desde o início da concessão privada, em janeiro de 2022.
A renovação da frota, as obras de modernização e a ampliação da capacidade de transporte precisam se refletir em menor número de falhas, maior regularidade e redução do tempo de viagem dos passageiros.
O crescimento de 0,9% da demanda no trimestre, isoladamente, não permite concluir que esses problemas estejam superados.
Linha 4-Amarela: queda no trimestre, mas crescimento no acumulado do ano
A ViaQuatro, concessionária da Linha 4-Amarela do metrô de São Paulo, transportou 51,996 milhões de passageiros entre julho e setembro.
O resultado representa redução de 0,4% em relação aos 52,201 milhões de passageiros registrados no terceiro trimestre de 2025.
Apesar da queda trimestral, o acumulado dos nove primeiros meses de 2026 apresenta crescimento.
Foram 152,755 milhões de passageiros, contra 151,885 milhões no mesmo intervalo do ano anterior, alta de 0,6%.
A Motiva atribuiu parte das dificuldades de demanda enfrentadas pelos ativos paulistas ao calendário menos favorável e às chuvas intensas no período.
A receita tarifária da ViaQuatro aumentou de R$ 200 milhões para R$ 209 milhões, crescimento de 4,5%.
A receita bruta total, entretanto, caiu de R$ 1,139 bilhão para R$ 284 milhões.
Essa diferença não significa que a operação tenha perdido mais de três quartos de sua arrecadação com passageiros.
O terceiro trimestre de 2025 havia sido influenciado por eventos contábeis extraordinários relacionados ao Termo Aditivo nº 10, que prorrogou o contrato da concessionária.
O acordo ampliou a concessão em 20 anos e está vinculado à expansão da Linha 4-Amarela até Taboão da Serra (SP).
O balanço de 2025 reconheceu aproximadamente R$ 894 milhões em efeitos relacionados ao aditivo contratual, provocando uma base de comparação elevada.
Em 2026, a ViaQuatro passou a executar investimentos previstos na nova etapa do contrato.
O resultado é relevante para o mercado porque a extensão da Linha 4-Amarela representa um modelo de expansão ferroviária mediante renegociação e ampliação de uma concessão existente.
Essa alternativa poderá continuar sendo considerada pelos governos em projetos de mobilidade, mas exige análise de custos, riscos, investimentos e condições contratuais.
Para os passageiros, a principal expectativa está na ampliação do atendimento ferroviário, especialmente na ligação de Taboão da Serra à rede metropolitana.
Linhas 5-Lilás e 17-Ouro: aumento de passageiros e mudanças na manutenção
A ViaMobilidade, responsável pelo contrato das linhas 5-Lilás e 17-Ouro, registrou 43,974 milhões de passageiros no trimestre, crescimento de 0,8%.
No acumulado dos nove primeiros meses do ano, foram 129,704 milhões de passageiros, alta de 2,4%.
A receita tarifária passou de R$ 113 milhões para R$ 120 milhões, avanço de 6,2%.
A receita bruta total chegou a R$ 164 milhões, crescimento de 10,1%.
A Linha 5-Lilás tem papel importante na integração de bairros da zona Sul da capital paulista com a rede de metrô e trens metropolitanos.
Um dos principais pontos de conexão é Santo Amaro, onde ocorre a transferência entre a Linha 5-Lilás e a Linha 9-Esmeralda.
Essa integração é mencionada pela Motiva como um dos fatores que favoreceram a demanda nos sistemas paulistas.
No campo financeiro, a concessionária registrou aumento das despesas com serviços de terceiros.
Segundo o balanço, uma das principais razões foi a terceirização da manutenção do material rodante.
A empresa apresenta a mudança como uma estratégia para melhorar a previsibilidade de custos e a eficiência operacional.
Para os passageiros, o resultado dessa alteração deverá ser observado na disponibilidade dos trens, na regularidade dos serviços e no tempo necessário para solucionar falhas.
A Linha 17-Ouro, monotrilho que integra o mesmo contrato, possui características técnicas e operacionais distintas das da Linha 5-Lilás.
Por isso, a avaliação dos investimentos e das obrigações da concessionária também precisa considerar as particularidades de cada sistema.
Os dados financeiros apresentados em conjunto não permitem atribuir a cada uma das linhas uma parcela específica dos passageiros ou das receitas divulgadas.
Metrô Bahia: demanda praticamente estável e aumento de receitas
O Metrô Bahia, responsável pelas linhas 1 e 2 do sistema metroviário de Salvador e Lauro de Freitas (BA), transportou 30,480 milhões de passageiros no terceiro trimestre.
O movimento cresceu apenas 0,1% em comparação com os 30,449 milhões registrados um ano antes.
No acumulado de janeiro a setembro, foram 88,149 milhões de passageiros, alta de 0,3%.
Apesar da estabilidade na demanda, a receita tarifária aumentou 4,5%, passando de R$ 111 milhões para R$ 116 milhões.
A receita bruta total alcançou R$ 270 milhões, crescimento de 1,5%.
Um aspecto importante do resultado é a presença de receitas de mitigação de demanda.
No trimestre, esses valores aumentaram de R$ 46 milhões para R$ 59 milhões, alta de 28,3%.
Esses mecanismos fazem parte da estrutura contratual e podem ser utilizados para compartilhar riscos relacionados ao número de usuários transportados.
Na prática, são relevantes porque a receita de uma concessão nem sempre depende exclusivamente da quantidade de passageiros que paga a tarifa.
Existem contratos nos quais o poder público participa da remuneração, assumindo determinadas obrigações de pagamento ou compartilhamento de riscos.
O desempenho do Metrô Bahia ilustra a importância de avaliar não apenas a evolução da demanda, mas também a composição das receitas e a sustentabilidade econômica da operação.
O desafio para os próximos anos envolve a ampliação da integração metropolitana, o crescimento da demanda e os investimentos necessários para acompanhar a expansão urbana.
VLT Carioca: maior crescimento percentual do trimestre
O VLT Carioca, que opera no município do Rio de Janeiro (RJ), transportou 6,698 milhões de passageiros no terceiro trimestre de 2026.
O resultado representa crescimento de 2,1% em relação aos 6,561 milhões de passageiros registrados no mesmo período de 2025.
Foi o maior aumento percentual de demanda entre as concessões de trilhos da Motiva no trimestre.
Segundo a empresa, o desempenho foi favorecido pela programação de eventos na cidade e por uma base de comparação mais baixa no ano anterior.
A receita tarifária aumentou de R$ 28 milhões para R$ 30 milhões, crescimento de 7,1%.
A receita bruta total chegou a R$ 85 milhões, alta de 4,9%.
Apesar da melhora trimestral, o resultado acumulado de janeiro a setembro permanece negativo.
Foram 18,543 milhões de passageiros, redução de 2,4% em relação aos 18,996 milhões transportados nos primeiros nove meses de 2025.
O contraste mostra como a atividade econômica, o turismo, os eventos e as mudanças na circulação urbana podem influenciar a demanda por transporte coletivo.
O VLT Carioca tem características diferentes das dos sistemas de metrô e trens metropolitanos.
Sua operação está diretamente relacionada à circulação no Centro da cidade, ao atendimento de áreas comerciais, equipamentos públicos, espaços culturais e conexões com outros meios de transporte.
O crescimento da demanda depende, portanto, não apenas da qualidade dos veículos e da infraestrutura, mas também da vitalidade econômica e urbana das regiões atendidas.
Receitas de trilhos crescem, mas custos pressionam o resultado operacional
No conjunto das operações ferroviárias, a receita tarifária da Motiva aumentou de R$ 689 milhões para R$ 716 milhões no trimestre.
O crescimento foi de 3,9%, superior ao aumento de 0,5% no número de passageiros.
A diferença está relacionada, entre outros fatores, aos reajustes e aos mecanismos de remuneração dos contratos.
Já a receita de mitigação passou de R$ 34 milhões para R$ 93 milhões.
Por outro lado, os custos operacionais em caixa cresceram 70,1%, passando de R$ 261 milhões para R$ 444 milhões.
A empresa relaciona o desempenho a fatores como reajustes salariais, maiores despesas de manutenção, terceirização de serviços e alterações na comercialização de energia elétrica.
O custo líquido de energia passou de R$ 31 milhões para R$ 41 milhões.
Segundo a Motiva, parte desse aumento decorre da menor disponibilidade de excedentes de energia elétrica para comercialização em 2026.
Outro elemento importante foi a comparação com 2025, quando houve o reconhecimento de indenização de R$ 122 milhões em favor da ViaMobilidade das linhas 8 e 9, relacionada ao atraso na entrega de material rodante.
Esse efeito não se repetiu em 2026.
Como consequência, a margem EBITDA ajustada do segmento de trilhos caiu de 60,7% para 57,2%, redução de 3,5 pontos percentuais.
O indicador mostra que a evolução das receitas não foi suficiente para compensar integralmente o aumento dos custos e outros efeitos operacionais e contratuais.
Entenda os principais indicadores do segmento de trilhos
| Indicador | 3º trimestre de 2025 | 3º trimestre de 2026 | Variação |
|---|---|---|---|
| Passageiros transportados | 194,7 milhões | 195,6 milhões | +0,5% |
| Receita tarifária | R$ 689 milhões | R$ 716 milhões | +3,9% |
| Receita de mitigação | R$ 34 milhões | R$ 93 milhões | +173,5% |
| Receitas imobiliárias | R$ 24 milhões | R$ 29 milhões | +20,8% |
| Receitas comerciais | R$ 25 milhões | R$ 29 milhões | +16,0% |
| EBITDA ajustado | R$ 591 milhões | R$ 593 milhões | +0,3% |
| Margem EBITDA ajustada | 60,7% | 57,2% | -3,5 pontos percentuais |
O EBITDA representa uma medida de resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Não corresponde ao lucro líquido da empresa nem ao dinheiro disponível em caixa.
Mais receitas com lojas, publicidade e espaços das estações
Uma mudança importante no mercado de concessões metroferroviárias é o crescimento das receitas que não dependem diretamente da tarifa de transporte.
No terceiro trimestre, as receitas imobiliárias da Motiva aumentaram 20,8%, passando de R$ 24 milhões para R$ 29 milhões.
As receitas comerciais cresceram 16%, também alcançando R$ 29 milhões.
A empresa relaciona os resultados ao desempenho de publicidade, ocupação de espaços comerciais, renegociação de contratos e exploração de direitos de nomeação de estações, conhecidos como naming rights.
São atividades que procuram aproveitar a circulação diária de passageiros e a localização estratégica dos equipamentos de transporte.
A ampliação dessas receitas pode contribuir para a sustentabilidade econômica das concessões.
Entretanto, não elimina a necessidade de investimentos na operação ferroviária nem substitui as obrigações contratuais relacionadas à qualidade dos serviços.
O uso comercial das estações precisa ser compatível com a circulação dos passageiros, a acessibilidade e a segurança.
Motiva entra no mercado de recarga de ônibus elétricos em São Paulo
O balanço também destaca uma nova frente de negócios relacionada à mobilidade urbana.
Em setembro de 2026, a Motiva anunciou sua entrada no mercado de infraestrutura de recarga de ônibus elétricos.
O primeiro contrato foi firmado com a Viação Campo Belo, operadora do transporte municipal de São Paulo.
A empresa investiu aproximadamente R$ 5 milhões para instalar infraestrutura de recarga no Pátio Guido Caloi, associado à Linha 5-Lilás, na zona Sul da capital.
Foram instalados 12 carregadores, cada um com potência de 180 kVA, com capacidade de atender simultaneamente até 24 ônibus.
A expectativa inicial é realizar a recarga de aproximadamente 40 ônibus elétricos por dia.
Pelo modelo comercial, a Motiva realiza os investimentos na infraestrutura, gerencia a energia e mantém os equipamentos.
As empresas de ônibus utilizam os eletropostos e remuneram a companhia conforme as condições contratuais.
A iniciativa representa uma possibilidade de diversificação das receitas, aproveitando terrenos, instalações elétricas e estruturas associadas às concessões de transporte.
Também pode reduzir a necessidade de investimentos individuais das operadoras de ônibus em sistemas próprios de carregamento.
A empresa estuda ampliar esse modelo para outros mercados, incluindo veículos de aplicativos, logística urbana e recarga em rodovias.
Venda dos aeroportos muda a capacidade financeira da Motiva
Um dos acontecimentos mais importantes do trimestre foi a conclusão da venda da plataforma de aeroportos da Motiva.
A transação foi concluída em 1º de setembro de 2026, com recebimento de aproximadamente R$ 5,2 bilhões pela companhia.
O valor econômico total da operação, incluindo outros componentes da transação, foi estimado em R$ 12,2 bilhões.
A reorganização permitiu à Motiva reduzir o endividamento e concentrar sua estratégia em rodovias e trilhos.
A relação entre dívida líquida e EBITDA ajustado caiu de 3,6 vezes, no terceiro trimestre de 2025, para 3,2 vezes em 2026.
O fortalecimento financeiro pode ampliar a capacidade de participação em novos projetos, embora qualquer investimento dependa de análise de rentabilidade, riscos e disponibilidade de capital.
Para o setor metroferroviário, esse movimento merece atenção porque os próximos anos poderão envolver novas licitações e expansões de sistemas existentes.
Pós-eleições: o que os números podem representar para o mercado de mobilidade?
Os resultados da Motiva foram divulgados poucos dias após o segundo turno das eleições de 2026, num momento em que os governos começam a organizar prioridades administrativas e orçamentárias para os próximos anos.
O novo cenário coloca novamente em discussão a capacidade do poder público de financiar projetos estruturantes.
No caso dos transportes metropolitanos, o desafio é especialmente relevante.
A construção de uma linha de metrô exige investimentos elevados, prazos longos e comprometimento financeiro que frequentemente ultrapassa um mandato de governo.
Além disso, a operação precisa de recursos contínuos para manutenção, segurança, energia elétrica e renovação de equipamentos.
Os números da Motiva ajudam a compreender três questões centrais desse mercado.
A primeira é que a demanda por transporte coletivo não cresce automaticamente no mesmo ritmo das receitas. Mesmo com aumento de arrecadação, o número de passageiros transportados apresentou elevação de apenas 0,5%.
A segunda é que os contratos de concessão podem depender de diferentes fontes de remuneração, incluindo tarifas, receitas comerciais, aportes e mecanismos de compensação.
A terceira é que a capacidade financeira das empresas será importante para viabilizar os investimentos futuros, mas não substitui a necessidade de planejamento público.
Em São Paulo, permanecem no horizonte projetos como as linhas 19-Celeste, 20-Rosa e 22-Marrom, além de ampliações de linhas existentes.
A Linha 19-Celeste está planejada para estabelecer uma ligação metroviária entre São Paulo e Guarulhos.
A Linha 20-Rosa deverá conectar a região da Lapa, na capital, a Santo André, no ABC Paulista.
Já a Linha 22-Marrom está prevista para ampliar as ligações ferroviárias entre São Paulo, Osasco e Cotia.
Esses projetos fazem parte de uma carteira de expansão que poderá envolver diferentes modelos de contratação e participação privada.
A existência de empresas financeiramente estruturadas, como a Motiva, amplia o universo potencial de investidores, mas não significa que determinado grupo vencerá ou necessariamente disputará futuras concessões.
O resultado dependerá dos editais, das condições contratuais, da concorrência e da atratividade econômica dos empreendimentos.
Responsabilidade fiscal e qualidade dos serviços serão decisivas
O debate sobre o futuro do transporte coletivo após as eleições de 2026 também envolve a responsabilidade fiscal dos governos.
A expansão das redes de metrô e trens exige recursos para obras, desapropriações, estações, sistemas elétricos, sinalização, material rodante e manutenção.
Ao mesmo tempo, os governos precisam assegurar a continuidade dos contratos existentes.
Uma obra anunciada sem financiamento adequado pode gerar atrasos, aumento de custos e dificuldades de execução.
Da mesma maneira, contratos de concessão que não distribuem adequadamente os riscos podem resultar em disputas judiciais, pedidos de reequilíbrio financeiro e pressões sobre os orçamentos públicos.
A sustentabilidade financeira das empresas e o controle dos gastos públicos, portanto, não são assuntos separados da qualidade do transporte.
Estão diretamente relacionados à possibilidade de manter serviços regulares e realizar investimentos.
Os resultados apresentados pela Motiva mostram uma companhia que ampliou seu desempenho consolidado e reduziu sua alavancagem, mas também revelam que as operações de trilhos enfrentam desafios de custos e crescimento limitado da demanda.
Para o mercado, esse conjunto de informações oferece elementos sobre capacidade financeira, retorno dos investimentos e características dos contratos de mobilidade.
Para governos e órgãos reguladores, reforça a importância de avaliar os modelos de remuneração, os compromissos de expansão e os indicadores de desempenho.
Para os passageiros, porém, a principal medida de sucesso continuará sendo o serviço prestado.
Mais investimentos, receitas e passageiros transportados precisam resultar em viagens seguras, regulares, acessíveis e com menor tempo de deslocamento.
No período pós-eleitoral, transformar projetos anunciados em obras concluídas e serviços de qualidade será um dos principais desafios do transporte público brasileiro.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


