Princesa do Norte agora é Penha: Grupo Comporte anuncia mudança de marca e amplia estratégia de integração de empresas de ônibus
Publicado em: 1 de novembro de 2026
Tradicional companhia passa a utilizar identidade da Penha; mudança acompanha série de incorporações, aquisições e reorganizações do conglomerado da família Constantino, que também expandiu negócios para trens, metrôs e energia
ADAMO BAZANI
A tradicional Empresa Princesa do Norte anunciou oficialmente que agora passa a utilizar a marca Penha. A mudança foi comunicada nas redes sociais da companhia e representa mais uma etapa da estratégia do Grupo Comporte, conglomerado empresarial da família de Constantino de Oliveira, conhecido como Nenê Constantino, de integrar operações, concentrar marcas e ampliar a atuação no transporte rodoviário de passageiros em diferentes regiões do Brasil.
O anúncio também reforça uma tendência que o Diário do Transporte vem acompanhando nos últimos anos: empresas tradicionais do setor, muitas com décadas de história e forte identificação regional, passam a integrar estruturas operacionais e comerciais maiores. No caso da Princesa do Norte, a alteração é particularmente significativa porque a empresa já havia incorporado a Viação Manoel Rodrigues, enquanto o Grupo Comporte também promoveu a integração da Breda e da Empresa Cruz à Viação Piracicabana e avançou em novas aquisições, como as operações da Reunidas Paulista e da Expresso Fênix.
Na publicação oficial, a Princesa do Norte apresenta um ônibus rodoviário de dois andares, com uma composição visual que simboliza a passagem da antiga identidade para a nova marca.
A mensagem principal é direta: “Princesa do Norte agora é Penha”.
A empresa apresenta a mudança como uma nova fase de crescimento e evolução, mas ressalta que pretende manter os compromissos com os passageiros.
“Uma nova identidade para representar uma nova fase de crescimento, evolução e ainda mais possibilidades para os nossos passageiros”, informa a companhia.
Em outra passagem, destaca que a mudança de marca não significa alteração do compromisso com a prestação dos serviços:
“Mudamos a marca, mas seguimos com o mesmo propósito: levar você mais longe, com conforto, segurança e cuidado em cada viagem.”
A mensagem termina com a apresentação da nova fase: “Agora somos Penha.”
O comunicado confirma a mudança de identidade comercial, mas não detalha se haverá incorporação societária da Princesa do Norte pela Nossa Senhora da Penha, transferência de autorizações ou alteração dos CNPJs responsáveis pelos serviços.
Essa distinção é importante porque a adoção de uma marca comum não significa, necessariamente, que duas empresas tenham sido juridicamente incorporadas.
Princesa do Norte já havia incorporado a Manoel Rodrigues
A mudança anunciada agora possui antecedentes dentro do próprio Grupo Comporte.
Em 9 de fevereiro de 2021, o Diário do Transporte noticiou que a Artesp, agência responsável na época pela regulação dos transportes intermunicipais paulistas, havia aprovado a incorporação da Viação Manoel Rodrigues pela Empresa Princesa do Norte.
As duas empresas já integravam o conglomerado da família Constantino.
A Manoel Rodrigues possuía uma longa trajetória no transporte rodoviário paulista, especialmente nas ligações entre municípios do interior do estado.
Com a incorporação, operações que estavam vinculadas a duas empresas passaram a integrar uma mesma estrutura empresarial.
Agora, cinco anos depois, a própria Princesa do Norte passa a adotar a identidade de outra marca tradicional pertencente ao Grupo Comporte: a Penha.
O movimento demonstra que a reorganização das empresas não se limita à aquisição de novas companhias, envolvendo também mudanças internas entre sociedades e marcas que já pertencem ao conglomerado.
Penha tem história própria e também passou pelo Grupo Itapemirim
A Nossa Senhora da Penha é uma das marcas tradicionais do transporte rodoviário brasileiro, especialmente conhecida pelas operações interestaduais e pelas ligações de longa distância.
A história da companhia inclui uma passagem pelo antigo Grupo Itapemirim.
Em 1973, a Viação Itapemirim adquiriu a Empresa de Ônibus Nossa Senhora da Penha, que posteriormente passou ao controle do Grupo Comporte, em uma operação realizada em 2004.
Essa trajetória demonstra como o mercado rodoviário brasileiro passou por diferentes ciclos de concentração empresarial, venda de ativos e reorganização de grupos tradicionais.
A Penha se consolidou como uma das principais marcas rodoviárias do conglomerado da família Constantino e foi escolhida para representar o grupo em disputas por novos mercados interestaduais.
Em reportagem publicada em 7 de maio de 2026, o Diário do Transporte mostrou que a Nossa Senhora da Penha foi utilizada pelo Grupo Comporte como uma das principais empresas na primeira janela de autorizações de mercados da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres).
Na ocasião, a empresa foi contemplada com 72 mercados, sendo seis classificados como anteriormente desatendidos e 66 com apenas uma operadora existente.
Entre as ligações contempladas estavam mercados envolvendo municípios de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
A concentração de operações sob marcas de maior abrangência pode representar uma estratégia para fortalecer o reconhecimento comercial, a venda de passagens e a presença nacional do grupo.
Breda, Cruz e outras empresas: relembre as incorporações do Grupo Comporte
A transformação da Princesa do Norte em Penha ocorre depois de uma sequência de operações empresariais acompanhadas pelo Diário do Transporte.
Um dos principais exemplos é a Viação Piracicabana, utilizada pelo Grupo Comporte como uma das estruturas centrais de integração de negócios.
Em fevereiro de 2020, o grupo anunciou a incorporação da Viação São Paulo-São Pedro pela Piracicabana.
Em junho de 2021, o conglomerado confirmou ao Diário do Transporte que a tradicional Breda Serviços seria incorporada à Viação Piracicabana a partir de 1º de julho daquele ano.
A operação representou uma mudança importante para uma marca bastante conhecida no ABC Paulista, na Baixada Santista e em outros mercados atendidos pela Breda.
Outra movimentação ocorreu em março de 2024, quando a Empresa Cruz de Transportes foi incorporada à Viação Piracicabana.
A Empresa Cruz também possuía tradição no transporte de passageiros do interior de São Paulo.
Essas operações envolveram empresas que já pertenciam ao mesmo grupo econômico, diferentemente das aquisições externas realizadas pelo conglomerado.
No segmento de fretamento, também ocorreram movimentações importantes.
Em junho de 2020, o Diário do Transporte noticiou a aquisição das operações de fretamento da Suzantur pelo Grupo Comporte, por meio de sua estrutura empresarial então vinculada à Breda.
É importante distinguir essa operação dos negócios de transporte urbano mantidos pela Suzantur e de sua posterior atuação no arrendamento das linhas das massas falidas da Itapemirim e da Kaissara.
Em novembro de 2021, outra aquisição envolveu a tradicional Firenze, empresa de fretamento de Santo André (SP), cujas operações e frota passaram a integrar os negócios da Piracicabana.
O grupo também avançou sobre outras empresas do transporte rodoviário.
Em dezembro de 2020, a ANTT concedeu anuência prévia para a transferência de controle societário da VCB Transportes, conhecida como Viação Campo Belo, para a Expresso União, integrante do conglomerado.
Reunidas Paulista e Expresso Fênix estão entre as movimentações mais recentes
O processo de expansão ganhou novos capítulos em 2026.
Em janeiro, o Diário do Transporte mostrou em primeira mão movimentações envolvendo a aquisição e incorporação de operações da Reunidas Paulista e do braço rodoviário da Expresso Fênix pela Viação Piracicabana.
A Reunidas Paulista é uma empresa tradicional da região de Araçatuba, no interior de São Paulo, com história ligada a outro ramo da família Constantino.
Já a Expresso Fênix possui atuação em dezenas de municípios do interior e litoral paulista e do Sul de Minas Gerais, com origem empresarial ligada a um ramo da família Chedid.
As operações foram submetidas à análise concorrencial do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), órgão responsável por avaliar atos de concentração econômica.
A incorporação de negócios de empresas tradicionais permite ao Grupo Comporte ampliar sua presença geográfica e aproveitar estruturas operacionais, garagens, sistemas administrativos e redes de atendimento.
Entretanto, é necessário distinguir a divulgação de uma aquisição, sua aprovação pelos órgãos competentes e a efetiva conclusão da operação.
A estratégia de crescimento também envolve empresas e plataformas de tecnologia.
Em novembro de 2024, a Nossa Senhora da Penha participou da aquisição das empresas Buscoop e 4Bus Tecnologia no Transporte de Passageiros, conforme informações societárias divulgadas pelo Grupo Comporte.
A movimentação demonstrou o interesse do conglomerado em ampliar sua presença em soluções de transporte que utilizam plataformas digitais.
Grupo Comporte ultrapassou os ônibus e chegou aos trilhos
A concentração de marcas rodoviárias acontece ao mesmo tempo em que o Grupo Comporte amplia a diversificação dos negócios.
O conglomerado tem origem nos empreendimentos de transporte de passageiros de Constantino de Oliveira, conhecido como Nenê Constantino.
A família também esteve ligada à criação da Gol Linhas Aéreas, que iniciou operações em 2001 e introduziu no mercado brasileiro um modelo de aviação de baixo custo.
Nos transportes terrestres, o grupo passou a disputar concessões de sistemas metroferroviários, ampliando o alcance dos negócios para além dos ônibus urbanos, metropolitanos, de fretamento e rodoviários.
Entre os principais empreendimentos estão o Metrô da Grande Belo Horizonte, o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) da Baixada Santista e o TIC (Trem Intercidades) entre São Paulo (SP) e Campinas (SP), projeto que inclui a modernização e operação da Linha 7-Rubi.
O grupo também venceu, em março de 2025, a licitação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade dos trens metropolitanos de São Paulo.
O crescimento chegou ainda ao setor de energia, por meio de investimentos relacionados ao Complexo Eólico Santa Vitória do Palmar, no Rio Grande do Sul.
Essa diversificação demonstra uma estratégia que combina ampliação da participação no mercado rodoviário com investimentos em infraestrutura, tecnologia e outras atividades econômicas.
O que muda para os passageiros da Princesa do Norte?
Para os usuários, a principal mudança anunciada até agora é a substituição da identidade Princesa do Norte pela marca Penha.
Na prática, o processo poderá envolver a atualização da comunicação visual dos ônibus, plataformas de vendas, canais de atendimento, materiais publicitários e identificação comercial dos serviços.
Entretanto, o comunicado não estabelece um cronograma detalhado para a transição da frota nem apresenta alterações específicas de linhas, horários, tarifas ou pontos de embarque.
Também não esclarece se haverá mudanças nas empresas juridicamente responsáveis pelas autorizações de transporte.
No caso das linhas interestaduais, eventuais alterações regulatórias devem observar as normas da ANTT. Para serviços intermunicipais, devem ser respeitadas as regras dos respectivos órgãos estaduais competentes.
Para os passageiros, a questão mais importante é que a mudança de marca seja acompanhada por informações claras sobre a identificação dos veículos, a comercialização das passagens, o atendimento e a continuidade dos serviços.
O anúncio da companhia reforça justamente a intenção de preservar os compromissos com conforto, segurança e atendimento.
A adoção da marca Penha também representa uma mudança relevante para a memória do transporte rodoviário brasileiro.
Princesa do Norte, Manoel Rodrigues, Breda, Empresa Cruz e outras companhias carregam histórias que ultrapassam suas estruturas empresariais, envolvendo gerações de motoristas, mecânicos, funcionários administrativos e passageiros.
A reorganização de grandes grupos empresariais é uma realidade do setor, mas também reforça a importância de preservar os registros históricos dessas marcas.
No caso do Grupo Comporte, a mudança da Princesa do Norte para Penha se insere em uma transformação mais ampla: a passagem de um conglomerado formado por diversas empresas tradicionais para uma organização cada vez mais integrada, com atuação nacional em ônibus, tecnologia, trilhos e energia.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


