Belo Horizonte abre seleção para supervisionar obras do BRT Amazonas, novas estações na Área Hospitalar e faixas exclusivas de ônibus no Barreiro
Publicado em: 1 de novembro de 2026
Contratação integra projeto financiado pelo Banco Mundial, com intervenções previstas em quase 40 quilômetros de vias; empresa escolhida deverá acompanhar projetos, execução das obras, contratos e impactos ambientais e sociais. Prazo para manifestação de interesse termina em 27 de novembro
ADAMO BAZANI
A Prefeitura de Belo Horizonte (MG) abriu uma nova etapa do projeto do BRT Amazonas, com a seleção de uma empresa especializada em engenharia que ficará responsável por supervisionar a construção de estações de transferência de passageiros na Área Hospitalar, as intervenções viárias no entorno e a implantação de faixas exclusivas e preferenciais para ônibus na região do Barreiro. A contratação também prevê o acompanhamento dos projetos técnicos, a fiscalização da execução das obras e a administração dos contratos. As empresas interessadas têm até 27 de novembro de 2026 para apresentar suas qualificações.
A medida, publicada no Diário Oficial do Município integra o Programa de Mobilidade e Inclusão Urbana, financiado pelo Banco Mundial, e está relacionada à implantação do futuro MOVE Amazonas, previsto pela administração municipal para entrar em operação em 2030. O empreendimento pretende melhorar as viagens de ônibus entre o Centro de Belo Horizonte, a região Oeste, o Barreiro e municípios metropolitanos, como Contagem. Para os passageiros, os resultados esperados incluem redução do tempo perdido no trânsito, melhores condições de embarque e desembarque, acessibilidade e maior regularidade das viagens. A supervisão agora prevista será uma das ferramentas para verificar se as intervenções atenderão às exigências técnicas, aos contratos e às necessidades da população.
A contratação foi anunciada pela Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smobi), responsável pela execução do programa, em conjunto com a Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap).
A publicação também formaliza uma comissão especial encarregada de conduzir o processo de escolha da consultoria, que poderá reunir empresas nacionais ou estrangeiras, individualmente ou em consórcio.
O trabalho envolverá dois conjuntos de intervenções: as estações de transferência do BRT e o sistema viário na Área Hospitalar, além das faixas destinadas ao transporte coletivo em vias do Barreiro.
Embora façam parte do mesmo programa de mobilidade, essas intervenções possuem características diferentes e exigem acompanhamento específico.
O que a empresa contratada terá de fiscalizar
A consultoria deverá apoiar tecnicamente o gerente do projeto, supervisionar o desenvolvimento e a validação dos projetos de engenharia, acompanhar a execução das obras e prestar apoio à administração dos contratos.
Na prática, seu papel será verificar se as soluções propostas pelas empresas responsáveis pelos projetos e pelas obras são compatíveis com os requisitos técnicos estabelecidos pelo município.
Isso inclui a análise de intervenções em sistemas viários, pavimentação, calçadas acessíveis, corredores de transporte coletivo e estruturas destinadas ao embarque, desembarque e transferência de passageiros.
A presença de uma supervisora técnica é relevante porque uma obra de transporte coletivo envolve muito mais do que a construção de estações ou a pintura de faixas no pavimento.
É necessário compatibilizar o espaço destinado aos ônibus com cruzamentos, circulação de pedestres, acessos a imóveis, condições de segurança, sinalização e demais elementos urbanos.
No caso de um corredor de ônibus, a geometria das vias interfere diretamente na operação. Curvas, conversões, aproximação dos veículos às plataformas e condições de entrada e saída das estações precisam ser adequadas às dimensões e às características operacionais da frota.
Também é necessário avaliar como os ônibus se comportarão nos cruzamentos e pontos de conflito com outros veículos.
Uma intervenção que ofereça prioridade aos coletivos em determinado trecho, mas provoque retenções na sequência do percurso, pode comprometer parte dos ganhos de velocidade e regularidade pretendidos.
Por isso, a fiscalização dos projetos e da execução das obras tem relação direta com a qualidade do serviço que será oferecido aos passageiros.
O procedimento divulgado nesta terça-feira estabelece três grupos principais de experiências exigidas das empresas interessadas.
O primeiro envolve fiscalização e supervisão de obras de infraestrutura urbana, incluindo implantação, ampliação, adequação ou requalificação de sistemas viários, calçadas acessíveis e estruturas de transporte coletivo.
O segundo exige experiência na elaboração, revisão, análise ou validação de projetos de engenharia relacionados a esses mesmos tipos de intervenção.
O terceiro trata especificamente da supervisão ambiental e social das obras.
Nesse último caso, a empresa deverá demonstrar experiência no acompanhamento de condicionantes ambientais, planos de gestão, identificação de riscos e adoção de medidas preventivas, mitigadoras ou corretivas.
Essa exigência tem importância em obras realizadas em áreas urbanas consolidadas, onde os serviços podem afetar temporariamente deslocamentos, acessos a estabelecimentos comerciais e circulação de moradores.
Estações na Área Hospitalar e faixas no Barreiro: por que essas intervenções são importantes
A implantação de estações de transferência na Área Hospitalar é uma das intervenções previstas para ampliar a integração do futuro BRT Amazonas com outras regiões da capital.
A Área Hospitalar concentra serviços de saúde e recebe deslocamentos de pacientes, acompanhantes, trabalhadores e demais usuários do transporte coletivo.
Nessas condições, o planejamento precisa considerar não apenas a circulação dos ônibus, mas também o deslocamento de pessoas com mobilidade reduzida, idosos, usuários de cadeiras de rodas e passageiros que dependem de conexões entre linhas.
As condições de acesso às estações, as travessias e a integração com as calçadas terão importância para que a infraestrutura seja efetivamente utilizada pela população.
A proposta também contempla intervenções no sistema viário do entorno, necessárias para adequar a circulação à implantação das estruturas de transferência.
No Barreiro, o objeto da contratação inclui a supervisão de faixas exclusivas e preferenciais destinadas ao transporte coletivo.
Essas duas modalidades possuem diferenças operacionais.
Nas faixas exclusivas, a circulação é reservada aos veículos autorizados, conforme a regulamentação aplicável. Já as faixas preferenciais estabelecem prioridade para os ônibus, mas podem admitir compartilhamento em condições definidas pela sinalização e pelas regras de trânsito.
A escolha do modelo depende das características das vias, do volume de ônibus, da circulação geral e das necessidades de acesso.
Para os passageiros que utilizam o transporte coletivo diariamente, a prioridade viária pode representar viagens menos sujeitas aos congestionamentos e maior previsibilidade nos horários de chegada.
A regularidade também é importante para o funcionamento das linhas. Quando os ônibus ficam retidos no trânsito, aumenta a possibilidade de intervalos desiguais entre veículos, atrasos sucessivos e concentração de passageiros nos pontos.
A melhoria do desempenho depende, entretanto, da continuidade das medidas de prioridade e da compatibilidade entre a infraestrutura e a programação operacional.
Projeto prevê 39,7 quilômetros de intervenções e operação em 2030
O MOVE Amazonas tem como eixo estruturante uma das principais avenidas de Belo Horizonte.
Segundo a configuração divulgada pela Prefeitura, o projeto contempla aproximadamente 39,7 quilômetros de intervenções viárias, dos quais 8,64 quilômetros correspondem ao tratamento em BRT nas avenidas Amazonas e Olegário Maciel.
Os demais trechos abrangem vias utilizadas no acesso às regiões atendidas pelo sistema.
O planejamento também inclui aproximadamente 8,65 quilômetros de intervenções em áreas destinadas à circulação de pedestres, chamadas de bolsões de caminhabilidade, com melhorias de acessibilidade, paisagismo e qualificação urbana.
Essas medidas procuram integrar o sistema de ônibus ao espaço público.
A proposta tem importância especialmente porque a viagem de transporte coletivo começa antes de o passageiro entrar no veículo e termina depois do desembarque.
A qualidade das calçadas, as travessias seguras, a distância até os pontos e as condições de acesso às estações interferem diretamente na experiência de quem utiliza o sistema.
O programa pretende atender deslocamentos entre a região central, o vetor Oeste e o Barreiro, além de conexões metropolitanas.
Em setembro de 2023, durante a apresentação das propostas para elaboração dos estudos e projetos do empreendimento, a Prefeitura mencionou como objetivo melhorar as condições de deslocamento de uma população usuária de transporte público estimada em 835 mil passageiros por dia.
Esse número foi apresentado naquele contexto como referência da população beneficiada pelas intervenções e não deve ser interpretado como uma previsão de passageiros transportados exclusivamente pelo futuro corredor BRT.
A previsão municipal mais recente situa o início da operação do MOVE Amazonas em 2030, condicionado à continuidade das etapas de projeto, contratação, execução das obras e preparação operacional.
Financiamento do Banco Mundial e histórico do empreendimento
O programa foi estruturado a partir de financiamento internacional contratado pela Prefeitura de Belo Horizonte junto ao Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (Bird), instituição integrante do Banco Mundial.
O acordo de empréstimo foi assinado em 14 de setembro de 2022.
O programa original reúne investimentos de US$ 100 milhões, sendo US$ 80 milhões provenientes do financiamento internacional e US$ 20 milhões de contrapartida municipal, conforme valores divulgados pela administração municipal.
O dinheiro é destinado a diferentes componentes relacionados à mobilidade, infraestrutura urbana, planejamento e gerenciamento.
A implantação do BRT Amazonas é um dos principais empreendimentos desse conjunto.
Em setembro de 2023, cinco consórcios formados por empresas brasileiras e estrangeiras apresentaram propostas para a elaboração dos estudos e projetos necessários à reestruturação do corredor.
Posteriormente, em 19 de junho de 2024, a administração municipal assinou ordem de serviço para o desenvolvimento dos estudos e projetos de mobilidade urbana.
Na ocasião, o prazo previsto para a conclusão dos trabalhos era de 30 meses.
O histórico da contratação, entretanto, teve dificuldades.
Conforme noticiado pelo Diário do Transporte em 7 de outubro de 2026, o primeiro contrato de elaboração de projetos, identificado como DJ 017/2024, foi rescindido em dezembro de 2024 por descumprimento de obrigações contratuais.
O contrato inicial estava relacionado ao Consórcio Certare–Architectus–TTC.
Após a rescisão, a Prefeitura consultou o Banco Mundial sobre a possibilidade de convocar o segundo colocado na seleção.
O financiador admitiu essa alternativa, observadas as condições de interesse, disponibilidade e manutenção do valor da proposta apresentada pelo consórcio convocado.
O novo contrato, divulgado em abril de 2025, tinha valor inicial aproximado de R$ 20,5 milhões e estava relacionado ao Consórcio Oficina–ITDP–Pitmen–GPA&A.
Em outubro de 2026, o Diário do Transporte também noticiou um acréscimo de aproximadamente R$ 1,62 milhão nesse contrato, destinado a levantamentos, sondagens e ensaios técnicos.
Os trabalhos adicionais são necessários ao conhecimento das condições físicas dos locais onde serão desenvolvidas as intervenções.
A nova seleção publicada nesta terça-feira, por sua vez, tem finalidade distinta: escolher uma consultoria para supervisionar projetos, obras e a administração dos contratos referentes às intervenções especificadas no edital.
A separação entre as funções de elaboração de projetos, execução das obras e supervisão técnica é importante para compreender as diferentes responsabilidades dentro do programa.
Seleção vai avaliar experiência técnica e proposta financeira
A escolha da empresa supervisora seguirá regras de contratação do Banco Mundial.
O método adotado é o de Seleção Baseada na Qualidade e Custo, conhecido pela sigla SBQC.
Nesse modelo, a avaliação considera a capacidade técnica dos participantes e as condições financeiras apresentadas, conforme critérios estabelecidos nos documentos da seleção.
Na etapa atual, as empresas devem manifestar interesse e apresentar informações que comprovem sua experiência.
Podem ser encaminhados portfólios, relações de contratos executados e documentos demonstrativos da qualificação técnica.
Para os contratos utilizados como comprovação, a Prefeitura exige identificação do gestor técnico do contratante, com nome, cargo, telefone e e-mail.
As empresas também poderão formar associações empresariais ou contratar subconsultorias para complementar suas especializações.
A documentação deverá identificar a forma de participação de cada integrante.
A Prefeitura instituiu uma comissão especial com representantes da Smobi e da Sudecap para conduzir o procedimento.
Entre as atribuições estão receber questionamentos, avaliar a documentação, verificar capacidades técnicas e financeiras, examinar propostas e elaborar relatórios de julgamento.
A comissão também deverá observar requisitos de prevenção e tratamento de conflitos de interesses estabelecidos nas regras do financiamento internacional.
As manifestações de interesse devem ser encaminhadas até 27 de novembro de 2026 pelo endereço eletrônico comissao.contratacoes-bancomundial@pbh.gov.br, com a identificação “Manifestação de Interesse SMOBI 96.047/2026”.
O que muda para o passageiro e quais etapas ainda precisam ocorrer
A publicação representa mais uma etapa administrativa e técnica de preparação do empreendimento.
A contratação da supervisora não significa o início imediato das obras nem determina, por si só, mudanças nas linhas e nos pontos de ônibus.
As alterações operacionais dependerão das etapas posteriores, da aprovação dos projetos e da programação dos serviços.
Para os passageiros, a principal relevância está na forma como a futura infraestrutura será implantada.
O acompanhamento técnico deverá contribuir para verificar a execução das soluções de acessibilidade, as características das estações, a qualidade das intervenções viárias e o atendimento às exigências ambientais e sociais.
Também será importante acompanhar a organização do trânsito durante a execução das obras, especialmente nos locais onde intervenções possam exigir alterações temporárias na circulação de ônibus e pedestres.
Em um projeto que pretende reorganizar deslocamentos em um dos principais eixos de Belo Horizonte, o resultado dependerá tanto da qualidade das obras quanto da integração com as linhas municipais e metropolitanas que utilizam a região.
A previsão de operação em 2030 coloca o cumprimento dos próximos cronogramas entre os principais pontos de acompanhamento do empreendimento.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


