Prefeitura do Rio de Janeiro prepara nova garagem de ônibus em Senador Vasconcelos em meio à reorganização do Sistema Rio e avança na licitação de R$ 2,88 milhões para obras no Terminal do Cosme Velho
Publicado em: 27 de outubro de 2026
Pedido de licença ambiental para instalação na Zona Oeste ocorre durante a substituição gradual dos contratos de ônibus municipais; novo modelo prevê garagens públicas, renovação da frota e remuneração por quilômetro, enquanto projeto no Cosme Velho inclui melhorias urbanas e acessibilidade para passageiros
ADAMO BAZANI
A Prefeitura do Rio de Janeiro deu mais um passo na preparação da infraestrutura do transporte municipal por ônibus ao solicitar licença ambiental para desenvolver um projeto de garagem na Avenida de Santa Cruz, nº 11.120, em Senador Vasconcelos, na Zona Oeste. A iniciativa ocorre durante a implantação do Sistema Rio, que está substituindo gradualmente o modelo tradicional de concessões por novos contratos, com renovação da frota, reorganização das linhas e utilização de garagens públicas. Em outra frente, a administração municipal divulgou o resultado da disputa para obras de reurbanização do Terminal Rodoviário do Cosme Velho, na Zona Sul, incluindo a criação de um percurso acessível até o Largo do Boticário, com proposta negociada de R$ 2,88 milhões.
As duas movimentações aparecem no Diário Oficial desta terça-feira, 27 de outubro de 2026, e dizem respeito a estruturas necessárias ao funcionamento dos transportes municipais. No caso de Senador Vasconcelos, a Secretaria Municipal de Transportes solicitou a Licença Municipal Prévia, etapa ambiental anterior à eventual implantação da garagem. No Cosme Velho, a empresa Delta 4 Construções e Terraplenagens Ltda. apresentou uma proposta de R$ 2.878.128,26, aproximadamente 25% abaixo do orçamento estimado de R$ 3,84 milhões. O procedimento ainda aguarda adjudicação. Enquanto o primeiro projeto levanta questões sobre a distribuição das futuras instalações de apoio aos ônibus, o segundo envolve as condições de acesso dos passageiros ao terminal e sua integração com o entorno urbano.
A preparação de uma nova garagem chama atenção porque a disponibilidade de instalações adequadas é uma das condições para que os novos operadores consigam cumprir as obrigações previstas nos contratos do Sistema Rio.
No modelo que está sendo implantado pela Prefeitura, a infraestrutura de garagem deixa de depender exclusivamente da estrutura particular das empresas que historicamente operam o transporte municipal. O município pretende ampliar o uso de instalações públicas vinculadas às concessões, com construção, manutenção e gestão previstas nas responsabilidades contratuais dos operadores.
A publicação referente a Senador Vasconcelos confirma a solicitação de licenciamento para a área da Avenida de Santa Cruz, mas ainda não identifica a qual lote do Sistema Rio a instalação será destinada, sua capacidade de estacionamento, o número de ônibus previstos ou o responsável pela futura construção.
Essas definições são relevantes porque a localização das garagens interfere diretamente no custo e na eficiência das operações. Quanto maior a distância entre a garagem e os pontos de início das linhas, maior pode ser a quilometragem percorrida sem transportar passageiros, conhecida no setor como quilometragem ociosa ou improdutiva.
A existência de uma instalação próxima às regiões atendidas também pode facilitar a saída dos primeiros ônibus, o recolhimento dos veículos, as trocas de motoristas, os serviços de manutenção e o atendimento a ocorrências operacionais.
Novo Sistema Rio muda contratos, remuneração e utilização das garagens
A solicitação ambiental em Senador Vasconcelos ocorre durante uma das maiores reorganizações do transporte municipal do Rio de Janeiro nas últimas décadas.
O Sistema Rio foi estruturado para substituir gradualmente as concessões organizadas a partir de 2010, originalmente divididas entre quatro consórcios.
A nova configuração prevê a divisão do município em 34 lotes operacionais, sendo 22 estruturais e 12 locais, com implantação por etapas e contratos de concessão de dez anos, prorrogáveis por igual período.
Uma das alterações mais importantes está na forma de remuneração das empresas.
Em vez de dependerem essencialmente da receita diretamente associada ao pagamento das passagens pelos passageiros, as operadoras passam a receber com base na produção quilométrica contratada, dentro das condições estabelecidas pela Prefeitura.
Isso significa que o planejamento do serviço, a quantidade de viagens e o cumprimento da programação ganham importância direta para a remuneração.
Para o passageiro, a mudança busca reduzir a relação entre a receita obtida em determinada linha e a decisão operacional de manter ou reduzir viagens.
O novo modelo também prevê ônibus com tecnologia de emissões Euro VI, ar-condicionado, acessibilidade e equipamentos de monitoramento e segurança.
A configuração divulgada pela administração municipal inclui sistemas inteligentes de transporte, monitoramento da frota, equipamentos de informação aos passageiros e tecnologias para acompanhamento das condições de operação dos veículos.
Outra diferença está na gestão das garagens. A proposta municipal estabelece instalações vinculadas ao sistema público de transporte, enquanto os contratos atribuem aos concessionários responsabilidades de construção, manutenção e operação conforme as características de cada lote.
Essa mudança procura reduzir a dependência de terrenos e estruturas pertencentes às empresas atuais, questão que pode dificultar a entrada de novos operadores em determinadas regiões.
Primeiros contratos foram assinados com o Grupo Comporte
A primeira etapa do Sistema Rio foi adjudicada à Comporte Participações S.A., empresa vinculada ao Grupo Comporte.
Os contratos foram assinados em 12 de março de 2026 para serviços nas regiões de Campo Grande e Santa Cruz.
A programação apresentada pela Prefeitura estabeleceu a ampliação da frota dessas áreas de 104 para 316 ônibus, mediante a incorporação de novos veículos.
Na ocasião, a administração municipal informou que a primeira entrega seria composta por 169 ônibus, seguida por outros 147 veículos.
A primeira garagem pública do Sistema Rio foi inaugurada posteriormente na Estrada do Campinho, nº 8.500, em Campo Grande.
A instalação possui aproximadamente 56 mil metros quadrados e capacidade anunciada para até 380 ônibus urbanos.
A estrutura foi planejada para atender às operações da primeira licitação e reúne áreas de estacionamento, abastecimento, lavagem, manutenção e apoio administrativo.
A comparação com Senador Vasconcelos é importante porque demonstra como a implantação de garagens faz parte da mudança operacional e contratual.
Entretanto, a nova solicitação de licença ambiental ainda não permite afirmar que a instalação da Avenida de Santa Cruz terá as mesmas características da garagem de Campo Grande.
Nova etapa de concessões envolve cinco lotes e contratos estimados em R$ 1,4 bilhão
A segunda etapa da licitação do Sistema Rio foi organizada em cinco lotes, com julgamento pelo menor valor de remuneração por quilômetro oferecido pelas empresas concorrentes.
O valor estimado dos contratos, somados os cinco lotes, é de aproximadamente R$ 1,4 bilhão.
| Lote | Remuneração de referência | Valor estimado do contrato |
|---|---|---|
| A1-B6 | R$ 10,40/km | R$ 313,40 milhões |
| B1-B8 | R$ 10,70/km | R$ 281,95 milhões |
| C1-C2 | R$ 11,78/km | R$ 387,20 milhões |
| H1-I3 | R$ 13,02/km | R$ 268,14 milhões |
| H2 | R$ 11,71/km | R$ 149,25 milhões |
| Total | — | R$ 1,40 bilhão |
Os valores são estimativas contratuais, e não despesas integralmente realizadas.
A remuneração de referência também não deve ser confundida com a tarifa paga pelo passageiro. Trata-se do parâmetro utilizado para definir quanto o operador recebe pela prestação do serviço, conforme as condições da concessão.
A segunda etapa abrange regiões da Zona Oeste, com atendimento relacionado a Guaratiba, Santa Cruz, Campo Grande e Bangu.
De acordo com a programação divulgada pela Prefeitura, a frota envolvida nessa etapa deverá passar de 654 para 1.006 veículos, aumento de aproximadamente 54%.
A expansão depende da implantação dos contratos e do cumprimento dos respectivos cronogramas de disponibilização de ônibus.
É nesse contexto que se torna importante acompanhar o pedido de licença ambiental para Senador Vasconcelos.
A área da Avenida de Santa Cruz pode representar uma nova frente de preparação da infraestrutura necessária ao transporte municipal, embora a identificação do lote ou operador responsável dependa de confirmação nos documentos específicos do empreendimento.
Prefeitura também prepara concessão para ônibus elétricos
A reorganização não está limitada às linhas operadas com ônibus a diesel.
O município também desenvolveu uma modelagem específica para a eletrificação, incluindo o Lote Elétrico 1, conhecido como LE1.
A proposta prevê uma concessão administrativa para fornecimento e operação de ônibus elétricos a bateria, além da construção, manutenção e gestão de garagem pública e infraestrutura de recarga.
Na estrutura apresentada pela Prefeitura, essa primeira etapa contempla 175 ônibus elétricos, vinculados ao planejamento da nova rede.
A consulta pública sobre o lote foi programada para o período de 28 de setembro a 28 de outubro de 2026, com audiência pública em 27 de outubro.
Uma das particularidades dos veículos elétricos é a necessidade de dimensionamento das garagens de acordo com o fornecimento de energia, a quantidade de carregadores, a autonomia dos veículos e a programação diária.
A operação exige planejamento para que os ônibus possam ser recarregados sem comprometer a oferta de viagens.
Também é necessário definir responsabilidades pelos equipamentos de recarga, instalações elétricas, manutenção e eventuais adequações da rede de distribuição de energia.
A nova garagem de Senador Vasconcelos, entretanto, foi identificada na publicação ambiental apenas como projeto de garagem de ônibus. Não há, nesse documento, indicação de que seja destinada ao lote elétrico.
Cosme Velho: obras de R$ 2,88 milhões incluem reurbanização e acessibilidade
Enquanto a Prefeitura prepara uma nova instalação operacional na Zona Oeste, outra publicação trata diretamente das condições de acesso ao transporte na Zona Sul.
O resultado da concorrência para obras no Terminal Rodoviário do Cosme Velho aponta a empresa Delta 4 Construções e Terraplenagens Ltda., CNPJ 01.021.995/0001-30, como responsável pela proposta aceita e habilitada.
O objeto contempla a reurbanização do terminal e a implantação de rota acessível no percurso até o Largo do Boticário.
O orçamento inicial era de R$ 3.837.520,66.
A proposta originalmente apresentada pela empresa foi de R$ 2.878.140,50, posteriormente negociada para R$ 2.878.128,26.
A diferença entre a estimativa e a proposta negociada é de aproximadamente R$ 959,4 mil, o equivalente a uma redução próxima de 25%.
Quadro da licitação do Terminal Rodoviário do Cosme Velho
| Informação | Detalhamento |
|---|---|
| Empreendimento | Reurbanização do Terminal Rodoviário do Cosme Velho |
| Complemento | Implantação de rota acessível até o Largo do Boticário |
| Região | Cosme Velho, Zona Sul do Rio de Janeiro |
| Empresa classificada | Delta 4 Construções e Terraplenagens Ltda. |
| CNPJ | 01.021.995/0001-30 |
| Valor estimado | R$ 3.837.520,66 |
| Proposta negociada | R$ 2.878.128,26 |
| Diferença | Aproximadamente R$ 959,4 mil |
| Redução sobre o orçamento | Aproximadamente 25% |
| Situação publicada | Aguardando adjudicação |
O procedimento estabelece execução de serviços comuns de engenharia, sob regime de empreitada por preços unitários.
Essa modalidade prevê a medição dos serviços executados de acordo com os quantitativos e preços contratados.
A classificação da proposta não equivale à assinatura do contrato ou à autorização para início das obras. Após as etapas administrativas cabíveis, a contratação poderá avançar para formalização e execução.
Acessibilidade é parte da infraestrutura do transporte
A implantação de uma rota acessível entre o terminal e o Largo do Boticário tem importância que ultrapassa a requalificação urbanística.
Para pessoas com deficiência, idosos e passageiros com mobilidade reduzida, o acesso ao transporte começa antes do embarque.
As condições das calçadas, a regularidade do pavimento, a existência de obstáculos e a continuidade dos percursos podem determinar se uma pessoa consegue chegar ao ônibus com autonomia e segurança.
No caso do Cosme Velho, a intervenção anunciada reúne a reurbanização do terminal e a melhoria da circulação de pedestres em seu entorno.
Os elementos técnicos detalhados, como materiais empregados, adequações de rampas, sinalização tátil e soluções de drenagem, deverão ser verificados no projeto básico para identificar exatamente o que será executado.
A região possui características particulares, com circulação de moradores, trabalhadores, visitantes e turistas, além do acesso a um dos principais pontos de visitação da cidade, o Corcovado.
Por isso, a organização do espaço urbano precisa considerar tanto as necessidades cotidianas dos usuários do transporte público quanto os deslocamentos relacionados ao turismo.
Duas obras, duas etapas diferentes e um mesmo desafio para o transporte municipal
A garagem de Senador Vasconcelos e a intervenção no Cosme Velho encontram-se em estágios diferentes.
Na Zona Oeste, o município ainda trabalha na etapa preliminar de licenciamento ambiental para desenvolver o projeto da instalação.
Na Zona Sul, a administração já realizou uma disputa de preços e identificou uma proposta para executar as obras, mas o resultado publicado ainda depende da adjudicação.
Embora não façam parte de uma mesma contratação, os dois empreendimentos demonstram dimensões diferentes da infraestrutura de ônibus.
A garagem é essencial para armazenar, abastecer, inspecionar e manter os veículos em condições de operação.
O terminal e seus acessos são fundamentais para permitir que os passageiros utilizem o serviço.
Na reorganização do Sistema Rio, a renovação dos ônibus depende tanto da disponibilidade de frota quanto da implantação das estruturas operacionais necessárias.
E a qualidade do transporte também será determinada pelas condições oferecidas fora dos veículos, especialmente nos locais de embarque, desembarque e circulação dos passageiros.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


