Goiânia coloca em operação estrutura para abastecer 500 ônibus a gás e biometano; sistema prevê 501 veículos até 2027

Instalação da Gas Futuro permite abastecimento de veículos em menos de dez minutos e faz parte da expansão do combustível no transporte metropolitano. Em março, o Diário do Transporte foi a primeira equipe de jornalismo a conhecer os novos articulados e mostrou as instalações do bioposto antes da entrada em operação

ADAMO BAZANI

A Região Metropolitana de Goiânia (GO) colocou em operação, neste mês de outubro de 2026, uma nova estrutura permanente de abastecimento de ônibus movidos a gás natural e biometano, dimensionada para atender uma frota de aproximadamente 500 veículos. O empreendimento, fornecido pela Gas Futuro, integra o programa de renovação do transporte coletivo que prevê a incorporação de 501 ônibus com esta tecnologia até dezembro de 2027. Os equipamentos foram projetados para permitir o abastecimento de reservatórios com capacidade entre 250 e 300 metros cúbicos normais de gás em menos de dez minutos, reduzindo o tempo necessário para preparar os ônibus para novas viagens.

A entrada em operação representa mais uma etapa do projeto acompanhado desde o início do ano pelo Diário do Transporte, que antecipou a contratação dos 501 ônibus e, em março de 2026, foi a primeira equipe de jornalismo a conhecer presencialmente os novos articulados movidos a gás e biometano, desenvolvidos pela Scania e pela Marcopolo para o sistema goiano. Na ocasião, a reportagem também visitou e apresentou, em vídeo, as instalações do Bioposto Leste, nas proximidades do Terminal Novo Mundo, explicando como funcionaria o abastecimento inicial por carretas com cilindros de gás e a futura integração com gasodutos. Agora, com a infraestrutura permanente em funcionamento, o desafio passa a ser ampliar efetivamente a quantidade de ônibus abastecidos, assegurar o fornecimento contínuo do combustível e cumprir o cronograma de renovação da frota.

A nova estrutura começou a operar em outubro, segundo informações divulgadas pela fornecedora de equipamentos e repercutidas pela imprensa especializada. O projeto compreende sistemas de recebimento e medição do gás, filtragem, compressão, armazenamento em cascata, tubulações de alta pressão, equipamentos de abastecimento de alta vazão e dispositivos automatizados de operação e segurança.

O abastecimento rápido é uma exigência importante em sistemas de ônibus urbanos, principalmente em corredores de grande movimento, nos quais os veículos precisam cumprir escalas diárias e permanecer o menor tempo possível fora de circulação.

A capacidade anunciada para atender aproximadamente 500 ônibus corresponde ao dimensionamento do empreendimento para a expansão da frota. Isso não significa que essa quantidade de veículos já esteja circulando ou sendo abastecida diariamente.

O projeto também não se restringe aos ônibus articulados. A programação estabelecida pelo Governo de Goiás contempla veículos convencionais do tipo padron, que deverão circular tanto nos corredores estruturais quanto nas linhas alimentadoras da rede metropolitana.

Abastecimento em menos de dez minutos é fundamental para operação do BRT

A infraestrutura fornecida pela Gas Futuro foi desenvolvida para atender ônibus que utilizam gás natural veicular (GNV) ou biometano, combustível renovável produzido a partir de resíduos orgânicos.

Embora tenham origens diferentes, os dois combustíveis apresentam características que permitem sua utilização em motores adequados à operação com gás, desde que atendidas as especificações técnicas e de qualidade.

O sistema emprega compressores e armazenamento em alta pressão para transferir o combustível aos reservatórios instalados nos veículos.

O armazenamento em cascata permite organizar a reserva de gás em diferentes níveis de pressão, auxiliando a reposição de combustível e a manutenção da vazão durante o abastecimento.

Os dispensers de alta vazão são os equipamentos responsáveis pela transferência do gás comprimido aos ônibus. A instalação também dispõe de dispositivos de medição, controle e segurança, necessários para uma operação que trabalha com pressões elevadas.

O objetivo informado é completar o abastecimento de reservatórios de 250 a 300 Nm³ em menos de dez minutos. O tempo efetivo depende das condições de pressão, da quantidade de gás remanescente no veículo e da disponibilidade dos equipamentos.

Para o passageiro, a importância dessa tecnologia está na possibilidade de manter a regularidade das viagens. Um abastecimento demorado pode exigir mais veículos de reserva, aumentar períodos de indisponibilidade e dificultar o cumprimento das escalas.

O presidente da Gas Futuro, Rodrigo Bogacz, destaca que a velocidade e a disponibilidade dos equipamentos são condições necessárias para ampliar o emprego do biometano em grandes frotas.

A operação em escala também depende da existência de manutenção especializada, monitoramento permanente, equipes treinadas e capacidade de fornecimento compatível com a quantidade de veículos em circulação.

Por isso, a inauguração da infraestrutura é uma parte do investimento. A operação efetiva de centenas de ônibus exigirá a expansão simultânea do abastecimento, da produção e da distribuição do combustível.

Diário do Transporte mostrou os primeiros articulados e visitou bioposto ainda em março

A inauguração da estrutura permite acompanhar a evolução de um projeto que começou a ser apresentado publicamente no início de 2026.

Em 16 de janeiro, o Diário do Transporte noticiou em primeira mão o aditivo contratual para a incorporação dos 501 ônibus movidos a gás e biometano na Região Metropolitana de Goiânia.

O documento foi publicado no Diário Oficial do Estado de Goiás e estabeleceu a entrada gradativa dos veículos, com mudanças na remuneração das concessionárias para viabilizar os investimentos.

Em 30 de janeiro, durante a apresentação de novos ônibus elétricos, o governador Ronaldo Caiado e o secretário-geral de Governo, Adriano da Rocha Lima, confirmaram ao editor-chefe do Diário do Transporte, Adamo Bazani, que os primeiros ônibus movidos a gás seriam articulados.

A informação foi antecipada pelo portal antes da apresentação dos veículos.

Em 26 de março, a reportagem esteve em Goiânia, a convite da Scania e da Marcopolo, e foi a primeira equipe de jornalismo a conhecer os articulados e apresentar suas características técnicas em uma cobertura presencial, com imagens e entrevistas.

Na mesma ocasião, a equipe também visitou o Bioposto Leste, próximo ao Terminal Novo Mundo.

Durante a visita, o diretor executivo do Consórcio BRT, Laércio Ávila, e o gestor de manutenção e infraestrutura, Patrick Lucas, explicaram como seria feita a transição entre o abastecimento provisório por carretas e a estrutura definitiva.

Em entrevista ao Diário do Transporte, Patrick Lucas informou que o bioposto visitado teria capacidade para atender até 200 veículos quando estivesse plenamente concluído.

Essa informação se refere à capacidade apresentada para aquela unidade em março. Já o número divulgado agora pela Gas Futuro, de aproximadamente 500 ônibus, corresponde ao dimensionamento informado para a infraestrutura associada à expansão da frota. Os dados não devem ser tratados automaticamente como capacidades diárias equivalentes.

Na visita, os responsáveis pelo Consórcio BRT também explicaram que a infraestrutura seria compartilhada entre os operadores do sistema, em vez de ficar restrita a uma única garagem ou empresa.

Essa característica permite organizar o fornecimento do combustível de maneira integrada, com aquisição e distribuição vinculadas às necessidades operacionais da rede.

A reportagem de março mostrou ainda que a expectativa era concluir a estrutura definitiva até setembro. A confirmação de entrada em operação neste mês de outubro indica a passagem da fase provisória para uma etapa de maior capacidade de abastecimento.

Relembre a cobertura:

VÍDEO: Conheça em primeira mão os ônibus articulados a biometano do Sistema BRT de Goiânia. Diário do Transporte no local – 26 de março de 2026

VÍDEO: Conheça as instalações que vão abrigar o primeiro bioposto para abastecimento de ônibus urbanos a biometano do Brasil – 26 de março de 2026

Os 501 ônibus estão previstos até dezembro de 2027; cronograma oficial inclui 79 articulados

A quantidade de veículos está estabelecida pela Deliberação nº 014, de 15 de dezembro de 2025, da Câmara Deliberativa do Transporte Coletivo (CDTC), publicada em janeiro de 2026.

O documento prevê 501 ônibus de diferentes configurações, distribuídos entre veículos articulados e modelos padron.

Todos deverão ser equipados com ar-condicionado.

A programação oficial estabelece a aquisição de 79 articulados de aproximadamente 19,2 metros de comprimento, destinados principalmente ao BRT, e outros 422 ônibus padron, de diferentes tamanhos, para a rede metropolitana.

Configuração Quantidade
Articulados de 19,2 metros 79
Padron, 4º lote 22
Padron, 5º lote 110
Padron, 6º lote 168
Padron, 7º lote 122
Total 501

O cronograma oficial também estabelece prazos para a entrada dos veículos.

Prazo previsto Quantidade Tipo
Até 31 de março de 2026 8 Articulados
Até 30 de setembro de 2026 71 Articulados
Até 30 de setembro de 2026 22 Padron
Até 30 de junho de 2027 110 Padron
Até 31 de dezembro de 2027 168 Padron
Até 31 de dezembro de 2027 122 Padron
Total 501

Há, entretanto, uma diferença que precisa ser observada entre o cronograma estabelecido no início do ano e as informações mais recentes.

Pela programação original, 101 ônibus a gás deveriam ter sido incorporados até 30 de setembro de 2026, considerando 79 articulados e 22 padrons.

Já as informações divulgadas neste mês de outubro apontam uma expectativa de encerramento de 2026 com 20 ônibus utilizando a tecnologia.

Isso representa um ritmo inferior ao previsto originalmente. A diferença exige esclarecimento sobre eventuais revisões das entregas, quantidade efetivamente incorporada e situação dos veículos contratados.

A colocação do sistema de abastecimento em operação pode contribuir para a expansão da frota, mas a disponibilidade dos equipamentos não comprova, isoladamente, a entrega de novos ônibus.

Primeiros articulados são da Scania e Marcopolo e transportam até 145 passageiros

Os primeiros veículos desenvolvidos para a operação são os Marcopolo Viale Express Articulado, montados sobre chassis Scania K 340C A6X2/2 NB Euro 6.

Cada ônibus possui aproximadamente 19,22 metros de comprimento, capacidade informada para 145 passageiros e autonomia superior a 400 quilômetros, dependendo das condições operacionais.

O projeto envolve ainda fornecedores de tecnologia e componentes para o armazenamento do gás, entre eles Biomove e Hexagon Agility.

Os veículos utilizam motores desenvolvidos para operar com gás natural e biometano, diferentemente de ônibus convencionais movidos a óleo diesel.

A aplicação da tecnologia em articulados exige dimensionamento específico dos cilindros de armazenamento e de sua distribuição, levando em consideração peso, autonomia, capacidade de transporte de passageiros e características do itinerário.

Os ônibus foram destinados inicialmente ao BRT Leste-Oeste, conhecido como Eixo Anhanguera, que constitui um dos principais eixos de deslocamento da Região Metropolitana de Goiânia.

Segundo os dados apresentados por fabricantes e operadores, o sistema BRT Leste-Oeste compreende uma rede com aproximadamente 108 quilômetros de extensão, 47 estações, 213 pontos de parada e 15 terminais, considerando o conjunto de serviços associado ao corredor.

A demanda informada supera 2,5 milhões de passageiros por mês.

Usina de biometano e gasoduto fazem parte da próxima etapa

Além dos postos e dos ônibus, o projeto contempla a implantação de uma cadeia regional de produção e distribuição do combustível.

Uma usina está prevista para o município de Guapó (GO), nas proximidades da capital. O investimento anunciado mais recentemente é de aproximadamente R$ 150 milhões, com capacidade projetada que poderá chegar a 100 mil metros cúbicos de biometano por dia.

O projeto também prevê a construção de um gasoduto para conectar a produção à rede de distribuição e aos pontos de abastecimento.

Em março, quando o Diário do Transporte acompanhou a apresentação dos ônibus, foi informado que o fornecimento inicial ocorreria por meio de carretas equipadas com cilindros de gás, enquanto a infraestrutura de produção e transporte por dutos estivesse em implantação.

A utilização inicial desse modelo permite antecipar a operação dos veículos sem depender da conclusão de toda a cadeia regional de produção.

A expectativa é que a fabricação local do combustível reduza a dependência de fornecimento de outras regiões, além de possibilitar aproveitamento de resíduos orgânicos.

O resultado econômico, entretanto, dependerá dos custos efetivos de produção, transporte, compressão, distribuição e manutenção dos equipamentos.

O biometano é obtido por meio da purificação do biogás gerado a partir da decomposição de matéria orgânica, como resíduos urbanos, agroindustriais e efluentes.

Diferentemente do gás natural de origem fóssil, o biometano é um combustível renovável. Quando produzido e distribuído sob condições adequadas, pode reduzir significativamente as emissões de gases de efeito estufa ao longo de seu ciclo de vida.

O Governo de Goiás informou anteriormente um potencial de redução de até 95% das emissões, dependendo da tecnologia e das condições de operação. O percentual deve ser compreendido como uma estimativa condicionada ao cenário considerado, e não como redução automaticamente alcançada por todos os ônibus.

Também é necessário distinguir as emissões de gases de efeito estufa das emissões locais de poluentes. Os resultados variam conforme a origem do combustível, o desempenho dos motores e as condições reais de utilização.

Renovação da frota também depende de custos, subsídios e regularidade das viagens

O programa de ônibus a gás de Goiânia está inserido em um modelo de financiamento da renovação da frota que utiliza recursos públicos para viabilizar investimentos realizados pelos operadores.

Na deliberação publicada em janeiro, o Governo de Goiás estabeleceu que a remuneração das concessionárias seria ajustada para permitir a incorporação dos novos veículos.

A medida está relacionada à política de subsídios do transporte coletivo metropolitano, com participação do Estado e dos municípios atendidos.

O investimento em tecnologias de menor emissão pode trazer ganhos ambientais e operacionais, mas precisa ser acompanhado de indicadores de custo por quilômetro, consumo de combustível, manutenção, disponibilidade da frota e regularidade das viagens.

A substituição do diesel pelo biometano também altera a estrutura de custos das empresas, já que envolve novos equipamentos, treinamento de profissionais e infraestrutura específica para abastecimento.

Para os passageiros, os efeitos esperados estão relacionados à utilização de ônibus novos, climatizados, com menor emissão de poluentes e disponibilidade adequada para cumprir as viagens programadas.

O sistema metropolitano de Goiânia também investe na eletrificação e mantém veículos movidos a diesel com motores que atendem às exigências da fase Proconve P8, equivalente ao padrão Euro 6.

A diversificação tecnológica permite utilizar diferentes tipos de veículos conforme as características das linhas, o planejamento de garagens e a disponibilidade energética.

Com a entrada em operação da nova estrutura de abastecimento, Goiânia passa a contar com mais uma parte da infraestrutura necessária para ampliar a utilização de ônibus a gás e biometano.

O próximo indicador será o crescimento efetivo da quantidade de veículos incorporados, particularmente diante da diferença entre o cronograma original e as entregas mais recentes.

A experiência da Região Metropolitana de Goiânia também poderá contribuir para a avaliação dessa alternativa energética em outras cidades brasileiras, especialmente naquelas em que a substituição do diesel depende de investimentos simultâneos em ônibus, postos de abastecimento e produção de combustível.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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