Ministério da Justiça aponta falha de transportes em ao menos oito estados nas eleições; Salvador e São Paulo entre os casos mais graves

Garagem de ônibus em São Paulo neste domingo, 25 de outubro de 2026

Relatos incluem veículos retidos em garagens, filas nas rodoviárias, dificuldades com gratuidades e viagens insuficientes; decisões judiciais e manifestações de gestores mostram situações diferentes em cada localidade

ADAMO BAZANI

Salvador e São Paulo estão entre as cidades com denúncias e apurações sobre a oferta de ônibus durante o segundo turno das eleições, realizado neste domingo, 25 de outubro de 2026. Um levantamento atribuído ao setor de inteligência do Ministério da Justiça e divulgado pela Radioagência Nacional relacionou problemas em oito estados: Bahia, São Paulo, Piauí, Sergipe, Pará, Alagoas, Rio de Janeiro e Paraíba. As ocorrências incluem reclamações sobre falta de veículos, dificuldades para conseguir passagens gratuitas e demora nos deslocamentos até os locais de votação.

Os casos resultaram em determinações para recompor serviços, apresentar registros operacionais e investigar possíveis irregularidades. Nesta segunda-feira (26), o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia revogou a ordem de prisão do secretário de Mobilidade de Salvador, Pablo Souza, mantendo a apuração. Em São Paulo, a Justiça já havia rejeitado no domingo o pedido de prisão do secretário municipal de Mobilidade Urbana e Transporte, Celso Jorge Caldeira, e do presidente da SPTrans, Victor Hugo Borges, como mostrou em primeira mão o Diário do Transporte.

O levantamento nacional reuniu informações de órgãos locais, entre eles Ministério Público Eleitoral, agências reguladoras e gestores de transporte. A existência de uma reclamação, de uma decisão para restabelecer o serviço ou de uma investigação não representa, por si, conclusão sobre responsabilidade criminal ou intenção de impedir o voto.

As situações também precisam ser diferenciadas. Em Alagoas, por exemplo, o Ministério Público Eleitoral apurou reclamações sobre transporte intermunicipal e cobrança de passagens, mas informou que a suspeita de redução dos ônibus municipais de Maceió não se confirmou. Na Paraíba, o órgão gestor contestou relatos sobre a operação intermunicipal e afirmou que buscava os registros das empresas.

A Polícia Federal informou no domingo que realizava diligências sobre o transporte em Bahia, São Paulo, Piauí, Sergipe e Alagoas. Naquele balanço, Sergipe tinha um inquérito instaurado. O objetivo das apurações é verificar possíveis crimes relacionados ao impedimento ou à dificuldade de exercício do voto e ao fornecimento de transporte.

Além das oito unidades citadas na divulgação da Radioagência Nacional, o Diário do Transporte encontrou decisões específicas em Pernambuco, envolvendo ônibus metropolitanos, metrô e regras para o retorno gratuito dos eleitores.

Bahia: Salvador terá de apresentar documentos da operação após revogação da prisão do secretário; denúncias também chegaram ao TSE

A crise em Salvador levou o presidente do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia, desembargador Maurício Kertzman Szporer, a determinar no domingo a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza.

A medida ocorreu depois de denúncia da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, sobre redução superior a 50% da oferta em relação aos dias úteis. Na fundamentação, o magistrado mencionou uma inspeção judicial e o relato de um supervisor que atribuiu à Semob a orientação para operar com uma frota menor.

A Justiça também exigiu o restabelecimento de 100% da frota, com frequência e itinerários compatíveis com os dias úteis e gratuidade. Foi fixada multa de R$ 1 milhão por hora de descumprimento, após o prazo estabelecido na notificação.

O secretário estava em missão oficial em Paris e não chegou a ser preso. Nesta segunda-feira, o presidente do tribunal considerou encerrada a situação de flagrante com o fim da votação e revogou a ordem. Avaliou que sua manutenção perderia a finalidade imediata de assegurar o transporte durante a eleição.

A apuração prossegue. Prefeitura, Semob e concessionárias deverão preservar e apresentar, em até 48 horas, plano operacional, escalas de motoristas, ordens de serviço, monitoramento da frota e comunicações internas, permitindo comparação com os dias úteis.

A Prefeitura de Salvador reconheceu o atraso na saída de veículos, mas o atribuiu à retirada de adesivos eleitorais. Segundo a administração municipal, a operação foi normalizada pela manhã. A Semob informou que determinou a liberação dos ônibus mesmo com os adesivos, priorizando o deslocamento da população.

As denúncias examinadas no âmbito do TSE também envolveram Feira de Santana e Lauro de Freitas. A campanha de Lula pediu ampliação do horário de votação nessas cidades e em Salvador, e o tribunal solicitou informações à Justiça Eleitoral baiana.

São Paulo: Justiça negou prisões por falta de provas de flagrante; Prefeitura e SPTrans defenderam a operação

Na capital paulista, a Federação Brasil da Esperança pediu a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade Urbana e Transporte, Celso Jorge Caldeira, e do presidente da SPTrans, Victor Hugo Borges.

A representação apontava suposto descumprimento da liminar que exigiu 100% da frota operacional, frequência compatível com os dias úteis e reserva técnica operacional.

Como mostrou em primeira mão o Diário do Transporte, o juiz da 1ª Zona Eleitoral, Tiago Ducatti Lino Machado, rejeitou o pedido após manifestação contrária do Ministério Público Eleitoral.

O magistrado considerou insuficientes os elementos para caracterizar flagrante e afirmou que a eventual comprovação de crime exigia aprofundamento da apuração. A decisão preservou a análise de possível descumprimento da liminar na ação original, assegurada a manifestação dos envolvidos.

A ordem anterior previa multa pessoal de R$ 100 mil ao prefeito e ao presidente da SPTrans em caso de descumprimento. Portanto, a rejeição das prisões não significou uma conclusão sobre toda a execução do serviço.

Leia a reportagem:

Justiça Eleitoral rejeita pedido de prisão de secretário e presidente da SPTrans por denúncia sobre frota de ônibus

A Prefeitura informou que recebeu a notificação às 13h10 de sábado (24) e comunicou as operadoras. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, afirmou que a quantidade de ônibus ofertada superava a demanda, mas reconheceu que poderia ter havido dificuldade para mobilizar mais de 10 mil profissionais em prazo curto.

A SPTrans sustentou que atuou para cumprir a decisão e apontou desafios para alterar escalas e programação. O planejamento divulgado anteriormente previa aproximadamente 6.900 ônibus, número superior ao de domingos habituais.

O presidente do TRE-SP, desembargador José Antonio Encinas Manfré, declarou que a equipe de monitoramento do tribunal não havia verificado insuficiência no transporte da capital, ressalvando que a análise das denúncias competia à primeira instância eleitoral.

A verificação deverá confrontar programação e execução por linha e horário. Quantidade de veículos, viagens realizadas e lugares oferecidos são indicadores diferentes e precisam ser comparados com critérios equivalentes.

Piauí: TRE mandou recompor frota e frequência em Teresina e exigiu registros das viagens realizadas

O Tribunal Regional Eleitoral do Piauí determinou que a Prefeitura de Teresina, a Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (Strans) e as empresas recompusessem imediatamente a frota e a frequência aos níveis dos dias úteis.

A decisão do presidente do tribunal, desembargador José Wilson Ferreira de Araújo Júnior, exigiu a disponibilização dos veículos e o cumprimento das viagens, itinerários e horários, mantendo a gratuidade.

Foi fixada multa de R$ 1 milhão por hora de descumprimento injustificado. O tribunal também cobrou documentos sobre a programação habitual, a operação prevista para o domingo e os registros das viagens efetivamente realizadas.

A Strans deverá apresentar nota técnica comparando o planejamento de um dia útil com o da votação. O caso foi encaminhado ao Ministério Público Eleitoral, sem reconhecimento antecipado de ilícito.

Em manifestação divulgada no domingo, a Strans informou ter programado mais de 500 viagens gratuitas, das 5h30 às 20h30, e afirmou que a fiscalização acompanhava o cumprimento das ordens de serviço.

O confronto entre esses registros permitirá distinguir a oferta anunciada do atendimento executado.

Sergipe: filas em Aracaju, reforço de veículos e ordem para manter transporte intermunicipal até as 20h

Em Sergipe, passageiros enfrentaram filas no Terminal Rodoviário Governador Luiz Garcia, conhecido como Rodoviária Velha, em Aracaju, para viajar ao interior.

O Departamento Estadual de Infraestrutura Rodoviária atribuiu as dificuldades à demanda acima do esperado e informou o remanejamento de veículos para as linhas mais procuradas.

O governo havia anunciado 42 veículos da frota reserva para o fim de semana eleitoral. Durante o domingo, o DER informou a inclusão de mais 20 veículos no reforço.

A desembargadora do TRE-SE, Ana Bernadete Leite de Carvalho Andrade, determinou que a Cooperativa de Transporte Alternativo de Passageiros do Estado de Sergipe (Coopertalse) mantivesse ou recompusesse o serviço gratuito até as 20h, com frota e frequência, no mínimo, compatíveis com as dos dias úteis.

A decisão estabeleceu prazo de uma hora a partir da intimação e vedou distinção entre eleitores e propaganda eleitoral nos veículos.

A ação da Federação Brasil da Esperança alegava insuficiência de atendimento e aglomerações nas rodoviárias. A Polícia Federal informou a abertura de inquérito no estado para apurar possíveis crimes relacionados ao transporte.

A existência do reforço anunciado deverá ser confrontada com a quantidade de viagens, destinos atendidos e horários em que os passageiros conseguiram embarcar.

Pará: Justiça cobrou gratuidade de ônibus e embarcações e proibiu restrições sem amparo nas regras

No Pará, a questão envolveu transporte rodoviário e aquaviário, com reclamações sobre emissão de bilhetes, recusa de gratuidade, falta de informação e disponibilidade de veículos e embarcações.

O TRE-PA concedeu liminar na noite de sábado (24), a pedido do Ministério Público Eleitoral, impondo obrigações ao estado, à Agência de Regulação e Controle dos Serviços Públicos de Transporte (Artran) e às empresas Arapari Navegação, Jarumã Rodofluvial, Rodofluvial Banav e Henvil Transportes.

Segundo o MP Eleitoral, os relatos mencionavam terminais de Belém e Ananindeua e viagens para Abaetetuba, Ponta de Pedras, Vigia e Igarapé-Miri. A travessia Icoaraci–Camará, no Marajó, também integrou as informações recebidas.

O órgão ressaltou que os elementos eram iniciais e justificavam verificação urgente, sem constituir, isoladamente, comprovação das ocorrências.

A gratuidade estadual abrangia o período das 12h de sexta-feira (23) às 12h desta segunda-feira (26), nas condições do decreto.

A decisão exigiu prestação de informações e cumprimento do benefício, impedindo cotas ou exigências sem fundamento nas normas e recusa automática do e-Título quando suficiente para comprovar os requisitos.

Alagoas: reclamações concentraram-se nas viagens ao interior; redução dos ônibus municipais de Maceió não foi confirmada

O Ministério Público Eleitoral de Alagoas registrou reclamações sobre insuficiência de transporte intermunicipal e cobrança de passagens no Terminal Rodoviário João Paulo II, em Maceió.

A situação motivou atuação conjunta com a Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de Alagoas (Arsal), para verificar o atendimento e assegurar os deslocamentos. A agência informou remanejamento de veículos para as linhas mais procuradas.

O balanço oficial também registrou denúncias no interior. Em Campo Alegre, moradores do povoado Vista Alegre relataram dificuldade para chegar às seções. O promotor responsável foi ao local e, segundo informações recebidas posteriormente, houve transporte pela manhã e à tarde.

Na capital, o Ministério Público informou que a suspeita de redução dos ônibus municipais foi apurada e não se confirmou.

Essa distinção impede tratar as reclamações intermunicipais como comprovação de falha em toda a rede urbana de Maceió.

Em ocorrência separada, em Paripueira, um caso de transporte irregular de eleitores sem credenciamento resultou na condução do motorista à delegacia. Trata-se de situação diferente da discussão sobre oferta insuficiente ou cumprimento da gratuidade.

Rio de Janeiro: Petrópolis recebeu cobrança judicial por transporte gratuito; segurança pública também afetou ônibus

Em Petrópolis, na Região Serrana, relatos de falta de ônibus levaram a Justiça Eleitoral a intimar Prefeitura, Secretaria Municipal de Transporte e concessionárias, incluindo a TURP.

Segundo comunicado do TRE-RJ reproduzido na cobertura do domingo, a medida buscava garantir o transporte gratuito e previa multa de R$ 500 mil por hora de serviço descumprido. A providência foi baseada em denúncias recebidas pela 65ª Zona Eleitoral.

A Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, por sua vez, declarou não haver ocorrência por falta de ônibus nos municípios do estado. A manifestação precisa ser distinguida das reclamações e providências na esfera eleitoral.

No mesmo domingo, ônibus foram incendiados em Volta Redonda durante confronto entre facções no Complexo da Vila Brasília. O episódio provocou mobilização policial, com envio do Bope.

A ocorrência demonstra interferência da violência sobre a circulação, mas sua presença no dia da eleição não permite, por si, atribuir motivação eleitoral aos ataques.

As apurações precisam separar problemas de oferta, cumprimento de ordens e interrupções decorrentes de segurança pública.

Paraíba: passageiros reclamaram de viagens ao interior e ônibus urbanos; DER e Prefeitura apresentaram explicações

Na Paraíba, passageiros relataram dificuldades na rodoviária de João Pessoa para viajar a municípios como Mamanguape, Rio Tinto, Areia e Bananeiras.

Os relatos incluíram divergências entre horários divulgados e passagens disponíveis. A Ouvidoria do Ministério Público da Paraíba informou cerca de 30 denúncias parciais, envolvendo gratuidade e ônibus que não pararam nos pontos.

O DER-PB afirmou que apurava horários e disponibilidade com as empresas, mas sustentou que guichês e operação funcionavam normalmente. Segundo informações preliminares do departamento, houve viagens pela manhã com lugares disponíveis, e os serviços seguiam horários programados.

Na rede urbana de João Pessoa, também houve reclamações sobre atrasos e embarque. A prefeitura informou ter determinado apuração, com acesso gratuito aos veículos e punição a eventuais abusos comprovados.

O Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de João Pessoa atribuiu atrasos e lotação ao trânsito intenso em determinados pontos.

As reclamações foram encaminhadas aos promotores eleitorais. A análise deverá considerar os destinos, horários e registros de cada serviço.

Pernambuco: além da relação divulgada, TRE determinou ônibus, metrô regular e retorno gratuito sem bilhete de ida

Pernambuco teve decisões específicas sobre transporte no domingo, embora não integre a relação de oito estados reproduzida pela Radioagência Nacional.

O TRE-PE determinou o restabelecimento imediato da oferta de ônibus na Região Metropolitana do Recife, com veículos e viagens previstos e frequência compatível com dias úteis.

A desembargadora Roberta Viana Jardim também ordenou que a CBTU assegurasse gratuidade e funcionamento regular das linhas Centro e Sul do metrô, das 5h às 23h.

A decisão cobrou informação sobre as providências em uma hora e fixou multa diária de R$ 1 milhão em caso de descumprimento.

Em outra frente, o tribunal confirmou que o retorno intermunicipal gratuito não poderia depender da apresentação de um bilhete de ida emitido com gratuidade. Permaneciam os requisitos de identificação e comprovação de votação.

A Justiça também determinou à Auto Viação Progresso e à Empresa Pernambucana de Transporte Intermunicipal o cumprimento das regras, incluindo emissão dos bilhetes abrangidos pelo benefício sem limitação pela distância.

As medidas mostram que a fiscalização envolveu tanto a circulação dos veículos quanto condições administrativas que poderiam dificultar o acesso à passagem.

Prorrogação alcançou urnas ainda abertas; apuração deverá reconstruir o atendimento de cada sistema

As denúncias de transporte motivaram pedidos para ampliar o horário de votação. O ministro do Supremo Tribunal Federal, Cristiano Zanin, determinou extensão até as 19h e depois esclareceu que a medida se aplicava somente às seções cujas urnas ainda não tinham sido fechadas.

Em São Paulo, o presidente do TRE-SP afirmou que mais de 80% das seções já estavam encerradas quando chegou a determinação. Segundo ele, a comunicação oficial foi recebida às 18h17.

A regra de transporte gratuito e frequência compatível com os dias úteis já constava das orientações da Justiça Eleitoral. O TSE havia solicitado informações sobre itinerários, modalidades e horários e determinado encaminhamento de reduções ou interrupções irregulares ao Ministério Público Eleitoral e à Defensoria Pública da União.

Também é necessário distinguir transporte intermunicipal de interestadual. Na sexta-feira (23), a ministra do STF, Cármen Lúcia, rejeitou pedido para estender de forma geral a gratuidade eleitoral a todo o transporte interestadual. A ausência de passagem gratuita, portanto, precisa ser examinada conforme o serviço e as regras aplicáveis.

Nas investigações, os registros operacionais serão essenciais: quantos veículos deveriam circular, quais viagens foram realizadas, onde houve interrupção, quando ocorreram os reforços e quais ordens chegaram às empresas.

Esses elementos permitirão avaliar o atendimento aos passageiros e as responsabilidades, distinguindo falha operacional, demanda acima do previsto, problemas de trânsito ou segurança e eventual descumprimento deliberado das determinações.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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