Eletromobilidade

Governo Federal firma acordo para estudar viabilidade de ônibus elétricos, carregadores e custos de eletrificação do transporte público no Brasil

Ministério das Cidades e ICCT Brasil vão avaliar condições operacionais, industriais, logísticas e financeiras para ampliar o uso da tecnologia; cooperação terá duração inicial de 12 meses e deverá subsidiar políticas públicas para o setor

ADAMO BAZANI

O Ministério das Cidades e o Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT Brasil) firmaram um acordo de cooperação técnica para desenvolver estudos sobre a viabilidade de implantação de ônibus elétricos e carregadores nos sistemas de transporte coletivo do País. O trabalho vai avaliar as condições operacionais, industriais, logísticas e financeiras necessárias para ampliar a utilização da tecnologia, considerando fatores que influenciam tanto a aquisição dos veículos quanto sua utilização nas operações diárias. O acordo foi divulgado no Diário Oficial da União desta segunda-feira, 26 de outubro de 2026.

A cooperação terá duração inicial de 12 meses, a partir de sua assinatura, em 20 de outubro, e pretende oferecer subsídios técnicos para a formulação de políticas públicas de eletrificação dos ônibus brasileiros. Os estudos deverão analisar a viabilidade da tecnologia em diferentes dimensões, incluindo infraestrutura de recarga, capacidade de produção e condições econômicas para implantação. O compromisso não prevê transferência de recursos financeiros entre as instituições e representa uma iniciativa de planejamento para apoiar futuras decisões do poder público, das empresas operadoras e dos demais participantes do setor.

O acordo foi celebrado por intermédio da Secretaria Nacional de Mobilidade Urbana, vinculada ao Ministério das Cidades.

Assinaram o documento o secretário nacional de Mobilidade Urbana, Marcos Daniel Souza dos Santos, e o diretor-geral do ICCT Brasil, Marcel Martin Baptista de Faria.

O objeto da parceria é desenvolver pesquisas, diagnósticos e estudos destinados a demonstrar a viabilidade da implantação de ônibus elétricos e carregadores na operação do transporte público coletivo de passageiros.

A proposta abrange quatro dimensões consideradas fundamentais para a expansão da tecnologia: operacional, industrial, logística e financeira.

Na prática, são áreas que precisam ser analisadas de maneira conjunta para verificar em quais condições uma frota elétrica pode substituir veículos movidos a diesel sem comprometer a regularidade dos serviços.

A eletrificação de ônibus envolve investimentos que ultrapassam o valor de aquisição dos veículos. Também depende do fornecimento de energia, da implantação de carregadores, da adaptação das garagens, da formação de profissionais e da compatibilidade entre as características dos equipamentos e a operação de cada sistema.

Os resultados dos estudos poderão contribuir para a identificação desses requisitos e para o desenvolvimento de medidas de incentivo e planejamento.

Viabilidade operacional: autonomia, recarga e características das linhas

Uma das dimensões previstas no acordo é a análise da viabilidade operacional da eletrificação.

Esse aspecto é fundamental porque o desempenho de um ônibus elétrico depende das condições em que ele é utilizado.

A autonomia efetiva das baterias varia conforme fatores como extensão das linhas, velocidade comercial, quantidade de passageiros transportados, topografia, temperatura, utilização do ar-condicionado e condições de tráfego.

Um ônibus que circula em um corredor exclusivo, com velocidade mais regular, enfrenta condições diferentes das encontradas por outro veículo que permanece durante longos períodos em congestionamentos e realiza sucessivas acelerações e frenagens.

Além disso, o planejamento precisa considerar a quilometragem percorrida diariamente e o tempo disponível para recarga.

A infraestrutura das garagens também interfere diretamente na operação.

Um sistema que utiliza ônibus durante praticamente todo o dia pode exigir estratégias de recarga diferentes daquelas utilizadas em linhas que permitem maior permanência dos veículos nas garagens entre as viagens.

A análise operacional ainda precisa contemplar a disponibilidade da frota, a programação da manutenção e a existência de veículos de reserva.

Esses fatores têm impacto sobre o passageiro, que depende da regularidade dos intervalos e da oferta de viagens nos horários de maior movimento.

A utilização de veículos elétricos pode trazer benefícios, como redução de emissões locais de poluentes e do ruído produzido pelos ônibus, mas a efetividade desses ganhos depende de um planejamento que permita manter a qualidade dos serviços.

O acordo entre o Ministério das Cidades e o ICCT busca produzir estudos capazes de subsidiar esse planejamento, embora o documento publicado não estabeleça metas específicas de autonomia ou desempenho.

Indústria brasileira e capacidade de fornecimento de ônibus elétricos

Outra dimensão prevista na parceria é a viabilidade industrial.

O Brasil possui uma cadeia produtiva tradicional de ônibus, formada por fabricantes de chassis, carrocerias e equipamentos, além de fornecedores de sistemas elétricos, componentes eletrônicos e outros materiais utilizados na fabricação e manutenção dos veículos.

A expansão da eletromobilidade acrescenta novas demandas para essa cadeia, envolvendo motores elétricos, sistemas de armazenamento de energia, gerenciamento de baterias, inversores, componentes de alta tensão e infraestrutura de carregamento.

Entre as empresas presentes no mercado brasileiro estão fabricantes e fornecedores como Eletra, Mercedes-Benz, BYD, Marcopolo, Caio, Volkswagen e outros participantes da cadeia industrial, com diferentes soluções e graus de nacionalização.

O setor reúne tanto veículos desenvolvidos e produzidos no País quanto tecnologias e componentes fornecidos por empresas internacionais.

A avaliação da capacidade industrial é relevante porque programas de substituição de frotas podem exigir volumes significativos de veículos em períodos relativamente curtos.

Não basta que determinada tecnologia esteja disponível comercialmente. É necessário verificar sua capacidade de produção, os prazos de entrega, a disponibilidade de componentes e a estrutura de assistência técnica.

Também entram nessa discussão a formação de trabalhadores, a qualificação das equipes de manutenção e a oferta de peças para a operação ao longo da vida útil dos ônibus.

O acordo publicado pelo Governo Federal inclui expressamente a dimensão industrial entre os pontos de estudo, mas ainda não apresenta exigências de conteúdo nacional nem estabelece critérios para a contratação de fabricantes.

A elaboração de diagnósticos pode contribuir para dimensionar a demanda potencial e identificar obstáculos à ampliação da produção.

Carregadores, fornecimento de energia e adaptação das garagens

A dimensão logística prevista na cooperação tem importância especial para os sistemas que pretendem ampliar rapidamente a participação dos ônibus elétricos.

A infraestrutura de carregamento é um dos fatores que determinam o ritmo de implantação dos veículos.

Cada garagem precisa dispor de condições adequadas de fornecimento de energia, instalações elétricas compatíveis e equipamentos capazes de atender à quantidade de ônibus prevista.

Dependendo do projeto, pode ser necessária a ampliação da capacidade da rede de distribuição, com investimentos em transformadores, subestações, cabines elétricas, instalações de proteção e outros equipamentos.

Essas intervenções precisam ser articuladas com as concessionárias de energia e com o planejamento das empresas de ônibus.

O cronograma de entrega dos veículos deve ser compatível com o prazo de disponibilização da infraestrutura.

Caso os ônibus sejam entregues antes da conclusão das instalações elétricas, a operação pode enfrentar dificuldades para utilizar integralmente a nova frota.

Outro aspecto é a gestão da demanda por energia.

Garagens com dezenas ou centenas de ônibus elétricos precisam organizar o carregamento para aproveitar os períodos em que os veículos estão disponíveis, evitando sobrecargas e considerando os custos de energia.

Além da potência individual dos carregadores, o planejamento deve contemplar a potência total exigida pela frota e os sistemas de gerenciamento das recargas.

A escolha das baterias e das tecnologias de carregamento também influencia a organização do serviço.

Por isso, a análise logística não se limita ao transporte e à entrega dos equipamentos: envolve a implantação da infraestrutura necessária para que os ônibus funcionem regularmente.

Custos de aquisição, financiamento e operação estarão entre os desafios

O quarto componente do acordo é a viabilidade financeira.

A substituição de ônibus a diesel por veículos elétricos altera a estrutura de custos das operações.

O investimento inicial tende a ser maior, sobretudo quando a aquisição dos ônibus precisa ser acompanhada da construção de infraestrutura de recarga.

Em contrapartida, a operação elétrica apresenta características diferentes de consumo energético e manutenção, que devem ser avaliadas ao longo da vida útil dos equipamentos.

Uma análise financeira precisa considerar não apenas o preço de compra, mas o custo total de propriedade e operação.

Nesse cálculo entram fatores como energia, manutenção preventiva e corretiva, vida útil das baterias, eventual substituição de componentes, investimentos em carregadores e despesas de infraestrutura.

Também precisam ser observadas as condições de financiamento, os juros, os prazos de pagamento e os modelos de remuneração das empresas operadoras.

No transporte coletivo brasileiro, esses fatores são especialmente relevantes porque os contratos de concessão e permissão apresentam estruturas distintas.

Há cidades nas quais as empresas operadoras são responsáveis pelos veículos e pelas garagens. Em outras, o poder público participa diretamente dos investimentos em infraestrutura ou busca alternativas para financiar a substituição da frota.

A definição de quem assume cada investimento pode influenciar a velocidade da eletrificação e os custos associados à prestação dos serviços.

Esse é um dos pontos de interesse para os passageiros, uma vez que a renovação tecnológica precisa ser compatível com a sustentabilidade financeira do sistema e a política tarifária adotada em cada município.

O acordo não estabelece novas linhas de crédito nem anuncia valores específicos para a compra de ônibus elétricos. Sua finalidade é produzir informações técnicas que possam orientar a elaboração e o aprimoramento de políticas públicas.

Experiências de São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Rio de Janeiro ajudam a dimensionar os desafios

O avanço da eletrificação já ocorre em diferentes sistemas brasileiros, com projetos que apresentam modelos de contratação, financiamento e implantação variados.

Na cidade de São Paulo, a expansão da frota elétrica é acompanhada por dificuldades relacionadas à disponibilização da infraestrutura de recarga e ao cronograma de entrega de veículos.

A capital paulista possui uma das maiores operações de ônibus elétricos do País, incluindo uma frota tradicional de trólebus e a expansão dos veículos movidos a baterias.

O desafio envolve conciliar a substituição tecnológica com uma operação de grande escala, que transporta diariamente milhões de passageiros.

Em Belo Horizonte, a Prefeitura estruturou uma aquisição de 100 ônibus elétricos, com investimento previsto de aproximadamente R$ 307,68 milhões e participação de fabricantes nacionais. O projeto também envolve a contratação de infraestrutura de carregamento.

Na Região Metropolitana do Recife, os planos de eletrificação incluem um lote de 100 ônibus elétricos e 50 carregadores, com previsão de investimentos de aproximadamente R$ 284,9 milhões.

Já na cidade do Rio de Janeiro, a Prefeitura desenvolve, com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), um projeto de parceria público-privada para implantação de ônibus elétricos.

Uma das propostas envolve 175 veículos e infraestrutura operacional na região da Maré, com investimento estimado em R$ 509 milhões.

Essas experiências, acompanhadas pelo Diário do Transporte, demonstram que a eletrificação envolve diferentes soluções e depende de condições específicas de cada cidade.

As necessidades de uma capital com elevado número de linhas e garagens podem ser distintas das de um município de menor porte ou de uma região metropolitana com operações intermunicipais.

Por isso, estudos nacionais podem contribuir para avaliar modelos de implantação sem desconsiderar as particularidades locais.

A infraestrutura elétrica, os modelos contratuais e a organização da oferta de ônibus são elementos decisivos para identificar quais alternativas são economicamente e operacionalmente viáveis.

Financiamento público e planejamento da renovação de frotas

O acordo também ocorre em um momento em que os programas federais de financiamento são importantes para a modernização dos sistemas de transporte coletivo.

Instrumentos como o Refrota e o Pró-Transporte, associados a recursos do FGTS e a operações de crédito destinadas à mobilidade urbana, integram o conjunto de mecanismos utilizados para apoiar investimentos em ônibus e infraestrutura.

Além das linhas convencionais de financiamento, projetos de descarbonização podem envolver outras fontes de recursos e modelos de contratação.

A disponibilidade de crédito, entretanto, precisa ser acompanhada de planejamento técnico e financeiro.

Para municípios e operadores, a decisão de adquirir ônibus elétricos exige conhecer as condições de operação dos veículos, os investimentos necessários nas garagens e os custos esperados ao longo do contrato.

A ampliação da frota também envolve a articulação com os fabricantes e fornecedores, para assegurar que a entrega dos veículos ocorra de maneira compatível com a instalação dos equipamentos de carregamento.

Nesse contexto, a parceria entre o Ministério das Cidades e o ICCT pode fornecer subsídios para avaliar as condições de aplicação das tecnologias e orientar futuros programas.

Isso não significa que o acordo crie automaticamente uma nova modalidade de financiamento ou altere as exigências atualmente aplicadas aos operadores.

O alcance concreto dependerá dos estudos produzidos e das políticas públicas que eventualmente sejam desenvolvidas a partir de seus resultados.

Acordo terá duração inicial de um ano

O acordo de cooperação técnica foi assinado em 20 de outubro de 2026 e terá duração inicial de 12 meses.

A vigência poderá ser prorrogada, observadas as condições legais previstas no instrumento.

O documento publicado informa que não haverá compromisso de transferência de recursos financeiros entre os participantes.

A parceria, portanto, está estruturada como cooperação técnica voltada à produção de pesquisas, diagnósticos e estudos.

Também não estabelece, na publicação divulgada nesta segunda-feira, um calendário de entrega de relatórios intermediários ou uma relação nominal de municípios que serão analisados.

O objetivo formal é subsidiar ações práticas de impulsionamento de políticas públicas relacionadas à utilização de ônibus elétricos e carregadores.

A iniciativa envolve o Ministério das Cidades, por intermédio da Secretaria Nacional de Mobilidade Urbana, e o ICCT Brasil, organização que desenvolve pesquisas e análises técnicas sobre tecnologias e políticas destinadas à redução de impactos ambientais do transporte.

O acordo não representa uma contratação de ônibus, mas pode contribuir para a formulação de projetos e políticas de eletrificação, especialmente em municípios que ainda precisam avaliar as condições necessárias para introduzir veículos elétricos em suas frotas.

Para o passageiro, os resultados mais importantes de uma transição bem planejada são a redução das emissões locais e dos ruídos, a confiabilidade dos ônibus e a manutenção da oferta de viagens.

Para as empresas e o poder público, o desafio é assegurar que a modernização tecnológica venha acompanhada de condições financeiras, industriais e operacionais capazes de sustentar os serviços no longo prazo.

A publicação da cooperação representa mais uma etapa de estudos para apoiar essas decisões, enquanto os resultados concretos dependerão das conclusões técnicas e de sua eventual aplicação em políticas e investimentos futuros.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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