Bolsa desaba 13,88% após eleições, dólar vai a R$ 5,40 e ações de Marcopolo, Motiva, JSL, Rumo e Petrobras caem: quais os riscos para ônibus, tarifas e mobilidade?

B3 aciona circuit breaker pela primeira vez desde 2020 e interrompe negociações por 30 minutos; disparada do dólar e dos juros pode encarecer ônibus, caminhões, combustíveis, financiamentos e obras de infraestrutura, enquanto WEG contraria tendência e registra alta de 4,21%

ADAMO BAZANI

A forte queda da Bolsa de Valores brasileira e a disparada do dólar nesta segunda-feira, 26 de outubro de 2026, primeiro dia de negociações após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acenderam um alerta para o setor de transportes e para despesas que fazem parte do cotidiano da população. O Ibovespa, principal índice da B3, fechou em queda de 13,88%, aos 176.608,23 pontos, enquanto o dólar comercial subiu 8,21%, para R$ 5,4027. Embora os efeitos não sejam imediatos, a manutenção desse cenário pode encarecer a compra de ônibus e caminhões, pressionar os preços do diesel e de peças importadas, dificultar a renovação das frotas e elevar os custos de financiamento de obras de corredores, terminais, ferrovias e sistemas de transporte coletivo. Para o passageiro, isso pode se refletir futuramente nas tarifas, nos subsídios pagos pelos governos e nos prazos de melhorias dos serviços.

O pregão foi marcado por uma interrupção de 30 minutos nas negociações, o chamado circuit breaker, acionado pela primeira vez desde março de 2020, e por perdas expressivas de empresas diretamente ligadas à mobilidade, à logística e à infraestrutura. A fabricante de ônibus Marcopolo registrou queda de 14,26% em suas ações preferenciais; a Motiva, antiga CCR, responsável por concessões de rodovias, aeroportos e transportes sobre trilhos, recuou 26,09%; a concessionária ferroviária Rumo caiu 16,76%; e a transportadora e operadora logística JSL perdeu aproximadamente metade do valor de seus papéis. A Petrobras recuou 8,18%, enquanto a WEG, fornecedora de equipamentos elétricos e tecnologias utilizadas também em ônibus elétricos, contrariou o movimento e teve valorização de 4,21%. As variações refletem os preços negociados na Bolsa e não significam, por si só, prejuízos operacionais equivalentes ou mudanças imediatas nos serviços prestados pelas companhias.

Para entender o impacto na vida das pessoas, é necessário observar o funcionamento da cadeia de transportes.

Quando o dólar sobe, componentes importados ficam potencialmente mais caros. Quando os juros avançam, aumenta o custo para financiar novos veículos, terminais, garagens e obras. Se essas condições persistirem, podem pressionar contratos de concessão e sistemas públicos que dependem de investimentos contínuos.

No caso dos ônibus urbanos, parte das despesas das operadoras é coberta pelas passagens e outra parte, dependendo da cidade, pelos subsídios públicos.

Se os custos crescerem acima do previsto, as prefeituras e os governos estaduais poderão ter de rever os recursos destinados aos contratos, negociar ajustes com as empresas ou avaliar políticas tarifárias. Isso não significa que as passagens aumentarão automaticamente, porque os reajustes dependem das regras contratuais e das decisões dos gestores.

Para os passageiros, a preocupação maior está na possibilidade de investimentos mais caros, renovação de frota mais lenta e maior pressão sobre os orçamentos públicos.

O mesmo raciocínio vale para os projetos de eletrificação, que exigem a aquisição de ônibus, baterias, carregadores e infraestrutura de energia.

Uma valorização persistente do dólar pode elevar custos de componentes importados, enquanto juros mais altos podem tornar menos atrativo o financiamento desses projetos.

Veja como ficaram a Bolsa, o dólar e as empresas ligadas aos transportes nesta segunda-feira (26)

Indicador Fechamento Variação
Ibovespa 176.608,23 pontos −13,88%
Dólar comercial à vista R$ 5,4027 +8,21%
Mínima do Ibovespa durante o dia 169.516,43 pontos −17,34%
Maior cotação do dólar durante o dia R$ 5,6048 Alta intradiária
Volume financeiro do Ibovespa R$ 88,6 bilhões Aproximadamente três vezes a média diária

A queda do Ibovespa foi a maior em percentual desde março de 2020, quando a pandemia de Covid-19 provocou uma série de paralisações das negociações na Bolsa brasileira.

O dólar registrou sua maior valorização diária desde janeiro de 1999.

O movimento ocorreu após parte dos investidores ter apostado na vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno. Com a confirmação da reeleição de Lula, houve uma revisão acelerada das posições financeiras, acompanhada de preocupações com a trajetória das contas públicas, a dívida e a política econômica do próximo mandato.

A reação expressa expectativas dos investidores. Ela não significa que os resultados operacionais das empresas ou as condições da economia real tenham sofrido alterações equivalentes em apenas um dia.

TABELA ESPECIAL — Ações de empresas relacionadas à mobilidade e aos transportes

Empresa e ação Fechamento Variação Atuação
JSL (JSLG3) R$ 6,10 −50,81% Transporte rodoviário de cargas e logística
Motiva (MOTV3) R$ 14,93 −26,09% Rodovias, metrôs, trens e aeroportos
Rumo (RAIL3) R$ 15,50 −16,76% Transporte ferroviário de cargas e concessões
Marcopolo (POMO4) R$ 4,09 −14,26% Carrocerias de ônibus urbanos, rodoviários e micros
Petrobras (PETR4) R$ 53,72 −8,18% Petróleo, refino, diesel e derivados
WEG (WEGE3) R$ 44,53 +4,21% Equipamentos elétricos, motores, automação e eletromobilidade

Cotações de 26 de outubro de 2026. Os valores correspondem a ações específicas, não ao valor de mercado total das companhias. No caso da JSL, registros consultados apresentam pequenas diferenças de atualização; foi utilizada a cotação histórica de R$ 6,10.

A intensidade das perdas não foi a mesma entre as companhias, justamente porque cada uma possui características financeiras, mercados e fontes de receita diferentes.

Também é importante diferenciar desvalorização em Bolsa de dificuldades operacionais. Uma queda de 26% nas ações de uma concessionária, por exemplo, não significa que seu faturamento tenha recuado 26% ou que um quarto de seus serviços tenha deixado de funcionar.

Entretanto, a persistência de condições financeiras desfavoráveis pode afetar novos projetos, especialmente aqueles que dependem de grande volume de investimentos.

Motiva: queda de 26% chama atenção para concessões de metrôs, trens, rodovias e aeroportos

A Motiva, antiga CCR, apresentou uma das maiores quedas entre as companhias de infraestrutura acompanhadas no levantamento.

Seus papéis MOTV3 recuaram 26,09%, encerrando a segunda-feira a R$ 14,93, ante R$ 20,20 no pregão anterior.

A empresa participa de concessões de transporte sobre trilhos na Região Metropolitana de São Paulo, incluindo a ViaQuatro e a ViaMobilidade, além de operações rodoviárias e aeroportuárias.

O mercado de concessões depende de investimentos de longo prazo, que frequentemente envolvem contratos de financiamento, emissões de dívida e compromissos de expansão e manutenção.

Quando os juros de mercado aumentam, podem elevar o custo de captação de recursos, principalmente em projetos que ainda precisarão contratar novos financiamentos.

Em São Paulo, as concessões ferroviárias incluem obrigações de aquisição e reforma de trens, modernização de estações, manutenção de sistemas e investimentos em acessibilidade e segurança.

Uma alteração no ambiente financeiro pode influenciar a avaliação de novos projetos, mas não modifica automaticamente obrigações contratuais existentes.

A fiscalização dos serviços e o cumprimento das metas permanecem sujeitos aos contratos e às autoridades responsáveis.

Marcopolo recua 14,26%: juros, financiamento e renovação de ônibus entram em foco

A fabricante de carrocerias de ônibus Marcopolo, sediada em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, também foi atingida pela forte desvalorização do mercado.

As ações preferenciais POMO4 encerraram o pregão a R$ 4,09, queda de 14,26% em relação aos R$ 4,77 registrados na sexta-feira (23).

A empresa atua no desenvolvimento e na fabricação de carrocerias urbanas, rodoviárias, micros e veículos destinados a operações especiais, com presença no mercado brasileiro e internacional.

A companhia também participa de projetos relacionados à mobilidade elétrica e ao transporte de passageiros sobre trilhos.

Para uma fabricante de ônibus, os juros têm importância porque grande parte das aquisições é realizada por empresas e órgãos públicos que dependem de crédito, contratos de financiamento ou programas específicos para renovação de frota.

Taxas de financiamento mais elevadas podem reduzir o ritmo de compras ou levar operadores a ampliar o período de utilização dos veículos existentes.

O câmbio também interfere no custo de componentes, mas o efeito não é exclusivamente negativo.

A Marcopolo possui atividades internacionais e receitas provenientes de exportações e negócios realizados em outros mercados.

Uma valorização do dólar pode aumentar o valor em reais de determinadas receitas externas, ao mesmo tempo em que encarece insumos importados.

O Diário do Transporte já havia mostrado, em reportagem de 30 de julho de 2026, que as ações da Marcopolo atravessavam um período de desvalorização apesar de resultados positivos apresentados pela companhia. Na ocasião, a análise também abordou os efeitos dos juros, do desempenho do mercado de ônibus urbanos e das exportações.

Assim, a queda desta segunda-feira está inserida em um contexto mais amplo, que envolve o desempenho da indústria, as condições do mercado brasileiro e as expectativas dos investidores.

JSL perde cerca de metade do valor de suas ações, enquanto Rumo cai 16,76%

A JSL, empresa de transporte rodoviário de cargas e operações logísticas, apresentou uma das maiores quedas percentuais do levantamento.

As ações JSLG3, negociadas a R$ 12,40 na sexta-feira (23), recuaram para aproximadamente R$ 6,10 nesta segunda-feira, uma desvalorização de 50,81%.

A companhia atua em operações logísticas para diferentes setores econômicos, incluindo transporte de cargas, armazenagem, gestão de operações e serviços dedicados.

A intensidade da queda chama atenção para empresas que dependem de ativos de alto valor, como caminhões, implementos rodoviários, equipamentos e estruturas logísticas.

O custo do financiamento desses ativos e a demanda dos clientes são fatores importantes para a continuidade dos investimentos.

Já a Rumo, uma das principais concessionárias ferroviárias de cargas do Brasil, apresentou queda de 16,76%, com os papéis RAIL3 encerrando a R$ 15,50.

A companhia participa do transporte de produtos agrícolas, combustíveis e outras mercadorias, além de operar infraestrutura ferroviária e terminais logísticos.

As concessões ferroviárias exigem investimentos prolongados em locomotivas, vagões, trilhos, sinalização e equipamentos.

Essas despesas são influenciadas por taxas de financiamento, preços de equipamentos e componentes, além da demanda do transporte de cargas.

Parte das atividades da Rumo também está relacionada ao agronegócio exportador, segmento cujas receitas são influenciadas pelo mercado internacional e pelo câmbio.

Portanto, uma moeda americana mais valorizada pode produzir efeitos diferentes sobre seus custos e sobre as cadeias produtivas atendidas.

Petrobras cai 8,18%, mas preço do diesel não acompanha automaticamente as ações

As ações preferenciais da Petrobras encerraram a segunda-feira com queda de 8,18%.

O desempenho da estatal tem relevância para os transportes porque a companhia participa da produção e do refino de combustíveis utilizados em ônibus, caminhões, veículos de passeio e outros meios de transporte.

Entretanto, a desvalorização das ações da Petrobras não provoca automaticamente redução ou aumento do preço do diesel.

Os preços dos combustíveis são influenciados por diversos fatores, incluindo o valor internacional do petróleo e de seus derivados, a cotação do dólar, os custos internos, a tributação e as decisões comerciais das empresas.

Uma valorização persistente do dólar pode exercer pressão sobre os custos dos combustíveis importados e sobre componentes da cadeia nacional relacionados ao mercado internacional.

Para o transporte coletivo urbano, essa questão é particularmente importante.

O diesel representa uma parcela relevante das despesas das operadoras, ao lado de salários, encargos trabalhistas, manutenção, pneus, peças e depreciação dos veículos.

Se houver aumento expressivo e prolongado do combustível, os contratos poderão sofrer pressões adicionais de custo.

Em cidades com subsídios públicos, isso poderá significar necessidade de maior desembolso dos governos para manter a tarifa cobrada do passageiro.

Nos serviços intermunicipais e rodoviários, eventuais aumentos dependerão das regras de reajuste e das condições de cada operação.

WEG contraria a queda e sobe 4,21%: atuação internacional e tecnologias elétricas

Nem todas as companhias relacionadas ao setor de transportes encerraram o pregão em baixa.

A WEG, fabricante brasileira de motores, equipamentos elétricos, sistemas de automação e soluções energéticas, apresentou valorização de 4,21%.

Os papéis WEGE3 encerraram a segunda-feira a R$ 44,53.

A empresa tem atuação importante na indústria e também participa da cadeia de eletromobilidade, com tecnologias aplicadas a ônibus elétricos, sistemas de tração e infraestrutura energética.

A WEG integra parcerias industriais relacionadas à eletrificação de veículos pesados e ao fornecimento de componentes utilizados por fabricantes brasileiros.

Seu desempenho financeiro também está relacionado à participação em mercados internacionais.

Empresas com receitas relevantes no exterior podem apresentar comportamento diferente durante períodos de forte valorização do dólar.

Isso não significa que todas as atividades da companhia sejam beneficiadas pelo câmbio. O resultado depende da composição de receitas e custos, da origem dos insumos e das operações financeiras.

No pregão desta segunda-feira, entretanto, a alta das ações da WEG contrastou com as perdas expressivas da maior parte do mercado.

O que é circuit breaker e por que a Bolsa parou durante 30 minutos?

A queda acentuada do Ibovespa levou a B3 a acionar o mecanismo conhecido como circuit breaker.

O procedimento consiste na suspensão temporária das negociações quando a Bolsa registra perdas que atingem determinados limites percentuais.

O objetivo é permitir que investidores e instituições financeiras reavaliem as condições do mercado, reduzindo o risco de operações realizadas em um ambiente de volatilidade extrema.

Na manhã desta segunda-feira, o índice atingiu o limite de queda de 10%, provocando a paralisação durante 30 minutos.

Após a retomada, o Ibovespa continuou recuando e chegou à mínima de 169.516,43 pontos, queda de 17,34%.

O índice recuperou parte das perdas ao longo do dia, mas ainda encerrou com desvalorização de 13,88%.

Segundo a B3, a ausência de uma segunda interrupção esteve relacionada às condições específicas do acionamento inicial, que já consideravam uma desvalorização teórica superior a 20%.

O mecanismo foi criado no Brasil em 1997 e já havia sido utilizado em episódios de instabilidade internacional, incluindo a crise asiática, a crise financeira de 2008 e a pandemia de Covid-19, em 2020.

O acionamento não significa que as empresas tenham interrompido suas atividades. A suspensão ocorreu nas negociações de ativos abrangidos pelas regras da Bolsa.

Resultado das eleições e perspectivas econômicas para 2027

A forte reação financeira ocorreu após a confirmação da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno realizado no domingo, 25 de outubro.

O resultado contrariou expectativas de parte dos investidores, que haviam apostado em uma vitória de Flávio Bolsonaro e em uma possível mudança da orientação econômica do governo federal.

Com a confirmação do resultado, houve uma revisão dos preços de ações e moedas, acompanhada de aumento dos juros futuros.

Entre as preocupações apontadas por analistas financeiros estão a trajetória da dívida pública, a necessidade de equilíbrio fiscal, o volume de despesas do governo e a condução da política econômica a partir de 2027.

Essas avaliações representam expectativas do mercado e não significam que os problemas projetados necessariamente ocorrerão.

A continuidade do governo também envolve políticas públicas de financiamento, investimentos em infraestrutura e programas relacionados à mobilidade, cujos resultados dependerão da execução orçamentária e das condições econômicas dos próximos anos.

No caso específico dos transportes, o cenário deverá ser acompanhado em relação à disponibilidade de crédito para compra de ônibus e caminhões, aos investimentos em concessões, à evolução dos custos do diesel e à continuidade dos projetos de modernização dos sistemas coletivos.

A volatilidade financeira observada nesta segunda-feira não permite concluir, isoladamente, que haverá aumento das tarifas, paralisação de obras ou redução das frotas.

Entretanto, se os juros elevados e o dólar valorizado permanecerem por um período prolongado, poderão representar dificuldades adicionais para governos e empresas que precisam investir.

A experiência também mostra que mudanças nas expectativas financeiras podem ser revertidas ou aprofundadas conforme novas informações econômicas e políticas são anunciadas.

Para quem utiliza ônibus, metrô, trem ou transporte rodoviário, o aspecto mais importante está nos efeitos dessas condições sobre os custos reais dos serviços.

A preocupação não é apenas com a valorização ou desvalorização de ações negociadas na Bolsa, mas com a capacidade das empresas e do poder público de financiar a manutenção, renovar veículos, ampliar a infraestrutura e preservar a qualidade do transporte oferecido à população.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Assine

Assine para receber as notícias do Diário do Transporte direto em seu e-mail.

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Informe Publicitário
Comentários

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Diário do Transporte

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo