Divisão marca ameaça de greve nas linhas da antiga Transwolff; Justiça proíbe bloqueios e afasta três líderes das garagens
Publicado em: 24 de outubro de 2026
Diretoria da Cooper Pam rejeita paralisação de segunda-feira (26), enquanto grupo que parou no dia 19 mantém intenção de cruzar os braços se não for atendido pela Prefeitura de São Paulo
ADAMO BAZANI
A ameaça de paralisação nas linhas de ônibus que eram da Transwolff, na zona Sul de São Paulo, expõe uma divisão entre profissionais e prestadores de serviços ligados à antiga operação. Em comunicado enviado ao Diário do Transporte, a direção da Cooper Pam, cooperativa que deu origem à empresa, informou que não apoia nem participará da mobilização anunciada para segunda-feira, 26 de outubro de 2026. Já o núcleo responsável pela paralisação do dia 19 afirmou à reportagem que mantém a intenção de cruzar os braços caso suas reivindicações não sejam atendidas pela Prefeitura.
As posições divergentes são apresentadas depois de a Justiça do Trabalho conceder uma liminar que proíbe bloqueios e impedimentos à circulação dos ônibus e determina que três representantes do movimento mantenham distância mínima de 500 metros dos portões e do perímetro das garagens abrangidas pela ordem. Os serviços dos lotes D10 e D11, anteriormente concedidos à Transwolff, estão sob administração direta da SPTrans.
A manifestação da Cooper Pam mostra que o anúncio de paralisação não representa uma posição unificada dos antigos cooperados, proprietários de veículos e demais profissionais vinculados à estrutura operacional.
Parte dos prestadores de serviços anunciou a greve e protocolou um ofício junto à administração municipal, com comunicação à SPTrans. Entretanto, a direção da cooperativa contesta o uso de seu nome na convocação.
O grupo que promoveu a interrupção do dia 19, por sua vez, informou ao Diário do Transporte que pretende manter a mobilização mesmo diante da decisão judicial, caso não seja atendido pela Prefeitura. Essa posição expressa a intenção dos organizadores, sem comprovar adesão de todos os profissionais ou paralisação integral das linhas na segunda-feira.
Cooper Pam rejeita convocação e contesta uso de seu nome
Datado de 23 de outubro e assinado pela Presidência da Cooper Pam, o comunicado encaminhado à reportagem afirma que o nome da entidade foi utilizado indevidamente no documento intitulado “Comunicado Oficial de Greve – Ofício 002/2026”.
“A Cooper Pam não convocou, não autorizou e não aprovou a referida paralisação”, afirma a Presidência da cooperativa.
A direção sustenta que a convocação não representa uma decisão da entidade, de sua Presidência ou de seus órgãos administrativos. Segundo o comunicado, qualquer mobilização institucional em nome da cooperativa dependeria de discussão e deliberação prévias dos cooperados, observados os procedimentos aplicáveis.
A Presidência também declara que a Cooper Pam não participará da paralisação anunciada e não autorizou terceiros a representá-la nessa convocação.
O documento informa ainda que serão adotadas medidas administrativas e jurídicas para apurar a utilização não autorizada do nome da cooperativa e resguardar sua representação institucional e os interesses dos cooperados.
Além da posição formalizada sobre o dia 26, a diretoria informou ao Diário do Transporte que também não apoiou a paralisação realizada no dia 19.
Justiça determina afastamento e multa individual
Como mostrou o Diário do Transporte, a liminar foi concedida na sexta-feira, 23 de outubro, pelo juiz substituto da 20ª Vara do Trabalho de São Paulo – Zona Sul, Fernando Maidana Miguel, a pedido da SPTrans.
A ordem alcança nominalmente Valdemar de Jesus Araújo Junior, Leonardo Pires Cerqueira e Manoel Cezario Figueiredo Murta. Os três devem permanecer a pelo menos 500 metros dos portões e do perímetro das instalações abrangidas.
A decisão proíbe que impeçam ou dificultem a movimentação dos ônibus, bloqueiem acessos ou promovam ameaças e piquetes coercitivos contra quem pretenda trabalhar. As garagens expressamente mencionadas são Olívia Guedes, Rúben Dario e Baronesa, além de outras unidades vinculadas ao sistema municipal sob gestão da SPTrans.
O descumprimento pode resultar em multa de R$ 10 mil por dia para cada um dos três envolvidos. Foi autorizado apoio da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana ao cumprimento da medida.
A ação busca proteger preventivamente o acesso e a utilização das instalações. A liminar não resolve as reivindicações financeiras nem determina a readmissão dos três dispensados por justa causa, medida contestada pelo movimento. diariodotransporte.com.br
Grupo cobra direitos e readmissões; Prefeitura afirma manter pagamentos
O aviso protocolado em 21 de outubro pelo movimento denominado União dos Motoristas – 2026 prevê paralisação a partir da meia-noite de segunda-feira nos lotes D10, dos ônibus azul-claros, e D11, dos coletivos na cor vinho.
Entre as reivindicações apresentadas estão pagamentos de direitos trabalhistas, readmissão dos três dispensados após a mobilização do dia 19 e revisão de medidas municipais relacionadas às garagens. O Sindmotoristas informou que não participa do grupo.
Na manifestação divulgada após o anúncio da nova greve, a Prefeitura e a SPTrans afirmaram que os pagamentos trabalhistas e operacionais estavam em dia. Sobre as reclamações anteriores, a administração municipal declarou que os valores de FGTS e INSS eram depositados integralmente em juízo, aguardando deliberação judicial.
Há, portanto, divergência tanto entre os próprios integrantes da antiga estrutura operacional quanto entre os organizadores e a administração municipal. O protocolo do aviso registra a intenção de uma parcela dos profissionais, mas não permite afirmar que todos os trabalhadores, cooperados ou proprietários de ônibus participarão. diariodotransporte.com.br
Divisões já dificultaram transição para a Sancetur
O conflito atual ocorre em uma estrutura cujas divisões já haviam sido detalhadas pelo Diário do Transporte durante a tentativa de transferência das linhas para a Sancetur.
A operação reunia direção e sócios da concessionária, proprietários de ônibus oriundos da Cooper Pam e empregados contratados com carteira assinada. Mesmo entre os antigos cooperados e donos de veículos havia interesses e alinhamentos diferentes, criando dificuldades para uma transição que dependia de frota, instalações e continuidade dos serviços.
Esse cenário de instabilidade, somado à onda de ataques a ônibus de 2025, marcou o processo que terminou com a desistência da Sancetur, mesmo após a assinatura dos contratos emergenciais.
Em 26 de janeiro de 2026, a Prefeitura formalizou a contratação da Sancetur — Santa Cecília Turismo Ltda. — por 12 meses para assumir os lotes D10 e D11. Dois dias depois, em 28 de janeiro, o Diário do Transporte revelou em primeira mão que a empresa havia comunicado impossibilidade de executar plenamente o contrato.
A justificativa formal divulgada pela Prefeitura foi a impossibilidade de assumir integralmente a operação. As disputas internas e os entraves à transição foram documentados pela cobertura do Diário do Transporte.
Nas apurações sobre os ataques de 2025, a Polícia Civil apontou as disputas relacionadas à transferência de contratos como uma das principais linhas de investigação. Esse histórico não permite atribuir responsabilidade coletiva pelos ataques aos trabalhadores ou cooperados, nem estabelecer ligação automática entre aqueles crimes e a mobilização atual. diariodotransporte.com.br
Para os passageiros, a divergência mantém a incerteza sobre a adesão à paralisação anunciada. A Cooper Pam rejeita o movimento, os organizadores mantêm a intenção de parar se não forem atendidos e a ordem judicial busca assegurar que os profissionais dispostos a trabalhar tenham acesso às garagens e possam circular com os ônibus.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


