VÍDEO: Grupo protocola aviso de nova greve nas linhas que eram da Transwolff para o dia 26 de outubro de 2026
Publicado em: 21 de outubro de 2026
ADAMO BAZANI
Colaboraram Yuri Sena e Vinícius de Oliveira
Um grupo de motoristas e cooperados que integraram as operações da Transwolff, empresa de ônibus que não presta mais serviços à cidade de São Paulo, protocolou nesta quarta-feira, 21 de outubro de 2026, um comunicado à Prefeitura de São Paulo anunciando uma nova paralisação do transporte coletivo a partir da 0h de segunda-feira, 26 de outubro. Denominado “União dos Motoristas – 2026”, o movimento reivindica pagamentos de direitos trabalhistas, a readmissão de três funcionários dispensados por justa causa após a greve da última segunda-feira (19) e a revogação de um decreto municipal que declarou de utilidade pública imóveis utilizados para garagem de ônibus. O grupo também pede tratamento igualitário para três garagens vinculadas à antiga Transwolff, entre elas duas cuja titularidade é atribuída pelos manifestantes ao ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite, preso em uma operação que investiga suspeitas de infiltração do PCC (Primeiro Comando da Capital) no transporte público.
O Sindmotoristas, sindicato oficial de representação dos funcionários do transporte público municipal da capital paulista, diz não ter envolvimento com o grupo.
O comunicado, ao qual o Diário do Transporte teve acesso, foi encaminhado ao prefeito Ricardo Nunes, com cópias à SPTrans (São Paulo Transporte) e à Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte. O documento tem registro de recebimento nesta quarta-feira (21) e prevê que a paralisação alcance os lotes D10, dos ônibus azul-claros, e D11, dos coletivos na cor vinho. É importante esclarecer que a União dos Motoristas – 2026 representa um grupo de trabalhadores e de antigos integrantes da Cooper Pam, não significando necessariamente a adesão de todos os funcionários, proprietários de veículos ou cooperados que fazem parte da estrutura operacional. Atualmente, os serviços são administrados diretamente pela Prefeitura, por meio da SPTrans, após a retirada da Transwolff da operação e a desistência da Sancetur de assumir os contratos.
A comunicação não significa que a greve já esteja confirmada em toda a rede. Trata-se de um aviso formal de paralisação apresentado por representantes de uma parcela dos trabalhadores e cooperados. A eventual abrangência do movimento dependerá da adesão dos profissionais e das negociações realizadas até segunda-feira.
A rede anteriormente concedida à Transwolff tem frota de referência de 1.206 ônibus, distribuídos pelos lotes D10 e D11, que atendem a zona Sul da capital paulista.
Uma das particularidades dessas operações é a participação de antigos cooperados da Cooper Pam, entidade da qual se originou a Transwolff. Eles atuam como prestadores de serviços e proprietários de veículos que integram a frota. Estimativas relacionadas à estrutura operacional apontam que quase 900 ônibus estão sob responsabilidade desses cooperados, número que pode variar conforme o critério utilizado para identificar os veículos e seus vínculos contratuais.
Isso não significa, entretanto, que todos esses proprietários participem do movimento ou concordem com as reivindicações agora apresentadas.
O Diário do Transporte já mostrou que a antiga Transwolff reúne diferentes núcleos, com interesses e posições que nem sempre são coincidentes. Essa característica ajuda a explicar as dificuldades para substituir a empresa e esteve entre os fatores que contribuíram para a desistência da Sancetur, em janeiro deste ano.




Nova greve é anunciada dois dias depois de paralisação que prejudicou passageiros
O anúncio ocorre após a paralisação realizada na segunda-feira, 19 de outubro, quando motoristas que atuam nas linhas anteriormente concedidas à Transwolff cruzaram os braços na madrugada.
O protesto afetou principalmente o lote D10, identificado pelos ônibus azul-claros. O D11, dos coletivos na cor vinho, continuou operando normalmente naquele dia.
Segundo a Prefeitura, aproximadamente 267 mil passageiros foram prejudicados pela interrupção dos serviços.
Para reduzir os impactos, a SPTrans acionou o Plano de Apoio entre Empresas em Situação de Emergência (Paese), por meio do qual ônibus de outras operadoras são deslocados para auxiliar nas linhas afetadas.
O atendimento emergencial chegou a abranger 37 linhas.
A administração municipal também solicitou reforço policial nas garagens.
Na ocasião, a Prefeitura classificou a paralisação como ilegal, argumentando que não havia sido observado o prazo mínimo de comunicação de 72 horas previsto para serviços essenciais.
A SPTrans afirmou ainda que os pagamentos de salários e benefícios estavam em dia e contestou as alegações de atrasos, informando que vinha cumprindo suas obrigações trabalhistas e realizando depósitos relacionados a encargos por meio judicial.
Já os trabalhadores apontaram pendências envolvendo FGTS, direitos trabalhistas e outras obrigações.
Após reunião com representantes da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte e da SPTrans, a paralisação foi encerrada na tarde de segunda-feira.
A retomada gradual dos serviços começou por volta das 13h50, embora o Paese tenha permanecido em funcionamento para auxiliar no atendimento.
A normalização da circulação, entretanto, não encerrou as divergências entre representantes dos trabalhadores e a administração municipal.
Na terça-feira (20), novas manifestações e ameaças de paralisação passaram a circular entre funcionários. A SPTrans adotou medidas preventivas de segurança, inclusive com presença da Guarda Civil Metropolitana em instalações utilizadas pelo transporte.
Nesta quarta-feira (21), os ônibus dos dois lotes continuaram operando, sem a confirmação da nova paralisação que havia sido mencionada para esse dia.
Agora, o grupo que se apresenta como União dos Motoristas – 2026 formalizou uma nova data, 26 de outubro.
Grupo pede readmissão de três trabalhadores dispensados por justa causa
Um dos principais pontos do ofício é a situação de três funcionários que, segundo os representantes do movimento, foram desligados após a manifestação de segunda-feira.
O documento identifica os trabalhadores como:
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Valdemar de Jesus Araújo Junior;
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Leonardo Pires Cerqueira;
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Manoel C. Figueiredo Murta.
De acordo com o ofício, os três receberam comunicações de dispensa por justa causa.
O documento menciona especificamente que o telegrama recebido por Valdemar de Jesus Araújo Junior registra os efeitos da dispensa a partir de 19 de outubro de 2026, com fundamento nas alíneas “b” e “h” do artigo 482 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
Esses dispositivos tratam, respectivamente, de incontinência de conduta ou mau procedimento e de indisciplina ou insubordinação.
A utilização desses fundamentos na comunicação de desligamento não comprova, por si só, que as condutas tenham ocorrido.
Os representantes do movimento alegam que as dispensas estariam relacionadas à participação dos funcionários na paralisação.
No ofício, o grupo contesta a medida, solicita a imediata readmissão dos três trabalhadores, a revisão dos atos rescisórios e a apuração da alegada retaliação.
É necessário distinguir a alegação dos representantes da conclusão sobre a legalidade das dispensas. O documento apresenta a versão dos trabalhadores, mas não estabelece que houve efetivamente perseguição ou que as justas causas sejam juridicamente inválidas.
A legislação trabalhista prevê hipóteses específicas para a dispensa motivada, enquanto a Constituição assegura o direito de greve, observados os requisitos legais.
A eventual relação entre a participação no movimento e os desligamentos poderá ser discutida administrativamente ou na Justiça do Trabalho, considerando as circunstâncias de cada caso.
PPR de 2025, verbas rescisórias e acordos judiciais também são cobrados
Além da readmissão dos três trabalhadores, o grupo apresenta reivindicações financeiras.
Uma delas se refere ao Programa de Participação nos Resultados (PPR), relativo ao exercício de 2025.
Os representantes alegam descumprimento das obrigações relacionadas ao pagamento do benefício e pedem a apresentação de informações e providências concretas para regularizar a situação.
Também são cobrados pagamentos de verbas rescisórias e o cumprimento de acordos judiciais envolvendo trabalhadores da operação.
Esses pontos são relevantes porque a estrutura de funcionários e prestadores de serviços vinculada à antiga Transwolff atravessou diferentes etapas administrativas nos últimos dois anos.
A operação passou por intervenção municipal, procedimentos de avaliação da concessionária, rompimento contratual, tentativa de transferência a outra empresa e manutenção dos serviços sob administração da SPTrans.
Nesse contexto, há situações distintas envolvendo empregados contratados pelo regime da CLT, proprietários de ônibus prestadores de serviços, antigos cooperados e fornecedores.
As obrigações de cada parte dependem dos contratos, dos vínculos trabalhistas e das decisões administrativas e judiciais aplicáveis.
O movimento solicita que a Prefeitura e a SPTrans apresentem respostas concretas sobre essas pendências, sem se limitar a informações genéricas sobre a regularidade dos pagamentos.
Decreto de desapropriação da garagem Olívia Guedes é contestado
Outra reivindicação apresentada no ofício envolve o Decreto Municipal nº 65.433, de 19 de agosto de 2026, editado pelo prefeito Ricardo Nunes.
O ato declarou de utilidade pública, para fins de desapropriação, imóveis particulares situados no distrito de Socorro, na área da Subprefeitura da Capela do Socorro, necessários à implantação de garagem de transporte coletivo público sobre pneus.
O decreto abrange uma área de 43.348 metros quadrados.
A legislação permite que os imóveis sejam desapropriados judicialmente ou adquiridos mediante acordo, para atender à finalidade pública indicada.
O ato estabelece também que as despesas decorrentes de sua execução sejam custeadas por dotações orçamentárias municipais.
A declaração de utilidade pública é uma etapa jurídica que possibilita a desapropriação, mas não deve ser confundida com a comprovação de que todos os imóveis já tenham sido efetivamente desapropriados, indenizados ou transferidos ao patrimônio público.
No documento encaminhado nesta quarta-feira, os representantes da União dos Motoristas – 2026 associam o decreto à garagem Olívia Guedes e pedem que a Prefeitura reavalie a medida.
A reivindicação inclui a possibilidade de revogação do ato, caso a administração reconheça, conforme argumenta o grupo, que não existem mais razões de interesse público que justifiquem a manutenção da declaração de utilidade pública.
A avaliação da necessidade da desapropriação, entretanto, cabe ao poder público, observadas as exigências legais e a possibilidade de controle judicial.
A declaração de utilidade pública não constitui, por si só, irregularidade administrativa, e o ofício não apresenta decisão judicial que determine a revogação do decreto.
Grupo cita garagens Varginha e Baronesa e atribui imóveis a Milton Leite
O ponto mais delicado das reivindicações está relacionado ao tratamento dado às diferentes garagens utilizadas nas operações anteriormente vinculadas à Transwolff.
No documento, os representantes pedem que a Prefeitura considere não apenas a garagem Olívia Guedes, mas também as unidades Varginha e Baronesa.
Segundo os signatários, a titularidade das garagens Varginha e Baronesa é atribuída pelos cooperados ao ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite.
Essa afirmação consta expressamente do ofício, mas deve ser tratada como uma atribuição feita pelos representantes do movimento, e não como comprovação definitiva da propriedade registral dos imóveis.
A identificação jurídica dos proprietários exige a análise das matrículas imobiliárias e dos documentos societários correspondentes.
Os manifestantes alegam que a condução administrativa relacionada às garagens não estaria observando tratamento igualitário entre os proprietários e cooperados atingidos.
Como alternativa à revogação do decreto, defendem a abertura de negociações para uma solução administrativa que contemple, de forma isonômica e transparente, as três garagens vinculadas à antiga operação.
A discussão envolve interesses patrimoniais e operacionais distintos.
De um lado, a Prefeitura tem a responsabilidade de assegurar instalações adequadas para manter a circulação dos ônibus.
De outro, proprietários de imóveis, veículos e prestadores de serviços podem ter direitos e obrigações contratuais específicos, que precisam ser examinados individualmente.
Também é necessário diferenciar a propriedade de uma garagem da titularidade dos ônibus, da gestão operacional e do controle societário de uma empresa concessionária.
São situações jurídicas diferentes, mesmo quando existem vínculos comerciais entre os envolvidos.
Milton Leite está preso e é investigado como possível controlador oculto da Transwolff
A referência feita pelos cooperados a Milton Leite ocorre em meio às investigações policiais e judiciais que envolvem o ex-vereador e a antiga concessionária.
Milton Leite, que presidiu a Câmara Municipal de São Paulo, é investigado na Operação Vectura Corrupta, deflagrada em 17 de setembro de 2026, sobre suspeitas de infiltração do PCC no setor de transportes e em estruturas políticas e administrativas.
Entre as hipóteses investigadas está a de que o ex-parlamentar exerceria controle de fato sobre a Transwolff, apesar de não figurar formalmente como proprietário da companhia.
Em documentos judiciais examinados pelo Diário do Transporte, ele é apontado como suspeito de ser o proprietário de fato da empresa.
A suspeita de participação societária oculta é uma das linhas de investigação e não deve ser confundida com uma conclusão definitiva da Justiça.
Milton Leite se apresentou à Polícia Civil em 18 de setembro de 2026, após a decretação de sua prisão temporária.
Em 15 de outubro, a Justiça prorrogou a prisão por mais 30 dias.
A defesa do ex-presidente da Câmara nega as acusações, contesta a existência de vínculos com o PCC e rejeita a alegação de que ele seria sócio oculto ou controlador da Transwolff.
O caso teve outros desdobramentos recentes.
Em 16 de outubro, o Ministério Público e a Corregedoria da Polícia Civil realizaram a Operação Custódia (In)Fiel, voltada à apuração de possíveis privilégios concedidos ao ex-vereador na Cadeia Pública de Mogi das Cruzes.
No sábado (17), a Secretaria da Segurança Pública confirmou o afastamento de três delegados, um investigador e um carcereiro durante as apurações.
Esses procedimentos tratam de suspeitas que dependem de investigação e julgamento, sem representar condenação definitiva dos envolvidos.
No caso das garagens, há ainda uma distinção importante: o ofício dos cooperados atribui a Milton Leite a titularidade de duas instalações, enquanto as investigações sobre seu possível controle da Transwolff dizem respeito à atuação societária e empresarial.
Uma circunstância não comprova automaticamente a outra.
O pedido apresentado pelos cooperados também não demonstra, por si só, favorecimento administrativo a qualquer proprietário.
História da Cooper Pam ajuda a entender a divisão da Transwolff em diferentes grupos
A complexidade da atual situação tem origem no próprio processo de formação da Transwolff.
A companhia surgiu a partir das operações da Cooper Pam, a Cooperativa dos Trabalhadores Autônomos em Transporte de São Paulo, integrada por permissionários e proprietários de veículos que participaram da reorganização do transporte coletivo municipal.
Esses profissionais tiveram origem, em grande parte, no modelo de transporte alternativo realizado por peruas e micro-ônibus na capital paulista.
Com a reorganização do sistema municipal, antigas cooperativas passaram a operar dentro de regras mais estruturadas, com exigências de frota, padronização, fiscalização, remuneração e contratos.
A transformação desse modelo cooperativo em operação empresarial não eliminou completamente os vínculos anteriores.
Na Transwolff, uma parcela expressiva dos veículos continuou ligada a proprietários que prestavam serviços à companhia.
A concessionária, assim, passou a reunir diferentes interesses dentro de uma mesma estrutura operacional.
Em reportagens anteriores, o Diário do Transporte mostrou a existência de pelo menos três grandes núcleos: a administração central e os sócios da empresa; os antigos cooperados, proprietários de veículos e prestadores de serviços; e os trabalhadores contratados pelo regime da CLT.
Mesmo entre os antigos cooperados existem divisões.
Alguns grupos defendem a continuidade da prestação de serviços por meio de contratos próprios, enquanto outros apresentam posições diferentes sobre a substituição da concessionária, a administração das garagens e o futuro da frota.
A existência desses núcleos ajuda a explicar por que uma manifestação de antigos integrantes da Cooper Pam não pode ser atribuída automaticamente à totalidade dos cooperados ou trabalhadores.
Em janeiro de 2026, quando a Sancetur desistiu de assumir a operação, o Diário do Transporte mostrou que grupos de proprietários de veículos vinculados à antiga cooperativa defendiam a possibilidade de contratação direta pelo município.
A reivindicação também não era consensual entre todos os integrantes da estrutura.
A situação atual acrescenta uma dimensão trabalhista à disputa empresarial e patrimonial.
Sancetur desistiu de assumir os contratos em janeiro; Prefeitura mantém operação
A crise da Transwolff teve um ponto decisivo em 9 de abril de 2024, quando o Ministério Público de São Paulo deflagrou a Operação Fim da Linha.
A investigação apurou suspeitas de utilização de empresas de ônibus para atividades relacionadas ao PCC, incluindo possíveis mecanismos de lavagem de dinheiro.
A Transwolff e a UPBus foram alvos da operação.
Na sequência, a Prefeitura determinou intervenções e realizou avaliações sobre a capacidade das empresas de continuar prestando serviços.
No caso da Transwolff, a administração municipal passou a trabalhar com a transferência das operações para a Sancetur, empresa ligada à família Chedid, que atua em diferentes municípios.
A transição, entretanto, encontrou resistências e dificuldades operacionais.
Além dos trabalhadores contratados pela concessionária, havia centenas de proprietários de veículos com relações comerciais anteriores, provenientes da Cooper Pam.
A situação se agravou em 2025, quando uma onda de ataques atingiu mais de 1,5 mil ônibus no Estado de São Paulo, principalmente na capital e na região metropolitana.
Uma das linhas de investigação da Polícia Civil relacionou parte desses episódios às disputas envolvendo a substituição de empresas de transporte.
Isso não significa que todos os trabalhadores, proprietários ou cooperados ligados às companhias investigadas tenham participado dos ataques.
Em dezembro de 2025, a Prefeitura decretou a caducidade dos contratos da Transwolff, após o processo administrativo de avaliação da concessionária. O rompimento também passou a ser discutido judicialmente.
Em 26 de janeiro de 2026, a Prefeitura assinou contrato emergencial para que a Sancetur assumisse os lotes D10 e D11.
O planejamento abrangia, naquele momento, 133 linhas, aproximadamente 1.100 ônibus e uma operação estimada em 555 mil passageiros por dia.
Dois dias depois, em 28 de janeiro, o Diário do Transporte revelou, em primeira mão, que a Sancetur havia desistido de assumir integralmente os serviços.
A empresa informou à administração municipal que não tinha condições de executar plenamente o contrato emergencial.
A estrutura heterogênea da antiga Transwolff, com diferentes relações de trabalho, prestação de serviços e propriedade de veículos, esteve entre os obstáculos à transferência.
Com a desistência, a Prefeitura permaneceu diretamente responsável pela administração das operações, por meio da SPTrans.
Isso não significa que a Transwolff tenha retomado seus contratos. As linhas são identificadas como pertencentes à antiga concessionária por sua origem histórica, mas a empresa não presta mais os serviços.
Desde então, a Prefeitura precisa assegurar o funcionamento das garagens, a manutenção dos veículos, a compra de componentes, o fornecimento de pneus, a segurança patrimonial e outras atividades necessárias à circulação dos ônibus.
Nova licitação ainda depende de definição
Em 15 de junho de 2026, o Diário do Transporte revelou que a Prefeitura havia encaminhado ao Tribunal de Contas do Município (TCM) uma proposta de edital para a nova concessão dos lotes D10 e D11.
Naquele mês, em entrevista ao jornal, o prefeito Ricardo Nunes explicou que o planejamento não previa simplesmente substituir a Transwolff por outra companhia com a mesma estrutura.
A administração pretendia reorganizar a rede, transferindo parte das linhas para empresas que já atendem a região e reduzindo a quantidade de serviços vinculados aos dois futuros lotes.
A proposta apresentada pelo prefeito contemplava redução estimada de aproximadamente 20% no número de linhas e diminuição da frota vinculada aos lotes, de cerca de 1.200 para aproximadamente 800 ônibus.
Segundo Nunes, essa reorganização não deveria significar redução da oferta de transporte, uma vez que parte dos serviços seria redistribuída entre outras operadoras.
A licitação, entretanto, ainda não tem uma data pública definida.
Enquanto isso, permanece a necessidade de administrar uma operação de grande porte, que envolve milhares de trabalhadores, centenas de proprietários de veículos e passageiros que dependem diariamente dos ônibus da zona Sul.
A nova ameaça de paralisação acrescenta outra dificuldade a esse processo.
Ofício pede reunião urgente com Prefeitura, SPTrans e representantes da operação
O documento apresentado nesta quarta-feira solicita uma reunião urgente com representantes dos motoristas, cooperados da Cooper Pam, SPTrans e demais responsáveis pela operação dos lotes D10 e D11.
Além da reunião, o grupo pede uma resposta formal da administração municipal, com indicação das medidas que serão adotadas e um cronograma de negociação.
Os representantes também defendem providências concretas sobre o PPR de 2025, verbas rescisórias, acordos judiciais, situação dos três trabalhadores dispensados e tratamento administrativo das garagens.
O ofício ressalta que o transporte coletivo é considerado serviço essencial, conforme a Lei Federal nº 7.783/1989.
Os signatários afirmam que pretendem respeitar as exigências legais relacionadas à manutenção dos serviços indispensáveis à população e à preservação da segurança de veículos, instalações e pessoas.
A lei estabelece que a decisão de paralisação em atividades essenciais deve ser comunicada aos empregadores e usuários com antecedência mínima de 72 horas.
O aviso protocolado em 21 de outubro para uma paralisação prevista em 26 de outubro supera esse intervalo temporal. No entanto, o cumprimento do prazo, isoladamente, não determina a legalidade de uma eventual greve, que também depende dos demais requisitos aplicáveis e da manutenção dos serviços indispensáveis.
O grupo afirma que permanece aberto ao diálogo imediato para buscar uma solução antes da data anunciada.
O ofício é assinado por Valdemar de Jesus Araújo Junior, Leonardo Pires Cerqueira e Manoel C. Figueiredo Murta, além de Walter Martins de Lana e do advogado Rogério A. Dias Avelar, da Avelar Advogados Associados.
A possibilidade de paralisação em 26 de outubro atinge um serviço essencial para a mobilidade da zona Sul da capital paulista.
O impasse reúne reivindicações trabalhistas, disputas relacionadas à propriedade e utilização de garagens, a situação dos antigos cooperados da Cooper Pam e a necessidade de definição dos futuros operadores.
Para os passageiros, a principal preocupação é a continuidade do atendimento.
Para o poder público, além da necessidade de negociar as reivindicações e examinar as questões administrativas e trabalhistas, permanece a responsabilidade de assegurar que as linhas continuem funcionando, independentemente das disputas envolvendo a antiga concessionária e os diferentes grupos que integraram sua estrutura.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


