Prefeitura de São Paulo libera mais R$ 393,8 milhões para subsídios dos ônibus; reforços de outubro somam R$ 665,6 milhões e gastos crescem acima da inflação desde 2017

Somente neste mês, dois decretos acrescentaram recursos equivalentes a 10,7% do orçamento original de compensações tarifárias de 2026; levantamento do Diário do Transporte mostra aumento histórico de 145,5% nos subsídios entre 2017 e 2025, contra inflação de 50,6%, enquanto proposta para 2027 prevê R$ 7,35 bilhões para ônibus, R$ 2,19 bilhões para eletrificação e gestão e R$ 500 milhões para biometano

ADAMO BAZANI

A Prefeitura de São Paulo abriu mais R$ 393,85 milhões para os subsídios do sistema municipal de ônibus nesta sexta-feira, 16 de outubro de 2026, elevando para R$ 665,61 milhões os reforços orçamentários anunciados somente neste mês para as compensações tarifárias. Os dois créditos adicionais representam aproximadamente 10,7% dos R$ 6,225 bilhões originalmente previstos para esta finalidade em 2026. Considerando a dotação inicial e esses dois acréscimos, o montante chega a R$ 6,89 bilhões, enquanto a proposta de orçamento para 2027 prevê R$ 7,35 bilhões para os subsídios, além de R$ 2,19 bilhões para eletrificação da frota e melhoria da gestão e R$ 500 milhões para renovação de veículos com biometano.

A sequência de aportes reforça uma tendência de crescimento do financiamento público do transporte paulistano. Levantamento do Diário do Transporte, com base em relatórios da SPTrans e demonstrativos oficiais, mostra que os subsídios passaram de aproximadamente R$ 2,9 bilhões em 2017 para R$ 7,12 bilhões em 2025, alta nominal de 145,5%, enquanto a inflação medida pelo IPCA foi de 50,6% entre dezembro de 2017 e dezembro de 2025. Descontada a inflação, o crescimento dos recursos foi de aproximadamente 63%. A atualização da inflação até setembro de 2026, último mês divulgado pelo IBGE, eleva a correção acumulada desde o fim de 2017 para cerca de 56,5%, mantendo a expansão histórica dos subsídios significativamente acima do aumento geral dos preços.

O novo crédito foi autorizado pelo prefeito Ricardo Nunes no Decreto nº 65.627, assinado em 15 de outubro e publicado na edição desta sexta-feira do Diário Oficial da Cidade de São Paulo.

Os R$ 393.857.057,20 foram integralmente destinados à ação orçamentária denominada Compensações Tarifárias do Sistema de Ônibus.

A cobertura financeira utiliza excesso de arrecadação, mecanismo orçamentário que permite reforçar dotações com receitas superiores às consideradas na programação inicial.

O decreto distribui os recursos entre duas classificações de despesa: R$ 260.557.057,20 em contribuições classificadas como despesas correntes e R$ 133.300.000,00 em contribuições de capital.

A movimentação ocorre apenas 11 dias depois da publicação de outro decreto que acrescentou R$ 271.757.425,72 às dotações destinadas ao sistema de ônibus.

Dois reforços em outubro: R$ 271,76 milhões no dia 5 e mais R$ 393,86 milhões nesta sexta-feira

No dia 5 de outubro, a Prefeitura publicou o Decreto nº 65.616, que abriu crédito adicional total de R$ 301,76 milhões, dos quais R$ 271,76 milhões foram destinados às compensações tarifárias e R$ 30 milhões à comunicação institucional.

Em 6 de outubro, o secretário municipal de Mobilidade Urbana e Transporte, Celso Jorge Caldeira, autorizou a realização das despesas e a emissão de empenhos correspondentes aos R$ 271,76 milhões destinados aos ônibus.

Na ocasião, o Diário do Transporte explicou que a abertura de crédito e a autorização dos empenhos eram etapas administrativas relacionadas ao mesmo recurso.

Agora, o novo decreto acrescenta R$ 393,86 milhões, que se somam ao reforço anterior.

Reforços orçamentários para os ônibus em outubro de 2026

Publicação Recursos para compensações tarifárias
5 de outubro — Decreto nº 65.616 R$ 271.757.425,72
16 de outubro — Decreto nº 65.627 R$ 393.857.057,20
Total dos dois reforços R$ 665.614.482,92

O segundo crédito é aproximadamente 44,9% maior que o primeiro.

A divisão dos recursos também mudou entre os dois decretos.

Distribuição dos reforços por natureza de despesa

Classificação Crédito de 5/10 Crédito de 16/10
Contribuições correntes R$ 230.993.811,86 R$ 260.557.057,20
Contribuições de capital R$ 40.763.613,86 R$ 133.300.000,00
Total R$ 271.757.425,72 R$ 393.857.057,20

O reforço destinado às despesas de capital, de R$ 133,3 milhões nesta sexta-feira, é mais de três vezes o valor destinado à mesma classificação no decreto anterior.

As duas publicações ampliam a autorização orçamentária para o financiamento do sistema. A execução dos recursos passa pelas etapas de empenho, liquidação e pagamento, conforme as despesas reconhecidas pela administração.

Dotação inicial de R$ 6,225 bilhões em 2026 recebe acréscimos equivalentes a 10,7%

O orçamento aprovado originalmente para 2026 previa R$ 6.225.023.714 para as compensações tarifárias do sistema municipal de ônibus.

Os dois créditos publicados em outubro acrescentam R$ 665,61 milhões a esse valor, correspondentes a aproximadamente 10,69% da dotação original.

Considerando exclusivamente a dotação inicial e esses dois créditos, chega-se a R$ 6.890.638.196,92.

Efeito dos dois reforços sobre a previsão inicial de 2026

Referência Valor
Orçamento original de 2026 R$ 6.225.023.714,00
Crédito publicado em 5/10 R$ 271.757.425,72
Crédito publicado em 16/10 R$ 393.857.057,20
Soma da dotação original com os dois reforços R$ 6.890.638.196,92
Aumento correspondente à dotação inicial 10,69%

O valor de R$ 6,89 bilhões representa a soma dessas três referências. O orçamento vigente consolidado depende também das demais alterações realizadas durante 2026, incluindo eventuais suplementações e remanejamentos de outras datas.

Também existe diferença entre os recursos previstos no orçamento, aqueles efetivamente empenhados e os valores pagos à operação.

Essa distinção é importante para avaliar o financiamento dos serviços e comparar os resultados anuais da SPTrans.

Subsídios cresceram 145,5% entre 2017 e 2025, enquanto inflação foi de 50,6%

A trajetória de crescimento das compensações tarifárias já havia sido apresentada pelo Diário do Transporte em reportagens publicadas em 1º e 6 de outubro.

O levantamento reúne dados dos relatórios anuais da SPTrans e de demonstrativos oficiais da Prefeitura, mostrando como o financiamento municipal passou a representar uma parcela cada vez mais expressiva do custo do transporte coletivo.

Em 2017, os subsídios informados eram de aproximadamente R$ 2,9 bilhões.

Em 2025, chegaram a R$ 7,12 bilhões, uma diferença nominal de R$ 4,22 bilhões.

Isso representa crescimento de 145,5% em oito anos.

No mesmo intervalo, considerando os níveis de preços de dezembro de 2017 e dezembro de 2025, a inflação nacional acumulada pelo IPCA foi de aproximadamente 50,6%.

Se os R$ 2,9 bilhões de 2017 fossem apenas atualizados pelo IPCA até dezembro de 2025, corresponderiam a cerca de R$ 4,37 bilhões.

Os R$ 7,12 bilhões informados para 2025 ficaram, portanto, aproximadamente R$ 2,75 bilhões acima da referência corrigida pela inflação, diferença equivalente a um crescimento real de cerca de 63%.

Evolução dos subsídios e comparação com o IPCA

Ano Subsídios informados R$ 2,9 bilhões de 2017 corrigidos pelo IPCA
2017 R$ 2,900 bilhões R$ 2,900 bilhões
2018 R$ 3,017 bilhões R$ 3,009 bilhões
2019 R$ 3,1105 bilhões R$ 3,138 bilhões
2020 R$ 3,3159 bilhões R$ 3,280 bilhões
2021 R$ 3,300 bilhões R$ 3,610 bilhões
2022 R$ 4,8911 bilhões R$ 3,819 bilhões
2023 R$ 5,300 bilhões R$ 3,996 bilhões
2024 R$ 6,700 bilhões R$ 4,189 bilhões
2025 R$ 7,120 bilhões R$ 4,367 bilhões
2026 R$ 6,225 bilhões na dotação original; R$ 6,891 bilhões com os dois reforços de outubro R$ 4,540 bilhões até setembro, pela inflação acumulada

Fontes: SPTrans, demonstrativos orçamentários da Prefeitura de São Paulo, levantamentos do Diário do Transporte e IPCA do IBGE. Valores arredondados.

A tabela preserva as referências históricas dos relatórios oficiais. Em diferentes anos, os documentos utilizam critérios de competência, recursos recebidos e pagamentos, inclusive de despesas relativas a exercícios anteriores.

A coluna de correção monetária utiliza dezembro de 2017 como base e, para 2026, setembro, último mês com IPCA divulgado.

Já os valores de 2026 são previsões e autorizações orçamentárias, enquanto os de 2017 a 2025 representam informações históricas reunidas em relatórios. Por isso, o exercício de 2026 deverá ser comparado com os demais após o fechamento da execução.

Inflação acumulada até setembro de 2026 amplia correção monetária para cerca de 56,5% desde o fim de 2017

A atualização do levantamento considera os resultados do IPCA divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 9 de outubro.

O indicador registrou alta de 0,82% em setembro de 2026, acumulando 3,95% entre janeiro e setembro e 4,58% nos últimos 12 meses.

Até dezembro de 2025, a inflação acumulada desde o encerramento de 2017 era de aproximadamente 50,6%.

Com a incorporação dos 3,95% registrados nos nove primeiros meses de 2026, a correção monetária acumulada no intervalo chega a aproximadamente 56,5%.

Isso significa que os R$ 2,9 bilhões de 2017 equivaleriam a aproximadamente R$ 4,54 bilhões em setembro de 2026, considerando exclusivamente a inflação geral ao consumidor.

Comparação atualizada com a inflação

Indicador Resultado
Subsídios informados em 2017 R$ 2,90 bilhões
Subsídios informados em 2025 R$ 7,12 bilhões
Crescimento nominal entre 2017 e 2025 145,5%
IPCA entre dezembro de 2017 e dezembro de 2025 50,6%
Crescimento real dos subsídios até 2025 Cerca de 63%
IPCA de janeiro a setembro de 2026 3,95%
IPCA acumulado entre dezembro de 2017 e setembro de 2026 Cerca de 56,5%
Valor de R$ 2,9 bilhões atualizado até setembro de 2026 Cerca de R$ 4,54 bilhões

O valor histórico informado para 2025, de R$ 7,12 bilhões, supera em aproximadamente 56,8% os R$ 4,54 bilhões que representam a simples correção monetária da referência de 2017 até setembro de 2026.

Essa comparação adicional utiliza um valor de subsídios de 2025 diante de uma base monetária atualizada até setembro de 2026. Para medir o crescimento real entre dois exercícios completos, a comparação principal permanece sendo a de 2017 a 2025, que aponta alta de aproximadamente 63% acima da inflação.

O IPCA é uma referência geral de preços, mas a estrutura de custos das empresas de ônibus envolve fatores específicos, como salários e encargos trabalhistas, combustível, energia, veículos, pneus, peças, manutenção, investimentos em garagens e exigências contratuais.

O crescimento acima da inflação, por si só, não determina a eficiência ou a qualidade dos serviços. Para avaliar a aplicação dos recursos também é necessário considerar quantidade de viagens, passageiros transportados, cumprimento da programação, renovação da frota e custos reconhecidos nos contratos.

Para 2027, Prefeitura prevê R$ 7,35 bilhões para subsidiar os ônibus, além de R$ 2,19 bilhões para eletrificação e gestão

O aumento dos recursos em 2026 ocorre enquanto a Câmara Municipal analisa a proposta orçamentária apresentada pela Prefeitura para 2027.

Conforme levantamento publicado pelo Diário do Transporte em 1º de outubro, o projeto prevê R$ 7.347.161.964 para compensações tarifárias do sistema de ônibus, considerando dotações distribuídas entre a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte e a Secretaria Municipal de Educação.

Desse total, R$ 7.244.158.849 estão vinculados à Mobilidade e R$ 103.003.115 à Educação.

A proposta inicial representa crescimento de aproximadamente 18% em relação aos R$ 6,225 bilhões previstos originalmente no orçamento de 2026.

Entretanto, levando em conta somente a dotação inicial de 2026 acrescida dos dois reforços publicados em outubro, a diferença em relação à proposta de 2027 cai para aproximadamente R$ 456,52 milhões, ou 6,6%.

Comparação entre 2026 e a proposta de 2027

Referência Valor
Dotação original de subsídios em 2026 R$ 6,225 bilhões
Dotação original mais os reforços de outubro R$ 6,891 bilhões
Proposta de subsídios para 2027 R$ 7,347 bilhões
Aumento da proposta de 2027 ante o orçamento original de 2026 18,0%
Aumento da proposta de 2027 ante a soma de 2026 com os dois reforços 6,6%

Essa segunda comparação ajuda a demonstrar o efeito das suplementações na análise da proposta para o próximo ano.

O resultado final dependerá das alterações realizadas nas dotações de 2026 e dos gastos efetivamente executados até dezembro.

Além dos subsídios, o orçamento encaminhado para 2027 prevê R$ 2,19 bilhões na ação destinada à eletrificação da frota e melhoria da gestão do transporte coletivo, assim como R$ 500 milhões para renovação de veículos movidos a biometano.

A proposta também contempla a continuidade da gratuidade nos ônibus aos domingos.

O orçamento total previsto para a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte é de aproximadamente R$ 13,96 bilhões, abrangendo ações de operação, infraestrutura e gestão.

Os valores destinados às diferentes ações devem ser acompanhados conforme suas classificações orçamentárias, evitando somar novamente despesas que já integram os totais da secretaria.

Eletrificação, ônibus a biometano e renovação da frota ampliam desafios de financiamento

A expansão dos subsídios ocorre em um período de transformação tecnológica do sistema municipal.

São Paulo mantém uma política de substituição gradual dos ônibus movidos a diesel por alternativas de menor emissão de poluentes, especialmente veículos elétricos a bateria.

O processo envolve custos de aquisição, infraestrutura de carregamento, adequações das garagens, disponibilidade de energia, treinamento de profissionais e manutenção especializada.

A proposta orçamentária de 2027 contempla recursos específicos para eletrificação e gestão, que devem ser analisados separadamente das compensações tarifárias da operação.

A Prefeitura também prevê R$ 500 milhões para a renovação de veículos com biometano, combustível renovável que pode ser produzido a partir de resíduos orgânicos e utilizado em motores adequados.

As duas estratégias representam caminhos distintos de redução de emissões e possuem exigências próprias de abastecimento, manutenção e infraestrutura.

Para o sistema municipal, o desafio financeiro envolve manter a operação diária e assegurar os recursos necessários à renovação tecnológica, sem comprometer a regularidade das viagens e a cobertura dos bairros.

Por que o subsídio é necessário e o que deve ser acompanhado pelos passageiros

As compensações tarifárias representam os recursos públicos destinados a complementar a arrecadação obtida com o pagamento das passagens.

Na prática, os valores ajudam a cobrir os custos reconhecidos para a prestação dos serviços pelas concessionárias, permitindo que a tarifa cobrada dos usuários seja inferior ao custo médio de remuneração do sistema.

O financiamento também sustenta políticas de gratuidade, descontos e integração tarifária.

Em São Paulo, a evolução dos subsídios foi influenciada, ao longo dos anos, por mudanças na quantidade de passageiros, manutenção e ampliação de benefícios, política tarifária e custos operacionais.

Durante a pandemia de covid-19, por exemplo, houve redução expressiva dos deslocamentos e da arrecadação, enquanto o sistema precisava manter serviços para atividades essenciais.

Posteriormente, a demanda e a organização dos deslocamentos passaram por novas mudanças, ao mesmo tempo em que cresceram as necessidades de investimento em veículos e infraestrutura.

Conforme dados já levantados pelo Diário do Transporte, a SPTrans informou para 2025 arrecadação tarifária de R$ 5,01 bilhões e remuneração das concessionárias, incluindo o serviço Atende+, de R$ 12,28 bilhões.

Esses indicadores envolvem abrangências contábeis próprias e integram a análise do financiamento do transporte paulistano.

A dimensão dos recursos destinados ao sistema torna ainda mais importante o acompanhamento da prestação dos serviços.

Para quem utiliza ônibus diariamente, os resultados devem ser percebidos na regularidade das partidas, no cumprimento dos horários, na redução de intervalos excessivos, na lotação, na conservação dos veículos, na acessibilidade e na confiabilidade da operação.

Também entram nessa avaliação os investimentos em corredores e prioridade de circulação, capazes de reduzir o tempo de viagem e melhorar o aproveitamento da frota.

A análise dos gastos precisa considerar ainda as linhas de menor demanda, que cumprem papel social no atendimento a bairros afastados, períodos noturnos e regiões com alternativas limitadas de deslocamento.

O crescimento dos subsídios aumenta a importância de acompanhar os indicadores de desempenho das concessionárias, os custos contratuais, a distribuição dos recursos e a execução dos investimentos em renovação tecnológica.

Com os dois novos créditos de outubro e a proposta bilionária para 2027, o financiamento do transporte coletivo segue como um dos principais componentes do orçamento municipal de São Paulo, com efeitos sobre a operação das empresas, as contas públicas e as condições de deslocamento da população.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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