Justiça prorroga por mais 30 dias prisão de Milton Leite em investigação sobre PCC e empresas de ônibus de São Paulo
Publicado em: 15 de outubro de 2026
Ex-presidente da Câmara Municipal está preso desde 18 de setembro na Operação Vectura Corrupta; medida também atinge outros investigados e ocorre após STJ rejeitar pedido liminar de liberdade apresentado pela defesa
ADAMO BAZANI
A Justiça de São Paulo prorrogou por mais 30 dias a prisão temporária do ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (União Brasil), investigado por suspeitas de envolvimento em um esquema de infiltração da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) em empresas de ônibus da capital paulista. A decisão, divulgada nesta quinta-feira, 15 de outubro de 2026, também alcança outros investigados na Operação Vectura Corrupta, deflagrada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo para apurar possíveis relações entre integrantes da organização criminosa, empresários do transporte coletivo, agentes públicos e políticos.
Milton Leite está preso desde 18 de setembro, quando se apresentou à Polícia Civil em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, após ter a prisão temporária decretada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. A investigação aponta o ex-presidente da Câmara como possível articulador político de interesses relacionados a empresas de ônibus, entre elas a Transwolff, antiga operadora das linhas municipais dos lotes D10 e D11. Milton Leite nega as acusações, afirma que não possui participação societária ou administrativa nas empresas investigadas e sustenta que seus contatos com o setor decorreram de sua atividade política e institucional.
A Operação Vectura Corrupta foi deflagrada em 17 de setembro, com 16 mandados de prisão temporária e 18 de busca e apreensão.
Entre os alvos estão o ex-presidente da SPTrans Levi dos Santos Oliveira e empresários ligados ao transporte coletivo, incluindo Paulo Sirqueira Korek Farias, relacionado à A2 Transportes.
A investigação procura identificar a atuação de pessoas apontadas como integrantes do PCC nas decisões empresariais e administrativas do setor, além de possíveis práticas de lavagem de dinheiro, corrupção e financiamento irregular de campanhas eleitorais.
Justiça amplia período de investigação com os suspeitos presos
A prorrogação mantém a natureza temporária da prisão de Milton Leite, utilizada durante a fase de investigação criminal.
A legislação permite que a prisão temporária seja prorrogada quando atendidos os requisitos legais, mediante decisão judicial fundamentada.
No caso da Operação Vectura Corrupta, a medida representa a ampliação por mais 30 dias do prazo de custódia dos investigados alcançados pela decisão.
Milton Leite se apresentou às autoridades em 18 de setembro, um dia depois da deflagração da operação.
Na ocasião, o ex-vereador declarou à imprensa que confiava na Justiça e que pretendia demonstrar sua inocência.
“Só se arrepende quem comete crime, eu não cometi nenhum; nada devo”, afirmou antes de ser preso, conforme registrou o Diário do Transporte em reportagem publicada naquele dia.
A investigação é conduzida pela Polícia Civil, com participação do Ministério Público de São Paulo.
STJ já havia rejeitado pedido de liberdade apresentado pela defesa
A manutenção da prisão ocorre depois de uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que rejeitou, em setembro, um pedido liminar de habeas corpus apresentado pela defesa do ex-presidente da Câmara.
O pedido foi analisado pelo ministro Rogério Schietti Cruz.
Os advogados questionaram os fundamentos utilizados para determinar a prisão temporária e argumentaram que as referências a Milton Leite em conversas entre terceiros seriam insuficientes para justificar sua detenção.
A defesa também alegou questões de saúde do ex-vereador e solicitou, alternativamente, a concessão de prisão domiciliar com monitoramento eletrônico.
O pedido liminar foi rejeitado, mantendo-se a custódia.
A decisão sobre a medida urgente é distinta do julgamento definitivo do habeas corpus.
Investigação cita influência sobre Transwolff e outras empresas de ônibus
O nome de Milton Leite aparece em conversas analisadas pela Polícia Civil envolvendo pessoas investigadas por supostas relações com o PCC e interesses no transporte coletivo.
Uma das mensagens examinadas pelos investigadores menciona a necessidade de envolver o ex-presidente da Câmara em decisões relacionadas à situação da UPBus, empresa que anteriormente operava linhas de ônibus municipais de São Paulo.
Os investigadores consideram a possibilidade de que Milton tenha exercido influência em decisões estratégicas relacionadas ao controle ou à administração de empresas do setor.
Outro elemento citado nas apurações são declarações apresentadas por policiais militares em procedimento da Justiça Militar, nas quais o ex-vereador é apontado como possível proprietário de fato da Transwolff.
Essa hipótese é contestada por Milton Leite e pela empresa.
O Diário do Transporte mostrou anteriormente que a investigação examina também mensagens envolvendo Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans.
Os documentos mencionam conversas sobre a situação de empresas de ônibus, eventuais alterações de controle e contatos entre investigados e dirigentes ligados ao setor.
A operação ampliou o alcance das investigações que começaram com suspeitas de lavagem de dinheiro e passaram a examinar possíveis relações com decisões administrativas e políticas.
Transwolff operava lotes D10 e D11 e teve contratos rompidos pela Prefeitura
A Transwolff foi uma das empresas atingidas pela Operação Fim da Linha, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo em abril de 2024, para investigar suspeitas de utilização de empresas de transporte coletivo na lavagem de recursos da facção criminosa.
A companhia operava os lotes D10 e D11 do sistema municipal de ônibus da capital paulista, com atuação principalmente na zona sul.
Os contratos tinham valores estimados inicialmente em aproximadamente R$ 2,63 bilhões e R$ 2,28 bilhões, respectivamente.
Após a intervenção municipal, a Prefeitura rompeu os contratos e reorganizou o atendimento das linhas anteriormente operadas pela empresa.
Em fevereiro de 2025, o Diário do Transporte revelou que a Sancetur, da família Chedid, e a Alfa Rodobus haviam sido escolhidas para substituir, respectivamente, operações da Transwolff e da UPBus.
A Operação Vectura Corrupta, realizada em setembro de 2026, ampliou as investigações sobre a possível atuação da facção criminosa no sistema de transporte público.
Além da Transwolff, as apurações alcançaram relações empresariais e administrativas envolvendo outras concessionárias e pessoas ligadas à gestão do transporte.
Investigação também chegou à A2 Transportes e a gestores de nove empresas
Como revelou o Diário do Transporte em setembro, a Polícia Civil chegou a solicitar medidas administrativas envolvendo nove empresas de ônibus e 43 gestores.
O pedido abrangia afastamentos de dirigentes e providências relacionadas à gestão de operadoras investigadas.
Na análise daquele requerimento, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) considerou prematura a adoção de um afastamento coletivo, diante da necessidade de individualizar as condutas e responsabilidades.
A A2 Transportes, que opera o lote D9 da capital paulista, também foi alcançada pelos desdobramentos da investigação.
Em 18 de setembro, o prefeito Ricardo Nunes afirmou que a empresa havia atendido à determinação de afastamento dos dirigentes investigados.
Na ocasião, o prefeito declarou que uma intervenção municipal na A2 estava, por enquanto, descartada, embora a administração continuasse acompanhando a situação.
A SPTrans permanece responsável pelo gerenciamento e fiscalização da prestação dos serviços municipais.
As medidas judiciais e administrativas fazem parte de procedimentos distintos, com consequências específicas para os investigados e para a organização das empresas.
Investigação sobre PCC nos ônibus já dura mais de duas décadas
As suspeitas de infiltração do crime organizado no transporte coletivo de São Paulo possuem antecedentes identificados pelas autoridades desde o período de expansão do transporte alternativo, no início dos anos 2000.
Naquela época, a participação de cooperativas e antigos transportadores autônomos ganhou importância no atendimento de regiões periféricas da capital e de municípios da Grande São Paulo.
Ao longo dos anos, parte dessas organizações passou por processos de regularização, licitação e transformação em empresas.
As investigações posteriores identificaram suspeitas de que integrantes de organizações criminosas passaram a exercer influência sobre determinadas estruturas empresariais.
Em reportagem especial publicada em 21 de setembro de 2026, o Diário do Transporte apresentou o histórico dessas transformações e das operações policiais que atingiram o setor.
A Operação Vectura Corrupta representa uma nova etapa dessas apurações, agora também voltada à identificação de possíveis relações entre empresários, agentes públicos, dirigentes e pessoas com influência política.
A prorrogação das prisões mantém os investigados alcançados pela decisão sob custódia enquanto prosseguem as diligências.
Milton Leite nega envolvimento com o PCC e as irregularidades investigadas. As acusações e hipóteses apresentadas pelas autoridades serão submetidas à análise judicial, com direito ao contraditório e à ampla defesa.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes



