História

HISTÓRIA: Basílica de Aparecida (SP): Santuário da Fé, Paraíso dos Ônibus movidos, acima de tudo, pela Fé

Desde a construção, até os dias atuais, local é um dos principais destinos para quem viaja de ônibus. Ao longo da história, modelos e empresas que, assim como a devoção, marcaram a vida de romeiros, devotos e profissionais de transportes

ADAMO BAZANI

O veículo é o ônibus, o combustível é o diesel, mas o que move mesmo é a Fé. Muito antes de a Basílica de Aparecida, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo, ganhar sua configuração atual, os ônibus já levavam romeiros ao terreno diante do templo em construção. As fotografias reunidas nesta reportagem mostram essa história: a igreja crescia no alto do morro, enquanto, embaixo, fileiras de veículos e seus passageiros ajudavam a transformar Aparecida em um destino de alcance nacional.

Essa ligação atravessou gerações e continua presente no Santuário que recebeu 10,49 milhões de visitantes em 2025 e mantém um estacionamento com 1.694 vagas para ônibus. Na cobertura especial do Dia de Nossa Senhora Aparecida, celebrado nesta segunda-feira, 12 de outubro de 2026, o Diário do Transporte revisita a trajetória da devoção, da construção e das máquinas que permitiram a tantas famílias chegar até a Padroeira do Brasil.

O Santuário Nacional guarda muitas histórias: momentos de ligação com uma Força Maior, relatos de milagres, lágrimas, sorrisos. Mas um dos aspectos menos lembrados é a presença dos ônibus em toda essa trajetória.

Para quem gosta de transportes, os registros são também um passeio pela memória das estradas brasileiras. Volvo com carroceria Carbrasa, GM Coach, Twin Coach, monoblocos Mercedes-Benz, Caio Bossa Nova, Grassi, Marcopolo, Tecnobus Tribus, Nielson e Busscar, CMA Flecha Azul e Paradiso 1200 G7 fazem parte do repertório de modelos e fabricantes lembrados nessa relação entre ônibus e romarias.

Cada nome pode despertar uma lembrança diferente. Para alguns, a primeira viagem com os pais; para outros, uma excursão organizada pela igreja, a profissão do pai, a pintura de uma empresa ou o lugar escolhido junto à janela. Certamente, muitos vão olhar essas fotografias com saudosismo e uma certa vontade de voltar à simplicidade de tempos que não voltam mais.

A Basílica ainda era uma obra, mas os ônibus já faziam parte da paisagem

 

Uma das imagens mais expressivas mostra a grande fachada cercada por andaimes, no alto de um terreno ainda pouco urbanizado. À sua frente, os ônibus aparecem estacionados em filas, com carrocerias arredondadas, janelas pequenas e desenhos que hoje só costumam ser encontrados em acervos e veículos preservados.

É um contraste que ajuda a compreender a história do lugar: o prédio ainda estava sendo erguido, mas a viagem já acontecia. Os romeiros não esperaram a conclusão do conjunto arquitetônico para chegar.

Em outra fotografia, a estrada contorna o morro e uma sequência de pessoas sobe em direção à construção. Um ônibus aparece na parte inferior da cena. Não há o pátio organizado que conhecemos hoje; há o caminho, o terreno e a movimentação de uma comunidade que já utiliza aquele espaço.

O registro em que os veículos aparecem mais próximos permite observar detalhes das dianteiras, dos para-brisas divididos e dos letreiros. Um ônibus ocupa o centro com a indicação “RESERVADO”; outro, à direita, traz “ESPECIAL” e a identificação Grassi na carroceria. Ao fundo, a torre também está envolta pela estrutura da obra.

As palavras nos letreiros ajudam a contar como esses deslocamentos eram organizados. A imagem de um ônibus reservado a um grupo é parte da memória das excursões: um veículo, um destino compartilhado e um horário combinado para voltar.

Nas vistas mais abertas, a dimensão do movimento fica ainda mais evidente. O estacionamento ocupa grande parte do primeiro plano e as fileiras parecem se estender até a base do morro. A Basílica inacabada é o centro religioso da fotografia; os ônibus são a estrutura de transporte que permite a presença de tantos visitantes.

Uma fotografia diante do ônibus também era uma fotografia da família

O registro identificado como acervo COAP aproxima o leitor das pessoas. Três figuras posam diante de um ônibus com o letreiro “ESPECIAL”, enquanto a Basílica e a torre aparecem ao fundo.

O veículo não está ali como elemento secundário. Ele participa do retrato, assim como o templo. Era o ônibus que havia tornado possível aquela chegada e que depois faria parte das lembranças da viagem.

A fotografia também mostra por que não basta contar a história dos transportes apenas por fichas técnicas. A dianteira, as janelas e os emblemas interessam aos pesquisadores e aos entusiastas; as pessoas ao lado lembram a finalidade de tudo aquilo.

Nos arquivos enviados, algumas versões reproduzem a mesma tomada histórica da Basílica em obras, com diferenças de enquadramento, qualidade e créditos. São reproduções de uma mesma cena, e não evidências de três visitas distintas.

Do rio Paraíba do Sul ao primeiro lugar de oração

A história da devoção começa em outubro de 1717, nas águas do rio Paraíba do Sul, na região de Guaratinguetá. João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia pescavam para atender à passagem da comitiva de Dom Pedro de Almeida e Portugal, o Conde de Assumar.

Segundo a tradição preservada pelo Santuário, os pescadores recolheram primeiro o corpo e depois a cabeça de uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição. Após o encontro, a pesca teria se tornado abundante, episódio que os devotos reconhecem como o primeiro milagre associado à imagem.

“Aparecida” passou a identificar a imagem encontrada nas águas. Trata-se de um título da devoção a Maria, mãe de Jesus, e não da história de uma mulher chamada Aparecida.

A imagem ficou inicialmente sob os cuidados da família de Felipe Pedroso. Em 1732, seu filho Atanásio construiu um oratório aberto ao público. A devoção se ampliou, ganhou autorização eclesiástica em 1743 e chegou à igreja do Morro dos Coqueiros, inaugurada em 26 de julho de 1745.

Os relatos de graças ajudaram a espalhar essa devoção. Entre os episódios presentes na tradição de Aparecida estão o das velas que se reacenderam e o de Zacarias, homem escravizado cujas correntes teriam se soltado durante a oração. São narrativas religiosas conservadas pelo Santuário e pelos fiéis, que explicam parte do significado da peregrinação.

A devoção cresceu, e o espaço precisou crescer com ela

O aumento da procura exigiu sucessivas mudanças no lugar de acolhimento. A igreja conhecida hoje como Basílica Histórica, ou Basílica Velha, foi inaugurada em 1888. Recebeu o título de Basílica Menor em 1908 e continua sendo parte fundamental da visita a Aparecida.

A imagem foi coroada solenemente em 8 de setembro de 1904. Em 16 de julho de 1930, o papa Pio XI declarou Nossa Senhora da Conceição Aparecida Padroeira do Brasil. Esses marcos deram reconhecimento formal a uma devoção que já havia ultrapassado os limites do Vale do Paraíba.

Em 1953, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil definiu 12 de outubro como a data da festa da Padroeira, próxima ao período do encontro da imagem. O feriado nacional foi estabelecido em 1980.

O calendário religioso passou, assim, a se refletir também no calendário dos transportes. Romarias precisam de planejamento: reunir o grupo, contratar o veículo, organizar a saída, definir as paradas e assegurar a volta.

A construção da nova Basílica começou em 1955; o acolhimento, ainda durante as obras

A pedra fundamental da nova Basílica foi lançada em 10 de setembro de 1946. O início efetivo da construção ocorreu em 11 de novembro de 1955, com a concretagem das fundações das colunas da Nave Norte.

O projeto arquitetônico foi elaborado por Benedito Calixto de Jesus Neto, a pedido do cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. A ampliação respondia a uma necessidade concreta: a Basílica Histórica já não comportava o crescimento da peregrinação.

A obra foi sustentada pela colaboração dos devotos. O Santuário informa que o conjunto tem cerca de 25 milhões de tijolinhos, material que se tornou uma das marcas de sua arquitetura.

Em 21 de junho de 1959, começou o atendimento aos romeiros no novo espaço. Inicialmente, era realizado aos domingos, com apenas uma das quatro alas parcialmente construída. Esse dado explica o que as fotografias deixam tão claro: construção e peregrinação conviveram durante muitos anos.

A inauguração da Rodovia Presidente Dutra, em janeiro de 1951, também favoreceu a circulação entre São Paulo, Rio de Janeiro e o Vale do Paraíba, no período em que o novo templo começava a tomar forma.

Em 4 de julho de 1980, o papa João Paulo II sagrou o altar central e o templo recebeu o título de Basílica Menor. A transferência definitiva da imagem da antiga igreja para a nova ocorreu em 3 de outubro de 1982. No ano seguinte, em 3 de outubro, a CNBB declarou oficialmente a Basílica como Santuário Nacional.

Marco Data
Encontro da imagem no rio Paraíba do Sul Outubro de 1717
Inauguração da igreja do Morro dos Coqueiros 26 de julho de 1745
Inauguração da atual Basílica Histórica 1888
Coroação da imagem 8 de setembro de 1904
Proclamação como Padroeira do Brasil 16 de julho de 1930
Pedra fundamental da nova Basílica 10 de setembro de 1946
Início efetivo da construção 11 de novembro de 1955
Primeiro atendimento no novo templo 21 de junho de 1959
Sagração do altar por João Paulo II 4 de julho de 1980
Transferência definitiva da imagem 3 de outubro de 1982
Declaração como Santuário Nacional 3 de outubro de 1983

Os pátios mostram a passagem das gerações de ônibus

Nas imagens coloridas, a Basílica já aparece com sua presença monumental, diante de um estacionamento tomado por rodoviários. Mudam as carrocerias, as pinturas e a forma de organizar os veículos; permanece o destino.

A fotografia do acervo Ônibus é História mostra um pátio densamente ocupado. No primeiro plano, é possível ler a identificação Setlar em um dos ônibus. Atrás, sucessivas filas de veículos de diferentes empresas dão dimensão visual ao encontro de romarias.

Na imagem creditada a Josivaldo Oliveira, do Ônibus Brasil, o ponto de vista mais alto permite observar a distribuição dos ônibus e a circulação das pessoas entre as fileiras. A fotografia apresenta o estacionamento como parte do funcionamento do Santuário: é ali que muitos grupos chegam, se orientam e se reúnem novamente.

O registro de Mateus C. Barbosa traz uma sequência de ônibus com a Basílica ao fundo. O templo e os veículos dividem o enquadramento, mostrando que a infraestrutura de acolhimento também inclui o espaço necessário para estacionar, desembarcar e organizar o retorno.

Nos registros de Adamo Bazani, a história alcança outra geração. Um Marcopolo Paradiso 1200 G7 da Cometa passa com “LORENA” no letreiro, tendo a Basílica e a rede de hotéis ao fundo. Em outra cena, um rodoviário de dois pisos da Proctur aparece junto ao portal de acesso, com pintura religiosa na lateral.

Do ônibus antigo com para-brisa dividido ao veículo de dois andares, essas fotografias permitem acompanhar transformações sem perder de vista o que une os registros: pessoas que precisam se deslocar para viver sua devoção.

Aparecida é um destino de milhões, mas o perfil do transporte está mudando

Os números ajudam a dimensionar essa relação. Segundo o balanço do Santuário Nacional, foram registrados 10.486.118 visitantes em 2025, ante 9.057.885 em 2024. No Dia da Padroeira de 2025, a presença chegou a 152 mil pessoas; entre 3 e 12 de outubro, foram 494 mil.

O levantamento também revela uma mudança: em comparação com 2019, a presença de ônibus de turismo no estacionamento caiu cerca de 22%, enquanto a de veículos de passeio aumentou 17%.

Em 2025, carros de até cinco lugares representaram 90% dos veículos estacionados; ônibus e vans, somados, corresponderam a 4%. Esses percentuais medem veículos, não passageiros. Não permitem afirmar que apenas 4% dos visitantes chegaram de transporte coletivo.

Além da diferença de capacidade, o estacionamento do Santuário não é uma contagem de todos os embarques e desembarques na cidade.

Indicador Dado divulgado
Visitantes em 2024 9.057.885
Visitantes em 2025 10.486.118
Dia da Padroeira de 2025 152 mil pessoas
Novena e festa, de 3 a 12 de outubro de 2025 494 mil pessoas
Ônibus de turismo: 2025 frente a 2019 Queda de cerca de 22%
Veículos de passeio: 2025 frente a 2019 Aumento de 17%
Vagas atuais para ônibus no Santuário 1.694
Vagas atuais para automóveis no Santuário 5.954

Os dados são do Santuário Nacional. A visitação corresponde ao balanço de 2025; a capacidade do estacionamento é a informada em sua página de serviços consultada em outubro de 2026.

Para o setor de transportes, a romaria representa trabalho e planejamento

A estrutura de 1.694 vagas para ônibus traduz a importância desse modo de transporte no acolhimento. Como exemplo de capacidade, e não como contagem de público, 40 passageiros por veículo equivaleriam a 67.760 pessoas transportadas se todas essas vagas fossem ocupadas por ônibus com essa lotação.

Para as empresas, o destino envolve a organização de veículos, motoristas e horários, além das condições de circulação e estacionamento. Para os grupos, permite fazer a viagem juntos, com embarques e retorno combinados. Para a cidade, os visitantes utilizam hotéis, restaurantes, lojas e serviços.

Essa relação também aparece em ações documentadas das transportadoras. Em 2017, no tricentenário do encontro da imagem, a Pássaro Marron colocou em circulação ônibus com adesivação comemorativa. Na ocasião, a empresa também relatou participação no transporte de bispos para encontros da CNBB no Santuário.

O vínculo, portanto, inclui excursões, viagens regulares e atendimento a eventos religiosos. É uma demanda de transporte que acompanha o calendário e a dimensão nacional da devoção.

O estacionamento também se transforma. Em setembro de 2026, o Santuário anunciou leitura automática de placas, totens de autoatendimento e pagamento pelo celular. A tarifa divulgada para ônibus e micro-ônibus era de R$ 95 por diária, sujeita a alteração.

As fotografias antigas mostram terrenos ainda pouco estruturados; o sistema atual precisa organizar milhares de vagas e fluxos de entrada e saída. A história da acolhida é também a história dessa adaptação.

Há viagens que continuam depois que o ônibus volta para casa

Para o motorista, a chegada pode representar mais uma etapa de uma jornada de trabalho. Para o passageiro, pode ser uma promessa cumprida, um agradecimento, um pedido ou a primeira visita ao lugar sobre o qual ouviu falar desde criança.

As fotografias guardam tudo isso sem precisar explicar cada história individual. O letreiro “ESPECIAL”, o retrato diante da carroceria, a fileira de ônibus sob o morro e o veículo moderno passando diante da Basílica são fragmentos de uma experiência compartilhada.

Nem todas as empresas permaneceram. Nem todos os modelos sobreviveram. Mas os registros permitem lembrar os profissionais e os passageiros que fizeram parte dessas viagens.

Em Aparecida, o ônibus não é apenas aquilo que fica do lado de fora enquanto a história acontece dentro da igreja. Ele participa da história desde a partida. E, para muita gente, a lembrança da Basílica começa justamente ali: no primeiro degrau, no assento junto à janela e no momento em que o motorista coloca o veículo na estrada.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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