Aplicativos são usados por 76% dos paulistas; demora do transporte público acende alerta para ônibus, trens e metrô
Publicado em: 9 de outubro de 2026
Pesquisa Seade mostra que 77% veem nas plataformas uma alternativa quando o transporte público demora ou é difícil de utilizar; atrair passageiros exige reduzir espera, melhorar conexões e garantir financiamento para o serviço
ADAMO BAZANI
O transporte por aplicativo faz parte dos hábitos de deslocamento de 76% dos moradores adultos do Estado de São Paulo, segundo levantamento da Fundação Seade. A pesquisa também revela um sinal importante para o planejamento da mobilidade: 77% concordam que essas plataformas ajudam quando o transporte público demora ou é difícil de utilizar.
Os resultados colocam em discussão a capacidade de ônibus, trens e metrô de oferecer viagens competitivas em tempo, custo e facilidade. Entretanto, o levantamento não permite calcular quantos passageiros trocaram o transporte coletivo pelos aplicativos nem atribuir o crescimento dessas plataformas exclusivamente às deficiências dos serviços públicos.
A pesquisa “Mobilidade da população e transporte de passageiros por aplicativos”, publicada em outubro no Seade SP Social, ouviu 8.189 pessoas com 18 anos ou mais, residentes no estado, em maio e junho de 2026, por entrevistas telefônicas automatizadas.
O que os números mostram
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Costumam utilizar aplicativos | 76% |
| Utilizam aplicativos frequentemente | 26% |
| Utilizam aplicativos ocasionalmente | 50% |
| Costumam utilizar transporte público | 57% |
| Utilizam transporte público frequentemente | 37% |
| Veem aplicativos como auxílio quando o transporte público demora ou é difícil de usar | 77% |
| Concordância com essa afirmação entre usuários do transporte público | 80% |
Fonte: Fundação Seade.
Os percentuais representam hábitos declarados por pessoas, e não a participação de cada modalidade no total de viagens. Um mesmo entrevistado pode utilizar diferentes meios de transporte.
Crescimento dos aplicativos não significa abandono automático do ônibus
Entre os usuários de aplicativos, 40% disseram ter aumentado a frequência de utilização e 13% começaram a usar o serviço nos 12 meses anteriores à entrevista. Esses resultados indicam ampliação do uso declarado, mas não equivalem a um crescimento de 53% no número de corridas.
O pesquisador da Fundação Seade Irineu Barreto explica, em divulgação do governo estadual, que as plataformas podem funcionar como alternativa e complemento. Uma pessoa pode utilizar ônibus ou metrô em parte do percurso e recorrer ao aplicativo em outro trecho.
Essa distinção é importante para avaliar os efeitos sobre o transporte coletivo. Uma corrida até uma estação pode facilitar o acesso ao trem. Já uma viagem integral de carro, em substituição ao ônibus, pode retirar demanda do sistema.
Ao analisar os resultados, o diretor-presidente do Observatório Nacional de Segurança Viária, Paulo Guimarães, também ressalta que o levantamento não comprova uma migração automática do transporte público para os aplicativos. Em entrevista à EPTV, reproduzida pelo Observatório, ele relacionou o uso das plataformas a lacunas de atendimento em determinados locais e horários.
“O grande desafio é utilizar esses dados para integrar os modais”, afirmou. Para Guimarães, essa integração deve considerar tanto as conexões físicas quanto o custo para as famílias.
A demora começa antes de entrar no veículo
A percepção identificada pelo Seade ajuda a formular uma questão para gestores e operadores: quanto tempo o passageiro leva, de fato, para chegar ao destino?
A avaliação precisa considerar a caminhada até o ponto, a espera, o percurso dentro do veículo, as transferências e o trecho final. Uma linha pode apresentar um tempo de viagem razoável e, ainda assim, oferecer um deslocamento pouco atraente se tiver intervalos longos ou conexões difíceis.
São mecanismos que podem ajudar a explicar a procura pelos aplicativos, mas que precisam ser investigados em cada cidade. A pesquisa de percepção não mediu atrasos por linha, extensão de corredores, investimentos executados ou a relação causal entre esses fatores e a adesão às plataformas.
A falta de prioridade viária merece atenção nesse diagnóstico. Quando o ônibus disputa espaço com os automóveis, fica sujeito aos mesmos congestionamentos. Faixas e corredores, acompanhados de fiscalização e operação adequada, são instrumentos para tornar o tempo de viagem mais previsível.
Também precisam entrar na conta os horários de atendimento. Para quem sai do trabalho à noite ou precisa viajar no fim de semana, a disponibilidade do serviço pode pesar tanto quanto a velocidade.
Qual pode ser o impacto no transporte coletivo?
O efeito depende do tipo de viagem que o aplicativo atende.
Quando substitui uma viagem antes realizada no transporte coletivo, pode reduzir passageiros e arrecadação tarifária. Nos sistemas muito dependentes da passagem, uma eventual redução de receita exige atenção para evitar que resulte em cortes de oferta, intervalos maiores e novas perdas de usuários.
Esse é um risco econômico e operacional, não um efeito quantificado pelo levantamento do Seade.
Quando serve de conexão com uma estação ou terminal, o aplicativo pode ampliar o alcance da rede. Para avaliar se isso ocorre, é necessário identificar origens, destinos, horários e o meio de transporte que seria utilizado na ausência da plataforma.
Também seria preciso medir os quilômetros percorridos pelos veículos, sua ocupação e a circulação sem passageiros para estimar impactos sobre o trânsito. O percentual de pessoas que utilizam aplicativos, isoladamente, não responde a essas perguntas.
A desigualdade limita a possibilidade de escolher
O transporte público continua especialmente importante para a população de menor renda. Segundo a divulgação da pesquisa, seu uso é mencionado por 74% dos entrevistados de famílias com rendimento de até um salário mínimo, ante 26% daqueles com renda familiar superior a dez salários mínimos.
O preço também restringe o acesso às plataformas: entre os não usuários de aplicativos de famílias com renda de até um salário mínimo, 30% apontam o custo como motivo.
Isso significa que enfrentar as deficiências do transporte coletivo tem uma dimensão social. Quem consegue pagar uma corrida pode encontrar uma saída para uma conexão ruim ou para a espera prolongada. Quem não consegue depende da qualidade da rede disponível.
O que fazer para a população se deslocar coletivamente?
A prioridade deve ser tornar o transporte coletivo uma escolha viável no percurso completo. Isso exige combinar infraestrutura, operação, preço e condições de acesso.
| Frente de ação | Medidas a considerar | Benefício esperado para o passageiro |
|---|---|---|
| Reduzir o tempo de viagem | Prioridade para ônibus, fiscalização de faixas e melhoria dos pontos críticos | Viagens mais rápidas e previsíveis |
| Diminuir a espera | Ajustar oferta por horário e região, com acompanhamento dos intervalos reais | Menor risco de atraso e menos tempo no ponto |
| Melhorar conexões | Coordenar linhas alimentadoras, terminais e serviços sobre trilhos | Transferências mais simples |
| Tornar a viagem financeiramente acessível | Integração tarifária e políticas de subsídio com recursos e critérios transparentes | Menor custo no percurso completo |
| Melhorar o acesso | Calçadas, travessias, iluminação, abrigos e acessibilidade | Mais segurança e autonomia até o embarque |
| Dar informação confiável | Previsão de chegada, avisos de alterações e orientação acessível | Melhor planejamento da viagem |
| Cobrar resultados | Metas públicas de regularidade, lotação e viagens cumpridas | Fiscalização baseada no serviço entregue |
As medidas devem ser escolhidas a partir das necessidades locais. Uma região com longos intervalos pode precisar de reforço operacional imediato; outra pode exigir um corredor, novas conexões ou expansão da rede de maior capacidade.
A prioridade ao transporte coletivo já integra a Política Nacional de Mobilidade Urbana. A legislação também prevê integração entre os serviços, transparência e parâmetros de qualidade. A questão prática é transformar essas diretrizes em orçamento, execução e acompanhamento.
Investir na operação também é investir em mobilidade
Ampliar infraestrutura é necessário onde há insuficiência de capacidade ou cobertura. Entretanto, uma obra precisa vir acompanhada dos recursos para operar o serviço e manter estações, terminais e equipamentos.
Um estudo do Ipea sobre contratos de mobilidade urbana propõe combinar fontes de receita, eficiência de custos e melhoria do atendimento. O trabalho parte do reconhecimento de que os benefícios do transporte coletivo alcançam a cidade e também quem utiliza transporte individual.
Para o passageiro, o resultado deve aparecer em viagens cumpridas, menor espera e conexões acessíveis. Por isso, a avaliação dos investimentos precisa acompanhar o serviço entregue, além do volume de recursos anunciado.
Os aplicativos já integram os deslocamentos dos paulistas. O desafio para o transporte coletivo é identificar onde essa utilização complementa a rede e onde revela necessidades que ela ainda não atende. Reduzir a demora e facilitar a viagem completa são caminhos para que mais pessoas possam escolher ônibus, trens e metrô no cotidiano.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes



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