TCE-PR recomenda repasse de ganhos de eficiência aos passageiros na futura concessão dos ônibus de Curitiba (PR); veja os detalhes do edital e a linha do tempo
Publicado em: 8 de outubro de 2026
Concorrência prevê cinco lotes, contratos de 15 anos, investimentos de R$ 3,9 bilhões e 250 ônibus elétricos; propostas estão previstas para 17 de novembro e leilão para o dia 26, na B3
ADAMO BAZANI
O Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) homologou quatro recomendações à Urbanização de Curitiba (Urbs) para aperfeiçoar a transparência e as regras da futura concessão dos ônibus municipais. Entre as medidas está a definição de critérios para transferir aos usuários parte dos ganhos de eficiência e produtividade das operadoras nas revisões ordinárias. A decisão foi tomada em sessão encerrada em 24 de setembro de 2026, publicada em 5 de outubro e divulgada pelo tribunal em 7 de outubro.
As recomendações alcançam uma concorrência que prevê cinco lotes, contratos de 15 anos, investimentos estimados em R$ 3,9 bilhões e incorporação de 250 ônibus elétricos nos primeiros cinco anos da operação. Pelo calendário divulgado pela Urbs, as propostas deverão ser entregues em 17 de novembro, das 10h às 12h, e o leilão ocorrerá em 26 de novembro, às 10h, na B3, em São Paulo. Para o passageiro, o projeto reúne mudanças na integração, nas linhas e na frota, além de avaliações de qualidade que poderão reduzir a remuneração das concessionárias.
A licitação é do transporte municipal de Curitiba, gerenciado pela Urbs. Trata-se de um processo distinto da concessão estadual dos ônibus da Região Metropolitana.
O que o Tribunal de Contas recomendou
O Acórdão nº 2437/2026, do Tribunal Pleno, trata do processo nº 380423/26. A auditoria examinou a legalidade e a viabilidade técnico-financeira da futura concessão entre 7 de maio de 2025 e 3 de junho de 2026.
Inicialmente, foram identificados 13 achados. Após as manifestações da gestão, permaneceram dois: inadequações nos indicadores de desempenho e nas regras de reajuste e revisão contratual.
As quatro recomendações homologadas foram:
- Aperfeiçoar a cláusula sobre divulgação dos resultados de qualidade, especificando forma de publicação, periodicidade, conteúdo mínimo, acessibilidade e linguagem.
- Incluir nos documentos da licitação e dos contratos referências expressas às exigências de transparência ativa, com informações claras, atualizadas e disponíveis em site oficial.
- Ajustar o anexo do Sistema de Gestão da Qualidade para estabelecer a elaboração, consolidação e divulgação periódica dos relatórios de desempenho, com responsáveis e procedimentos definidos.
- Explicitar, na revisão ordinária, os critérios para transferir aos usuários parte dos ganhos de eficiência e produtividade das empresas, com publicação integral dos documentos desse procedimento.
Portanto, são três recomendações relacionadas à transparência dos indicadores e uma sobre o compartilhamento de ganhos nas revisões.
O tribunal estabeleceu prazo de três meses para atendimento, nos termos regimentais. A implementação deverá ser demonstrada pela Urbs e será monitorada pelo TCE-PR. Cabe recurso da decisão.
Como os ganhos podem beneficiar o passageiro
O objetivo é permitir que economias obtidas pelas operadoras sejam consideradas na revisão das condições econômicas da concessão.
A discussão envolve, por exemplo, redução de gastos com insumos, melhoria da organização operacional e aumento de produtividade. O ponto destacado pelo TCE-PR é que os contratos devem explicar como uma parcela desses benefícios chegará aos usuários.
Isso não representa uma redução imediata e previamente calculada no preço da passagem. O resultado dependerá dos ganhos efetivamente apurados, dos critérios de compartilhamento e da política tarifária municipal.
Também é necessário distinguir a tarifa pública, cobrada do passageiro, da remuneração das empresas. Uma redução no custo contratual pode criar condições para conter pressões sobre a passagem ou sobre o subsídio público, mas a consequência concreta precisa ser demonstrada no procedimento de revisão.
Cinco lotes: dois estruturais e três regionais
A Concorrência Pública FUC nº 001/2026 prevê a concessão da operação, manutenção e ampliação do Sistema Integrado de Mobilidade (SIM), com soluções de baixa emissão.
Os contratos terão duração de 15 anos contados da data de assunção dos serviços.
A apresentação oficial realizada em 24 de setembro detalhou a seguinte divisão:
| Lote | Perfil predominante | Linhas previstas | Frota no ano 1 |
|---|---|---|---|
| BRT1 | Linhas estruturais, principalmente na região Sul | 24 | 263 |
| BRT2 | Linhas estruturais, principalmente no Norte e Oeste | 17 | 177 |
| Norte | Alimentadoras e linhas locais | 100 | 276 |
| Oeste | Alimentadoras e linhas locais | 84 | 335 |
| Sul | Alimentadoras e linhas locais | 92 | 295 |
| Total | Cinco lotes | 317 | 1.346 |
Os números são referências da modelagem apresentada aos interessados. A frota indicada para o primeiro ano não deve ser comparada diretamente com a frota operacional atual sem considerar reservas e critérios de composição.
Nos lotes BRT1 e BRT2, as concessionárias terão responsabilidades sobre infraestrutura, incluindo limpeza, conservação e manutenção de estações-tubo e plataformas elevadas dos terminais, além dos eletropostos públicos.
Os lotes regionais concentram o atendimento dos bairros. A divisão contratual mantém a rede sob planejamento e gestão da Urbs.
Como será escolhido o vencedor
O critério de julgamento será o maior desconto sobre a remuneração referencial de cada lote.
As propostas serão classificadas pelo desconto oferecido. O edital também prevê uma etapa de lances para os participantes que atenderem aos critérios de aproximação da melhor oferta.
O desconto incide sobre a remuneração contratual do operador. Não corresponde a um desconto percentual automaticamente aplicado à passagem.
É permitida a participação em mais de um lote. Entretanto, quem vencer vários lotes deverá comprovar capacidade técnica compatível com o conjunto das concessões.
Podem participar interessados nacionais e estrangeiros, isoladamente ou em consórcio, conforme as condições do edital. Entre os requisitos estão regularidade jurídica, fiscal, social e trabalhista, capacidade econômico-financeira e experiência técnica.
Cada vencedor deverá constituir uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) para executar o respectivo contrato.
Há exigência de garantia de proposta equivalente a 1% dos investimentos obrigatórios considerados no edital, descontada a subvenção pública. Essa garantia é distinta da garantia de execução contratual.
R$ 3,9 bilhões em investimentos e R$ 18,84 bilhões em remuneração referencial
Os valores representam parcelas diferentes da modelagem.
Os investimentos estimados ao longo dos 15 anos somam aproximadamente R$ 3,9 bilhões e abrangem frota e infraestrutura.
| Lote | Investimento estimado |
|---|---|
| BRT1 | R$ 1,317 bilhão |
| BRT2 | R$ 1,042 bilhão |
| Norte | R$ 475,2 milhões |
| Oeste | R$ 588,6 milhões |
| Sul | R$ 480,1 milhões |
A soma dos valores de remuneração referencial estabelecidos no edital, por sua vez, é de R$ 18.843.399.724, aproximadamente R$ 18,84 bilhões.
| Lote | Remuneração referencial em 15 anos |
|---|---|
| BRT1 | R$ 4.658.145.846 |
| BRT2 | R$ 3.588.227.311 |
| Norte | R$ 3.186.465.560 |
| Oeste | R$ 3.885.446.221 |
| Sul | R$ 3.525.114.786 |
Esses valores servem como referência para a disputa e não representam um pagamento integral no momento da contratação.
O edital adota 28 de fevereiro de 2026 como data-base, salvo previsão expressa diferente.
A modelagem também prevê subvenção municipal de aproximadamente R$ 893,6 milhões, destinada principalmente aos ônibus elétricos e à infraestrutura de recarga. Esse aporte integra o financiamento dos investimentos previstos.
Frota: 250 elétricos e climatização gradual
O projeto prevê 250 ônibus elétricos nos primeiros cinco anos, com 90 veículos no início da nova operação.
A composição anunciada é:
| Tipo de ônibus elétrico | Quantidade |
|---|---|
| Biarticulado | 141 |
| Articulado | 98 |
| Padrón | 7 |
| Comum | 4 |
| Total | 250 |
A concentração de veículos de grande capacidade busca ampliar a participação da eletrificação na oferta de lugares.
Também estão previstos 151 novos ônibus a diesel com tecnologia Euro 6 no início da operação.
Os novos veículos elétricos terão ar-condicionado, assim como os novos ônibus a diesel adquiridos durante o contrato. A previsão municipal é atingir metade da frota climatizada em 2031 e a totalidade em até 12 anos.
Assim, a renovação será gradual: o início da concessão não significa que todos os veículos serão imediatamente elétricos ou climatizados.
Integração fora dos terminais e novas ligações
Uma das principais mudanças previstas é a ampliação da integração temporal para todas as linhas, mediante utilização do cartão-transporte da Urbs.
O passageiro poderá realizar conexões em pontos comuns, dentro de um intervalo previamente definido, sem necessariamente passar por terminal ou estação-tubo e sem pagar outra passagem na conexão autorizada.
As condições de utilização dependerão das regras operacionais implantadas.
O projeto também prevê quatro linhas conectoras:
| Ligação prevista |
|---|
| Terminal Tatuquara – Terminal Carmo |
| Terminal Pinheirinho – Terminal Centenário |
| Terminal Portão – Terminal Capão da Imbuia |
| Terminal Santa Felicidade – Terminal Bairro Alto |
Outra previsão é o retorno da Circular Centro com ônibus elétricos.
Há ainda um programa experimental de transporte por demanda, com nove micro-ônibus ou midi-ônibus e duração de 12 meses. A proposta é avaliar agendamento por aplicativo e rotas ajustadas à procura. Trata-se de um teste, cujo resultado deverá orientar decisões posteriores.
Remuneração ligada à oferta e à qualidade
A remuneração das empresas será calculada considerando fatores como quilometragem, horas de operação, frota disponibilizada, infraestrutura e investimentos.
O valor também será influenciado pelo desconto oferecido na licitação e pelo desempenho da concessionária.
A gestão da bilhetagem permanecerá pública, com arrecadação direcionada ao Fundo de Urbanização de Curitiba (FUC).
O modelo inclui subsídio tarifário para complementar o custeio. Em esclarecimento publicado em outubro, a Urbs informou que referências a possíveis recursos estaduais ou federais não condicionam o direito da concessionária à remuneração contratualmente devida.
Também está prevista garantia pública apoiada em recursos do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Sua constituição é uma condição para emissão da ordem de início.
Avaliação dos passageiros poderá afetar o pagamento
O sistema de qualidade considera indicadores relacionados à frota, operação e experiência dos usuários.
Entre os critérios estão reclamações, satisfação, sinistros, confiabilidade, cumprimento das viagens, pontualidade e utilização do tipo correto de ônibus. Nos lotes estruturais, também será avaliada a infraestrutura delegada.
Os resultados formarão o Índice de Desempenho Global (IDG), com nota de zero a dez. Desempenho insuficiente poderá provocar redução de até 3% da remuneração mensal.
O Boletim de Esclarecimento nº 6 confirma um período inicial de três meses de teste dos indicadores sem efeitos na remuneração. Também prevê manifestação da concessionária antes do resultado final.
É nesse conjunto de regras que o TCE-PR recomendou mais clareza sobre divulgação, periodicidade, responsáveis e acesso público aos resultados.
Reajustes e revisões têm funções diferentes
O modelo prevê reajustes anuais e revisões ordinárias trienais.
O reajuste atualiza componentes da remuneração conforme as fórmulas e os índices previstos contratualmente.
A revisão ordinária reavalia parâmetros técnicos, preços, indicadores e metas. É nesse procedimento que o TCE-PR recomendou critérios explícitos de compartilhamento dos ganhos de eficiência.
Também há revisão extraordinária para situações previstas nos contratos e na matriz de riscos, com análise da responsabilidade pelo evento e de seu impacto econômico.
A existência desses mecanismos não significa que todo aumento de custo será repassado diretamente ao passageiro. Eles tratam da relação contratual entre poder concedente e operador; a tarifa pública permanece submetida à política municipal.
Disputa judicial e estudos sobre os contratos atuais
Como mostrou o Diário do Transporte, os contratos atuais começaram em 2010, após licitação realizada em 2009. Tinham duração original de 15 anos e foram prorrogados em 2025 até 31 de dezembro de 2026.
As atuais operadoras defendem a análise de uma alternativa à nova concorrência: renegociação dos contratos, com investimentos e apuração de eventual desequilíbrio econômico-financeiro.
Estudos da Fipecafi foram organizados para examinar o possível passivo, o plano de negócios das empresas e a vantagem comparativa das alternativas.
Um valor potencial de R$ 584,5 milhões entrou no debate. A Urbs contesta que o montante represente dívida já reconhecida e sustenta que depende de comprovação.
Em junho, o TJ-PR impediu temporariamente a publicação do edital. Em julho, o STJ afastou o bloqueio fixo de 180 dias, mantendo a determinação de retomada dos estudos e sua compatibilização com a licitação.
Após nova análise estadual, o edital foi publicado em agosto. Em setembro, a concorrência e os estudos seguiram em paralelo.
Transição: leilão, assinatura e início são etapas distintas
A realização do leilão não significa entrada imediata das novas concessionárias.
Depois da disputa, haverá habilitação, recursos, homologação, cumprimento das condições contratuais e preparação operacional.
O Boletim de Esclarecimento nº 5 registra questionamentos sobre a compatibilidade entre o calendário da licitação e os prazos de transição.
Na resposta, a Urbs reafirmou que a minuta prevê termo final ordinário em 31 de dezembro de 2026, com possibilidade de prorrogação até 28 de agosto de 2027 mediante autorização do poder concedente. O documento também reconhece a hipótese de a data de início ocorrer depois do termo ordinário.
Esse ponto exige acompanhamento porque o leilão está marcado para o fim de novembro. As datas efetivas de assinatura e assunção dependerão do andamento do processo e da preparação dos serviços.
Linha do tempo da futura concessão
| Data ou período | Marco |
|---|---|
| 2009 | Licitação que deu origem aos contratos atuais. |
| Setembro de 2010 | Início das concessões municipais com prazo original de 15 anos. |
| Outubro de 2023 | Contratação do BNDES para estruturar o novo modelo. |
| Maio de 2025 a junho de 2026 | Auditoria do TCE-PR sobre a futura concessão. |
| Agosto de 2025 | Prorrogação dos contratos atuais até 31 de dezembro de 2026. |
| 19 de setembro a 17 de novembro de 2025 | Consulta pública da modelagem. |
| 1º e 15 de outubro de 2025 | Audiências públicas. |
| 8 de abril de 2026 | Prefeitura anuncia edital para 27 de abril e leilão até julho. |
| 24 de abril de 2026 | Município informa que o edital dependeria de ajustes finais. |
| 25 de junho de 2026 | TJ-PR estabelece bloqueio temporário à concorrência e determina retomada dos estudos. |
| Julho de 2026 | STJ afasta o bloqueio fixo de 180 dias e mantém a exigência dos estudos. |
| 19 de agosto de 2026 | Publicação do edital FUC nº 001/2026. |
| 1º de setembro de 2026 | Nova discussão no TJ-PR mantém o prosseguimento da concorrência em paralelo aos estudos. |
| 24 de setembro de 2026 | Apresentação do projeto a investidores e encerramento da sessão do TCE-PR que homologou as recomendações. |
| 2 de outubro de 2026 | Publicação dos boletins de esclarecimento nº 4 a 7. |
| 5 de outubro de 2026 | Publicação do Acórdão nº 2437/2026 no Diário Eletrônico do TCE-PR. |
| 7 de outubro de 2026 | Divulgação das recomendações pelo tribunal. |
| 12 de novembro de 2026 | Prazo previsto para esclarecimentos e impugnações. |
| 16 de novembro de 2026 | Data prevista para respostas e conclusão das visitas técnicas. |
| 17 de novembro de 2026 | Entrega dos envelopes na B3, das 10h às 12h. |
| 26 de novembro de 2026 | Leilão na B3, a partir das 10h. |
| Após a contratação e preparação operacional | Assunção dos serviços pelas novas concessionárias. |
| Primeiros cinco anos da operação | Incorporação prevista dos 250 ônibus elétricos. |
As etapas futuras correspondem ao calendário divulgado e podem ser alteradas por atos administrativos ou decisões judiciais.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes



