Eletromobilidade

Renovação de ônibus na Grande Goiânia (GO) pode evitar 8 mil toneladas de gases de efeito estufa por ano, aponta levantamento

Divulgação do Mova-se inclui elétricos, biometano e diesel Euro VI; benefícios econômicos ligados à saúde são estimados em R$ 3,75 milhões anuais

ADAMO BAZANI

A renovação de parte da frota de ônibus da Região Metropolitana de Goiânia pode evitar a emissão de aproximadamente 8 mil toneladas de gases de efeito estufa por ano, segundo resultados divulgados de um levantamento atribuído ao Mova-se Fórum Nacional de Mobilidade. A avaliação considera a substituição de veículos antigos por ônibus elétricos, a biometano e também a diesel com tecnologia mais moderna, associando a mudança à redução de poluentes e a benefícios econômicos relacionados à saúde da população.

Os resultados divulgados estimam benefícios de R$ 3,75 milhões por ano, entre redução de despesas de saúde e ganhos sociais, com possibilidade de chegar a R$ 21,94 milhões anuais em um cenário de ampliação da frota até 2027. A checagem do Diário do Transporte, entretanto, identificou uma divergência na quantidade de ônibus apresentada na divulgação. Também não foi localizada a íntegra do relatório técnico, necessária para verificar os cálculos, o período de coleta e a contribuição de cada tecnologia.

Resultado divulgado é anual e inclui ônibus diesel mais modernos

O levantamento aborda a primeira fase do projeto Nova RMTC, a Rede Metropolitana de Transporte Coletivo.

Segundo a divulgação, a comparação com a frota anterior aponta redução anual de 8.072,41 toneladas de CO₂ equivalente, correspondente a 18,4%, e de 3,16 milhões de litros de diesel.

CO₂ equivalente é uma unidade utilizada para expressar o efeito climático de diferentes gases em uma mesma medida. Por isso, o resultado não deve ser apresentado simplesmente como quantidade de dióxido de carbono retirada da atmosfera.

Énecessário considerar que o resultado envolve uma combinação de tecnologias. A divulgação inclui veículos elétricos, a biometano e ônibus convencionais Euro VI, em substituição a uma frota identificada como Euro III.

Quantidades informadas somam 534 ônibus, enquanto divulgação menciona 539 substituições

A composição apresentada para a primeira fase é a seguinte:

Tecnologia Quantidade divulgada
Elétricos articulados 54
Biometano 3
Convencionais Euro VI 477
Soma dos grupos 534
Total de substituições mencionado 539

Há uma diferença de cinco veículos entre a soma e o total informado.

Redução de poluentes dos ônibus é diferente de melhora medida na qualidade do ar

A divulgação também atribui ao levantamento reduções de 84,2% nas emissões de óxidos de nitrogênio, identificados pela sigla NOx, e de 79,4% no material particulado nos corredores e eixos considerados.

Esses percentuais dizem respeito às emissões informadas para o recorte avaliado. Não devem ser interpretados como redução equivalente da concentração de poluição em toda a Região Metropolitana de Goiânia.

O Proconve, programa brasileiro de controle da poluição por veículos, estabelece limites progressivamente mais restritivos para diferentes poluentes. A fase P-8, associada à tecnologia Euro VI dos veículos pesados, integra esse processo de modernização.

Isso explica por que a renovação de ônibus diesel também pode produzir benefícios ambientais. A contribuição climática e a redução de poluentes locais, porém, são indicadores diferentes e precisam ser avaliados separadamente.

Benefício de R$ 3,75 milhões reúne despesas de saúde e efeitos econômicos sobre a sociedade

O levantamento divulgado atribui à primeira fase benefícios anuais de R$ 3,75 milhões relacionados à redução dos efeitos da poluição sobre a saúde.

Desse valor, R$ 1,05 milhão seria associado a custos diretos do Sistema Único de Saúde. Outros R$ 2,70 milhões corresponderiam a benefícios sociais, incluindo produtividade, redução de afastamentos e efeitos relacionados à mortalidade prematura.

Projeção para 2027 considera 1.200 veículos e benefícios de R$ 21,94 milhões por ano

Para o cenário de ampliação até 2027, a divulgação apresenta uma frota de 1.200 ônibus, distribuída entre 65 elétricos articulados, 500 a biometano e 635 Euro VI.

Nesse cenário, os benefícios econômicos relacionados à saúde poderiam alcançar R$ 21,94 milhões por ano.

Trata-se de uma projeção vinculada à composição futura considerada pelo levantamento. O valor deve ser distinguido dos R$ 3,75 milhões atribuídos à primeira fase e não representa uma economia já realizada.

A realização desse cenário depende da implantação dos veículos e das condições de operação utilizadas nos cálculos.

Goiás autorizou 501 ônibus a biometano e GNV, com fornecimento gradual

O processo de renovação tem antecedentes documentados.

Como mostrou o Diário do Transporte em 16 de janeiro de 2026, Goiás publicou autorização para implantação de 501 ônibus a biometano e/ou Gás Natural Veicular, com diferentes portes e configurações.

A divulgação oficial do Governo de Goiás apresenta 79 articulados e 422 padrons, destinados aos corredores de maior demanda e às linhas alimentadoras da capital e de municípios vizinhos. O cronograma informado naquela publicação vai até 31 de dezembro de 2027.

Esse programa autorizado deve ser distinguido da projeção do levantamento, que considera 500 veículos a biometano.

Também existe uma diferença entre os combustíveis. Segundo a ANP, o biometano é obtido pelo processamento do biogás e pode substituir o gás natural em suas aplicações. A possibilidade de um ônibus utilizar ambos não comprova qual combustível foi efetivamente empregado em cada viagem.

Para verificar o balanço ambiental, é importante conhecer o abastecimento real da frota considerada.

Produção e abastecimento de biometano fazem parte da estrutura necessária à expansão

Em 31 de março de 2026, o Diário do Transporte noticiou o anúncio da EcoGeo, formada por Ecopar e GeoGreen BioGás, de investimento de R$ 140 milhões em uma planta de biometano em Guapó, nas proximidades de Goiânia.

Na ocasião, o projeto previa produção inicial de aproximadamente 30 mil metros cúbicos por dia, capacidade anunciada para abastecer cerca de 100 ônibus diariamente e implantação de um gasoduto de 25 quilômetros. O prazo divulgado para funcionamento completo era de 24 meses.

Esses dados eram previsões de implantação, sem representar comprovação de que a estrutura já estivesse operando.

O abastecimento ajuda a explicar por que a substituição de frota depende de investimentos além da compra dos veículos. No caso dos elétricos, é necessário organizar a recarga; para os ônibus a biometano, a expansão envolve oferta de combustível e logística de fornecimento.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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