“Descansar também é se cuidar”: cartilha do TST lançada nesta segunda (28) mostra como empresas de ônibus e trabalhadores podem prevenir riscos à saúde mental
Publicado em: 29 de setembro de 2026
Publicação feita com a UnB aborda jornadas, pressão, assédio, sinais de esgotamento e direito à desconexão; motoristas, mecânicos, fiscais e gestores precisam olhar para as condições reais de cada operação
ADAMO BAZANI
Colaborou Vinícius de Oliveira
O motorista que termina uma viagem e continua recebendo cobranças no celular, o mecânico pressionado a liberar veículos, o fiscal que enfrenta conflitos no terminal e a equipe que precisa cobrir faltas sucessivas têm rotinas diferentes, mas podem estar expostos a riscos semelhantes para a saúde mental. Uma cartilha lançada nesta segunda-feira (28) pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST), em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), orienta trabalhadores e empresas a identificar situações de sobrecarga, organizar a prevenção e buscar ajuda quando surgirem sinais de sofrimento.
A publicação integra a campanha “Sua saúde é uma fronteira que o trabalho não pode ultrapassar” e explica, em linguagem direta, os riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Para as empresas de ônibus, o material ajuda a transformar a avaliação exigida pela Norma Regulamentadora nº 1, a NR-1, em mudanças nas escalas, na comunicação e no apoio às equipes. Para motoristas, mecânicos, fiscais e demais profissionais, traz orientações sobre descanso, desconexão, assédio, canais de denúncia e atendimento de saúde. Uma de suas mensagens resume o cuidado: “Descansar também é se cuidar”.
Saúde mental também depende de como o serviço é organizado
A cartilha identifica seis grupos de situações que merecem atenção: excesso ou falta de demandas, jornadas prolongadas, relações desrespeitosas, falhas na organização das atividades, falta de reconhecimento e isolamento. Elas podem se combinar. Uma escala apertada, por exemplo, torna mais difícil lidar com uma ocorrência na linha; se a equipe não recebe apoio ou informações claras, a pressão aumenta.
No transporte coletivo, a análise precisa ir além da garagem. Motoristas trabalham nas ruas, sujeitos a congestionamentos, desvios, episódios de violência e conflitos com passageiros. Fiscais e equipes de terminais lidam diretamente com reclamações, interrupções de serviço e decisões urgentes. Mecânicos, eletricistas e profissionais de manutenção respondem pela disponibilidade dos veículos, mas precisam de tempo, peças, informação e condições adequadas para executar o serviço com segurança.
Há ainda funções menos visíveis para o passageiro, como programação de linhas, controle operacional, limpeza, bilhetagem e atendimento. Uma alteração de itinerário comunicada de forma incompleta pode gerar cobrança sobre várias dessas equipes ao mesmo tempo. Por isso, avaliar riscos psicossociais exige ouvir os profissionais de cada área e observar o funcionamento cotidiano da operação.
A presença de um fator de risco não significa, por si só, que alguém desenvolverá um transtorno. O objetivo é reconhecer condições que podem causar sofrimento quando persistem e agir para reduzi-las.
O alerta feito por Liana Variani: uma empresa pode ter várias realidades
Em reportagem anterior do Diário do Transporte, a advogada especializada em risco empresarial Liana Variani destacou que não existe uma solução pronta para todas as empresas ou mesmo para todas as linhas de uma operadora. Uma equipe pode enfrentar principalmente problemas de segurança pública; outra, dificuldades provocadas pelo trânsito ou pela infraestrutura; uma terceira, conflitos internos e falhas na organização do trabalho.
Parte desses fatores depende de decisões do poder público. A empresa não substitui o policiamento nem controla os congestionamentos, mas pode registrar onde os problemas ocorrem, apoiar o profissional após uma ocorrência, rever procedimentos sob sua responsabilidade e encaminhar demandas documentadas aos órgãos competentes.
Essa distinção evita dois erros. O primeiro é atribuir todo o sofrimento a uma suposta fragilidade individual do empregado. O segundo é prometer que a operadora resolverá sozinha questões externas ao serviço. A prevenção precisa identificar o problema, definir quem pode agir e acompanhar o resultado.
Como sair do diagnóstico genérico e chegar a medidas concretas
A nova redação da NR-1, em vigor desde 26 de maio de 2026, exige que os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho sejam considerados no gerenciamento de riscos ocupacionais. Isso não equivale a aplicar uma lista de perguntas e arquivá-la sem consequências.
No caso de uma empresa de ônibus, um diagnóstico útil pode reunir relatos dos trabalhadores, dados de afastamentos, registros de ocorrências, informações sobre jornadas e intervalos e dificuldades repetidas em determinadas linhas, turnos, terminais ou oficinas. A análise deve respeitar a privacidade de quem relata problemas e permitir que as equipes falem sem receio de exposição.
A partir daí, medidas podem envolver melhor distribuição das tarefas, revisão de procedimentos de comunicação, orientação das chefias, resposta a situações de assédio, apoio após episódios de violência e ajustes na programação para que o descanso previsto seja efetivamente possível. A empresa também precisa acompanhar se a mudança funcionou. Se o mesmo problema continua aparecendo nos relatos e registros, a medida deve ser revista.
Para o trabalhador, participar desse processo significa descrever situações concretas: o que ocorreu, com que frequência, em qual etapa da jornada e como isso afeta a execução da atividade. A observação da rotina ajuda mais do que a tentativa de atribuir um diagnóstico médico a colegas ou a si próprio.
“Descansar também é se cuidar” deve valer dentro e fora da garagem
A cartilha dedica uma seção ao direito à desconexão e lembra que almoço, folgas e férias são períodos de recuperação. Recomenda organizar prioridades para evitar sobrecarga e reservar tempo para a família, o lazer e o autocuidado. Sua mensagem é clara: descansar não representa falta de comprometimento.
No transporte, entretanto, o descanso depende de planejamento coletivo. Se uma escala só funciona porque um motorista é chamado repetidamente durante a folga, existe um problema de organização a examinar. Se a manutenção depende de mensagens a um profissional fora do expediente para obter informações indispensáveis, os procedimentos de passagem de serviço podem precisar de ajustes.
Também é necessário olhar para intervalos que constam na programação, mas acabam consumidos por atrasos, deslocamentos internos ou solução de ocorrências. Para que a orientação da cartilha tenha efeito, empresa e trabalhadores precisam verificar como o descanso acontece de fato, respeitando as regras aplicáveis a cada função e contrato.
Sinais de esgotamento exigem acolhimento, não rótulos
A publicação explica que o burnout costuma se desenvolver gradualmente, em associação ao estresse crônico relacionado ao trabalho. Irritabilidade, ansiedade frequente, desânimo e sensação de incapacidade estão entre os sinais emocionais que ela aponta.
O material também menciona cansaço mesmo após descansar, dores de cabeça, tensão muscular, alterações no sono e no apetite, dificuldade de concentração, queda no rendimento e afastamento de colegas, amigos ou familiares. Esses sinais podem ter diferentes causas. Reconhecê-los ajuda a procurar avaliação e apoio; não autoriza uma chefia ou um colega a concluir que determinada pessoa tem burnout.
Para profissionais que conduzem veículos, trabalham com equipamentos ou precisam tomar decisões durante uma ocorrência, dificuldades persistentes de sono e concentração merecem atenção especial. Buscar atendimento é uma medida de cuidado com a própria pessoa e com a segurança do serviço. À empresa cabe acolher a situação, preservar a privacidade e examinar as condições de trabalho que possam estar contribuindo para ela.
Assédio, discriminação e violência também entram na prevenção
A cartilha orienta a denunciar assédio moral, assédio sexual, discriminação e violência. Se a pessoa se sentir segura, pode usar o canal interno da instituição. Também são indicados o Ministério do Trabalho e Emprego, o Ministério Público do Trabalho, as ouvidorias e o Disque Direitos Humanos, pelo número 100.
Sempre que possível, o material recomenda anotar datas e horários, guardar mensagens e documentos e identificar testemunhas. Esses registros ajudam a descrever os fatos com precisão. Para a empresa, é essencial que o canal interno permita receber relatos inclusive sobre pessoas em cargos de chefia e que o tratamento da ocorrência preserve a dignidade dos envolvidos.
A publicação indica as Unidades Básicas de Saúde para atendimento inicial e eventual encaminhamento, além dos Centros de Atenção Psicossocial para atendimento especializado a pessoas em sofrimento psíquico. Em situações de urgência, aponta o CVV, pelo 188; o Samu, pelo 192; os Bombeiros, pelo 193; e a Polícia Militar, pelo 190.
O que passageiros e poder público também podem fazer
O contato com passageiros faz parte da atividade de motoristas, fiscais e atendentes, mas agressões e ameaças não devem ser tratadas como um componente normal da profissão. Registrar e comunicar episódios permite que a operadora identifique pontos críticos e articule respostas com os órgãos públicos responsáveis.
Gestores de mobilidade, por sua vez, podem colaborar oferecendo informações antecipadas sobre obras e desvios, tratando problemas recorrentes de circulação, melhorando as condições de terminais e pontos de parada e encaminhando demandas de segurança às autoridades competentes. Mudanças operacionais bem comunicadas reduzem a pressão sobre quem precisa explicá-las ao passageiro na ponta do serviço.
A prevenção, portanto, interessa também a quem usa o transporte. Equipes que dispõem de apoio, informações claras e descanso efetivo têm melhores condições de atender o público e executar o trabalho com segurança.
Dicas práticas para trabalhadores e empresas
| Situação | Dicas para trabalhadores | Dicas para empresas |
|---|---|---|
| Escalas e sobrecarga | Informe quando atrasos, tarefas acumuladas ou substituições frequentes estiverem comprometendo a jornada. Descreva situações e horários concretos. | Examine escalas executadas, e não apenas as planejadas. Verifique onde atrasos e faltas transferem trabalho repetidamente para a mesma equipe. |
| Intervalos e folgas | Procure usufruir os períodos de descanso e comunique quando a rotina impedir isso. Observe cobranças frequentes fora do expediente. | Planeje rendições e substituições. Estabeleça procedimentos para urgências sem transformar toda folga em disponibilidade permanente. |
| Ocorrências nas linhas e terminais | Registre episódios de violência, ameaças, conflitos ou problemas recorrentes de infraestrutura pelos canais disponíveis. | Reúna os registros por local e horário, dê apoio após ocorrências e encaminhe demandas de trânsito e segurança aos órgãos responsáveis. |
| Oficinas e manutenção | Comunique falta de peças, informações ou tempo adequado para a atividade, especialmente quando isso gerar pressão recorrente. | Organize prioridades, passagem de serviço e fornecimento de recursos para evitar que urgências permanentes recaiam sobre os mesmos profissionais. |
| Comunicação de mudanças | Peça esclarecimentos sobre itinerários, procedimentos e responsabilidades quando as orientações forem insuficientes. | Comunique mudanças com antecedência possível, instruções claras e um canal para resolver dúvidas durante a operação. |
| Sinais de sofrimento | Observe cansaço persistente, alterações no sono, irritabilidade ou dificuldade de concentração e procure avaliação de saúde quando afetarem sua rotina. | Acolha relatos sem rotular o empregado, preserve sua privacidade e investigue fatores da organização do trabalho que possam contribuir para o problema. |
| Assédio ou discriminação | Anote datas, horários e fatos; preserve mensagens e documentos; procure um canal de denúncia em que se sinta seguro. | Mantenha canais acessíveis, trate relatos com seriedade e assegure que denúncias envolvendo chefias também possam ser examinadas. |
| Acompanhamento das medidas | Participe das avaliações e informe se uma mudança anunciada resolveu, reduziu ou manteve o problema. | Defina responsáveis e prazos para as ações; acompanhe os resultados com as equipes e ajuste o que não funcionar. |












Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
Colaborou Vinícius de Oliveira




Se no transporte ocorre esse desgaste físico e mental imagina nos setores de restaurante é quase que absurdo uma jornada de quase 20 horas sem sequer parar pra comer