Apache Vip 6 em Rio Branco (AC): por que a primeira venda do modelo significa mais que ônibus novos?
Publicado em: 29 de setembro de 2026
São 20 unidades da nova geração da Caio e 60 Apache Vip 5 para uma cidade que passou por intervenção, paralisações e falta de veículos; operação da JTP é emergencial e a concessão de longo prazo dependerá de licitação
ADAMO BAZANI
Colaborou Vinícius de Oliveira

O primeiro Caio Apache Vip 6 comercializado no Brasil está pronto para a frota de Rio Branco, no Acre. A COM Rio Branco, do grupo JTP, comprou 20 unidades da carroceria lançada em agosto de 2026 e 60 ônibus da geração anterior, o Apache Vip 5. Para a fabricante de Botucatu, a encomenda marca a estreia comercial do novo produto. Para quem depende do transporte coletivo na capital acreana, os 80 veículos representam a expectativa de voltar a contar com ônibus suficientes, viagens regulares e condições adequadas de deslocamento.
A compra ocorre em meio à substituição da Ricco Transportes pela JTP, contratada emergencialmente após mais um período de crise no sistema. Rio Branco já havia enfrentado intervenção nas antigas concessionárias, trocas de operador e paralisações. Em julho deste ano, a falta de veículos levou o Ministério Público do Acre à Justiça. A chegada de uma frota nova é, portanto, uma etapa da recuperação do serviço. O resultado dependerá de quantos ônibus entrarão efetivamente nas linhas e da capacidade da prefeitura de fiscalizar horários, trajetos e qualidade da operação. www.riobranco.ac.gov.br
O furo do Diário do Transporte: da encomenda à primeira imagem

O Diário do Transporte foi o primeiro a noticiar, em 2 de setembro, a compra dos 20 Apache Vip 6 e dos 60 Apache Vip 5 para Rio Branco. Em 28 de setembro, o veículo divulgou em primeira mão a imagem do primeiro Vip 6 comercializado no país já pronto para a JTP. Confira a reportagem exclusiva e a imagem do ônibus.
A sequência importa porque separa três momentos: a apresentação do modelo pela Caio durante a Lat.Bus, em agosto; a confirmação de uma encomenda comercial; e a conclusão do primeiro ônibus destinado a essa compra. O veículo pronto ainda precisa chegar a Rio Branco, passar pelas etapas de incorporação à frota e começar a transportar passageiros. A prefeitura previa o início das entregas dos novos ônibus a partir de 1º de outubro. diariodotransporte.com.br
O que muda do Apache Vip 5 para o Vip 6

O Apache Vip é uma família de carrocerias urbanas lançada em 2001. A sexta geração mantém a proposta de aplicação predominante em ônibus de piso alto, especialmente sobre chassis com motor dianteiro, mas altera a frente, os conjuntos de iluminação, o interior e componentes externos. Os 20 ônibus destinados a Rio Branco têm chassis Mercedes-Benz; o modelo exato do chassi dos Vip 6 não foi especificado nas informações técnicas divulgadas até agora.
Na carroceria nova, os faróis e as luzes de circulação diurna empregam tecnologia LED. A traseira recebeu lanternas modulares e intercambiáveis, enquanto os para-choques são divididos em três partes. Para uma operação urbana, essas escolhas têm efeito além do visual: peças que podem ser substituídas separadamente tendem a simplificar reparos após avarias, desde que a empresa mantenha reposição e equipe de manutenção disponíveis.
O modelo também recebeu mudanças na organização da central elétrica, nos revestimentos internos e na iluminação do salão. Entre as características apresentadas pela Caio estão itinerário eletrônico frontal, para-brisa bipartido e laminado, poltronas injetadas para passageiros e cinto retrátil de três pontos para o motorista. O piso inclui uma área de circulação com material antiderrapante, voltada à aderência e à limpeza.
Outro elemento do Vip 6 é a porta embutida chamada “Flor da Pele”, alinhada à lateral da carroceria quando fechada. A solução busca melhorar a vedação do salão, o isolamento de ruídos e o desempenho do ar-condicionado. Nas informações sobre a frota de Rio Branco, a prefeitura inclui portas desse tipo entre as características dos 20 ônibus da nova geração. diariodotransporte.com.br
Como são os ônibus comprados para Rio Branco
| Característica | Frota anunciada |
|---|---|
| Apache Vip 6 | 20 ônibus |
| Apache Vip 5 | 60 ônibus |
| Total da encomenda | 80 ônibus novos |
| Chassis | Mercedes-Benz |
| Capacidade divulgada do Vip 6 | Até 72 passageiros por veículo |
| Capacidade divulgada do Vip 5 | Até 84 passageiros por veículo |
| Portas | Duas por ônibus, segundo a prefeitura |
| Equipamentos anunciados | Ar-condicionado, acessibilidade, tomadas USB, GPS e bilhetagem eletrônica |
As capacidades correspondem às configurações informadas para os veículos de Rio Branco. Não são uma lotação única para todos os ônibus Vip 5 ou Vip 6 fabricados pela Caio. Da mesma forma, as dimensões oferecidas no catálogo da fabricante variam conforme o chassi e a montagem; não devem ser tratadas como medidas já confirmadas para estas 20 unidades.
A frota encomendada reúne duas gerações consecutivas. Segundo as informações apresentadas no lançamento, a Caio manteve componentes em comum entre o Vip 5 e o Vip 6, medida que pode ajudar no estoque de peças e no trabalho da garagem. Para o passageiro, entretanto, a diferença decisiva estará na conservação dos veículos ao longo dos meses e no atendimento de cada linha. diariodotransporte.com.br
Por que Rio Branco espera mais que uma renovação de frota

O problema do transporte coletivo da capital acreana antecede a JTP e a Ricco. Os contratos das antigas operadoras foram firmados em 2004. Anos depois, o atendimento passou a registrar interrupções e abandono de linhas. Em dezembro de 2021, a prefeitura decretou intervenção parcial no sistema. No começo de 2022, a Auto Viação Floresta deixou de atender linhas sob sua responsabilidade, e o município buscou uma operadora emergencial.
A Ricco começou a circular em fevereiro de 2022, inicialmente em 31 linhas, equivalentes a 63% do serviço, segundo a RBTrans à época. Posteriormente, passou a atender o restante da rede. A entrada da empresa recompôs viagens naquele momento, mas a discussão sobre contratos, financiamento e qualidade do atendimento continuou. Em 2026, novas paralisações e a redução da frota recolocaram os passageiros diante do mesmo problema: a incerteza sobre a chegada do ônibus.
Histórico do transporte coletivo de Rio Branco
| Período | O que ocorreu |
|---|---|
| 2004 | Contratos das antigas operadoras estruturaram o atendimento municipal. |
| 2021 | Falhas de oferta e conflitos na operação levaram a prefeitura a decretar intervenção parcial no sistema em dezembro. |
| Janeiro de 2022 | Linhas deixadas pela Auto Viação Floresta passaram a exigir atendimento provisório. |
| Fevereiro de 2022 | A Ricco iniciou operação emergencial em 31 linhas. |
| Março de 2026 | A prefeitura publicou edital para uma concessão de longo prazo. |
| Abril de 2026 | A licitação foi suspensa para ajustes no edital. O transporte também sofreu paralisação. |
| Junho de 2026 | Foi aberto chamamento para contratar emergencialmente outra operadora. A apreensão judicial de ônibus usados pela Ricco agravou a falta de veículos. |
| Julho de 2026 | A JTP foi apresentada como nova operadora emergencial. O Ministério Público e a Justiça cobraram medidas para recompor o atendimento. |
| Agosto de 2026 | A Caio apresentou o Apache Vip 6 na Lat.Bus. |
| Setembro de 2026 | O Diário do Transporte revelou a compra dos 20 Vip 6 e 60 Vip 5 e exibiu em primeira mão o primeiro Vip 6 comercializado já pronto. |
| A partir de outubro de 2026 | Está previsto o início das entregas da frota nova em Rio Branco. |
Em julho, o Ministério Público estimou que seriam necessários entre 140 e 150 ônibus para atender adequadamente à demanda da cidade. No momento mais crítico da crise, menos de 50 chegaram a circular, segundo o órgão. A Justiça determinou providências para restabelecer gradualmente uma frota mínima de 100 veículos e autorizou medidas complementares temporárias. Esses números ajudam a explicar por que a entrega de ônibus novos desperta interesse, mas também por que é preciso acompanhar a frota efetivamente disponível, e não apenas a quantidade comprada
Contrato da JTP é emergencial; concessão de longo prazo exige disputa

A JTP entrou no sistema por uma contratação emergencial. Segundo a prefeitura, foi a única participante do chamamento realizado após a decretação de emergência. O prazo previsto para esse tipo de operação é de até 12 meses, enquanto o município busca uma solução contratual definitiva. A transição com a Ricco foi planejada por até 90 dias, com a transferência gradual das linhas, dos veículos e das atividades ligadas à operação.
Rio Branco já havia lançado, em março, uma licitação para conceder o transporte coletivo por prazo mais longo. O certame foi suspenso em abril após pedidos de esclarecimento e impugnação que exigiram alterações no edital. Portanto, a compra de ônibus pela JTP não transforma o contrato emergencial em concessão definitiva.
A empresa poderá disputar a licitação quando houver um procedimento válido e aberto, desde que cumpra as exigências do edital. Se participar e vencer, poderá permanecer na operação por meio do novo contrato. Seu desempenho durante a fase emergencial será observado pela população e pelo poder público, mas não lhe garante preferência nem permanência automática na futura concorrência. O processo deverá oferecer condições de disputa aos interessados.
A prefeitura apresentou um plano de 120 ônibus para a operação da JTP, incluindo veículos novos e usados. Esse número é diferente dos 80 zero quilômetro encomendados à Caio e da estimativa de 140 a 150 veículos apontada pelo Ministério Público como necessária para atender adequadamente à demanda. Só o acompanhamento da frota em circulação, das viagens realizadas e da lotação permitirá avaliar a distância entre o planejamento e o serviço entregue.
Onde a JTP opera e onde já operou linhas urbanas
| Cidade | Situação em setembro de 2026 |
|---|---|
| Rio Branco (AC) | Implantação da operação municipal por contrato emergencial. |
| Porto Velho (RO) | Opera desde 1º de outubro de 2020. |
| Bragança Paulista (SP) | Opera desde 4 de outubro de 2020. |
| Embu das Artes (SP) | Operou de outubro de 2019 a fevereiro de 2026; saiu do sistema em 1º de março. |
A relação considera operações municipais de linhas urbanas regulares identificadas pelo Diário do Transporte. Serviços de transporte escolar têm características e contratos próprios e não entram nessa comparação. diariodotransporte.com.br
O que mostrará se a expectativa foi atendida
Os 20 Apache Vip 6 dão à Caio uma primeira aplicação comercial para o lançamento. Os 60 Vip 5 ampliam a dimensão da renovação planejada para Rio Branco. Mas a notícia mais importante para quem espera no ponto virá depois da entrega: quantos ônibus estarão disponíveis nos horários de maior movimento, quais bairros serão atendidos, se os intervalos serão cumpridos e se ar-condicionado, acessibilidade e bilhetagem funcionarão nas viagens diárias.
A RBTrans terá, pelo modelo anunciado, acesso a dados de GPS e de bilhetagem para fiscalizar quilometragem, itinerários e atendimento. A utilidade dessas ferramentas estará na identificação e correção dos problemas. Depois de anos de operações emergenciais e crises recorrentes, é essa regularidade — percebida pelo passageiro no caminho para o trabalho, a escola ou uma consulta — que poderá fazer da primeira venda do Apache Vip 6 em Rio Branco mais que um marco da indústria.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes




Sem os vidros colados não achei legal.