Prefeitura do Rio de Janeiro anuncia PPP de R$ 509 milhões para 175 ônibus elétricos após testar seis modelos; garagem será construída na Maré
Publicado em: 25 de setembro de 2026
BNDES financiará R$ 329 milhões do projeto de 16 anos; primeiros 80 veículos são previstos para outubro de 2027. Testes com Ankai, Higer, Eletra, Mercedes-Benz, BYD e Marcopolo ajudaram a preparar a eletrificação
ADAMO BAZANI
A Prefeitura do Rio de Janeiro anunciou nesta sexta-feira, 25 de setembro de 2026, uma parceria público-privada (PPP) de R$ 509 milhões para implantar 175 ônibus elétricos no Sistema Rio. O projeto inclui uma garagem com infraestrutura de recarga na Vila do João, no Complexo da Maré, e financiamento de R$ 329 milhões pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os primeiros 80 veículos são previstos para outubro de 2027.
A parceria terá duração de 16 anos, sendo um ano para implantação e 15 anos de operação. A futura concessionária ficará responsável por comprar e manter os ônibus, construir e operar a garagem e instalar os carregadores. A iniciativa dá sequência a um chamamento da Secretaria Municipal de Transportes que colocou seis modelos elétricos para transportar passageiros em linhas regulares e levantou dados para futuras licitações. O Diário do Transporte informou nesta quinta-feira, 24, em primeira mão, que a Prefeitura do Rio de Janeiro e o BNDES preparavam uma PPP específica para a eletrificação da frota.
Como será financiada e contratada a PPP
Dos R$ 509 milhões informados para o projeto, R$ 329 milhões correspondem ao financiamento do BNDES, por meio do Fundo Clima. A concessionária selecionada deverá investir R$ 141,2 milhões, e a Prefeitura do Rio de Janeiro, R$ 38,8 milhões. Segundo as informações divulgadas nesta sexta-feira, o crédito do banco será utilizado especificamente na compra dos veículos.
A consulta pública está prevista para começar na segunda-feira, 28 de setembro. O calendário apresentado pela Prefeitura do Rio de Janeiro prevê a licitação em dezembro e a assinatura do contrato em janeiro de 2027. A operação dos primeiros 80 ônibus é projetada para outubro de 2027.
Os ônibus previstos no anúncio terão ar-condicionado, piso baixo, câmeras, sensores e tomadas USB. A frota de 175 veículos equivale a cerca de 3,5% dos aproximadamente 5 mil ônibus municipais. O Plano de Desenvolvimento Sustentável do Rio de Janeiro estabelece a meta de chegar a pelo menos 20% de veículos elétricos, cerca de mil ônibus, até 2030.
Garagem na Maré reunirá ônibus, manutenção e carregadores
A garagem planejada para a Vila do João ficará em frente à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro. O terreno indicado possui cerca de 41 mil metros quadrados, dos quais pouco mais da metade será destinada às instalações da frota elétrica. O projeto prevê áreas de estacionamento, manutenção, administração, almoxarifado e recarga das baterias. A maior parte do carregamento deverá ocorrer à noite.
A infraestrutura elétrica é uma parte decisiva do projeto. Nos testes já feitos pela Prefeitura do Rio de Janeiro, a capacidade disponível nas garagens limitou os carregadores a 60 kW, abaixo da potência nominal dos equipamentos. O relatório municipal apontou que as principais interrupções operacionais estiveram ligadas à comunicação entre ônibus e carregador, a ajustes necessários na mudança de garagem e à potência de recarga disponível, mais do que a falhas dos próprios veículos. Esse resultado ajuda a explicar por que a nova PPP reúne, no mesmo contrato, ônibus, garagem, carregadores e manutenção.
Chamamento colocou seis modelos para rodar com passageiros no Rio de Janeiro
O chamamento público da Secretaria Municipal de Transportes do Rio de Janeiro foi lançado em setembro de 2025 para receber soluções de diferentes fornecedores e testar ônibus elétricos nas condições reais de operação da cidade. Segundo a Prefeitura, o objetivo era reunir informações técnicas e operacionais para orientar futuras compras, contratações e licitações. As demonstrações ocorreram entre novembro de 2025 e maio de 2026, com seis veículos conduzidos por motoristas da Mobi-Rio e passageiros embarcados.
Os modelos avaliados foram:
| Modelo | Empresas identificadas no relatório municipal |
|---|---|
| OE-12 | SNH / Ankai |
| Azure A13BR | TEVX / Higer |
| E-Millennium | Eletra / Mercedes-Benz / Caio |
| eO500U | Mercedes-Benz / Caio |
| D9W | BYD / Caio Induscar |
| Attivi Integral | Marcopolo |
A lista corresponde aos seis veículos que efetivamente participaram da demonstração operacional descrita pela Prefeitura do Rio de Janeiro. A página oficial do chamamento também registra a homologação da Volvo do Brasil, mas a marca não aparece entre os seis ônibus relacionados no resumo dos testes concluídos. A participação ou homologação no chamamento não representa contratação para fornecer os 175 veículos da futura PPP.
Os ônibus circularam nas linhas 28, entre Pingo d’Água e o Terminal Curral Falso, e 68, entre os terminais Bangu e Deodoro, ambas na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Os veículos eram de piso baixo ou de entrada baixa, característica que facilita o embarque de pessoas com mobilidade reduzida. O relatório aponta capacidades de baterias entre 338 e 490 kWh e autonomias declaradas pelos fabricantes de aproximadamente 250 a 284 quilômetros.
O que os testes mostraram para a escolha dos futuros ônibus
A demonstração mediu consumo de energia, confiabilidade e experiência de passageiros e motoristas. De acordo com o resumo executivo da Secretaria Municipal de Transportes do Rio de Janeiro, os seis veículos completaram as viagens previstas sem panes. A avaliação dos passageiros foi predominantemente positiva, com médias entre 4,19 e 4,89 em uma escala de 1 a 5; silêncio e conforto apareceram entre os aspectos mais bem avaliados.
Os resultados de consumo variaram conforme o ônibus e a linha. Na linha 28, por exemplo, o levantamento registrou de 1,11 kWh por quilômetro para o BYD a 2,42 kWh por quilômetro para o Marcopolo. Os períodos de operação, porém, foram diferentes: o primeiro acumulou 12 dias e 1.976 quilômetros nessa linha, enquanto o segundo somou seis dias e 534 quilômetros. O relatório relaciona as diferenças de consumo às condições de tráfego, topografia e perfil de operação; os números servem para o planejamento técnico, sem constituir, isoladamente, uma classificação definitiva dos fabricantes.
O estudo mostrou que diferentes tecnologias de ônibus elétricos conseguiram operar nas condições testadas no Rio de Janeiro. A Secretaria Municipal de Transportes identificou a infraestrutura de recarga como o principal ponto de atenção para as próximas contratações.
Como a PPP se relaciona com a licitação do Sistema Rio
A parceria dos 175 elétricos e a licitação das linhas do Sistema Rio têm objetos diferentes. A concorrência realizada em agosto escolheu operadoras para lotes do transporte municipal do Rio de Janeiro, por meio de concessão comum. Seu edital admite ônibus de diferentes tecnologias e oferece remuneração 12% maior por quilômetro rodado às empresas que utilizarem veículos elétricos. Já a PPP anunciada nesta sexta-feira foi apresentada como um contrato específico para disponibilizar ônibus elétricos e a estrutura necessária à sua operação.
Na segunda etapa da licitação do Sistema Rio, a Sancetur venceu os lotes A1-B6 e C1-C2, enquanto a Auto Viação Jabour, do Grupo Guanabara, venceu o B1-B8. Dois outros lotes, destinados à Ilha do Governador e a Vila Isabel, não receberam propostas. A estimativa original de aproximadamente 1.420 ônibus e R$ 1,3 bilhão para essa etapa abrangia veículos de diferentes tecnologias e não corresponde a uma encomenda de 1.420 elétricos.
Os documentos da consulta pública e o futuro edital da PPP deverão estabelecer as regras de disponibilização dos 175 ônibus às linhas do Sistema Rio, as obrigações da concessionária e as condições de implantação da garagem na Maré.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes



