Rio de Janeiro e BNDES preparam PPP para ônibus elétricos em projeto que envolve R$ 1,3 bilhão e renovação da frota até 2028
Publicado em: 24 de setembro de 2026
Anúncio divulgado nesta quinta-feira (24) aponta para a estruturação de uma PPP voltada à eletrificação. Município já negocia financiamento pelo Fundo Clima, enquanto nova licitação de ônibus prevê incentivos financeiros para veículos elétricos
ADAMO BAZANI
A Prefeitura do Rio de Janeiro e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) avançam nas negociações para financiar a renovação da frota municipal de ônibus, incluindo a aquisição de veículos elétricos.
Nesta quinta-feira, 24 de setembro de 2026, foi anunciada a estruturação de uma parceria público-privada (PPP) específica para a eletrificação do transporte coletivo. A iniciativa está relacionada ao programa municipal de substituição de ônibus, que prevê investimentos bilionários e uma mudança gradual das tecnologias utilizadas na cidade.
O projeto tem como referência a segunda etapa da implantação do Sistema Rio, cuja licitação foi realizada em agosto e previa investimentos estimados em R$ 1,3 bilhão na aquisição de aproximadamente 1.420 ônibus. A Prefeitura pretende utilizar recursos do Fundo Clima, administrado pelo BNDES, para viabilizar a renovação da frota, com a perspectiva de introduzir ônibus elétricos a partir de 2027. A meta anunciada pelo município é renovar a frota até 2028, utilizando veículos elétricos e movidos a biocombustíveis.
A estruturação financeira para a renovação da frota já vinha sendo discutida entre o município e o banco desde agosto.
Negociação com o BNDES começou antes do anúncio
Em meados de agosto de 2026, Prefeitura do Rio havia apresentado um projeto para obter recursos do Fundo Clima, instrumento federal destinado, entre outras finalidades, ao financiamento de iniciativas que contribuam para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
Na ocasião, o secretário municipal de Transportes, Jorge Arraes, explicou que a operação permitiria oferecer melhores condições de financiamento para os investimentos previstos no Sistema Rio.
A Prefeitura disvcutiu com o BNDES um cronograma de liberação dos recursos e a estrutura de garantias da operação.
O planejamento financeiro apresentado pelo município abrangia duas etapas da renovação da frota, com investimentos totais estimados em R$ 3,3 bilhões.
A segunda etapa, cuja licitação ocorreu em agosto, previa 1.420 ônibus e investimentos de aproximadamente R$ 1,3 bilhão na aquisição dos veículos.
Uma terceira etapa, com licitação inicialmente prevista para o primeiro trimestre de 2027, contempla aproximadamente 2.260 ônibus e investimentos estimados em R$ 2 bilhões.
A intenção da administração municipal é financiar integralmente os investimentos dessas duas etapas, respeitando as condições e os limites de acesso ao Fundo Clima.
Financiamento pode alterar os custos da renovação
Uma das principais questões do projeto é como financiar a aquisição de uma quantidade elevada de ônibus em um período relativamente curto.
Os veículos elétricos apresentam um custo inicial de aquisição superior ao dos modelos convencionais. Em contrapartida, podem proporcionar despesas menores com energia e determinadas atividades de manutenção durante sua vida útil.
O financiamento com recursos do Fundo Clima constitui uma alternativa para distribuir os investimentos ao longo de um período maior.
Em agosto, a diretora de Infraestrutura e Mudança Climática do BNDES, Luciana Costa, informou também que o custo total estimado de uma operação direta com ente público, utilizando recursos dessa modalidade do fundo, ficava entre 7,8% e 10,2% ao ano.
Segundo a diretora, dependendo da modalidade, a participação do banco poderia alcançar a totalidade dos itens financiáveis, com prazos de até 300 meses e carência de até 60 meses.
Essas eram as condições gerais apresentadas pelo BNDES, e não os termos de um contrato de financiamento já formalizado com o Rio de Janeiro.
Nova licitação oferece remuneração 12% maior para ônibus elétricos
A possibilidade de introduzir veículos elétricos no Sistema Rio já estava prevista antes das atuais negociações com o BNDES.
Em 13 de julho de 2026, o Diário do Transporte mostrou que a segunda etapa da licitação municipal estabeleceu uma remuneração adicional de 12% para as empresas que utilizarem ônibus elétricos.
O mecanismo permite que as concessionárias recebam um valor superior por quilômetro rodado, proporcionalmente à quantidade de ônibus elétricos efetivamente utilizados.
A eletrificação, entretanto, não é obrigatória nesta etapa. As concessionárias podem utilizar ônibus de diferentes tecnologias, respeitando as condições estabelecidas no edital.
Em agosto, a Prefeitura também esclareceu as condições específicas de remuneração para ônibus movidos a biometano.
O modelo pretende incentivar a utilização de tecnologias com menores emissões, considerando as diferenças entre os custos de aquisição e operação dos veículos.
A introdução de ônibus elétricos dependerá, portanto, das decisões de investimento das concessionárias e das condições financeiras disponíveis.
Sancetur e Jabour venceram três dos cinco lotes
A segunda etapa da licitação do Sistema Rio ocorreu em 28 de agosto de 2026.
Como mostrou o Diário do Transporte, a Sancetur, empresa originalmente sediada no interior de São Paulo, apresentou as propostas vencedoras dos lotes A1-B6 e C1-C2.
A Auto Viação Jabour, do Grupo Guanabara, venceu a disputa pelo lote B1-B8.
Os dois lotes restantes, destinados à Ilha do Governador e a Vila Isabel, não receberam propostas.
Com os três lotes que receberam ofertas, a Prefeitura pretende ampliar de 654 para 1.006 ônibus a frota que atende as regiões de Santa Cruz, Guaratiba, Campo Grande e Bangu.
O crescimento previsto é de aproximadamente 54%.
A expectativa anunciada pela administração municipal é que os novos veículos dessa etapa comecem a operar no primeiro trimestre de 2027.
O processo de implantação do Sistema Rio já havia começado com as empresas TUSE e GTU, vinculadas ao Grupo Comporte, responsáveis por contratos da primeira etapa nas regiões de Santa Cruz e Campo Grande.
Projeto de eletrificação e nova concessão possuem características diferentes
Uma distinção importante é a natureza dos contratos.
A licitação realizada em agosto para o Sistema Rio foi formalmente definida pela Secretaria Municipal de Transportes como uma concessão comum, com prazo inicial de dez anos e possibilidade de prorrogação.
Pelas regras brasileiras, uma PPP constitui uma modalidade específica de concessão, que pode ser patrocinada ou administrativa. Uma concessão comum não se transforma automaticamente em PPP apenas porque existe financiamento público.
Assim, o anúncio de uma parceria específica para ônibus elétricos deverá ser acompanhado da definição de seu próprio modelo jurídico e financeiro.
Também será necessário esclarecer como eventual nova PPP se relacionará com as concessionárias selecionadas nas licitações do Sistema Rio e como ocorrerão os investimentos na infraestrutura de recarga.
A quantidade de 1.420 ônibus prevista originalmente para a segunda etapa não corresponde a uma encomenda confirmada de 1.420 veículos elétricos. O edital contempla outras tecnologias, e dois dos cinco lotes ficaram sem propostas.
BNDES já participa de projetos de eletrificação em outras capitais
O financiamento de ônibus elétricos pelo BNDES já é uma realidade em outras cidades brasileiras.
Em São Paulo, a instituição aprovou R$ 2,5 bilhões para apoiar a aquisição de aproximadamente 1.300 ônibus elétricos.
Em junho de 2026, o banco informou que já haviam sido liberados R$ 1,9 bilhão, em um momento no qual o número de ônibus entregues com apoio da operação havia alcançado 930 unidades.
Outras capitais também contam com projetos financiados pelo Fundo Clima.
Em agosto, o BNDES informou que haviam sido aprovados R$ 380 milhões para a aquisição de 54 ônibus elétricos e equipamentos de recarga em Curitiba, além de R$ 317 milhões para 100 ônibus elétricos em Belo Horizonte.
O banco também participa da estruturação de novos modelos de concessão.
Em abril de 2024, o BNDES anunciou o início de um projeto para reestruturar o transporte coletivo de Curitiba, incluindo a possibilidade de implantação de uma PPP com foco em eletromobilidade.
Em maio de 2026, firmou contrato com a Prefeitura de Belo Horizonte para estruturar um novo modelo de transporte público, que poderá assumir a forma de concessão comum ou PPP.
Esses antecedentes demonstram a importância de distinguir o financiamento de ônibus elétricos da estruturação de uma parceria público-privada especificamente destinada à aquisição, disponibilização ou operação desses veículos.
O desafio será transformar financiamento em ônibus nas ruas
A eletrificação em larga escala exige investimentos que vão além da aquisição dos ônibus.
Também são necessárias adequações das garagens, instalação de carregadores, disponibilidade de energia elétrica, planejamento da recarga e definição das responsabilidades pela manutenção dos veículos e das baterias.
No Rio de Janeiro, a própria Secretaria Municipal de Transportes já desenvolve um programa de demonstração operacional de ônibus elétricos, com a participação de diferentes fabricantes e fornecedores.
A iniciativa permite avaliar as tecnologias disponíveis e produzir informações técnicas que poderão orientar futuras decisões sobre a renovação da frota.
A expectativa de introduzir veículos elétricos em 2027 está inserida em um processo mais amplo de substituição das antigas concessões do transporte municipal.
A reorganização do Sistema Rio deverá ocorrer gradualmente até agosto de 2028, quando está previsto o encerramento dos atuais contratos e a implantação da nova rede.
A efetiva participação dos ônibus elétricos nessa transformação dependerá da conclusão das negociações financeiras, dos contratos de concessão e dos investimentos necessários à operação.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes



