Motorista Série A abre inscrições para nova edição; reconhecimento e troca de experiências podem ajudar empresas de ônibus a reter profissionais e melhorar segurança

Programa do SEST SENAT combina avaliações, saúde, qualificação e desafios entre motoristas; edição 2026/2027 terá inscrições até 21 de outubro e surge em um momento de escassez de profissionais no transporte de passageiros

ADAMO BAZANI

Estão abertas a partir desta segunda-feira, 21 de setembro de 2026, as inscrições para a nova edição do Motorista Série A, iniciativa do SEST SENAT destinada a identificar, desenvolver e reconhecer motoristas profissionais que se destacam no transporte. Mais do que uma competição com premiação ao final, o programa coloca em prática temas que fazem parte da rotina de quem trabalha ao volante, como segurança, conhecimento técnico, comportamento na condução, saúde, sono, fadiga e desenvolvimento profissional. A edição 2026/2027 recebe inscrições até 21 de outubro.

Para as empresas de ônibus, iniciativas deste tipo ganham importância em um momento no qual contratar motoristas se tornou difícil, mas manter os bons profissionais também é um desafio. Estimular a participação dos trabalhadores em programas, gincanas técnicas e ações de capacitação pode representar mais do que disputar um prêmio: permite reconhecer quem está diariamente diante dos passageiros e do trânsito, trocar experiências entre operações diferentes, identificar boas práticas que podem voltar para dentro das garagens e criar um ambiente no qual motorista e empresa aprendam um com o outro. A valorização e a melhora das relações internas estão justamente entre os caminhos apontados pela especialista Liana Variani em entrevistas ao Diário do Transporte sobre retenção de mão de obra.

Programa acompanha o motorista durante uma jornada de desenvolvimento, e não somente em uma prova final

O Motorista Série A foi criado pelo SEST SENAT para reconhecer e valorizar profissionais que desempenham suas funções com excelência.

O projeto não consiste apenas em colocar motoristas numa pista para descobrir quem faz a melhor manobra.

Nas edições anteriores, os participantes passaram por uma jornada que incluiu diagnósticos de saúde e técnico-profissionais, avaliações sobre a forma de condução dos veículos, aspectos comportamentais, gestão de sono e fadiga, atividades de desenvolvimento e etapas presenciais de reconhecimento.

Também são utilizados recursos de gamificação e avaliações relacionadas a competências técnicas e comportamentais. Apresentação do SEST SENAT sobre o programa cita ainda telemetria móvel e inteligência artificial para análise de comportamentos na direção.

A lógica é importante: o motorista não precisa chegar à final para que a participação tenha utilidade.

Em balanço divulgado neste mês, o diretor nacional adjunto do SEST SENAT, Vinicius Ladeira, explicou que o Motorista Série A é uma jornada que dura o ano todo, estimula a busca por conhecimento e incentiva cuidados com a própria saúde independentemente de o participante chegar às fases decisivas. Mais de oito mil profissionais passaram pelo ciclo anterior em 149 unidades do SEST SENAT.

Dados institucionais mostram que a iniciativa alcançou mais de oito mil inscritos, mais de cinco mil atendimentos de saúde, mais de 43 mil horas de capacitação e mais de duas mil empresas impactadas.

Falta de motorista torna reconhecimento tão importante quanto formar novos profissionais

O programa ocorre em um contexto que o Diário do Transporte vem mostrando há meses: faltam motoristas em empresas de passageiros e de cargas.

Em apresentação feita à Câmara dos Deputados em março de 2026, representante do SEST SENAT informou que mais de 65% das empresas de transporte de cargas tinham dificuldades para encontrar motoristas e que 50% das empresas de passageiros possuíam vagas abertas para a função.

Na própria apresentação, a entidade defendeu que enfrentar a escassez exige mais do que formar pessoas: é necessário atrair, qualificar e também reter trabalhadores. O Motorista Série A foi incluído justamente neste último conjunto de ações.

No transporte interestadual de passageiros, discussão recente durante o ClickBus Academy mostrou quadro ainda mais intenso: 84% dos participantes consultados apontaram carência de motoristas. O debate reuniu representantes do SEST SENAT e do Instituto JCA e destacou que a retenção precisa acompanhar os esforços de contratação e formação.

Não adianta, portanto, uma empresa abrir sucessivamente novas turmas de motoristas se parte significativa dos profissionais mais experientes decide deixar a companhia ou a própria profissão.

Edição anterior teve mais de oito mil inscritos e levou profissionais de passageiros e cargas até a final

O ciclo 2025/2026 superou oito mil participantes de diferentes partes do País.

Na final nacional, realizada em julho em Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco, chegaram motoristas de empresas de transporte de passageiros e de cargas de diferentes Estados. Ao longo da seleção, houve avaliações de saúde, sono, psicologia, nutrição, simuladores e conhecimentos necessários ao exercício profissional.

Somente no Paraná foram 607 inscritos no ciclo anterior. Um dos finalistas daquele Estado, Walter Rodrigues dos Santos, de Foz do Iguaçu, chegou à etapa nacional depois de uma seleção que começou com 8.093 motoristas em todo o Brasil.

Na área de passageiros, a Fetronor (Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Nordeste) destacou que a final reuniu profissionais do setor e envolveu conhecimentos e habilidades relacionados à condução responsável e à segurança dos passageiros.

O Motorista Série A também recebeu o Prêmio Senatran 2024 na categoria destinada a projetos de segurança no trânsito, saúde, bem-estar e qualidade de vida dos trabalhadores do transporte. A avaliação da Senatran destacou justamente a combinação de diagnósticos, análise da condução, desenvolvimento e reconhecimento como mecanismo também relacionado à retenção profissional.

Empresas de ônibus podem ir além de simplesmente colocar um cartaz sobre as inscrições

Para uma operadora de ônibus, estimular a participação pode começar pela divulgação, mas não deveria terminar nela.

É possível informar motoristas sobre o programa nos canais internos, explicar as etapas, facilitar o contato com a unidade local do SEST SENAT e organizar a escala para que o profissional consiga participar sem comprometer descanso e jornada.

Esse último aspecto já fazia parte da concepção do Motorista Série A. Desde experiências anteriores, o projeto procurou desenvolver atividades presenciais curtas justamente para não prejudicar a operação das empresas nem o período de descanso dos motoristas.

Outro caminho é reconhecer internamente quem decide participar, mesmo que o trabalhador não esteja entre os finalistas.

Uma empresa pode ter vários motoristas que melhoraram alimentação, qualidade do sono, direção defensiva, conhecimento técnico ou relacionamento com passageiros durante a jornada sem que nenhum deles conquiste o primeiro lugar nacional.

Se somente o vencedor for considerado um exemplo, uma grande parte do potencial de desenvolvimento se perde.

Gincana não precisa ser apenas competição: erros e acertos podem voltar para a garagem como aprendizado

Para empresas de passageiros, uma das maiores oportunidades está justamente no conhecimento produzido durante estas ações.

Um motorista urbano enfrenta situações diferentes de um profissional do fretamento. Quem dirige um ônibus rodoviário acumula experiências distintas das de quem opera um articulado numa avenida congestionada. Existem ainda veículos com tecnologias diferentes, passageiros com perfis distintos e procedimentos próprios de cada operação.

Colocar esses profissionais em contato permite que soluções conhecidas em uma empresa sejam descobertas por outra.

Para o trabalhador, a participação pode revelar uma técnica de condução, uma forma diferente de enfrentar determinado risco, cuidados com fadiga, saúde ou alimentação e procedimentos que ele não utiliza na empresa em que trabalha.

Para o empregador, o caminho inverso é igualmente importante.

O motorista está na rua todos os dias. É ele quem encontra o buraco, o ponto de parada inadequado, o conflito de trânsito, a dificuldade de manobra, o tempo apertado de uma viagem, a característica de determinado veículo e as situações reais de contato com os passageiros.

Uma competição técnica também pode funcionar, portanto, como oportunidade para ouvir profissionais que conhecem detalhes operacionais que nem sempre chegam à diretoria.

Liana Variani: trabalhador que é ouvido e respeitado tende a desenvolver sentimento de pertencimento

Esta relação entre valorização, escuta e retenção já foi abordada pelo Diário do Transporte em reportagem com a advogada especializada em direito empresarial Liana Variani.

Segundo a especialista, remuneração é fundamental, mas não resolve isoladamente a questão da permanência dos profissionais.

Liana aponta como fatores relevantes qualidade das lideranças, ambiente de trabalho, saúde física e mental, reconhecimento, formação interna, previsibilidade das jornadas, perspectivas de crescimento e canais de comunicação.

“Quando o trabalhador percebe que é respeitado, que suas sugestões são analisadas e que existe transparência nas decisões, naturalmente aumenta o sentimento de pertencimento e de entendimento das dificuldades da empresa também”, disse Liana em entrevista ao Diário do Transporte.

A especialista também chama atenção para a chefia imediata.

Segundo Liana, em alguns casos o trabalhador não deixa necessariamente a empresa por causa da organização como um todo, mas pela maneira como é tratado pela liderança diretamente responsável por sua rotina. Preparar encarregados, fiscais, gestores e demais chefias pode reduzir conflitos.

Reconhecimento, de acordo com a especialista, também não precisa necessariamente significar uma política cara.

Ouvir uma sugestão, dar retorno ao profissional, tornar público um bom resultado, oferecer oportunidade de aprendizado ou permitir crescimento interno são medidas que ajudam a construir a percepção de que o trabalhador tem importância dentro da companhia.

Participar de uma competição e voltar para uma empresa que não escuta o motorista reduz o efeito do reconhecimento

É justamente neste ponto que uma iniciativa externa e a gestão interna precisam se encontrar.

Inscrever motoristas em um programa de valorização, produzir fotos e parabenizar os classificados pode ser positivo, mas o efeito tende a ser limitado se, na rotina seguinte, o profissional não conseguir relatar um problema operacional, não receber resposta da chefia ou perceber critérios de punição e reconhecimento pouco claros.

Em outra entrevista ao Diário do Transporte, Liana Variani destacou a necessidade de empresas e trabalhadores documentarem adequadamente os acontecimentos e manterem uma relação honesta e colaborativa.

Procedimentos claros também reduzem riscos para os dois lados. A especialista já mostrou que problemas em apurações internas, ausência de documentação, punições desproporcionais e falta de análise das circunstâncias de acidentes podem terminar inclusive em disputas judiciais.

Assim, uma boa prática observada numa ação como o Motorista Série A pode gerar uma pergunta dentro da empresa: o que desta experiência pode ser incorporado ao procedimento cotidiano?

Empresa também deve aprender com o motorista que volta de uma etapa regional ou nacional

Uma ação relativamente simples pode multiplicar o resultado.

Depois da participação numa etapa, o motorista pode ser convidado a conversar com outros profissionais da garagem sobre o que encontrou: quais avaliações foram feitas, quais dificuldades apareceram, quais conhecimentos foram exigidos e o que viu outros motoristas fazendo de maneira diferente.

Não se trata de transformar o participante em instrutor sem preparação, mas de criar espaço para a troca de experiências.

Uma reunião curta, uma conversa com a área de treinamento ou um encontro entre motoristas pode revelar assuntos que merecem capacitação formal posterior.

Da mesma maneira, empresas que tenham vários inscritos podem analisar coletivamente os pontos nos quais seus profissionais demonstraram facilidade e aqueles que trouxeram maior dificuldade.

Neste caso, a competição deixa de gerar somente uma classificação individual e pode fornecer informações para melhorar a operação.

Reconhecimento precisa estimular segurança, e não criar disputa por resultado a qualquer custo

Há também um cuidado necessário.

Programas internos inspirados em competições e gincanas devem premiar práticas seguras e responsáveis, e não transformar produtividade isolada em uma corrida entre motoristas.

No transporte de passageiros, chegar mais rápido ao terminal, cumprir maior número de viagens ou consumir menos combustível não pode ser analisado sem considerar segurança, trânsito, condições do veículo, intervalos, acessibilidade e atendimento aos usuários.

O valor de uma iniciativa como o Motorista Série A está justamente na combinação de diferentes dimensões.

O SEST SENAT não analisa apenas habilidade ao volante. Saúde, comportamento, segurança, desenvolvimento e conhecimento profissional fazem parte da jornada.

Para uma empresa, essa é uma referência importante: um bom motorista não é simplesmente quem movimenta mais rapidamente o veículo ou apresenta determinado indicador isolado.

Família também conhece uma rotina que muitas vezes fica restrita ao motorista

Outra característica do projeto é o envolvimento dos familiares nas etapas de reconhecimento.

Em experiências anteriores, finalistas puderam levar familiares para a programação nacional. O SEST SENAT relata casos em que essa participação levou as próprias famílias a compreenderem melhor temas como sono, alimentação, riscos e rotina profissional.

Um motorista que participou das primeiras experiências do programa relatou que o projeto aumentou sua preocupação em conhecer melhor o veículo, a carga e a própria profissão. Sua família também passou a compreender melhor a necessidade de descanso e de hábitos saudáveis.

Para uma profissão marcada por horários diferenciados, jornadas que começam de madrugada, fins de semana, feriados e, no rodoviário e fretamento, períodos longe de casa, essa dimensão não é secundária.

Setor precisa formar novos profissionais sem esquecer quem já está dentro das empresas

O transporte brasileiro tem desenvolvido programas para formar novos trabalhadores.

O SEST SENAT mantém o Mais Motoristas, para ampliação das categorias de habilitação, e a Escola de Motoristas Profissionais, destinada a qualificar pessoas habilitadas que ainda possuem pouca experiência. Ao mesmo tempo, o Motorista Série A ocupa outra etapa dessa trajetória: reconhecer quem já exerce a atividade.

Empresas de ônibus também têm criado programas próprios de formação interna, aproveitando trabalhadores de outras funções e motoristas recém-habilitados que enfrentam dificuldades para conseguir a primeira oportunidade. O Diário do Transporte já mostrou experiências desse tipo e como a promoção interna pode ajudar simultaneamente na formação e na retenção.

Mas formar profissionais sem criar razões para que eles permaneçam produz um ciclo caro de contratação, treinamento e saída.

Por isso, reconhecimento, treinamento, escuta, processos internos claros e possibilidade de desenvolvimento não devem ser vistos isoladamente.

Uma premiação não soluciona sozinha a falta de motoristas. Uma gincana também não substitui salário adequado, jornada regular, descanso, segurança e boas condições de trabalho.

Mas ações que colocam o profissional como protagonista podem ser uma ferramenta adicional para recuperar algo que o setor admite estar perdendo: a atratividade e o orgulho associados à profissão.

Para as empresas de ônibus, estimular os motoristas a participar e, principalmente, aproveitar dentro da operação aquilo que eles aprenderem fora dela pode fazer com que uma competição nacional deixe um resultado muito mais duradouro do que o troféu entregue aos vencedores.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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